Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 14 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 10

 

 

Uma vez que Josiah não era próximo da própria família, ele e Annabelle passaram tanto o dia de Ação de Graças quanto o Natal com a mãe dela. E por Henry estar sozinho, por educação, convidaram o amigo nas duas ocasiões. Ele era brilhante, charmoso e atencioso com Consuelo, então era um ótimo convidado.

Hortie finalmente tinha se acalmado e se acostumado à ideia de ter outro bebê. Não estava animada, mas não tinha outra escolha. Queria mais filhos, afinal, só não estava preparada para isso tão cedo assim, depois da recente provação, mas esperava que desta vez fosse mais fácil, e não andava tão enjoada.

Annabelle estava focada no trabalho no Hospital para Imigrantes de Ellis Island, apesar das contínuas objeções da mãe. Consuelo não pedira netos à filha de novo, tendo ouvido, alto e bom som, que isso não aconteceria tão cedo, e, embora estivesse ansiosa para ser avó, não queria se intrometer na vida do casal. Além disso, Josiah era como um filho para ela.

Todos ficaram chocados em abril ao perceberem que dois anos haviam se passado desde o naufrágio do Titanic. Em certos aspectos, era como se aquela tragédia tivesse acontecido ontem. Mas, por outro lado, parecia que havia ocorrido há muito tempo. Annabelle e a mãe foram à igreja naquele dia, pois tinham mandado celebrar uma missa especial para seu pai e seu irmão. A mãe sentia-se solitária, mas havia aceitado as perdas e estava grata por Josiah e Annabelle passarem tanto tempo com ela. Eram muito generosos a esse respeito.

Em maio, Annabelle completou 21 anos. Consuelo lhe ofereceu um jantar e convidou alguns amigos. Compareceram James e Hortie, vários jovens casais do círculo de amigos deles e Henry Orson, com uma moça muito bonita que acabara de conhecer. Annabelle esperava que surgisse algo dali.

Foi uma noite maravilhosa. Consuelo havia até contratado alguns músicos, então, depois do jantar, todos dançaram. Foi uma festa ótima. E, naquela noite, quando Josiah e Annabelle foram para a cama, ela fez a mesma pergunta fatídica outra vez. Não a mencionava havia meses. Ele havia lhe dado uma bela pulseira de diamantes de presente, que todos admiraram e que causou inveja a todas suas amigas, mas havia algo mais que desejava dele, algo que lhe era bem mais importante. Isso a corroía havia meses.

— Quando vamos começar uma família? — sussurrou, quando estavam deitados na cama. Falou isso olhando para o teto, como se ele fosse capaz de lhe dar uma resposta honesta se ela não o encarasse. Havia muita coisa entre eles agora que continuava sem ser dita. Annabelle não queria deixá-lo desconfortável, mas, depois de nove meses de casamento, certas coisas eram difíceis de explicar, e ele não poderia continuar dizendo “temos tempo” ou “para que a pressa?”. Quanto tempo?

— Não sei — disse ele, honestamente, parecendo infeliz. Annabelle conseguiu ver isso nos olhos dele quando se virou para encará-lo. — Não sei o que responder — confessou, parecendo à beira das lágrimas, o que de repente a deixou assustada. — Preciso de um tempo. — Ela assentiu, virando-se devagar para tocar o rosto dele.

— Tudo bem. Eu te amo — sussurrou. Havia muita coisa que não entendia e não tinha ninguém a quem pudesse perguntar. — É algo a meu respeito que eu possa mudar? — Josiah meneou a cabeça e a encarou.

— Não é você. Sou eu. Vou resolver isso, prometo — disse ele, as lágrimas enchendo seus olhos ao tomá-la nos braços. Era o mais próximo que já estiveram, e ela sentia que Josiah, enfim, estava derrubando barreiras para deixá-la entrar.

Annabelle sorriu enquanto era envolvida pelo abraço do marido e usou as palavras dele como resposta.

— Temos tempo. — Ao ouvir isso, uma lágrima rolou pela face de Josiah.

 

Em junho, Consuelo foi para Newport. Com pouca coisa para fazer na cidade agora, gostava de ir para lá antes de a temporada começar. Annabelle prometera chegar em julho, e Josiah, no fim do mês.

