Uma Mulher Livre
Capítulo 22
Houve uma epidemia branda de gripe em Paris naquele verão, atribuída por alguns ao calor, e Annabelle estava com vários pacientes no hospital. Visitava-os duas vezes por dia, mas esperava viajar com Consuelo e Brigitte em agosto. Não conseguia se decidir entre Dordogne, Brittany ou o sul da França. Por fim, não foram a nenhum desses lugares. Ela tinha muitas pessoas doentes de quem cuidar. Em vez disso, foram para Deauville, na costa da Normandia, onde passaram alguns dias, quando seus pacientes se recuperaram.
E depois que voltaram, mais dois pacientes seus foram hospitalizados com pneumonia. Certo dia, saiu do hospital já no fim da tarde, pensando na paciente que acabara de visitar, uma idosa que não estava nada bem. Annabelle tentava encontrar novas soluções para os inúmeros problemas daquela paciente quando esbarrou em alguém que subia a escadaria do hospital. Trombaram com tanta força que o homem quase a jogou no chão, mas conseguiu segurá-la antes que ela rolasse pela escada.
— Ah, sinto muito — disse ela em tom de desculpas. — Não estava prestando atenção.
— Nem eu. — Ele também soou arrependido e exibia um sorriso deslumbrante. — Veio visitar alguém? — Era um engano da parte dele, então ela riu.
— Não, sou médica. — Pelo menos ele não tinha perguntado se ela era enfermeira.
— Que feliz coincidência — disse ele, sorrindo para ela. — Eu também. Por que nunca tive a felicidade de conhecê-la antes? — Era muito charmoso, e Annabelle não estava acostumada a flertar com homens daquela maneira. Já fazia anos que se escondia por trás do papel de médica, como viúva ou mãe de Consuelo. Os homens jamais flertavam com ela, mas aquele homem parecia travesso e divertido, além de ser inegavelmente muito bonito. — Qual a sua especialidade? — perguntou-lhe com interesse, nem um pouco incomodado por não terem sido apresentados formalmente. Disse que se chamava Antoine de St. Gris e perguntou o nome dela, ao que ela respondeu. Recusou-se a acreditar que ela era americana, já que falava um francês impecável.
— Sou clínica geral — respondeu com simplicidade, mas embaraçada por estar falando com um estranho.
— Sou cirurgião ortopédico — falou ele, com visível petulância. Annabelle sabia que a maior parte dos cirurgiões ortopédicos possuía um ego enorme, exceto durante a guerra, quando ficaram abatidos, como todo o mundo, pelo que viram, e com o pouco que poderiam reparar.
Ele a conduziu pela escadaria do hospital, para garantir que não caísse, brincou Antoine, e a acompanhou até o carro que ela mesma dirigia.
— Terei a felicidade de vê-la novamente? — perguntou ele com olhos cintilantes, o que a fez rir.
— Se eu quebrar a perna, chamo você.
— Não espere até lá. Ou terei de desenvolver pneumonia e chamar você. E seria uma grande lástima. Prefiro vê-la enquanto nós dois estamos saudáveis. — Ele acenou quando ela partiu e correu de volta para a escadaria do hospital. O fato de um homem ter conversado com ela trouxe um pequeno brilho ao seu dia. Aquilo raramente acontecia, ou melhor, quase nunca.
Passou uma noite tranquila lendo para Consuelo, antes de colocá-la na cama. E, no dia seguinte, no consultório, estava atendendo os pacientes quando Hélène disse que havia um médico na sala de espera exigindo vê-la imediatamente. Ele disse que queria consultá-la a respeito de um caso. Annabelle terminou sua consulta e foi vê-lo, intrigada. Não conseguia imaginar quem era. E lá estava Antoine de St. Gris num belo sobretudo azul, criando confusão em sua sala de espera, entretendo os pacientes, muitos dos quais estavam rindo. Antoine estava contando piadas, e Annabelle o levou para dentro do consultório por um instante.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou-lhe com um sorriso embaraçado. Ficou contente por vê-lo de novo, mas estava trabalhando. — Estou atendendo meus pacientes.
