Uma Mulher Livre
Capítulo 13
Annabelle voltou para Nova York na primeira semana de setembro, deixando Blanche, William e alguns outros criados na casa de Newport. Não era mais a casa de seus pais, agora era sua casa. Levou Thomas consigo para Nova York e planejava vender todos os carros do pai, exceto um.
Ficou no apartamento de Josiah, mas sabia que precisava encontrar uma casa, só não fazia ideia de por onde começar a procurar. Sabia que Josiah não voltaria tão cedo, se é que faria isso. Ele e Henry ficariam fora por meses, ou talvez por mais tempo, e não tinha notícias dele desde sua partida para o México. Ele a abandonara por completo, assim como todos os outros. E Josiah achava que isso seria melhor para ela.
Quando voltou a trabalhar no Hospital para Imigrantes de Ellis Island, tentou pensar no que fazer. As pessoas ainda estavam chegando da Europa, mesmo com os britânicos tendo enchido o Atlântico de minas e os alemães ainda afundando navios. E, certo dia, conversando com uma francesa, Annabelle entendeu o que precisava fazer. Era a única coisa na qual conseguia pensar, e parecia fazer mais sentido do que ficar em Nova York sendo marginalizada por todos que conhecia. Agora não lhe importava morrer na travessia do Atlântico, ou quando estivesse na Europa. Na verdade, receberia de bom grado a libertação do destino ao qual Josiah, sem perceber, lhe condenara com o divórcio.
Conversou com várias pessoas no Hospital para Imigrantes de Ellis Island sobre o que fazer. O médico para quem trabalhava lhe deu uma carta, atestando suas habilidades, que ela planejava apresentá-la em um hospital na França. Ele lhe falou de um hospital que fora montado em uma abadia em Asnières-sur-Oise, perto de Paris, dirigido por mulheres. Havia sido estabelecido um ano antes por uma escocesa, a Dra. Elsie Inglis, cuja proposta de fazer o mesmo na Inglaterra fora recusada. O governo francês a recebeu de braços abertos, e ela assumiu pessoalmente a criação do hospital na abadia, empregando mulheres na equipe, tanto médicas quanto enfermeiras, tendo apenas alguns homens atuando como médicos. O amigo de Annabelle que era médico no Hospital de Ellis Island a encorajou a ir para lá quando ela lhe revelou seu plano.
Elsie Inglis era uma mulher visionária e sufragista que havia estudado na Escola de Medicina para Mulheres de Edimburgo. Havia criado a própria faculdade de medicina e lecionado no Novo Hospital para Mulheres. O clínico que a indicou a Annabelle tinha certeza de que qualquer estabelecimento médico criado por Inglis seria medicamente correto e impecavelmente dirigido. Ela conseguiu montar a Abbaye de Royaumont e colocá-la para funcionar em dezembro de 1914, pouco depois da eclosão da guerra. E pelo que o médico havia ouvido, estava fazendo um ótimo trabalho cuidando dos soldados feridos que chegavam aos hospitais de campanha no front. Tudo sugeria a Annabelle que era lá que ela deveria estar, e que era muito provável que fosse bem-vinda. Não importava se dirigiria uma ambulância ou se trabalharia no hospital. Qualquer coisa que precisassem, ela estaria mais do que disposta a fazer.
Agora não tinha motivos para ficar nos Estados Unidos. Não tinha lar, parentes, marido, e até a melhor amiga havia dito que não podiam mais se ver. Os amigos dos pais dela e de Josiah deviam estar ainda mais chocados com a situação. E já que ele havia deixado a cidade, todos presumiam que ela tinha partido o coração dele. Annabelle fora desonrada de todas as maneiras possíveis, e ninguém jamais saberia o que realmente aconteceu. Ela não tinha razão nenhuma para ficar em Nova York e possuía todos os motivos para partir.
Annabelle passou vários dias empacotando tudo o que queria enviar para o depósito e tirou um passaporte novo, já que não viajava havia seis anos, desde que tinha 16 anos. Reservou uma passagem para a França no Saxonia e comprou roupas resistentes para vestir assim que chegasse lá. Não precisava mais de trajes elegantes e cheios de babados, por isso deixou suas joias e as da mãe em um cofre no banco do pai e providenciou todos os arranjos financeiros de que precisaria na Europa. Não contou a ninguém o que estava fazendo e, no fim de setembro, voltou a Newport para se despedir de Blanche e dos outros criados. Havia cinco deles na casa para o inverno, para cuidar do imóvel e do terreno. Era o bastante, dado o tamanho do chalé, mas não o suficiente. Contou a Blanche o que pretendia fazer e avisou que ficaria fora por um bom tempo.