Consuelo já havia partido da cidade quando notícias vindas da Europa prenderam a atenção de todos. Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, e sua esposa Sofia estavam em visita de Estado a Sarajevo, na Bósnia, quando foram mortos a tiros por um jovem terrorista sérvio, Gavrilo Princip. Princip era membro da Mão Negra, uma temida organização terrorista sérvia determinada a acabar com o governo austro-húngaro nos Bálcãs. O arquiduque e a esposa foram mortos cada um por uma única bala a pouca distância da cabeça. A notícia chocante reverberou pelo mundo, e suas consequências na Europa foram rápidas e desastrosas. Nos Estados Unidos, todos ficaram hipnotizados.

A Áustria considerou o governo sérvio responsável pelo ocorrido e buscou apoio da Alemanha. Depois de semanas de debates diplomáticos, em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia e abriu fogo contra a cidade de Belgrado. Dois dias depois, a Rússia mobilizou suas tropas e se preparou para a guerra. A França foi então obrigada, por condição do tratado que tinha com o país, a apoiar a Rússia em seus planos de guerra. Em poucos dias, o castelo de cartas que mantinha a paz na Europa começou a desmoronar. Os dois tiros que mataram o arquiduque austríaco e sua esposa estavam arrastando todos os países importantes para a guerra. Em 3 de agosto, apesar dos protestos de ser um país neutro, as tropas alemãs marcharam pela Bélgica para atacar a França.

Dias depois, Rússia, Inglaterra e França se aliaram e declararam guerra à Alemanha e ao Império Austro-Húngaro. Os americanos ficaram consternados com o que aconteceu. Em 6 de agosto, todos os grandes poderes da Europa estavam em guerra, e os americanos não conseguiam falar de outra coisa.

Annabelle havia adiado a viagem a Newport devido ao desenrolar dos eventos na Europa. Queria ficar em casa e estar perto de Josiah. Não era uma batalha americana, embora os aliados europeus dos Estados Unidos estivessem em guerra. Os Estados Unidos não demonstraram qualquer sinal de envolvimento, e Josiah lhe garantiu que mesmo se o país entrasse na guerra em algum momento, o que parecia improvável, Annabelle não precisava ter medo, pois estava casada com um “homem velho”. Aos 41 anos, não havia risco nenhum de ser enviado para a guerra. O presidente Wilson garantia ao povo americano que tinha toda a intenção de ficar fora da guerra na Europa. De qualquer forma, a situação era muito perturbadora.

Annabelle foi para Newport com Josiah no fim de julho, duas semanas depois do planejado. Esteve ocupada trabalhando no Hospital para Imigrantes de Ellis Island, como de costume. Muitos dos imigrantes estavam em pânico por causa da segurança de seus parentes. Era óbvio que a guerra, tendo sido declarada em muitos dos países dos quais vieram, afetaria suas famílias e deteria alguns dos que planejavam se juntar a eles nos Estados Unidos. Muitos dos seus filhos, irmãos e primos já estavam de sobreaviso em casa.

Em Nova York, antes de partirem, Annabelle, Josiah e Henry conversavam constantemente sobre a guerra na Europa durante os jantares tardios no jardim dos Millbanks. E mesmo a protegida Newport estava irrequieta com o que acontecera. A vida social na cidade estava perdendo em importância para as notícias internacionais.

No jantar do primeiro aniversário de casamento de Josiah e Annabelle, Consuelo notou que o casal estava mais próximo do que nunca, embora achasse os dois muito sérios nos últimos tempos, o que era inteiramente compreensível, devido ao que estava acontecendo no mundo. Henry havia chegado de Nova York para passar o aniversário de casamento com eles.

Hortie havia tido o segundo bebê naquela época, uma menina dessa vez. Novamente foi um parto demorado e árduo, mas não tão ruim quando o primeiro. E Louise, como a batizaram, só pesava 3,8 quilos. Hortie não pôde ir ao jantar de aniversário de Annabelle e Josiah na casa de Consuelo, pois ainda estava de cama sendo paparicada pela mãe e uma enfermeira. Mas James foi ao jantar, claro. Como de costume, foi a todas as festas de Newport naquele verão, assim como em Nova York. Ele nunca deixava de ir, com ou sem Hortie.