— Estou muito impressionado. Acho que peguei uma gripe grave na noite passada. Estou com a garganta bastante inflamada. — Ele colocou a língua para que ela o examinasse ao falar isso. E Annabelle riu dele. Era escandaloso, irreverente e embaraçosamente charmoso.
— Você me parece normal.
— Como está sua perna? — perguntou ele.
— Minha perna? Boa. Por quê?
— Parece-me quebrada. Deixe que eu dê uma olhada. — Ele fez como se pretendesse levantar a barra de sua saia, e Annabelle se afastou dele, rindo.
— Doutor, devo pedir que saia. Tenho de atender meus pacientes.
— Bem, se vai ser assim. Então aceite jantar comigo esta noite.
— Hã... Não devo... Não posso...
— Nem consegue pensar numa desculpa decente. — Antoine riu dela. — É realmente patético. Venho buscá-la às oito. — E, dito isso, saiu do consultório, passou pela sala de espera, acenou para os pacientes e foi embora. Ele foi completamente devastador, muito impróprio e, apesar disso, ou talvez por causa disso, muito atraente, quase irresistível, de fato.
— Quem era aquele homem? — perguntou Hélène com ar de desaprovação, antes de chamar o próximo paciente.
— Ele é cirurgião ortopédico.
— Isso explica tudo — resmungou Hélène, notando então a expressão abobalhada na face de sua patroa. Nunca a vira daquele jeito. — Ele é um lunático — acrescentou, mas sorriu apesar de tudo. — Mas um lunático bonito. Vai vê-lo outra vez?
Annabelle corou.
— Esta noite. Vamos sair para jantar.
— Uh-oh. Tenha cuidado com ele — avisou Hélène.
— Terei — garantiu-lhe Annabelle, voltando em seguida para seus pacientes.
Chegou em casa depois das sete da noite, após atender o último paciente e fechar o consultório. Consuelo estava na banheira, rindo com Brigitte. Annabelle olhou no relógio e percebeu que tinha menos de uma hora para se vestir para jantar com o ligeiramente devastador Dr. St. Gris. Foi dar um beijo em Consuelo, que queria jogar cartas com a mãe depois do banho.
— Não posso — desculpou-se Annabelle. — Vou sair.
— Vai sair? — Consuelo parecia chocada. Era algo muito incomum. De fato, nunca acontecia, exceto uma vez ou outra, quando Annabelle ia a alguma reunião de médicos, ou a uma conferência sobre medicina. Fora isso, nunca saía, e não tinha vida social, não desde que deixara Nova York há nove anos. Então aquele anúncio era praticamente uma bomba. — Aonde vai?
— Jantar com um médico — disse inocentemente.
— Ah. Onde? — Consuelo queria saber tudo, e a mãe parecia ligeiramente embaraçada.
— Não sei. Ele vem me buscar às oito.
— Ele vem? Como ele é?
— Ele é só um amigo — disse Annabelle, sendo vaga. Não queria mencionar que ele era muito bonito. Então deixou o banheiro e foi se vestir. Estava uma noite quente. Vestiu um conjunto de linho branco que havia comprado em Deauville e colocou um chapéu muito bonito que encontrara na mesma loja. Sentia-se um pouco boba por se arrumar tanto, mas não era todo dia que era convidada para jantar, e não poderia vestir o conjunto nem o chapéu para trabalhar.
Antoine de St. Gris chegou pontualmente às oito, e Brigitte o deixou entrar. Ela o convidou a sentar na sala de visitas, e, tendo ficado desacompanhada por cinco minutos, Consuelo desceu saltitando a escada de camisola e roupão. Entrou na sala de estar e sorriu para ele, enquanto Brigitte tentava sem sucesso mandá-la de volta para cima.
