Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 10 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 6

 

Para grande satisfação de Consuelo, atendendo ao desejo de Annabelle, elas convidaram Josiah para a ceia da véspera de Natal. Não era um gesto romântico da parte de Annabelle; ela só achava que ele havia sido gentil com elas e que deveriam fazer algo em retribuição, já que ele estaria sozinho no Natal. Como sempre faziam, vestiram trajes de gala para o jantar. Annabelle e a mãe usavam vestidos de noite e, como orientado, Josiah chegou em um fraque bem-cortado com uma camisa impecavelmente engomada e colete, com belos e antigos broches de pérola e brilhantes e abotoaduras que pertenceram ao avô. E deixou as duas comovidas ao levar presentes.

Annabelle havia comprado um cachecol de caxemira para Josiah, e um livro de receitas, em parte por brincadeira, mas ele disse ter adorado. A jovem ficou embaraçada ao descobrir que o cavalheiro comprara uma linda pulseira para ela na Tiffany e uma bonita echarpe de seda preta para sua mãe.

Tiveram uma noite agradável e acolhedora juntos e sentaram-se diante da lareira depois do jantar. Josiah tomou brandy, as damas beberam eggnog com um toque de rum, uma receita que Arthur sempre fazia. Admiraram a árvore que Consuelo e Annabelle haviam montado. Aquele foi um Natal difícil para elas, devido às circunstâncias, e Josiah evitou falar sobre o andamento dos inquéritos sobre o Titanic, que era notícia constante nos jornais. Sabia que, independentemente do que tivesse acontecido, não gostariam de saber. Não mudaria nada para elas agora.

Annabelle anunciou que Hortie havia voltado da lua de mel naquela tarde e viera correndo contar-lhe que já estava grávida. Hortie tinha certeza disso e disse que ela e James estavam muito felizes, embora ela achasse a ideia um pouco assustadora. Mal havia se tornado esposa e agora seria mãe, perto do fim de agosto, segundo seus cálculos. Hortie disse que o bebê fora concebido em Paris, depois deu uma risadinha enigmática, como a garotinha que ainda era, apesar do novo status, e fez todo tipo de insinuação sobre sua vida sexual que Annabelle não queria ouvir. Hortie disse que sexo era algo fabuloso, que James era incrível na cama, não que tivesse qualquer referencial, mas nunca havia se divertido tanto na vida. Annabelle não mencionou nada disso à sua mãe ou a Josiah, contou apenas que Hortie teria um bebê e que estava muito animada com isso. Ao ouvir aquilo, Consuelo desejou que, um ano depois, no Natal seguinte, Annabelle e Josiah tivessem a mesma notícia para compartilhar, considerando-se que já estariam casados, como ela torcia fervorosamente. Consuelo não conseguia ver motivo para um noivado longo uma vez que a união fosse anunciada.

Antes de ir embora, Josiah disse que iria esquiar em Vermont no Ano-Novo com seu antigo colega de faculdade, Henry Orson. Como eram os últimos homens solteiros entre seus amigos naquela faixa etária, segundo ele, disse que era bom ainda ter companhia para alguns programas. A viagem de Ano-Novo para Woodstock era uma tradição anual, e Josiah estava muito ansioso por ela este ano, pois um novo salto fora acrescentado às rampas. Perguntou se Annabelle sabia esquiar ou caminhar na neve. Ela respondeu que não, mas que adoraria aprender. Um olhar velado foi trocado entre Consuelo e Josiah, que prometeu lhe ensinar um dia. Sugeriu que talvez ele, Annabelle e Consuelo pudessem ir para Vermont juntos. Os olhos de Annabelle se iluminaram, e ela disse que acharia bem divertido. Josiah falou que havia ótimos passeios de trenó em Woodstock também.

Josiah ficou até depois da meia-noite. Depois que ele agradeceu as duas de novo pelos presentes e pela refeição deliciosa, Consuelo desapareceu misteriosamente enquanto a filha e Josiah se despediam. Annabelle o agradeceu profusamente mais uma vez pela pulseira, que ela adorou e que já tinha colocado no braço.

