Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 9 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 5

 

Annabelle estava quase tão animada quanto a própria noiva ao se vestir para o casamento da melhor amiga. A mãe havia chamado sua modista, que confeccionou um belo vestido de tafetá preto em tempo recorde. O corpete e a bainha eram debruados de veludo preto. E, para combinar, um casaco de veludo preto e um chapéu guarnecido de zibelina, que suavizava o acessório, pois o pelo fazia seu rosto ficar iluminado. Annabelle parecia uma princesa russa. E, quebrando a regra que proibia joias no período de luto, ela usou um par de brincos de diamante que a mãe lhe emprestou. Ela estava maravilhosa quando Josiah veio buscá-la. Ele também estava impecável, de gravata branca e fraque, com uma cartola feita em Paris. Formavam um casal espetacular, e Consuelo ficou com os olhos marejados ao observá-los. Gostaria que Arthur estivesse ali para vê-los. Mas, se ele ainda fosse vivo, talvez aquilo jamais tivesse acontecido. Josiah só começou a visitá-las por consideração à perda delas. O destino às vezes toma caminhos estranhos.

Consuelo recomendou que fossem de carro com Thomas, o motorista, então seguiram para o casamento no impecável Hispano-Suiza, um bem luxuoso do pai de Annabelle, usado apenas em ocasiões importantes. Para Consuelo, aquele era um evento de proporções significativas. A primeira vez que seu futuro genro seria visto em público com sua única filha. O que poderia ser mais importante, além do casamento deles?

Observou com carinho os dois saírem; depois subiu para o quarto, perdida em pensamentos. Lembrou-se da primeira vez que saiu com Arthur, depois que ele pediu a mão dela ao pai. Era o baile de debutante de uma amiga. E ela era apenas um ano mais nova que a filha naquela época.

O carro os conduziu à Igreja Episcopal de São Tomé, na Quinta Avenida, e o chofer deixou Josiah sair primeiro. Ele deu a volta e ofereceu a mão para ajudar Annabelle a descer do carro. Seu cabelo loiro estava puxado para trás, coberto pelo chapéu de veludo e zibelina, e ela usava um pequeno véu sobre o rosto. Parecia tão elegante quanto qualquer mulher parisiense, e mais velha do que realmente era, devido ao opulento vestido preto. Josiah nunca havia se sentido tão orgulhoso.

— Sabe, para uma moça acostumada a esfregar o chão em um hospital e dissecar cadáveres, você fica muito bem quando se arruma — disse ele, de forma brincalhona. Ela riu, o que a deixou ainda mais bonita, com os brincos de diamante da mãe cintilando por trás do véu fino. Parecia distinta, sensual e romântica; Josiah estava perplexo com a mulher que pretendia desposar. Não havia percebido o quanto ela era linda, pois fazia pouco alarde sobre si mesma e, por causa do luto, nunca usava roupas elegantes ou maquiagem. Ele foi ao seu baile de debutante no ano anterior, mas nem naquela época ela parecera tão bonita. Havia florescido como mulher desde então.

Um pajem de gravata branca e fraque os conduziu até um banco lá na frente, no lado da igreja destinado à noiva. Eles estavam sendo esperados, e Josiah notou que as pessoas os olhavam com admiração velada. Formavam um casal atraente. Annabelle estava alheia ao fato, fascinada com as orquídeas brancas que a mãe de Hortie pedira. Annabelle havia visto o vestido da noiva e sabia que a amiga ficaria deslumbrante nele. Tinha um corpo maravilhoso. O vestido de cetim branco decotado era revestido de renda branca, com uma cauda que se estendia por metros às costas. Eram 16 madrinhas, e todas usavam vestidos de cetim cinza claro e carregavam pequeninas orquídeas. Era um casamento muito elegante, e Hortie estava carregando um buquê de lírios-do-vale.

Sentaram-se, e Annabelle olhou em volta. Conhecia todos ao redor; Josiah conhecia grande parte das pessoas também. Todas sorriram e fizeram pequenos gestos de cumprimento. Pareciam interessadas em vê-la com Josiah, que notou então que a mãe dela lhe permitira usar batom. Para ele, não havia mulher mais bonita na igreja do que Annabelle, sentada ali ao seu lado, nem mesmo a noiva ao atravessar a nave, ao som do Coro Nupcial da Lohengrin de Wagner.