A mulher chorou por tudo o que havia ocorrido e lamentou o destino de sua jovem senhora e as coisas que poderiam lhe acontecer na França. Todos perceberam que ela talvez não sobrevivesse à travessia, pelas minas inglesas e os submarinos alemães que espreitavam no mar. Blanche sabia muito bem que Annabelle não se importava. Não tinha nada a perder e ninguém por quem viver. E no front talvez ela servisse a algum propósito. Estava levando todos os seus livros de medicina, para o caso de precisar deles. E quando deixou Newport, dois dias depois, todos choravam enquanto acenavam em despedida, imaginando se um dia voltariam a vê-la.
De volta a Nova York, Annabelle se despediu dos médicos e das enfermeiras com quem trabalhava no Hospital de Ellis Island, e de alguns dos pacientes preferidos de longa data, especialmente as crianças. Todos lamentavam sua partida, mas ela não explicou o motivo. Disse ao médico-chefe que seria voluntária em um hospital de campanha na França. Partia seu coração ter de se despedir.
Todos os seus pertences que estavam no apartamento de Josiah já haviam sido enviados para um depósito, e tudo o que restava eram as malas que levaria consigo e o que havia dentro delas: as roupas resistentes que comprara para a viagem e várias jaquetas e casacos. Conseguiu acomodar tudo em três valises grandes. Como planejava ficar dentro da cabine no navio, não levava roupas de noite. Havia tirado um passaporte novo e reservado passagem em seu próprio nome, não no de Josiah. E, seu último dia em Nova York, saiu para um longo passeio, passando pela antiga casa dos pais. Era a única coisa que ainda restava para se despedir. Ficou parada na frente da casa por um bom tempo, pensando em tudo o que havia perdido. Viu um dos antigos vizinhos sair do carro e lançar um olhar maldoso em sua direção. Ele virou de costas sem cumprimentá-la, subiu os degraus da casa e bateu a porta. Enquanto voltava para o apartamento de Josiah pensando no ocorrido, fortaleceu sua decisão. Não lhe restava mais nada em Nova York.
Thomas conduziu Annabelle ao cais da Cunard na manhã seguinte, a tempo de colocar suas três magras valises a bordo. O Saxonia, construído há 15 anos, era um grande navio de passageiros e carga, com quatro mastros enormes e uma chaminé alta. Seu projeto priorizara o tamanho, não a velocidade, e o navio faria sua travessia pelo Atlântico a 15 nós. Não era luxuoso, mas confortável; e era rentável para a companhia por causa da carga, o que reduzia consideravelmente a área de passageiros. A primeira classe havia sido eliminada completamente desde a eclosão da guerra. Não era em nada tão prestigioso quanto os outros navios nos quais Annabelle já havia viajado com os pais, mas ela não se importava, por isso reservou um dos maiores compartimentos da segunda classe.
Dois jovens marinheiros a escoltaram à cabine, e Thomas lhe deu um afetuoso abraço de despedida. Ele deixaria o carro guardado em uma garagem alugada, e o banco recebera instruções de vendê-lo. Thomas já estava procurando outro emprego, pois Annabelle não fazia ideia de quando estaria de volta.
Ele ainda estava parado no cais, acenando para a jovem, quando o navio começou a se afastar devagar do ancoradouro uma hora e meia depois. As pessoas no convés pareciam sérias, pois sabiam dos riscos que estavam correndo por desbravar o Atlântico. Mas todos tinham um bom motivo para estar ali. Ninguém navegava naquelas águas por prazer, era perigoso demais com toda a Europa em guerra.
Annabelle ficou no convés até passarem pela Estátua da Liberdade. Viu o Hospital de Ellis Island e sentiu o coração doer, então voltou para a cabine. Pegou um dos livros de medicina e começou a lê-lo, tentando não pensar no que aconteceria caso fossem atingidos por um torpedo. Era sua primeira jornada no oceano desde que o pai e o irmão haviam morrido no Titanic, por isso ficou tensa ao ouvir o barulho do navio, imaginando se os submarinos estariam em águas norte-americanas e se os atacariam. Todos os passageiros pensavam a mesma coisa.