Aquele agosto em Newport foi mais calmo que de costume, devido às notícias da guerra na Europa. Parecia que uma nuvem negra pairava sobre todos, que conversavam sobre seus aliados do outro lado do Atlântico e estavam preocupados com os amigos. Annabelle e Josiah discutiam o assunto com frequência enquanto desfrutavam de alguns dias de sossego depois da partida de Henry. Parecia haver um acordo tácito entre Josiah e Annabelle, mas Consuelo os achava mais sérios que nos primeiros dias de casamento. Ficava triste por ver que ainda não haviam começado uma família, assunto que Annabelle jamais mencionava. Certa vez, ao notar tristeza nos olhos da filha, imaginou se haveria algo errado, mas Annabelle não dividia nada com ela e parecia mais devotada do que nunca ao marido. Consuelo ainda acreditava que os dois formavam um par perfeito e ela gostava da companhia deles e de seus amigos. Só esperava que um neto aparecesse um dia; com sorte, em breve.

O casal voltou para Nova York no começo de setembro. Josiah retomou sua rotina no banco, e Annabelle voltou ao trabalho no hospital de Ellis Island. Estava ficando cada vez mais envolvida com suas tarefas no hospital e possuía grande afeto e respeito pelas pessoas de quem cuidava. Sua mãe ainda se preocupava com sua saúde. Annabelle estava exposta a muitas enfermidades. As crianças estavam frequentemente doentes, e Consuelo sabia que a tuberculose se propagava ali. O que ela não sabia era que a filha circulava sem medo e despreocupada por aquele ambiente. Trabalhou mais do que nunca naquele outono, apesar dos avisos e das reclamações da mãe.

Josiah estava ocupado no banco, cuidando de alguns casos bem delicados. Como poder neutro, o governo dos Estados Unidos, embora solidário, negara-se a financiar ou abastecer oficialmente os esforços de guerra dos Aliados na Europa. Como resultado, empreendimentos privados e alguns indivíduos riquíssimos haviam se prontificado a oferecer assistência. Estavam enviando dinheiro, além de mercadorias, não só para os Aliados, mas às vezes para os inimigos também. Isso estava criando uma agitação tremenda. Gerenciar essas transferências exigia a máxima discrição, e Josiah se viu lidando com várias delas. Como fazia com a maior parte das coisas, confidenciou o assunto a Annabelle, dividindo com a esposa suas preocupações. Aborrecia-lhe muito que certos clientes do banco de seu finado sogro estivessem enviando material e fundos para a Alemanha, devido aos elos que tais clientes possuíam lá. Não lhe parecia bom jogar dos dois lados, mas precisava satisfazer os pedidos dos clientes.

Não era segredo que transações dessa natureza estavam acontecendo, e, para impedir o influxo de suprimentos para a Alemanha, o Reino Unido começou a espalhar minas pelo mar do Norte. Como retaliação, os alemães ameaçavam afundar qualquer navio pertencente ao Reino Unido ou seus aliados. E submarinos alemães estavam patrulhando o Atlântico. Certamente não era um bom momento para atravessar o Atlântico, mas, apesar disso, um fluxo constante de imigrantes determinados a encontrar uma vida nova nos Estados Unidos continuava a aumentar no hospital de Ellis Island.

Os pacientes de Annabelle estavam mais doentes e no pior estado que ela já vira em anos. Em muitos casos, haviam deixado seus países em condições lúgubres e beijavam o chão quando desembarcavam na América. Ficavam gratos por qualquer gentileza e por tudo o que ela fazia. Havia tentado explicar à mãe, sem sucesso, o quanto ela e outros voluntários eram necessários na assistência aos imigrantes que acabavam de chegar. A mãe permanecia firme em sua convicção de que ela estava arriscando a vida sempre que ia até lá, e não estava totalmente errada, embora Annabelle não o admitisse. Só Josiah parecia compreender e apoiar seu trabalho. Ela havia comprado uma série de livros novos de medicina, e agora os lia todas as noites antes de ir para a cama. Isso a mantinha entretida quando Josiah estava ocupado, tinha de trabalhar até tarde ou saía com os amigos para eventos em clubes exclusivos para homens. Annabelle não se importava quando ele saía sem ela. Dizia que isso lhe dava mais tempo para ler e estudar até tarde da noite.