— Olá — disse ela, alegre. — Você é o médico que vai jantar com a minha mãe? — Faltavam-lhe dois dos dentes da frente naquele momento, o que a deixava muito bonitinha.
— Sim, sou eu. O que aconteceu com seus dentes? — perguntou Antoine, olhando diretamente para ela.
— Eu perdi eles — disse ela com orgulho.
— Lamento ouvir isso — respondeu ele, sério. — Espero que os encontre logo. Seria muito incômodo crescer sem dentes. Como conseguiria comer uma maçã?
Ela deu uma risadinha.
— Não, eu não vou encontrar eles. Uma fada levou e me deixou um doce no lugar. Vou ganhar outros novos em breve. Já consigo sentir... olha. — Ela virou a cabeça num ângulo engraçado, meio para baixo, e mostrou para ele as pontinhas brancas aparecendo nas gengivas.
— Ah, fico muito contente — disse Antoine com um grande sorriso no momento em que Annabelle entrou na sala e viu a filha conversando animadamente com ele.
— Já se conheceram? — perguntou ela, parecendo um pouquinho nervosa.
— Não oficialmente — confessou ele, para em seguida curvar-se elegantemente para Consuelo. — Antoine de St. Gris — disse em tom formal. — É uma honra conhecê-la, particularmente agora que vai ganhar dentes novos. — Ela deu outra risadinha. Annabelle apresentou a filha, que fez uma perfeita mesura para Antoine.
— Pronta? — perguntou ele para Annabelle, que assentiu. Ela beijou Consuelo, mandando-a subir para a cama, pois já havia jantado antes de tomar banho. Consuelo subiu correndo a escada acenando para o convidado, enquanto Annabelle o acompanhava até o carro. — Sinto muito — disse ele, sério, enquanto a conduzia ao belo Ballot Open Tourer azul que havia estacionado lá fora. Era um carro muito elegante que combinava com ele perfeitamente. Tudo a respeito dele era elegante, lisonjeiro e seguro. — Não devia mais levá-la para jantar. Estou comprometido. Acabei de ficar perdidamente apaixonado pela sua filha. Acho que é a criança mais adorável que já vi. — Annabelle sorriu ao ouvir isso.
— Você tem muito jeito com crianças.
— Fui uma, há muito tempo. Minha mãe garante que ainda sou e que nunca cresci. — Annabelle podia ver por que ela dizia isso, mas a meninice era parte de seu charme. Imaginou quantos anos teria, e supôs que seria cerca de 35, o que significava que era quatro anos mais velho que ela. Eram bastante próximos em idade, mas Annabelle tinha um comportamento muito mais sério e reservado. Gostava de sua jovialidade e de seu senso de humor. Os pacientes em sua sala de espera também o amaram. O mesmo acontecia com os pacientes dele.
Conversaram tranquilamente enquanto ele dirigia até o Maxim’s. Annabelle jamais estivera lá, mas sabia que era um dos melhores restaurantes de Paris, um lugar bem requisitado, que existia desde sempre.
Quando chegaram, ficou óbvio que o cirurgião era bastante popular ali. O maître reconheceu Antoine, que tinha conhecidos em várias mesas e apresentou Annabelle para as pessoas, orgulhoso. Apresentou-a como Dra. Worthington, o que sempre a fazia se sentir importante. Havia batalhado muito por seu título.
Ele imaginou o que ela provavelmente gostaria de comer e pediu o jantar para ambos, e uma garrafa de champanhe. Annabelle raramente bebia, mas o champanhe fazia a noite parecer uma celebração. Não saía com um homem para uma noite assim desde que tivera um relacionamento com Josiah, dez anos atrás. Sua vida fora inteiramente diferente ali na França, no front, na escola de medicina, e agora como mãe de Consuelo, mas de repente ali estava ela, no Maxim’s, com Antoine. Era algo completamente inesperado, um regalo.
— Há quanto tempo é viúva? — perguntou ele com delicadeza durante o jantar.
— Desde antes de Consuelo nascer — respondeu ela simplesmente.