Jantou sozinha em sua cabine e ficou deitada em seu beliche naquela noite, imaginando se chegariam em segurança e o que encontraria quando desembarcasse na França. Planejava seguir caminho até a área onde lhe disseram que seus serviços seriam mais necessários. Como os Estados Unidos não estavam na guerra, Annabelle não podia ser voluntária pelo próprio país, embora soubesse que seus primos Astor haviam financiado um hospital de campanha e um de seus primos Vanderbilt fosse voluntário. Mas depois que a notícia do divórcio se espalhou, ela não ousou entrar em contato com eles. Encontraria o próprio caminho quando chegasse à França. Daria um jeito.
Uma vez no hospital que era seu destino, faria o que quer que lhe fosse atribuído. Estava disposta a assumir as tarefas mais humildes, porém, pelo que ouvira, havia trincheiras por todo canto e os hospitais estavam lotados de gente ferida. Tinha certeza de que alguém a colocaria para trabalhar, caso conseguissem sobreviver à viagem.
Havia aprendido muita coisa com os médicos e as enfermeiras do Hospital de Ellis Island e continuava estudando todos os dias. E mesmo que tudo o que lhe permitissem fosse dirigir uma ambulância, ela pelo menos teria mais serventia lá do que se ficasse em Nova York escondida dos olhares de todo um mundo de pessoas conhecidas e do qual agora havia sido excluída.
Embora Josiah tivesse as melhores intenções, naquele momento, toda a sua respeitabilidade, reputação, retidão e capacidade de começar uma nova vida tinham sido destruídas pelo divórcio. Ele não compreendia o que havia feito a Annabelle. Era como ser condenada por um crime pelo qual jamais seria perdoada. Sua sentença seria eterna; sua culpa, uma certeza para todos. E sob circunstância alguma ela jamais revelaria o segredo de Josiah. Ela o amava demais para isso, e o que ele escondia era ainda mais chocante que o divórcio. A revelação de seu antigo caso amoroso com Henry e da sífilis, que agora compartilhavam, teria acabado com a vida dele. Seu segredo morreria com ela. E, sem querer, ele a sacrificara.
Era um alívio estar indo para a França, onde ninguém a conhecia. A princípio, não sabia se dizia que era viúva ou que jamais havia se casado. Mas se alguém conhecesse Josiah, o que era possível mesmo na Europa, saberia que ele estava vivo e que ela estava mentindo. Por fim, ela decidiu que falaria que nunca havia se casado. Era mais simples assim, caso encontrasse alguém que o conhecesse. Ela era Annabelle Worthington de novo, como se os dois anos com Josiah nunca tivessem ocorrido, embora o tivesse amado demais. Ou o suficiente para perdoá-lo pelas fragilidades que não podia evitar, e pela doença que no fim o mataria.
Talvez, pensou consigo mesma, enquanto o navio singrava tranquilamente a primeira noite, acabasse sendo morta na França e assim não teria de sofrer outra perda ou privação. Sabia que, mesmo depois do divórcio, quando ele morresse, seu coração se partiria novamente. Tudo o que queria era ter uma vida com ele, um casamento feliz, e gerar os filhos dele. Hortie não sabia o quanto era sortuda por ter filhos e um marido normal. E agora nem mesmo a velha amiga Annabelle tinha mais. Fora marginalizada e abandonada por todos. A rejeição de Hortie feriu mais fundo que a de Josiah. E o que tudo isso significava para Annabelle era que, enquanto o Saxonia seguia com cautela para a França através do Atlântico, ela estava absoluta e completamente sozinha no mundo. Era um pensamento aterrorizante para uma jovem que fora protegida a vida inteira, primeiro pela família e depois pelo marido. E agora todos haviam partido, levando seu bom nome e sua reputação. Estaria marcada como adúltera para sempre. Ao pensar novamente nisso, lágrimas escorreram de seus olhos caindo no travesseiro.