Àquela altura, já havia assistido a várias cirurgias e lido meticulosamente tudo que parava em suas mãos a respeito das doenças contagiosas que assolavam seus pacientes. Muitos imigrantes morriam, principalmente os mais velhos, depois das duras viagens, ou vítimas das doenças que contraíam ao chegar. Em muitos aspectos, Annabelle era considerada pela equipe médica uma espécie de enfermeira não oficial, sem formação, que geralmente se provava tão competente quanto eles, ou até mais. Possuía grande perspicácia e talento ainda maior para diagnosticar doenças, às vezes a tempo de fazer a diferença e salvar a vida do paciente. Josiah costumava dizer que ela era uma santa, o que Annabelle achava elogioso, mas um exagero. Trabalhava com mais afinco do que nunca, e sua mãe começou a achar que ela estava tentando preencher o vazio por não ter um bebê. Consuelo lamentava aquela contínua falta de filhos, ainda mais que a própria Annabelle parecia lamentar. A filha nunca abordava esse assunto com a mãe.

Henry se juntou a eles na casa de Consuelo no Natal daquele ano outra vez. Os quatro tiveram um tranquilo jantar na véspera de Natal. Era o terceiro fim de ano sem Arthur e Robert, cuja ausência era tremendamente sentida. Annabelle odiava admitir, mas podia sentir que muito da vida e muito do espírito da mãe haviam se apagado depois que o marido e o filho morreram. Consuelo era sempre grata pelo tempo que passavam com ela, estava constantemente interessada pelo que acontecia no mundo, mas era como se depois da terrível tragédia no Titanic, há mais de dois anos, já não se importasse mais com o que lhe acontecia. Henry parecia ser o único que ainda conseguia fazê-la rir. Para Consuelo, a dupla perda havia sido extrema. Agora só queria viver o bastante para ver Annabelle ter os próprios filhos. Estava ficando cada vez mais preocupada que a filha tivesse algum problema e não fosse capaz de engravidar. Mas o elo entre a jovem e Josiah parecia continuar forte.

E, como sempre, mesmo na véspera de Natal, a conversa se voltou para a guerra ao fim da refeição. Nenhuma das notícias era boa. Era difícil não crer que, em determinado ponto, mesmo que por solidariedade, se nada mais, os Estados Unidos não entrariam na guerra e que muitas das jovens vidas americanas seriam perdidas. O presidente Wilson sustentava o discurso que eles não se envolveriam, embora Josiah agora começasse a duvidar.

Dois dias depois do Natal, Annabelle foi visitar a mãe e ficou surpresa quando o mordomo contou-lhe que ela estava no quarto. Annabelle a encontrou tremendo debaixo das cobertas, parecendo pálida, com duas grandes manchas vermelhas nas bochechas. Blanche lhe havia levado uma xícara de chá, que foi recusada. Ela parecia muito doente, e quando Annabelle tocou sua testa com mão experiente, constatou que estava com uma febre altíssima.

— O que aconteceu? — perguntou Annabelle, preocupada. Era obviamente gripe e, com sorte, nada mais grave. Era exatamente o que a mãe sempre temeu pela filha. Mas Annabelle era jovem e forte. Já Consuelo, principalmente nos dois últimos anos, se tornara mais frágil. A constante tristeza pelas perdas que tivera drenara tanto sua juventude quanto sua força. — Há quanto tempo está doente? — Annabelle não a via há dois dias e não tinha ideia de que a mãe estava acamada. Consuelo havia pedido Blanche para não incomodar a filha, achava que ficaria boa logo.

— Desde ontem — disse a mãe, sorrindo para ela. — Não é nada. Acho que peguei um resfriado no jardim no Natal. — Aquilo parecia a Annabelle algo muito mais grave que apenas um resfriado. Blanche também estava preocupada.

— Chamou o médico? — perguntou Annabelle, fazendo cara feia quando a mãe balançou a cabeça. — Acho que deveria.

Nesse momento, a mãe começou a tossir, e Annabelle notou que seus olhos estavam estranhos.

— Não quis importuná-lo logo depois do Natal. Ele tem coisas mais importantes para fazer.

