Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 25 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 21

 

Fiel à promessa feita a Consuelo, Annabelle sentou-se para escrever uma carta para Lady Winshire. Não sabia o que dizer ou como começar o assunto. A verdade — que havia sido violentada pelo filho dela, tendo mais tarde uma filha ilegítima — não lhe parecia uma introdução muito atraente, tampouco o pareceria para Lady Winshire. Mas não queria mentir para a nobre senhora. Por fim, escreveu uma versão extremamente reduzida e simplificada, mas aceitável. Não queria exatamente ver Lady Winshire, ou sequer que Consuelo a conhecesse, mas ao menos queria dizer à filha que havia tentado.

Escreveu que ela e Harry haviam se conhecido durante a guerra em Villers-Cotterêts, no hospital no qual ela trabalhava. Esse tanto era verdade, embora dizer que fora atirada em degraus de pedra e violentada por ele teria sido mais preciso. Disse então que não se conheciam muito bem e que não eram amigos — o que também era verdade —, e que um infeliz incidente havia acontecido — extremamente verdade —, e o resultado foi que ela teve um bebê, uma menininha, seis anos atrás. Contou então que não havia entrado em contato antes porque não queria nada deles. Explicou que era americana, que havia vindo para Paris como voluntária e que seu encontro com Harry, e a gravidez resultante disso, foi uma daquelas infelizes consequências da guerra, mas que sua filha era uma criaturinha maravilhosa que recentemente havia perguntado sobre a avó paterna, o que era uma situação extremamente difícil para Annabelle também. Disse que não queria mentir mais do que já havia mentido. Que a menina acreditava que os pais haviam sido casados, o que não era o caso. E Annabelle então sugeriu, caso Lady Winshire estivesse disposta a ter contato com a neta, que mandasse uma carta ou um bilhete para Consuelo, ou talvez até uma fotografia. Podiam deixar as coisas assim. Assinou a carta como “Dra. Annabelle Worthington”, para que a mulher soubesse pelo menos que ela era uma pessoa respeitável, não que isso importasse realmente. O filho dela é que não havia sido nada respeitável e devia ter sido preso, mas, em vez disso, foi pai da criança mais encantadora do mundo, portanto Annabelle não podia odiá-lo por isso. De certa forma, seria grata a ele para sempre, mas Harry não era uma recordação feliz.

Depois de enviar a carta, Annabelle esqueceu-se daquilo. O mês de maio foi bastante atribulado, e sua sala de espera estava constantemente cheia. Não recebeu resposta de Lady Winshire, e, no momento, Consuelo parecia ter se esquecido do assunto. Havia começado a frequentar a escola diariamente naquele inverno, o que dava a Brigitte tempo para ajudá-las no consultório.

Annabelle havia acabado de retornar da visita a um paciente no hospital quando Hélène lhe disse que uma mulher estava esperando por ela. Estava lá havia duas horas e se recusara a dizer do que se tratava. Annabelle presumiu que ela provavelmente tinha algum problema embaraçoso. Colocou seu jaleco branco, sentou-se à mesa e pediu que Hélène a deixasse entrar.

Dois minutos depois, Hélène escoltava uma idosa de proporções impressionantes. Era uma mulher volumosa, de voz forte, com um chapéu enorme e cerca de seis fios longos de pérolas imensas, e carregava uma bengala prateada. Parecia que iria bater em alguém quando adentrou o consultório. Annabelle se pôs de pé para cumprimentá-la e se obrigou a sorrir. A mulher ignorou a mão estendida e ficou olhando de cara feia para Annabelle. Não parecia doente, e Annabelle não sabia o que ela estava fazendo ali. Mas a mulher foi direto ao assunto.

— Que bobagem é essa de neta? — ladrou a mulher em inglês. — Meu filho não tinha filhos, dependentes, nenhuma mulher importante em sua vida quando morreu. E se você está declarando que teve uma criança com ele, por que exatamente esperou seis anos para me escrever sobre o assunto? — Ao falar, sentou-se na cadeira diante da mesa de Annabelle e voltou a olhá-la de cara feia. Era tão agradável quanto o filho, e Annabelle não ficou satisfeita quando percebeu do que se tratava, pois, em vez de responder à carta, aquela senhora simplesmente aparecera e entrara.

— Esperei seis anos para contatá-la — disse Annabelle com frieza — porque não queria falar com a senhora. — Podia ser tão franca quanto a própria Lady Winshire. Ela aparentava ter uns 70 anos, o que parecia estar correto, já que Harry, se estivesse vivo, estaria agora com cerca de 30. Havia presumido que ele tinha mais ou menos a sua idade na noite em que a violentou. — Escrevi porque minha filha estava triste por não ter uma avó. Ela não consegue entender por que nunca a conhecemos. E eu disse que o pai dela e eu estávamos casados havia pouco tempo, no front, quando ele foi morto. Então nós nunca tivemos tempo de nos conhecer. Isso é muito desconfortável para mim também.

— Foi casada com meu filho? — Lady Winshire parecia pasma.

Annabelle meneou a cabeça devagar.