O navio viajou sem problemas naquela noite. Haviam dobrado a vigilância para detectar minas. Não se sabia onde elas poderiam estar, ou até onde os submarinos alemães ousariam se aproximar da terra. Haviam feito um treinamento com os botes salva-vidas uma hora depois de deixarem o cais. Todos sabiam onde eram suas estações de salvamento, e os coletes salva-vidas estavam pendurados bem à vista nas cabines. Em tempos de paz, os coletes eram acondicionados de maneira mais discreta, mas, desde o naufrágio do Lusitania, em maio, a Cunard Line não assumia mais riscos. Cada medida de segurança possível estava sendo tomada, mas isso só aumentava o clima de tensão na viagem.
Annabelle não falava com ninguém. Dera uma olhada na lista de passageiros e vira que havia dois conhecidos dos pais a bordo. Dado o maremoto de escândalos que seu divórcio havia causado em Nova York, não tinha nenhuma vontade de encontrá-los e correr o risco de ser esnobada por eles, ou algo pior. Preferia ficar em sua cabine durante grande parte do dia e só saía para um passeio solitário pelo convés ao cair da noite, quando todos estavam se trocando para o jantar. E, todas as noites, jantava sozinha em seu compartimento. Mesmo com todos os livros que levara para se distrair, pensava constantemente na morte do pai e do irmão no Titanic. E as histórias do naufrágio do Lusitania eram ainda piores. Ficou tensa e ansiosa na maior parte do tempo e mal dormia, mas estudou bastante durante suas longas horas de vigília.
A camareira que cuidava dos seus aposentos tentou, sem sucesso, incentivá-la a jantar no salão. E o capitão a convidara para jantar em sua mesa na segunda noite de viagem. Isso seria uma honra para a maior parte dos passageiros, mas Annabelle preferiu enviar um bilhete educado declinando do convite, dizendo que não se sentia bem. O mar estava um pouco revolto naquele dia, então era fácil acreditar que ela estava enjoada, o que não era verdade. Sentiu-se bem no trajeto inteiro.
O camareiro e a camareira que lhe foram designados se perguntavam se ela estava se recuperando de algum tipo de perda. Era bela e jovem, mas muito solene, e notaram que estava sempre vestida de preto. Seria viúva ou havia perdido um filho? Estava claro para eles que algo havia lhe acontecido. Ela parecia uma figura trágica e romântica quando observava o pôr do sol nos passeios de fim de tarde. Ficava olhando o mar, pensando em Josiah, imaginando se voltaria a vê-lo. Tentava não pensar em Henry e não odiá-lo.
Geralmente, quando voltava para seu compartimento, que incluía uma sala de visitas e um quarto espaçoso, parecia que havia chorado. Costumava usar um véu para esconder o rosto, que ficava ainda menos visível sob grandes chapéus. Não queria ser reconhecida. Estava desaparecendo de seu mundo, desvencilhando-se da casca de proteção que antes apreciava e da identidade que fora parte integral dela durante toda a vida. Estava se despindo de todas as coisas seguras e familiares, para desaparecer em uma vida de serviço no front. Era tudo o que queria agora.
Era chocante perceber que, a não ser pelo chalé de veraneio dos pais em Newport, não tinha um lar. Quase tudo o que possuía estava em um depósito, e o resto, naquelas três malas, que ela conseguia carregar sozinha. Não havia levado um único baú, o que era muito estranho, comentou a camareira com o comissário, para uma mulher de sua classe social. Mesmo sem casacos de pele, joias ou vestidos de noite, só pelo seu porte e jeito de falar, pelos modos gentis e pela postura, era fácil ver que Annabelle era bem-nascida. E vendo o ar de tristeza em seu semblante todos os dias, a jovem camareira lamentava por ela. Tinham quase a mesma idade, e Annabelle era sempre gentil com ela.
No quarto dia de viagem, conforme se aproximavam da Europa, o navio reduziu bastante a velocidade. Mal se movia na água, mas o responsável pela vigilância havia avistado algo suspeito e temia que houvesse algum submarino por perto. Todos os passageiros estavam preocupados, e alguns até vestiram os coletes salva-vidas, embora nenhum alarme tivesse soado. Annabelle saiu à luz do dia pela primeira vez para ver o que estava acontecendo. Um dos oficiais explicou-lhe calmamente a situação e ficou impressionado com sua beleza, escondida sob o chapéu e o véu. Imaginou se seria uma atriz famosa tentando se passar por uma pessoa comum, ou uma figura bastante conhecida. Estava vestindo um conjunto preto bem-talhado e, quando retirou uma das luvas, o oficial notou as mãos graciosas. Depois que ele a tranquilizou, Annabelle deu um breve passeio pelo navio, evitando as aglomerações que conversavam e as pessoas que estavam sentadas em grupinhos jogando cartas, voltando em seguida para o quarto.