— Não seja boba, mamãe — ralhou Annabelle com carinho. Saiu em silêncio do quarto e foi chamar o médico. Minutos depois, já estava à cabeceira da cama da mãe, com um grande sorriso que transparecia mais tranquilidade do que ela sentia. — Ele disse que chega daqui a pouco. — A mãe não discutiu quanto a chamar o médico, o que também era estranho. Annabelle percebeu que ela devia estar se sentindo muito mal. E diferentemente das pessoas de quem cuidava com tanta habilidade no Hospital para Imigrantes de Ellis Island, sentia-se impotente naquele momento, e um tanto apavorada. Não conseguia se lembrar de ter visto Consuelo tão doente. E não havia escutado nada sobre alguma epidemia de gripe. O médico confirmou isso quando chegou.

— Não faço ideia de como ela pegou isso — disse, consternado. — Vi alguns pacientes depois do feriado, mas, em grande parte, idosos, que são menos resistentes. Sua mãe ainda é jovem e goza de boa saúde — garantiu a Annabelle. Ele tinha certeza de que Consuelo estaria melhor em poucos dias. Deixou um pouco de láudano para ajudá-la a dormir melhor e aspirina para a febre.

Mas às seis da tarde a mãe tinha piorado tanto que Annabelle decidiu passar a noite lá. Ligou para avisar Josiah, que foi muito solidário e perguntou se havia algo que ele pudesse fazer para ajudá-la. Annabelle disse que não precisava e voltou para junto da mãe, que estava ouvindo a ligação.

— Está feliz com ele? — Consuelo perguntou à filha, baixinho, e Annabelle achou a pergunta estranha.

— Claro que estou, mamãe. — Annabelle sorriu, sentou-se em uma cadeira perto da cama e pegou a mão dela. Ficou ali sentada de mãos dadas com Consuelo, exatamente como a mãe fazia quando ela era criança. — Eu o amo muito — confirmou. — Ele é um homem maravilhoso.

— Lamento tanto que não tenha tido um bebê. Não aconteceu nada ainda? — Annabelle meneou a cabeça com uma expressão séria e repetiu a frase oficial deles.

— Temos tempo.

Consuelo só esperava que ela não fosse uma daquelas mulheres que não podiam ter filhos. Isso seria uma tragédia. Annabelle era da mesma opinião, mas não admitiria isso à mãe. — Vamos cuidar de você — disse, para distraí-la. Consuelo assentiu e, pouco depois, caiu no sono, parecendo uma criança, com Annabelle sentada ao seu lado para vigiá-la. A febre subiu nas horas seguintes. À meia-noite, Annabelle estava colocando compressas quentes, preparadas por Blanche, na testa da mãe. Possuía muito mais conforto à disposição do que quando trabalhava no Hospital para Imigrantes de Ellis Island, mas nada ajudou. Passou a noite acordada, esperando que a febre cedesse pela manhã, mas não cedeu.

O médico veio vê-la de manhã e à tarde nos três dias seguintes, pois Consuelo continuava piorando a cada dia. Era o pior caso de gripe que o médico via em muito tempo, bem pior do que a que Annabelle tivera três anos antes, quando perdeu a fatídica viagem no Titanic.

Josiah foi ficar com a sogra em uma tarde, para que Annabelle pudesse tirar algumas horas de sono em seu antigo quarto. Havia deixado o trabalho no banco por algumas horas, e ficou surpreso quando Consuelo acordou e o encarou com olhos límpidos e brilhantes. Parecia muito mais alerta do que no dia anterior, e ele esperava que ela estivesse ficando melhor. Sabia o quanto a esposa estava desesperada com a situação da mãe, e com razão. Ela estava muito, muito doente, e várias pessoas já haviam morrido de gripe antes, embora não houvesse motivo para que isso acontecesse se o paciente tivesse um bom tratamento. Annabelle não saía do lado da mãe, exceto para dormir por meia hora de vez em quando, momentos em que Blanche ou Josiah a rendiam. Consuelo não ficava sozinha nem por um instante. E o médico vinha duas vezes por dia.

— Annabelle ama muito você — murmurou Consuelo de onde estava deitada, sorrindo para o genro. Estava muito fraca e bastante pálida.