— Não, não éramos casados. Só encontrei seu filho uma vez. — Dizer aquilo dava à mãe dele uma péssima impressão sua, mas ela não achava que aquela mulher, mesmo sendo desagradável, precisava saber que o filho era um estuprador. Annabelle achava que aquela senhora e Consuelo mereciam que ela mantivesse as aparências, então estava preservando Lady Winshire, às próprias custas. — Prefiro que minha filha continue acreditando que fomos casados. Gostaria ao menos de lhe conceder isso.

— Você era médica na época? — perguntou Lady Winshire, com súbito interesse.

Annabelle meneou a cabeça outra vez.

— Não, não era. Eu era uma socorrista, vinculada à divisão de ambulâncias.

— Como o conheceu? — Algo no olhar dela abrandou. Ela havia perdido os dois filhos na guerra, e não era estranha à perda ou à dor.

— Não é importante — murmurou Annabelle em resposta, desejando que ela não tivesse vindo. — Nunca nos conhecemos realmente. Minha filha foi um acidente.

— Que tipo de acidente? — Ela era como um cão com um osso. E Annabelle era o osso.

Annabelle suspirou antes de responder, tentando decidir o quanto dizer. Claro que não a verdade.

— Ele havia bebido muito.

Lady Winshire não ficou surpresa.

— Ele sempre fazia isso. Harry bebia demais e fazia muitas coisas estúpidas quando estava bêbado. — Seus olhos se fixaram nos de Annabelle. — Que estupidez ele fez com você?

Annabelle sorriu, imaginando que a mãe dele achava que estava sendo vítima de uma tentativa de chantagem, então decidiu tranquilizá-la.

— Não quero nada de você.

— Essa não é a questão. Se é esse o caso, então eu tenho o direito de saber sobre o mau comportamento do meu filho.

— Por quê? Que diferença isso faz? — Annabelle falou com dignidade.

— Você é uma mulher muito generosa — disse Lady Winshire com tranquilidade, recostando-se na cadeira. Parecia estar ali para ficar, até saber a verdade. — Mas eu também conhecia o meu filho. Meu filho Edward era praticamente um santo. Harry era o demônio em nossas vidas. Adorável quando criança, malcomportado quando adulto. Às vezes muito malcomportado. Não melhorava quando ele bebia. Acho que sei quase todas as histórias sobre ele — disse ela, suspirando. — Quis vir vê-la porque ninguém jamais me disse que havia uma criança. Fiquei desconfiada de você quando li sua carta. Pensei que quisesse algo. Posso ver agora que é uma mulher honesta, e que desconfia de mim, como eu desconfiava de você. — A velha senhora exibiu um sorriso frio e passou a mão pelas várias pérolas. — Hesitei em vir — admitiu. — Não queria me envolver com uma mulherzinha vulgar qualquer, que tem um fedelho mal-educado que diz ser herdeiro do meu filho. Mas está claro que não é o seu caso, e tenho a forte sensação de que seu encontro com meu filho foi desagradável, ou pior, e não quero ser para você um lembrete disso.

— Obrigada — disse Annabelle, gostando do que acabara de ouvir. Mas então Lady Winshire a assustou com o que disse.

— Ele a violentou? — perguntou de maneira direta. Aparentemente, ela conhecia bem o filho. A hesitação na sala foi interminável, mas Annabelle enfim assentiu, lamentando dizer a verdade.

— Sim.

— Sinto muito — disse a senhora, com mais gentileza. — Não é a primeira vez que escuto isso — prosseguiu, com pesar maternal. — Não sei o que deu errado. — Seus olhos estavam cheios de aflição enquanto ela e Annabelle se encaravam. — O que fazemos agora? Tenho de admitir que tinha medo do que iria encontrar aqui, mas também não podia resistir a ver minha neta, caso ela realmente existisse. Meus dois filhos estão mortos. Meu marido morreu de pneumonia na última primavera. E nenhum dos meus meninos jamais casou, nem teve filhos. Até você aparecer. — Havia lágrimas nos olhos dela, por isso Annabelle a fitou com compaixão.

— Gostaria de conhecer Consuelo? — perguntou. Depois alertou-a, embora não tivesse tanta importância, já que não estava reivindicando os bens dele: — Ela não se parece com ele. Ela se parece comigo.

— Eu diria que isso pode ser uma grande bênção — falou a senhora, sorrindo. Levantou-se com certa dificuldade e usou a bengala para ficar de pé.

Annabelle se levantou também, contornou a mesa e conduziu Lady Winshire para fora do consultório, depois de dizer a Hélène aonde iriam. Felizmente ela tinha uma brecha entre os pacientes agendados. As duas mulheres atravessaram o pátio em direção à parte principal da casa. Annabelle sabia que Consuelo já teria chegado da escola, então usou sua chave para entrar, ainda vestindo o jaleco branco. Lady Winshire subiu os degraus, ainda do lado de fora, e olhou ao redor quando entraram.

— Sua casa é muito bonita — disse educadamente. Estava impressionada com tudo o que vira. Annabelle tinha bom gosto e estava claro que sua classe era de berço.