— Fico contente que tenha gostado — disse ele, de forma gentil. — Sei que não deveria usar joias no momento, mas, se sua mãe fizer alguma objeção, talvez possa usá-la depois. — Não era intenção dele ofender Consuelo dando uma pulseira a Annabelle enquanto as duas estavam de luto, mas queria presenteá-la com algo que ela desfrutasse por longo tempo. E não queria dar nada muito exuberante, pois ela poderia suspeitar do que ele tinha em mente. Achou que uma simples pulseira dourada seria discreta, e Annabelle se emocionou com o presente.

— Divirta-se esquiando — disse, enquanto o acompanhava até a porta. Josiah usava um sobretudo preto de corte impecável e um lenço de seda branca sobre o traje, com um chapéu de feltro. Como sempre, estava extremamente elegante. E Annabelle parecia bonita e jovem em seu simples vestido de gala preto.

— Eu ligo quando voltar — prometeu. — Chego depois do dia primeiro. — Ele a beijou com candura na bochecha, e ela fez o mesmo. Depois se despediram.

Annabelle encontrou a mãe na biblioteca, folheando um livro. Era um dos livros do pai que Annabelle já havia lido.

— Por que veio para cá? — perguntou Annabelle, parecendo surpresa. A mãe não era muito dada à leitura, e se voltou para a filha com um sorriso gentil.

— Achei que você e Josiah gostariam de ficar sozinhos para se despedirem. — O olhar de Consuelo era um tanto conspirador, e Annabelle ficou incomodada.

— Josiah? Não seja boba, mamãe. Somos só amigos. Não comece a ter ideias com ele. Arruinaria tudo. Gosto da amizade que temos.

— E se ele quisesse algo além disso? — perguntou Consuelo com ar misterioso, o que fez a filha franzir o cenho.

— Ele não quer. Nem eu. Gostamos das coisas do jeito que estão. Só porque Hortie casou e terá um bebê não significa que eu tenho de fazer o mesmo. Não posso nem sair de casa pelos próximos quatro meses. Então não conhecerei ninguém por enquanto. E quem pode garantir que um dia vou conhecer alguém de quem eu goste e com quem queira me casar? — perguntou Annabelle, abraçando a mãe. — Está tentando se livrar de mim, mamãe? — perguntou com carinho.

— Claro que não, só quero que seja feliz. E nada deixa uma mulher mais feliz que um marido e um filho. Pergunte a Hortie. Aposto que ela mal pode esperar para ter o bebê nos braços.

— Ela parece muito feliz — admitiu Annabelle com um sorriso tímido. — Estava tentando me contar tudo a respeito da lua de mel. Parece que foram dias maravilhosos. — Em grande parte na cama, mas não queria dizer isso à mãe, pois nem mesmo ela queria saber.

— Para quando é o bebê?

— Fim de agosto, eu acho. Ela não tem certeza. Disse que aconteceu em Paris, e que James está muito empolgado também. Ele quer um menino.

— Todos os homens querem. Mas eles se apaixonam é pelas meninas. Seu pai se apaixonou por você assim que a viu. — As duas sorriram com aquela lembrança. Foi um Natal difícil para elas, mas a presença de Josiah ajudou a deixar o clima mais leve. Tudo era mais fácil e agradável quando ele estava por perto.

De braços dados, subiram a escada, foram para seus respectivos quartos e trocaram presentes no dia seguinte. Consuelo havia comprado para a filha um lindo casaco de peles, e Annabelle deu à mãe um par de brincos de safira da Cartier. Era o tipo de presente que o pai dela teria dado, só que o dela estava em uma escala mais modesta. Ele sempre comprava presentes maravilhosos para a família toda. E Annabelle queria de alguma forma compensar a mãe aquele ano, embora soubesse que não poderia substituir tudo o que haviam perdido. Mas Consuelo ficou profundamente comovida com o gesto da filha e com a beleza do presente, então os colocou de imediato.