— Eu a amo muito também — garantiu-lhe Josiah. — É uma mulher incrível e uma esposa maravilhosa. — Consuelo assentiu, parecendo satisfeita por ouvir isso dele. Ela achava que Josiah a tratava como uma irmãzinha ou uma criança, e não como uma esposa ou uma mulher adulta. Talvez fosse apenas o jeito dele, já que ela era muito mais jovem. — Precisa descansar para ficar melhor — disse Josiah à sogra, que afastou o olhar, como se soubesse que isso não faria diferença, para em seguida encará-lo diretamente.

— Se alguma coisa me acontecer, Josiah, quero que cuide bem dela. Você é tudo o que ela tem. E espero que vocês tenham filhos um dia.

— Eu também — murmurou ele. — Ela seria uma mãe perfeita. Mas não deve falar assim, você vai ficar bem. — Consuelo não parecia ter certeza disso. Era óbvio para Josiah que ela pensava que iria morrer, ou talvez só estivesse com medo.

— Cuide bem dela — repetiu Consuelo, antes de fechar os olhos e cair no sono novamente. Não se mexeu até Annabelle voltar para o quarto, uma hora depois, e verificar se ela estava com febre. Para seu grande desalento, estava mais alta, e tentava sinalizar isso para Josiah quando a mãe abriu os olhos.

— Está se sentindo melhor? — perguntou Annabelle com um grande sorriso, mas Consuelo balançou a cabeça, negando. A filha teve a terrível sensação de que ela estava desistindo de lutar. E, até o momento, nada do que fizeram havia adiantado.

Josiah voltou então para o apartamento e pediu a Annabelle para telefonar à noite, caso houvesse algo em que ele pudesse ajudar. Annabelle prometeu que ligaria. E, ao deixar a casa dos Worthingtons, Josiah foi assombrado pelo que Consuelo dissera. Ele tinha toda a intenção de cuidar de Annabelle. E o fato de ele ser tudo o que ela possuía no mundo, além da mãe, não lhe passara despercebido. De certa maneira, se a mãe dela morresse, isso lhe seria um grande fardo.

Na véspera de Ano-Novo, o médico lhes disse que Consuelo estava com pneumonia. Era o diagnóstico que Josiah mais temia desde o princípio. Consuelo era uma mulher saudável e não tinha tanta idade, mas a pneumonia era uma enfermidade perigosa, e ele tinha a sensação de que a sogra estava bastante disposta a deixar a vida escapar, e todos sabiam o porquê. Ela parecia estar escapulindo diante de seus olhos, e eles não podiam vencer a batalha sozinhos. Precisavam da ajuda dela e, mesmo assim, não era garantia de que daria tudo certo. Annabelle estava apavorada sentada ao lado da cama da mãe. Só parecia se recuperar quando Consuelo estava acordada, e tentava convencê-la a comer e a beber, garantindo que melhoraria logo. Consuelo não fazia comentários, mal comia o suficiente e continuava sendo assolada pela febre. Definhava dia após dia, enquanto a febre se recusava a ceder. Blanche parecia tão devastada quanto Annabelle ao levar bandejas com comida para o quarto, e a cozinheira tentava fazer refeições que Consuelo comesse. A situação era assustadora para todos.

E, no dia 6 de janeiro, Consuelo placidamente desistiu da luta. Dormiu no começo da noite, depois de um dia longo e penoso. Estava segurando a mão de Annabelle, depois de conversar um pouco com a filha naquela tarde. Consuelo havia sorrido para ela antes de pegar no sono e disse que a amava. Annabelle estava cochilando na cadeira ao lado dela às oito horas daquela noite, quando de repente sentiu algo diferente e acordou assustada. Viu a expressão serena no rosto da mãe e ofegou, percebendo imediatamente que ela não estava respirando. A febre havia desaparecido e levado a vida de Consuelo. Annabelle tentou sacudir a mãe para que acordasse, mas viu que era inútil. Ajoelhou-se à cabeceira, segurando a forma sem vida em seus braços, e soluçou. Era o adeus final que jamais pudera dar ao pai e ao irmão. Ela começou a chorar, estava inconsolável.