— Obrigada — agradeceu Annabelle, guiando-a à sala de estar. Depois subiu depressa a escada para buscar a filha. Disse-lhe que tinham uma convidada que queria lhe dar um olá. Não quis dizer mais nada.

Quando Annabelle e Consuelo desceram a escada, estavam numa conversa animada e de mãos dadas. Ao pé da escada, a menina parou, sorriu com timidez para a convidada, fez uma mesura e foi apertar-lhe a mão. Estava óbvio que era uma criança extremamente educada e bem-comportada, e Lady Winshire olhou com aprovação para Annabelle por cima da cabeça da menina.

— Como vai, Consuelo? — perguntou ela, enquanto a menina reparava no chapéu imenso e nos vários fios de pérola.

— Seu chapéu é muito bonito — disse a menininha, olhando o acessório enquanto a senhora sorria.

— Que coisa gentil de se dizer. É um chapéu bobo, meio velho, mas gosto dele. E você é uma menina muito bonita. — Ela nunca tivera netos, e não falava com uma criança havia anos. — Vim lá da Inglaterra para ver você — prosseguiu, enquanto Consuelo a encarava. — Sabe quem eu sou? — perguntou com carinho, e Consuelo balançou a cabeça. — Sou a avó que nunca conheceu. Sou a mãe do seu pai. — Os olhos de Consuelo estavam arregalados quando olharam para a mãe por cima do ombro, antes de voltá-los para a avó. — Lamento nunca termos nos visto antes. Não vamos mais ficar tanto tempo sem nos encontrarmos — disse Lady Winshire com solenidade. Nunca vira criança tão encantadora, e seus modos eram educados. — Trouxe comigo algumas fotografias do seu pai de quando ele era um garotinho. Gostaria de vê-las? — Consuelo aceitou e sentou-se junto dela no sofá quando Lady Winshire tirou uma pilha de fotografias desbotadas da bolsa, enquanto Annabelle saía em silêncio para pedir a Brigitte que fizesse chá.

Lady Winshire ficou por mais de uma hora e, quando Consuelo subiu com Brigitte, congratulou Annabelle por ter uma filha tão adorável.

— Ela é uma menininha maravilhosa — concordou.

— Meu filho não soube o quanto teve sorte ao esbarrar em alguém como você e deixar uma menininha tão doce no mundo. — Estava olhando para Annabelle com gratidão e compaixão. Havia se apaixonado por Consuelo à primeira vista. Era difícil não se apaixonar pela menina, e, pela primeira vez, Annabelle ficou contente por ela ter vindo, em vez de simplesmente escrever de volta. Havia sido um presente adorável para Consuelo também. — Lamento que ele tenha sido tão mau com você. Havia um lado doce nele. Lamento que nunca o tenha conhecido. Deve ter sido muito difícil para você no começo.

Annabelle assentiu.

— Fiquei no hospital o quanto pude, e depois fui para Antibes. Consuelo nasceu lá.

— E sua família nos Estados Unidos? — Parecia-lhe muito estranho que Annabelle estivesse exercendo a medicina em Paris, e não em casa, embora a gravidez obviamente tivesse complicado tudo para ela.

— Minha família se foi — disse Annabelle. — Todos morreram antes de eu vir para cá. Somos só Consuelo e eu. — Lady Winshire também estava sozinha no mundo. E, de uma forma estranha, agora elas tinham uma à outra.

Ela por fim se levantou e pegou a mão de Annabelle.

— Obrigada por esse presente tão extraordinário — disse, com lágrimas nos olhos. — É um pedacinho de Harry no qual posso me segurar, e Consuelo é uma criança muito especial. — E então abraçou Annabelle e a beijou na face. Annabelle a ajudou a descer a escada e chegar até o carro, o motorista a esperava lá fora. Lady Winshire de repente parecia mais velha do que quando chegou. Mas sorriu para Annabelle novamente antes de partir, deixando, com delicadeza, algo em sua mão. — Isto é para você, minha querida. Você o merece. É só um pequeno presente. — Annabelle tentou resistir, mesmo sem olhar o objeto, mas Lady Winshire insistiu. As duas mulheres se abraçaram de novo, e para Annabelle era como ter uma nova amiga, uma espécie de tia mais velha, maravilhosa e excêntrica. Agora estava contente por lhe ter escrito. Havia sido a coisa certa a fazer, para todas elas.

Acenou quando o carro de Lady Winshire deu partida e só então olhou para o objeto na palma da mão. Tinha sentido que era um anel, mas de forma alguma estava preparada para o tipo de anel que viu. Uma bela e antiga esmeralda de proporções enormes, num antiquado engaste de diamantes. Annabelle ficou impressionada. Parecia com os anéis que sua avó costumava usar, que ainda estavam no cofre do banco em Nova York. Mas ela enfiou o anel no dedo com a aliança de casamento que havia comprado para si mesma. Estava muito sensibilizada com o gesto. Daria o anel para Consuelo um dia, mas, por enquanto, iria usá-lo. E enquanto caminhava de volta para seu consultório, pensou consigo mesma que elas agora tinham uma avó. Ela e Consuelo não estavam mais sozinhas no mundo.