Todos os olhos estavam em Hortie, cujo pai nunca pareceu tão orgulhoso. Foi nesse momento que Annabelle percebeu que em seu próprio casamento não haveria ninguém que a conduzisse pela igreja, nem o pai, nem o irmão. Pensar naquilo fez seus olhos ficarem marejados. Mas Josiah percebeu e gentilmente afagou-lhe o braço. Ele sabia o que ela estava pensando. Estava começando a conhecer Annabelle melhor. E embora fizesse parte da vida dela havia apenas pouco tempo, o que estava desenvolvendo por ela era amor. Gostou de ficar sentado na igreja ao lado dela durante a cerimônia, que não demorou, e, quando os noivos cruzaram a nave, ao som de Mendelssohn, todos estavam sorrindo. As 16 madrinhas, e um número igual de padrinhos, vieram caminhando com solenidade atrás deles, inclusive a daminha de 5 anos que carregava o anel, e a de 3 anos, usando um vestido de organza branca, que se esqueceu de atirar as pétalas de rosas e apenas as apertou na mão.

Annabelle e Josiah saudaram os amigos em meio à multidão que esperava na entrada da igreja. Passaram pela fila dos cumprimentos para felicitar os noivos e os pais do casal, e por fim, uma hora depois da cerimônia, todos deixaram a igreja e foram para a recepção. Annabelle queria muito poder ir com eles, pois sabia que seria uma festa fabulosa que duraria a noite inteira, mas isso estava fora de cogitação. Josiah a acompanhou na volta no carro, conduzindo-a até dentro de casa, e Annabelle lhe agradeceu pela companhia.

— Eu gostei muito — disse ela, parecendo em êxtase. Havia sido divertido ver de relance todos os seus amigos, e até conhecer alguns dos amigos de Josiah que, claro, eram muito mais velhos que ela, mas pareciam simpáticos.

— Eu também — disse ele, sendo honesto. Sentiu-se muito orgulhoso por estar com ela. Annabelle era uma jovem muito bonita.

— Melhor se apressar, senão vai se atrasar para a recepção — disse ela enquanto tirava o chapéu, dava-lhe um beijo na bochecha e o conduzia até a porta. Parecia ainda mais bonita sem o véu, com os brincos da mãe brilhando em suas orelhas.

— Não estou com pressa — respondeu ele, tranquilo. — Desisti de ir à recepção. — Estava sorrindo para ela.

— Desistiu? — Ela parecia surpresa. — Por quê? Vai ser o casamento do ano. — Os pais de Hortie não haviam poupado despesas, por isso não queria que Josiah perdesse a festa. Ela não conseguia pensar em um motivo para ele não querer ir.

— Já estive em vários casamentos do ano. — Josiah riu e acrescentou: — Por muitos anos. Sempre há outros. Por que eu iria à recepção sem você? Não me parece certo. Já basta a cerimônia religiosa. Vimos muitas pessoas. Posso ir a festas a qualquer hora. Por que não vamos à cozinha e preparamos algo para comer? Sei fazer um sanduíche bem gostoso e uma omelete muito boa. — Nenhum dos dois havia jantado. Os criados já haviam se retirado, e a mãe estava lá em cima no quarto, provavelmente dormindo.

— Está falando sério? Não acha que deve ir à recepção? — pressionou ela. Sentia-se culpada por impedi-lo, de certa forma.

— Seria muito estranho se eu aparecesse depois de ter recusado o convite.

— Ele riu outra vez. — Achariam que sou louco, e, de qualquer forma, não estão mais contando comigo. Vamos ver o que temos na geladeira. Vou surpreender você com minhas habilidades culinárias.

— Neste terno? — Ele estava usando gravata branca e fraque, com um belo broche de madrepérola e brilhantes e abotoaduras.

— Posso tirar o casaco, se não ficar muito chocada. — Ele estava com a tradicional gravata branca de piquê e colete, que também exibia broches, tudo feito em Paris, assim como a cartola. Estava muito elegante e era um par perfeito para ela.

— Não ficarei chocada. Vou tirar meu casaco também — disse ela, tirando o casaco de veludo debruado de zibelina que combinava com o vestido, expondo os ombros claros e sedosos e o colo bem-feito, que ele reparou com discrição.

— É um belo vestido — disse ele, sorrindo com admiração.

— Que bom que gostou — respondeu ela, tímida. A noite de repente lhe pareceu muito adulta. Seu baile de debutante foi o único evento do tipo a que compareceu. E havia gostado muito de ir ao casamento acompanhada por Josiah.

Annabelle o levou à cozinha lá embaixo e acendeu as luzes. Tudo estava imaculado e havia sido deixado em perfeita ordem. Abriram a geladeira e encontraram ovos, manteiga, legumes cozidos, metade do peru e um pedaço de presunto. Ela tirou praticamente tudo da geladeira e pôs sobre a mesa da cozinha. Na despensa, encontrou alface e alguns legumes frescos.