Blanche entrou no quarto pouco tempo depois e começou a chorar também. Afagou o rosto de Consuelo, depois tirou Annabelle dali e mandou Thomas buscar Josiah. Ele chegou à casa dos Worthingtons minutos depois e fez tudo o que podia para confortar a esposa. Sabia muito bem como era grande a perda e o quanto a esposa amava a mãe.

O médico veio naquela noite assinar a certidão de óbito, e, pela manhã, o agente funerário veio prepará-la. Arrumaram Consuelo com pompa no salão de baile, com flores por toda parte, enquanto Annabelle ficava ao seu lado, devastada, com Josiah segurando sua mão.

Amigos vieram visitá-la durante o dia seguinte todo, depois de ler no jornal a chocante nota informando que Consuelo Worthington havia morrido. A casa estava mergulhada em profundo pesar mais uma vez, tão pouco tempo depois da dupla perda da família. Annabelle percebeu que agora era órfã e, como a mãe dissera, Josiah era tudo o que ela tinha no mundo. Ficou agarrada a ele nos dias seguintes, feito um náufrago, e também no funeral da mãe na Igreja Episcopal de São Tomé. O braço dele estava constantemente ao redor dos ombros dela, e Josiah foi fiel à sua palavra. Não saiu do lado de Annabelle em momento algum, até dormia com ela na cama estreita no quarto que costumava ser dela na casa dos pais. Annabelle não queria voltar para o apartamento deles, insistiu em ficar ali por mais um tempo. Falou sobre a possibilidade de se mudarem para lá, algo que seria natural, mas Josiah achou que seria péssimo e difícil demais para ela. Mas por ora deixou que ela fizesse o que queria. Era uma perda quase inconsolável para Annabelle. Henry estava sempre com eles, o que era um grande conforto para ela também. Fazia visitas frequentes; ele e Josiah conversavam sossegados até tarde da noite na biblioteca ou jogavam cartas, enquanto Annabelle ficava lá em cima deitada, ainda em choque e se lamentando.

Um mês inteiro se passou até Annabelle deixar a casa. Não havia tocado em nada no quarto da mãe. Todas as roupas de Consuelo ainda estavam lá. Josiah estava cuidando da parte financeira. Toda a fortuna de seus pais agora era dela, inclusive a parte que teria sido de Robert. Era uma mulher muito rica, mas isso não lhe servia de consolo. Annabelle não se importava com bens materiais. E embora doesse fazer tal coisa, em março, Josiah teve de lhe relatar uma oferta de compra da casa, de uma família que conhecia o imóvel. Annabelle ficou horrorizada e nem quis ouvir, mas Josiah falou com delicadeza que achava que ela jamais seria feliz lá. Havia perdido todas as pessoas que amava naquela casa, que agora estava repleta de fantasmas. E a oferta era boa, provavelmente melhor do que qualquer uma que conseguiriam se Annabelle decidisse vendê-la mais tarde. Sabia que seria doloroso se desfazer da casa, mas ele achava que era o correto a fazer.

— Mas onde vamos morar? — perguntou ela, angustiada. — Seu apartamento será muito pequeno para nós quando tivermos uma família, e não quero outra casa. — Era forte sua inclinação para recusar a oferta, mas também reconhecia a verdade do que ele dissera. Ela e Josiah ainda precisavam de uma casa, mas não haviam feito nada a esse respeito, já que Josiah não estava pronto para ter filhos, e tudo o que ela veria naquela casa seriam os fantasmas dos pais e do irmão. Mesmo que a preenchessem com crianças, isso nunca equilibraria completamente a tristeza que aquele ambiente guardava.

Conversou sobre o assunto com Hortie, que estava grávida do terceiro filho e enjoada outra vez. Reclamava que James a transformara em uma fábrica de bebês, mas seus próprios problemas pareciam mínimos comparados aos de Annabelle, por isso tentou aconselhá-la da maneira mais sensata que pôde. Achava que Josiah estava certo, e que ele e Annabelle deveriam vender a mansão dos Worthingtons e comprar uma casa nova, que não lhe trouxesse recordações ruins ou tristes.