— É um longo tempo para se estar sozinha, presumindo que viveu sozinha desde então — comentou ele, sondando um pouco. Estava curioso a respeito dela. Era uma mulher incomum: bonita, distinta, claramente bem-nascida e médica. Jamais conhecera mulher parecida, e sentia-se muito atraído por Annabelle.
— Sim — confirmou ela, e, de fato, estava sozinha desde muito antes. Nove anos, desde que fora abandonada por Josiah, mas não podia lhe contar isso.
— Não deve ter ficado casada por muito tempo — disse ele, parecendo pensativo.
— Só alguns meses. Ele foi morto no front logo depois que nos casamos. Nós nos conhecemos quando eu estava trabalhando em Villers-Cotterêts, no hospital que Elsie Inglis montou lá, com equipe médica feminina.
— Você já era médica na época? — Antoine parecia confuso, pois tal fato a tornaria mais velha do que parecia. E ela lhe parecia muito jovem.
— Não. — Ela sorriu. — Apenas uma socorrista. Deixei a escola de medicina para trabalhar lá. Trabalhei na Abbaye de Royaumont antes disso, em Asnières. Voltei para a escola de medicina depois que Consuelo nasceu.
— Você é uma mulher muito ousada, e muito corajosa — disse ele, parecendo impressionado, enquanto saboreavam o jantar, que estava delicioso. Ele havia pedido lagosta para ele, e ela degustava um delicado prato de vitela. — O que fez você querer ser médica? — Queria saber tudo a respeito dela.
— A mesma coisa que você, provavelmente. Amo ciências e medicina desde que era criança. Só nunca pensei que teria a chance de exercer a profissão. E você?
— Meu pai e meus dois irmãos são médicos. E minha mãe devia ter sido. Ela sempre nos diz o que fizemos de errado. E tenho de admitir que ela às vezes está certa. — Antoine riu. — Ela ajuda meu pai no consultório há anos. Mas por que está trabalhando aqui e não nos Estados Unidos? — Ele ainda não conseguia acreditar que ela não era francesa, pois falava a língua como uma nativa. Nunca teria suspeitado que era americana.
— Não sei. Não aconteceu lá. Eu vim para cá para ser voluntária nos esforços de guerra. E depois simplesmente aconteceram várias coisas. Um dos cirurgiões em Asnières me ajudou a entrar na escola de medicina em Nice. E eu nunca teria conseguido fazer isso se meus pais estivessem vivos. Minha mãe nunca ficou feliz com meu fascínio pela medicina. Achava que eu acabaria contraindo uma doença. Trabalhei com imigrantes em Nova York.
— Ora, sorte a minha que tenha vindo para cá. Acha que voltará para os Estados Unidos um dia?
Annabelle meneou a cabeça solenemente.
— Não me restou ninguém lá. Toda a minha família se foi.
— Isso é muito triste — disse ele, solidário. — Sou muito próximo da minha. Ficaria perdido sem ela. Somos uma espécie de tribo. — Annabelle gostou do que ouviu. Pareciam ser acolhedores e amigáveis, e se eram tão divertidos quanto Antoine, provavelmente formavam um grupo animado. — E a família de seu finado marido? Você os vê?
— Muito pouco. Vivem na Inglaterra. Mas a avó de Consuelo nos visitou recentemente. É uma mulher muito simpática. — Mas ela não contou que tinha sido a primeira vez que se viram.
Havia muita coisa em sua história que não podia ser contada. Que seu verdadeiro marido a deixara por ser apaixonado por outro homem. Que eles tinham se divorciado por causa disso. Que tinha sido violentada e jamais fora casada com o pai de Consuelo. A verdade era muito mais chocante que a versão que contava. O pior era que estava pagando por pecados que não cometera, e os pagaria pelo resto da vida. Antoine era tão sereno que ela achava que ele não ficaria tão chocado com a verdade quanto outros homens talvez ficassem. Mas, mesmo assim, Annabelle não falaria nada. A história que contou era muito respeitável, e não havia razão para ele suspeitar do contrário. Tudo o que dizia era altamente verossímil, e ela parecia tão correta que ninguém jamais esperaria menos dela.