O jovem oficial bateu à sua porta mais tarde naquele mesmo dia, e ela pareceu surpresa ao atender. Annabelle segurava um livro, e o seu longo cabelo loiro estava esparramado sobre os ombros. Ela parecia uma menina, e ele ficou ainda mais impressionado com sua beleza. Ela agora estava sem a jaqueta do conjunto e vestia apenas uma blusa preta e uma saia longa também preta. Assim como a camareira, ele suspeitava que Annabelle era uma jovem viúva, mas não fazia ideia do porquê ela estava indo para a Europa. O jovem disse que estava ali para se certificar de que ela estava bem, já que se mostrara bastante preocupada mais cedo naquele dia, e o navio ainda singrava em baixa velocidade. Annabelle garantiu-lhe, com um sorriso tímido, que estava ótima. O oficial baixou o olhar para ver o que ela estava lendo e ficou surpreso ao descobrir. Era um livro de medicina do Dr. Rudolph Virchow, e havia mais três do Dr. Louis Pasteur e do Dr. Claude Bernard, autoridades médicas da época, sobre a mesa às costas dela. Eram suas bíblias.
— Está estudando medicina? — perguntou, visivelmente impressionado. Não era um livro comum para uma mulher, por isso imaginou que ela fosse enfermeira. Parecia improvável, dada sua aparente boa posição na vida.
— Sim... não... bem, não exatamente — respondeu ela, parecendo embaraçada. — Só gosto de ler livros sobre medicina. É uma espécie de paixão minha.
— Meu irmão é médico — disse ele, orgulhoso. — É o irmão esperto. Minha mãe é enfermeira. — Ele se demorou, procurando uma desculpa para continuar a conversa. Havia algo de misterioso nela, e ele não conseguia deixar de se perguntar o que a levava à França. Talvez tivesse família lá. Naqueles dias, um número cada vez menor de mulheres fazia travessias nos navios. — Se houver qualquer coisa que eu possa fazer, Srta. Worthington, por favor, não hesite em me avisar. — Ela assentiu, chocada por ser chamada assim pela primeira vez em dois anos. Ainda não tinha se acostumado. Era como regressar à infância e viajar no tempo. Sempre teve tanto orgulho de ser a Sra. Millbank. Ficava triste por ser Worthington outra vez, como se não merecesse o nome de Josiah. Haviam acordado que ela retomaria seu próprio nome. Ele podia ter pedido perante o tribunal que ela mantivesse o nome dele, mas os dois acharam que seria melhor se ela assumisse o nome de solteira novamente. Seria mais fácil recomeçar do zero com o próprio nome, mas Annabelle ainda sentia falta do dele.
— Muito obrigada — agradeceu educadamente. O oficial se curvou, e Annabelle fechou a porta e voltou para o livro. Não saiu do quarto antes de escurecer. Estava ansiosa para chegar. Ficar confinada em seu pequeno quarto o tempo inteiro fazia a viagem parecer muito longa. E a lentidão em que navegavam lhes custou um dia inteiro, mas todos concordavam que era melhor seguir com cautela e segurança, mesmo que isso significasse um atraso na chegada.
O dia seguinte foi ainda mais estressante. O vigia matutino havia avistado uma mina ao longe a estibordo. Dessa vez, as sirenes soaram e todos foram levados ao convés para que a tripulação pudesse explicar o que estava acontecendo. Todos estavam vestindo coletes salva-vidas e foram aconselhados a mantê-los durante o dia todo. Annabelle havia deixado a cabine sem colocar o chapéu e o véu, e o dia estava agradável e ensolarado, com uma brisa suave. Seu cabelo caía escovado sobre as costas, e ela usava um vestido de linho preto. O mesmo oficial do dia anterior se aproximou dela outra vez com um sorriso.
— Nada com o que se preocupar — avisou ele —, é só uma precaução. Temos nos mantido bem longe de problemas. Nossos homens são muito sagazes. Avistaram a mina de imediato. — Annabelle ficou aliviada, mas, de qualquer forma, aquilo era um inconveniente.