Partiu-lhe o coração, mas, depois de duas semanas, Annabelle concordou. Nem conseguia imaginar desistir da casa na qual foi tão feliz quando criança, mas o lugar agora exalava perda e pesar. Josiah prometeu cuidar de tudo para ela e garantiu que encontrariam uma casa nova, ou talvez até construíssem uma, o que seria um projeto feliz para eles. E quaisquer questões que existiam entre os dois ficaram de lado durante o período de luto. Ela já não estava mais preocupada em começar uma família. Não tinha cabeça para pensar em nada, a não ser em sua dor.

Passou o mês de abril todo empacotando os pertences da família e mandando tudo para um depósito. E quando se deparava com algo que não tinha valor para ela, separava o objeto para ser vendido em leilão. Os criados, Josiah e Henry eram incansáveis no esforço para ajudar Annabelle, que passava horas chorando todos os dias. Não havia ido ao Hospital para Imigrantes de Ellis Island desde a morte da mãe. Sentia muita falta de lá, mas agora estava muito ocupada cuidando da casa dos pais. Tudo o que sobrou foi para o depósito em maio, no aniversário de dois anos do noivado dela e de Josiah. Annabelle cederia a casa em junho e ficaria no chalé em Newport, que insistiu em manter. Ela e Josiah passariam o verão lá.

Seis dias depois de Annabelle fechar a casa em Nova York, os alemães afundaram o Lusitania, matando 1.198 pessoas, uma tragédia terrível no mar, o que reviveu todas as suas lembranças do Titanic, deixando-a novamente abalada. Um primo de Consuelo morreu, Alfred Gwynne Vanderbilt, que ficara para trás para ajudar outras pessoas a entrarem nos botes salva-vidas, como seu pai e seu irmão haviam feito no Titanic. E como eles, Alfred perdeu a vida quando o navio explodiu e afundou em menos de vinte minutos. Duas semanas depois, a Itália entrou na guerra ao lado dos Aliados. E havia histórias terríveis nos jornais sobre o uso de gás asfixiante no front e dos danos incalculáveis aos homens atingidos por ele. Toda a Europa estava desestruturada, o que parecia refletir o desespero e a angústia que Annabelle sentia.

Ela passou o resto de maio no apartamento de Josiah antes de partir para Newport, em junho. Levou Blanche e os criados da mãe que ainda restavam para Newport. Ao fim do verão, a maior parte deles estaria em outros empregos, e a vida como ela havia conhecido teria mudado para sempre. Blanche e William, o mordomo, ficariam em Newport com alguns outros.

Josiah havia prometido ir para Newport em meados de junho, estava planejando tirar mais dias de férias que de costume naquele ano, pois sabia que Annabelle precisava dele. Ela parecia desolada ao deixar a cidade. A casa que ela tanto amava já estava em outras mãos.

Uma vez em Newport, Annabelle visitou Hortie, que havia chegado cedo com as crianças, a babá e a mãe. Embora com apenas seis meses de gravidez, estava imensa outra vez, e Annabelle parecia inquieta demais para passar muito tempo com ela. Sentia-se triste e ansiosa desde a morte da mãe, e era difícil ficar em Newport sem ela. De certa forma, era como um replay do verão depois do Titanic, portanto, ficou aliviada quando Josiah chegou.

Ficaram na casa da falecida Consuelo, e não na de Josiah, e ocuparam o quarto de solteira de Annabelle. Davam longos e silenciosos passeios à beira-mar. Ele estava quase tão pensativo e silencioso quanto ela, mas Annabelle não o pressionou. Josiah às vezes ficava assim, taciturno, deprimido até. Nenhum dos dois andava muito animado. Ela perguntou quando Henry viria vê-los, esperando que isso o alegrasse, mas ele foi vago e disse que não tinha certeza.

Josiah já estava ali havia quase uma semana quando, sentados junto à lareira, virou-se enfim para Annabelle e disse que precisava conversar com ela. Annabelle sorriu, imaginando o que ele iria dizer. Agora, na maior parte do tempo, falavam sobre a guerra. Mas, desta vez, Josiah suspirou fundo, e Annabelle viu lágrimas em seus olhos quando ele se virou para ela.

— Você está bem? — perguntou Annabelle, ficando preocupada de repente, mas tudo o que ele fez foi balançar a cabeça devagar. Seu coração afundou quando ouviu as palavras dele.

— Não, não estou.