Antoine comentou durante o jantar que nunca havia se casado. Sua especialização em cirurgia ortopédica o manteve na escola de medicina por um longo tempo, ele havia estudado na Faculté de Médecine em Paris. Havia treinado no hospital Pitié-Salpêtrière, e a guerra interrompera seus estudos por algum tempo. Ele deixou escapar que havia sido condecorado duas vezes durante a guerra. Apesar do estilo brincalhão, era uma pessoa impressionante, e era óbvio que achava o mesmo de Annabelle. Durante o jantar, tiveram uma conversa agradável, e Annabelle achava que ele era um presente dos céus. Estava feliz por quase ter sido jogada no chão por ele na escadaria do hospital, do contrário, nunca o teria conhecido. E ele parecia igualmente contente por tê-la encontrado.
Quando a levou para casa, perguntou se podia vê-la de novo. Ela de fato não possuía quaisquer compromissos conflitantes, pelo resto da vida, exceto jantar com Consuelo e passar as noites com a filha. Então Antoine prometeu ligar no dia seguinte e convidá-la para jantar. E, para sua grande surpresa, ele cumpriu a promessa.
Ela estava sentada à sua mesa, preenchendo os arquivos dos pacientes que atendera naquela manhã, quando Hélène lhe disse que ele estava na linha. Antoine a convidou para jantar no sábado, dali a dois dias. Ele era um inesperado prazer em sua vida. E perguntou se, no domingo, ela e Consuelo gostariam de almoçar com seus dois irmãos e os filhos deles, na casa de seus pais. Era um convite muito tentador. E comentou com a filha naquela noite. A menina ficou encantada. Consuelo havia achado muito divertida a conversa sobre os dentes dela. Olhou então para a mãe de maneira pensativa e disse que ele era simpático. Annabelle concordou com ela.
No sábado, Antoine a levou ao La Tour d’Argent para jantar, era ainda mais elegante que o Maxim’s. Ela usou um vestido preto bem simples e bem-talhado, e o anel de esmeralda que Lady Winshire lhe dera. Annabelle não possuía outras joias na França, mas parecia muito elegante como estava. Sua beleza natural era mais impactante que qualquer coisa que usasse. Os dois tiveram mais uma noite maravilhosa e conversaram quase até meia-noite sobre vários assuntos — a guerra, práticas cirúrgicas, medicina, a reconstrução da Europa. Ele era uma companhia fascinante e divertida.
O domingo que passaram com Antoine foi ainda melhor. Descobriu que a casa dos pais dele ficava a poucos quarteirões da dela. Os irmãos eram tão divertidos quanto ele, e suas esposas, muito agradáveis. As crianças regulavam idade com Consuelo, e a família de Antoine inteira falava sobre medicina constantemente, o que Annabelle adorou. A mãe era uma ditadora benevolente que tentava organizar a vida de todos. Ralhava constantemente com Antoine e revirava os olhos de desgosto por ele ainda não ser casado, o que não deixou de comentar. Parecia aprovar Annabelle, e não conseguiu acreditar que a moça não era francesa. Deixou Consuelo sentar em seu colo, assim como todas as crianças faziam, depois colocou todas para brincarem no jardim. Quando Antoine levou Annabelle e Consuelo para casa, as duas estavam exaustas mas felizes, depois de um dia maravilhoso.
— Obrigado por aturar a minha mãe — disse ele com um sorriso. — Não costumo levar ninguém para almoçar lá no domingo. A maior parte das mulheres sairia correndo.
— Eu adorei — disse Annabelle, sendo honesta. Sentia tanta falta de sua própria família que considerou a dele uma verdadeira bênção, e era maravilhoso para Consuelo conviver com famílias como aquela, com tias, tios, primos e avós. Era tudo o que lhes faltava. E a menina havia aproveitado cada minuto, muito mais que a mãe. — Obrigada por nos convidar.