Desceram juntas e se deliciaram com um farto café da manhã feito por Blanche. Havia nevado na noite anterior, e agora um manto branco cobria o jardim. Depois do café, vestiram-se e saíram para dar um passeio no parque. Seria difícil para as duas passar o dia sozinhas. Haviam perdido metade da família e, em feriados como aquele, a ausência de Arthur e Robert era bastante sentida.

Mas o dia acabou sendo menos sofrido do que imaginavam. Elas estavam tão receosas que tentaram se manter ocupadas. Consuelo e Annabelle almoçaram juntas, jogaram cartas à tarde, e na hora do jantar estavam cansadas e prontas para ir para a cama. Haviam sobrevivido àquele dia, o que era o mais importante. E, antes de dormir, enquanto se trocava, Annabelle se pegou pensando em Josiah em Vermont. Imaginou se ele e Henry teriam chegado lá em segurança e se estavam se divertindo. Adoraria esquiar com eles um dia, como ele havia sugerido. Parecia-lhe um programa divertido. E esperava ter oportunidade de fazer isso um dia, talvez no próximo ano, se conseguisse convencer a mãe a ir.

O resto do feriado foi mais tranquilo que o Natal. Annabelle passou um tempo com Hortie, e a amiga agora só falava sobre o bebê e sobre seu casamento. Poucas coisas além disso a mantinham ocupada. Consuelo parabenizou a jovem quando a encontrou, e Hortie falou animadamente por meia hora sobre Paris e sobre todas as roupas que havia comprado, que muito em breve não iriam lhe servir. Disse que ainda iria para Newport naquele verão, e que não via problemas se o bebê nascesse lá. Ela o teria em casa de qualquer forma, em Newport ou em Nova York. Ouvindo-a falar com Consuelo, Annabelle se sentiu um peixe fora d’água. Não tinha nada com o que contribuir. Hortie agora era uma mulher casada e tinha se tornado mãe da noite para o dia. Mas Annabelle ainda amava a amiga. Hortie lhe trouxera um lindo suéter de Paris, com botões de pérolas. Era cor-de-rosa claro, o que impossibilitava Annabelle de usá-lo antes do verão.

— Não queria comprar um preto — disse Hortie, em tom de desculpas. — É lúgubre demais, e vai poder vestir esse em breve. Espero que esteja tudo bem.

— Adorei! — disse Annabelle, e falou com sinceridade. O suéter tinha uma bela gola de renda, num tom de rosa antigo suave. Parecia fazer um contraste maravilhoso com a pele e o cabelo de Annabelle.

As duas jovens almoçaram juntas vários dias naquela semana e pareciam muito adultas indo ao Astor Court no St. Regis Hotel. Hortie estava levando seu novo estado civil bem a sério, sempre muito bem-vestida e usando as joias que James lhe dera, parecendo imponente. Quando saíam para almoçar, Annabelle vestia o novo casaco de peles que Consuelo havia lhe dado no Natal. Era como se estivesse brincando de vestir os trajes do guarda-roupa da mãe. Estava usando a pulseira que Josiah havia lhe dado de presente.

— Onde arrumou isso? — perguntou Hortie quando a notou. — Gostei.

— Eu também — disse Annabelle. — Josiah Millbank me deu de Natal. Foi muita gentileza da parte dele. Ele deu uma echarpe para mamãe.

— Vocês dois ficaram muito bem juntos no meu casamento. — E de repente os olhos de Hortie se iluminaram quando um pensamento lhe ocorreu. — O que acha dele?

— Como assim? — Annabelle pareceu não entender a pergunta.

— Para você, é o que quero dizer. Você sabe, como marido.

Annabelle riu.

— Não seja ridícula, Hort. Ele tem o dobro da minha idade. Você parece a mamãe. Ela me casaria até com o leiteiro se pudesse.

— O leiteiro é bonito? — Hortie estava achando graça da ideia.

— Não. Tem quase 100 anos e nenhum dente.

— Sério, por que não Josiah? Ele gosta de você e está sempre presente.

— Somos só amigos. Gostamos das coisas como estão. Qualquer coisa além disso estragaria tudo.