Mesmo sem ter intenção de compartilhar nada com ele, deixou uma pequena informação pessoal escapar.
— Meus pais e meu irmão estavam no Titanic — murmurou, e quase estremeceu ao dizê-lo, fitando o oficial com olhos arregalados.
— Sinto muito — disse ele, gentilmente. — Nada semelhante acontecerá aqui. Não se preocupe, senhorita. O capitão tem tudo sob controle. — Mas a presença do campo minado ao longe significava mais um dia rastejando pelas águas. E nos dois dias seguintes, ficaram ainda mais vigilantes conforme o Saxonia se aproximava da França.
No fim, a viagem levou sete dias. Chegaram a Le Havre às seis da manhã, e o navio foi ancorado ao cais enquanto a maior parte dos passageiros ainda dormia. O café da manhã seria servido às sete, e os passageiros que iriam desembarcar pegariam o trem às nove. Depois, o navio seguiria para Liverpool, uma vez que Southampton havia sido tomada pelos militares. Naquela viagem, pararam primeiro na França, pois foram obrigados a desviar bastante da rota por causa das áreas minadas. Annabelle estava no convés quando atracaram. O costumeiro oficial a viu e se aproximou. Ela parecia animada e bem desperta. Não a vira tão feliz assim durante toda a viagem, por isso pensou que a costumeira melancolia da jovem era apenas medo por estar no navio, já que os familiares morreram em um. E as áreas minadas e os submarinos haviam deixado os passageiros preocupados. Todos estavam felizes por chegar à França em segurança.
— Está feliz por estar em Paris? — perguntou, tentando ser agradável. Era óbvio que ela estava feliz, e o oficial de repente se perguntou se ela teria um noivo lá. O sorriso de Annabelle era radiante ao assentir sob o sol do comecinho da manhã. Estava usando chapéu, mas sem véu, então ele pôde olhar diretamente em seus olhos azuis.
— Estou. Mas não ficarei muito tempo aqui — disse simplesmente, ao que ele pareceu surpreso. Com a guerra, ninguém mais vinha à Europa para passar pouco tempo, considerando-se os riscos envolvidos, e certamente não para uma breve viagem de férias.
— Vai voltar?
— Não, não vou. Quero trabalhar em um hospital ao norte de Paris, a cerca de 50 quilômetros do front.
— É muita coragem a sua — comentou ele, parecendo impressionado. Ela era tão jovem e bonita que não suportava imaginá-la na carnificina de um hospital perto do front, mas ela estava visivelmente animada com a ideia. Aquilo explicava por que ela estava lendo livros de medicina na cabine quando ele passou para vê-la. — Estará em segurança lá? — perguntou, parecendo preocupado, mas Annabelle sorriu.
— Bastante segura. — Preferiria ficar no front, mas soube que só médicos e militares treinados tinham autorização para trabalhar lá. O hospital que foi montado na Abbaye de Royaumont em Asnières-sur-Oise era bastante peculiar e ela tinha mais chances de ser aceita lá.
— Vai para lá hoje ainda? — perguntou ele com interesse, mas ela meneou a cabeça.
— Pensei em passar uma noite em Paris e descobrir um jeito de ir para lá amanhã. — O hospital ficava a 30 quilômetros ao norte de Paris, e ela não sabia que tipo de transporte conseguiria arranjar.
— Você é muito corajosa por viajar sozinha — disse ele, admirado, pressentindo corretamente que ela era uma mulher que fora abrigada e protegida durante toda a vida, e que não estava acostumada a cuidar de si mesma. Mas ela não tinha escolha naquele momento. Annabelle sabia que aquele era um recomeço, ou, pelo menos, um afastamento do ostracismo que apenas começara a provar nos Estados Unidos e que só poderia piorar com o tempo.
O oficial precisou retornar a seus deveres, então Annabelle voltou para seu compartimento para terminar de arrumar as malas. Estava pronta para partir às sete. Agradeceu à camareira pela gentileza e atenção durante a viagem, deu-lhe uma boa gorjeta em um discreto envelope e foi para o principal salão de refeições para tomar café. Era a primeira e a única vez que fazia uma refeição em público durante a travessia. Mas todos estavam ocupados demais para prestar atenção nela. Despediam-se dos novos amigos e desfrutavam uma farta refeição antes de deixarem o navio.