— Faremos isso de novo — prometeu ele. — Ligarei para marcarmos de jantar essa semana. — E não quero apenas um jantar, e sim vários. De repente, Antoine se tornara uma grande atração em sua vida e, Annabelle precisava admitir, ele a fazia feliz. E a família dele, aos seus olhos, era um bônus.
Ele ligou na terça convidando-a para jantar na sexta à noite e sugeriu que fossem almoçar no La Cascade, um dos mais antigos e melhores restaurantes de Paris, no sábado, e com a família dele novamente no domingo, caso ela achasse que ia suportar. Antoine estava causando um grande agito em seus dias.
E todos os encontros eram absolutamente perfeitos. O jantar na sexta-feira, no Ritz, foi magnífico, assim como os dois encontros anteriores. O almoço no La Cascade foi suntuoso e relaxante, e depois eles foram passear nos Jardins de Bagatelle e admirar os pavões. Quando, mais tarde, ele a levou para casa, Annabelle o convidou para um jantar improvisado com ela e Consuelo na cozinha. E, depois disso, Antoine jogou cartas com Consuelo, que gritou de alegria quando o venceu, o que Annabelle suspeitava ter sido forjado.
O domingo com a família dele foi ainda melhor que o anterior. Os familiares de Antoine eram um exemplo clássico da burguesia francesa, com todas as suas opiniões, visões políticas, regras veladas e etiqueta, e sólidos valores familiares, o que ela adorava. Annabelle era tão tradicional quanto eles e gostou de conversar com as duas cunhadas de Antoine antes do almoço, trocando informações sobre as crianças.
Depois do almoço, ela participou de discussões médicas com os irmãos de Antoine, um dos quais havia sido cirurgião em Asnières, embora nunca tivessem se encontrado, pois ela já estava na escola de medicina quando ele fora designado para lá. Todos ali pareciam ter muito em comum, e Annabelle se encaixava bem.
No fim de semana seguinte, Antoine a convidou para ir a Deauville com Consuelo. Havia reservado quartos separados. Consuelo ficou nas nuvens com a ideia; Annabelle também. Hospedaram-se em um hotel maravilhoso, passearam juntos pelo calçadão, pegaram conchas, olharam todas as lojas e provaram pratos deliciosos com frutos do mar. Quando voltaram, Annabelle disse que não sabia como lhe agradecer. Consuelo subiu com Brigitte, meio sonolenta após a longa viagem. Annabelle e Antoine ficaram no pátio. Ele a fitava com carinho. Tocou-lhe o rosto com seus longos dedos de cirurgião e depois a beijou, puxando-a em seguida para seus braços.
— Eu me apaixonei por você, Annabelle — murmurou ele, parecendo chocado consigo mesmo, mas ela também ficou abalada com o que Antoine disse. Sentia-se do mesmo jeito. Jamais conhecera alguém tão maravilhoso quanto ele, ou que fosse tão gentil com ela e com a filha. Jamais se sentira assim por alguém, nem mesmo por Josiah, que sempre fora muito amigo, e não tão romântico. Antoine havia lhe tirado o chão, ela estava tão apaixonada quanto ele. E tudo havia acontecido muito depressa. Ele a beijou outra vez e sentiu que Annabelle estava tremendo. — Não tenha medo, minha querida — disse ele, tentando tranquilizá-la. E acrescentou: — Agora sei por que nunca me casei. — Ele a fitou com um sorriso grande e vagaroso. Era o homem mais feliz do mundo, e ela, a mulher mais feliz. — Eu estava esperando por você — murmurou, ainda com Annabelle em seus braços.
— Eu também — disse ela, entregando-se ao abraço dele. Sentia-se completamente segura com ele. Uma coisa que sabia sobre Antoine, e na qual podia confiar sem medo, era que ele jamais a magoaria. Nunca esteve tão segura a respeito de uma pessoa na vida.