Sinapismos
XVI A Manifestação de 14 de Janeiro[40] (PROTESTO)
XVI
A Manifestação de 14 de Janeiro [40]
(PROTESTO)
Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma dos Sinapismos.
Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu caracter digno e pela sua honradez inconcussa.
Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social, publico e, portanto, sob o dominio da critica.
Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.
A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem, ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem, em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado, e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida pelos contrarios.
Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e d’um livre criterio, dieta á minha penna.
Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes. Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada seria uma infamia.
*
A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um partido.
Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação, nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que se póde exprimir com estas palavras:
foi aviltante para Valença.
Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.
Envolveu-se n’essa manifestação a responsabilidade de Valença.
Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu protesto contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de 14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas constellações, arrostando os ignotos perigos do Mar Tenebroso que a phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: Infamia e Oppressão, mas:
Liberdade. Civilisação. Progresso.
—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.
Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.
*
Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde, cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu ultimatum as faces de todo o homem que se honra com o nome de portuguez.
A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria do ultimatum e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando: Infamia!—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da vergonha e o vasquejar do desalento.
A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico, —arrebatados, galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram primazia de nobreza nos seus protestos.
Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos, no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de nobilissimos sentimentos.
Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.
*
Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da manifestação patriotica valenciana.
Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada fantochada, scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego; ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações roucas e avinhadas.
Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da manifestação patriotica, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio, pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres na Questão da Santa.
Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas, a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.
Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.
Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria: a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos Lusiadas vibrando, soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco, de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias, de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas: Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné, Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor, Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.
E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da noite, poisava no frontão municipal e perante a illustre, benemerita e patriotica Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo da Patria, com o excremento e com o vomito— quando em todas as povoações de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os ervaçaes de Paysandu:
Viva Valença... restaurada!
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Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................
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Continuemos.
Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.
E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca, como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés, de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão: nós, que valemos tanto como vós; que impõe a Carlos pela bocca de Padilla, heroico chefe dos cumuneros, o codigo das suas liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador perante a reclamação ingleza do Chanceller de ferro—povo rico de generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da magna caterva.
E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados de affecto e nos insufflava alento e coragem—a illustrada, benemerita e patriotica Commissão promotora da manifestação erguia aos ares saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação, em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!
Á nota burlesca, a nota grosseira.
*
Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido errado o plano das nossas allianças.
Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás ambições de qualquer despota.
Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa alliança com a Hespanha.
As truanescas manifestações do Primeiro de Dezembro invariavelmente ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á de Paio Pires.
Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e independentes, entre as demais nações da Europa.
Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro, do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa, empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou, embora modificado.
A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra, que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que nos forçou a pedir soccorro.
A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres, insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do Times e do Standart, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos Telegraph’s boys.
Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se centenas de contos com a sua recepção, e quando a graciosa Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos salamaleques, aos graciosos pés da graciosa Imperatriz das Indias!
E no Primeiro de Dezembro, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e um nunca acabar de foguetes com tres respostas.
O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira, exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.
Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira, e ignorante, repetimos:
a manifestação de 14 do corrente foi aviltante para Valença,
porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos brancos agitava.
Examinemos agora, respeitosamente, este homem.
*
Descubro-me perante elle.
Tem 74 annos.
É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.
Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.
Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.
É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia, em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a Descrença e contra o Scepticismo.
Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.
Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros, na seriedade d’um marmanjo sertanejo qualquer, que, sentado no confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas, depois das arruaças politicas d’hontem.
Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu habito, marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez, em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.
É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por inoffensivo trocadilho, lhe chamei miguelista, teve explosões de colera e arrancos de indignação.
Chamam-lhe: o liberal de 34.
Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.
Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.
Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica de D. Pedro , o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades d’esse sebento poltrão, D. João . Odeia os republicanos e ajudaria a enforcar um iberico.
Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.
Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da manifestação patriotica e, acorrentado pela Politica, exposto por essas ruas ao mais degradante ridiculo.
Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso, soluçando, humedecendo-a com lagrimas.
Empurraram-no para a rua.
Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco, com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.
De quando em quando, o realejo cessava de tocar.
Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola dos vivas.
O macaco ria, ou chorava.
—Viva a Reliquia!—exclamavam á frente do cortejo.
—Viva o Relicas!—berravam os paradas-velhas.
Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha cabellos brancos. Essa coisa já não era a Reliquia dos homens liberaes de 34; era uma Reliquia falsificada, de contrabando, como seria o rabo do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.
Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:
—Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!
E a caterva parada-velha repetia:
Viva a Rosa Relicas!
Do homem liberal ficou para Valença a: Rosa Relicas.
*
Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza da ironia.
Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu venero, a sinceridade das suas crenças!
Homem de 34!
Escuta:
A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te, porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens, mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens, pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco arredado d’elles.
Escuta, pois!
Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos, irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca, a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante, e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,— quem teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados, semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças, gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do Telles-Jordão e do seu menino, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria, ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue fratricida,
homem de 34!
quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que, levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os que tu viste e como os que tu soffreste.
Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado, mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e prevenir os excessos da allucinação.
Tens umas convicções partidarias; acceitas um credo politico. Respeito essas convicções e a doutrina d’esse credo, porque ao teu partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.
Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.
Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes, exigindo musica e borga, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.
Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse, pedindo, em vão, o amparo de Christo...
Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a tua alma.
Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury provocou?
Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das borgas se encarregará de apagar as labaredas.
Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e para a nossa desaffronta?
Será mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as nossas passadas grandezas.
Acreditas na persistencia da lucta commercial?
Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque lá, custa cada peça menos 2 shillings e 6 pence do que n’outra parte. Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença, bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós —eu, tu, os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.
Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas, com que humedeceste a sua bandeira.
Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?
Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?
Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que teve o dinheiro que demos.
Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?
Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum sotaina arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento, qualquer herdeira endinheirada?
Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!— abaixo a reacção!—o diabo!
Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em Abrantes.
N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da vida, que se assemelham, como sabes.
Esses que te envolveram na manifestação patriotica gastaram, com a esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.
Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como uma Reliquia dos homens liberaes.
Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve a Torre Espada e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com tristes patacos, emquanto que muito...
—Bom homem! Dá cá outro cigarro...
*
Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto, emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor da fantochada, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram matar por causa da carta ao Restaurador:
esguicha-os.
Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou Moraeses, Agostinhos & Cunhas
venha o diabo e escolha.
*
Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses patriotas, que te querem levar para as freguezias:
Abaixo as mascaras!
Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.
Já podemos rir, respeitabilissima Commissão patriotica:
Arrancadas as mascaras, vocellencias ficaram o que realmente são: não patriotas, mas politicos de gaiteiro.
Disse eu, no principio d’este artigo, que a manifestação, quer tivesse o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a indignidade da primeira.
Estes banzés de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes, brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.
Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado, do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito— essencias que denunciam o suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o servilismo.
Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como nos actos da sua vida particular, acertam e erram.
Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa infallibilidade.
O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.
Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?
Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?
Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições, o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.
Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.
De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.
Isto é coisa velha e sabida.
Vocellencias terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção politica, essas ruidosas manifestações?
Na fantochada de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria de quem estava por baixo, a pirraça aos Moraeses, o nectar das abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação da beiça e outros elementos que a ignorancia gera.
Quando vocellencias passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam logo, nitidas e causticas, estas palavras:
Que sucia de pataratas!
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Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual borga por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P. Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.
Toda a gente se riu das gaitadas especiaes que tiveram os Srs. Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas. No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.
Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas exquisitas...
Vocellencias apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim, Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).
Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de vocellencias existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino, saltam vocellencias para a rua, transformando Valença no Pandemonium de Milton!
Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se os cortejos nos bairros immundos, onde o real d’agua obtem maior rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.
Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do servilismo e da estupidez.
Quem promoveu e planeou essa arruaça de 14? A Politica pataqueira que nas provincias provoca odios de familias, instiga resentimentos, prejudica interesses, origina represalias, prepara transferencias, requer perseguições judiciaes—emquanto que os candidatos protegidos e combatidos riem á mesa do Matta, commentando, em tom faceto, as parvas pretensões dos parvos magnates do circulo.
Foi essa coisa amanhada com a Ignorancia e com a Velhacaria que, ha annos, aqui inaugurou o regime das perseguições e das represalias—regime que ao carrejão d’hontem, hoje feito trunfo— concede a faculdade de exigir a transferencia d’um Juiz, se tal idea surgir nas torvas especulações da sua gafada orientação politica.
Ha pouco tempo, censuravamos com phrases de verdadeira e justissima indignação, a transferencia d’um funccionario publico, que lucta com difficuldades para sustentar numerosa familia. Lá foi o desgraçado para cascos de rolhas.
Existe, ainda, em nosso espirito o nojo que inspirou esse processo de nullidade tentado contra a nomeação d’um professor, por uma corporação tão zelosa pela instrucção popular, que conserva fechada ha cinco mezes a unica eschola que temos para o sexo feminino!
Tudo isso se classificou como indigno, como torpe, como vil.
Mudam as situações; mudam as cabeças e cá temos as represalias—essas infamissimas represalias—annunciando, pela bocca dos bigorrilhas politiqueiros, novas transferencias e novas villanias para saldo de contas!
Os homens da actual Politica andam açodados em mysteriosas (?) combinações; escoam-se nas sombras da noite, pelos becos e travessas que conduzem ao centro (!?!); segredam, cochicham, mostram cartas e telegrammas; sorriem, piscam os olhos, ostentando parvoamente á luz do dia as multiplices transformações d’esse implacavel Ridiculo que os envolve, quando a gente se lembra que são os mesmos homens do sr. Serpa e que todos elles, de pernas para o ar, não deitam uma duzia de votos!
Em todo esse afan, em todas essas mysteriosas combinações, em todo esse serzir de esfarrapados planos, imagina V. Ex.ª, querido leitor, que se tratou alguma vez de melhorar as condições materiaes do concelho, de ampliar as suas instituições, ou reorganizar a sua administração? Nem uma palavra a tal respeito!
Estudam-se, combinam-se, discutem-se unicamente os meios de obter as transferencias de Fulanos e de Cicranos, como medida inadiavel e urgentissima. Nas horas vagas d’essas nojentas lucubrações, raspam-se as picheis e lavam-se as gamellas para a proxima bambochata eleitoral.
Ah Saltamontes e Grices dos dois partidos! Muito dinheiro podia ganhar quem vos apresentasse no Colyseu!
A Physiologia demonstra a hereditariedade dos defeitos organicos. A Politica d’esta terra é nojenta e a manifestação de 14, como producto d’essa Politica, apresentou-se com todos os vicios da origem.
Portanto, concluo, repetindo: essa manifestação, como patriotica ou como politica,
foi aviltante para Valença.
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Nota final:
O principal heroe da rusga foi um abbade. Chapéo de fadista, casaco de pelles, nariz de furão, ponta de cigarro na orelha— razoavel exemplar d’esse typo muito vulgar pelo Alto Minho:—o capador de porcos.
Resolvo rifal-o. Bilhetes a pataco, que desde já estão á venda no estabelecimento do compadre Pedro.
Lembro a V. Ex.ª, querido leitor, que é tempo de semear as ervilhas e convém
afugentar os pardaes.
Valença 20-1-90.