Annabelle foi uma das primeiras a desembarcar. E deu adeus ao jovem oficial, que foi se despedir e lhe desejar boa sorte. Ela embarcou no compartimento particular que lhe fora reservado no trem, e sabia que esses eram os últimos luxos que desfrutaria por um bom tempo. No dia seguinte, com alguma sorte, estaria trabalhando com afinco e vivendo como qualquer outro servidor médico na abadia.
Carregou as malas sozinha e conseguiu pegar um táxi na Gare du Nord, em Paris. Havia almoçado no trem, por isso não estava com fome, então foi direto para o hotel. Reservara um quarto no Hôtel de Hollande, no nono arrondissement, perto de Montmartre. Enquanto passavam por lá, notou homens de quepe azul em bicicletas, geralmente em grupos de quatro, patrulhando a cidade. Os cafés não tinham mais os terraços, o que era uma grande mudança desde a última vez em que estivera em Paris com seus pais, quando era mais nova. Não vinha à cidade desde os 16 anos. Havia uma atmosfera de tensão silenciosa ali, e Annabelle notou que mal se viam homens nas ruas. A maior parte deles havia sido recrutada pelos militares e estava lutando pelo país e por suas vidas no front, mas a cidade ainda era tão bonita quanto ela se lembrava. A Place de la Concorde estava majestosa como sempre, assim como a Champs-Élysées. O tempo estava bonito, e fazia um esplêndido dia de outono quando o táxi estacionou diante do hotel.
Nada surpreendente, o recepcionista era bastante velho e a conduziu ao quarto no primeiro andar. O cômodo era pequeno, mas claro e ensolarado, com vista para o jardim do hotel, onde as cadeiras estavam dispostas ao redor de mesas e algumas pessoas almoçavam. Annabelle perguntou-lhe sobre o transporte para Asnières no dia seguinte. Queria saber se era possível contratar um motorista que dirigisse um veículo particular. Falou com ele no francês fluente que aprendeu com seu tutor, parte de uma educação refinada, que agora lhe servia bem.
— Por que desejaria ir para lá? — perguntou ele, franzindo o cenho em desaprovação. Ficava perto demais do front para o gosto dele, mas não para o de Annabelle. Havia tentado sugerir discretamente, sem ofender, que pagaria bem ao motorista pela viagem de ida, considerando que o hospital a deixasse ficar, o que ainda precisava ser confirmado. Mas ela era otimista, e tinha a carta de referência do médico do Hospital de Ellis Island na bolsa.
— Vou para a abadia em Asnières — explicou ela.
— Não é mais uma abadia — informou ele. — É um hospital, dirigido por mulheres.
— Eu sei. — Annabelle sorriu para ele. — É por isso que estou indo para lá.
— Você é enfermeira? — Ela balançou a cabeça em resposta. Ele não podia deixar de pensar que aquele era um hotel distinto para uma enfermeira se hospedar, mas, mesmo nas roupas simples, ela parecia bastante nobre.
— Não, sou apenas uma assistente médica, ou seja lá o que me deixarem ser — disse com humildade, ao que ele sorriu, com ar de espanto.
— Veio aqui para ajudar nossos rapazes no hospital? — Desta vez, ela assentiu sem hesitar. Ele mandou que levassem o jantar no quarto dela naquela noite, com uma pequena garrafa de vinho que estava guardando para si mesmo. — Você é uma mulher virtuosa — disse ele quando a viu novamente.
— Obrigada — murmurou ela, sabendo que Nova York inteira junto com Newport teriam discordado.
Mais tarde, o recepcionista idoso lhe disse que havia pedido ao sobrinho que a levasse no dia seguinte. Ele havia sido ferido no front no ano anterior e tinha perdido alguns dedos, mas o senhor lhe garantiu que Jean-Luc era ótimo motorista, embora se desculpasse porque o rapaz teria de conduzi-la a Asnières em um caminhão. Era o único veículo que tinham, mas ela lhe garantiu que estava ótimo.
Mal pôde dormir na cama do hotel naquela noite, estava muito ansiosa. Não sabia o que o dia seguinte lhe reservava, ou sequer se a deixariam permanecer na abadia. Tudo o que ela podia fazer era rezar para que fosse aceita.