Arrumou a mesa com os pratos, ainda em seu vestido de gala, enquanto Josiah tirava o fraque e preparava o jantar. Fatiou bem fino o presunto e o peru, fez uma salada e preparou uma excelente omelete de queijo em uma frigideira. Sentados na cozinha, compartilharam uma refeição deliciosa, conversando e comentando sobre quem haviam visto. Ele lhe contou algumas fofocas sobre pessoas que ela havia conhecido, e Annabelle fez o mesmo a respeito de seus amigos. Ficaram sentados conversando por um bom tempo depois da refeição, e os dois pareciam estar gostando daquilo. Annabelle não tinha a chave da adega para pegar um vinho, mas ele disse que estava satisfeito com um copo de leite. Foi a melhor noite de Annabelle em anos.

Falaram sobre as festas de fim de ano. Josiah contou que iria para Boston no Dia de Ação de Graças para ficar com a família, mas que estaria em Nova York no Natal. Ela fez uma anotação mental para perguntar à mãe se poderiam convidá-lo para a ceia de Natal. Seria um dia difícil para elas. Era duro acreditar que, um ano depois de seu baile, a vida delas havia mudado de maneira tão drástica.

— Nós nunca sabemos o que vai acontecer — murmurou ele. — Tem de ser grata pelo que tem, pelo tempo que tiver. O destino é imprevisível, e às vezes não sabemos o quanto somos abençoados até que as coisas mudam.

Ela concordou e o fitou com tristeza.

— Eu sabia o quanto éramos abençoados, e minha mãe também. Todos nós sabíamos. Sempre me considerei afortunada por ter os pais e o irmão que tive. Só não consigo acreditar que meu pai e meu irmão se foram — murmurou ela. Enquanto a fitava, Josiah pôs a mão sobre a de Annabelle.

— O destino às vezes tira algumas pessoas das nossas vidas, e quando menos esperamos, outras entram. Você tem de acreditar que as coisas voltarão a ser boas de agora em diante. Sua vida só está começando.

Annabelle concordou outra vez.

— Mas, para a minha mãe, terminou. Acho que ela jamais vai se recuperar. — Annabelle se preocupava muito com ela.

— Não há como saber — disse ele, de forma gentil. — Coisas boas podem acontecer com ela também.

— Espero que sim — murmurou a jovem, agradecendo-o pela refeição. Foi uma noite adorável. Josiah a ajudou a colocar a louça na pia, e depois ela se voltou para ele com um sorriso, a amizade florescendo entre os dois. — Você cozinha muito bem.

— Espere até provar meus suflês. Também preparo um almoço de Ação de Graças perfeito — disse, orgulhoso.

— Como foi que aprendeu a cozinhar? — Ela parecia achar graça. Nenhum dos homens da sua família jamais havia cozinhado; ela não tinha certeza nem de que conseguiam encontrar a cozinha.

Josiah riu.

— Quando se está solteiro por tanto tempo, ou você passa fome ou aprende a se virar. Ou sai todas as noites, o que é bem cansativo. Na maior parte das vezes, prefiro ficar em casa e cozinhar.

— Eu também, no que se refere à parte de ficar em casa. Mas não sou boa cozinheira.

— Não precisa ser — lembrou ele, o que a deixou embaraçada por um momento. Havia sido servida durante a vida inteira. Mas ele também.

— Mas eu deveria aprender um dia desses. Talvez eu tente. — A competência e a organização dele na cozinha haviam deixado Annabelle impressionada.

— Posso lhe ensinar alguns truques — ofereceu ele. E ela gostou da ideia.

— Parece divertido — respondeu, meio entusiasmada. Sempre se divertia com Josiah.

— É só você pensar nisso como se fosse ciência, assim será mais fácil.

Annabelle riu ao apagar as luzes, e ele a acompanhou até a escada. Passaram por duas portas e chegaram novamente ao saguão principal, parando sob o lustre. Josiah estava carregando o fraque; a cartola e as luvas estavam sobre a mesa. Apanhou-as, enfiou o fraque e pôs a cartola na cabeça. Parecia tão elegante como sempre, e ninguém teria suspeitado de que havia cozinhado.

— Está muito atraente, Sr. Millbank. Tive uma noite maravilhosa.

— Eu também — disse ele, que a beijou com candura na bochecha. Não queria apressar as coisas, ainda tinham meses como apenas amigos pela frente, apesar de já ter a bênção da mãe dela. — Vejo você em breve. Obrigado por me acompanhar ao casamento, Annabelle. Esses eventos podem ser bem chatos, se você não tiver alguém divertido ao lado.

— Também acho. E a melhor parte da noite foi conversar sobre o casamento depois, na cozinha. — Annabelle deu uma risadinha, e ele sorriu de volta.

— Boa noite — despediu-se ele, abrindo a porta e virando-se para olhá-la antes de fechá-la. Annabelle apanhou o casaco na cadeira, colocou o chapéu de novo na cabeça em um ângulo estranho e subiu a escada até o quarto com um sorriso e um bocejo enorme. Teve uma noite excelente e estava contente por ela e Josiah serem amigos.