— É uma bela pulseira para se dar a alguém que é apenas uma amiga.

— É só um presente, não um pedido de casamento. Ele jantou lá em casa na véspera de Natal. Foi um ano muito triste para nós — disse ela, desviando o assunto.

— Eu sei — concordou Hortie, sendo solidária, esquecendo-se de Josiah no mesmo instante. — Lamento, Belle, deve ter sido horrível. — Annabelle apenas assentiu, e as duas mudaram o rumo da conversa e trocaram opiniões sobre roupas. Hortie não conseguia imaginar o que vestiria quando a barriga estivesse maior. Estava planejando ir à modista da mãe para encomendar algumas peças nas próximas semanas. Disse que sua cintura já estava ficando mais larga e que o espartilho já estava incomodando. E jurava que os seios tinham o dobro do tamanho.

— Talvez sejam gêmeos — sugeriu Annabelle com um sorriso.

— Não seria engraçado? — perguntou Hortie, rindo. Nem conseguia imaginar o que aquilo poderia acarretar, pois tudo era uma grande novidade no momento.

Estava menos empolgada duas semanas depois, quando começou a ter enjoos. E nos dois meses seguintes mal saiu da cama. Sentia-se péssima. Já era meados de março quando finalmente começou a se sentir um pouco mais confortável outra vez. Até então, Annabelle tinha de visitá-la, pois Hortie não saía de casa. Não ia a uma festa desde o Natal, e não estava mais tão feliz com a gravidez quanto antes. Sentia-se gorda e enjoada na maior parte do tempo, o que não era nada divertido. Annabelle ficava sentida pela amiga e levava-lhe livros, flores e revistas. Animar Hortie tornou-se sua principal missão na vida. E por fim, em abril, Hortie levantou da cama. Agora era óbvio que estava grávida, pois já estava com cinco meses. Todas as mulheres da família disseram que era só um bebê, mas ela estava imensa. Sua mãe achava que seria um menino.

Esse era o único assunto de Hortie, que na maior parte do tempo só ficava ali deitada reclamando. Falava que se sentia uma baleia. E disse que James agora mal fazia amor com ela, o que era muito decepcionante. Ele saía sozinho com os amigos na maior parte das noites e havia prometido que, quando o bebê nascesse, eles compensariam essa fase e sairiam muito mais. Mas a mãe dela a lembrou que ela estaria amamentando, e, mesmo que não estivesse, ainda teria um bebê para cuidar. Então crescer não parecia ser nada muito divertido, afinal. Annabelle era infinitamente paciente, ouvindo os lamentos da amiga, pois agora Hortie chorava o tempo inteiro.

Consuelo havia planejado uma cerimônia pelo aniversário das mortes de Arthur e Robert naquele mês. Foi realizada na Igreja da Trindade, como no ano anterior, seguido mais tarde por um almoço em casa. Todos os amigos mais próximos do pai e vários primos estavam lá, inclusive Madeleine Astor, cujo finado marido era primo de Consuelo. Josiah compareceu, claro, junto com todos os funcionários do banco, inclusive Henry Orson.

Josiah havia frequentado muito a casa da viúva e de sua filha nos últimos meses, e se mostrava solícito e agradável, sempre com um gracejo ou um presentinho. Havia comprado para Annabelle uma série de livros de medicina, que ela adorou, e também o livro Gray Anatomia, de Henry Gray. Assim como Hortie, ele havia se tornado seu melhor amigo e agora era sua melhor companhia, já que não estava grávido nem reclamando o tempo todo. Annabelle sempre se divertia com Josiah, que ultimamente a levava para jantar em bons restaurantes. Uma vez passado o luto, ela estava ansiosa por ir a eventos sociais com ele. Não fora a lugar nenhum, a não ser ao casamento de Hortie, por mais de um ano. Antes do naufrágio do Titanic, seus pais ficaram fora por dois meses e ela havia ficado doente por um mês antes disso, então não saía socialmente havia 15 meses. Era muito tempo para alguém da idade dela.

Ela completaria 20 anos em março. E duas semanas depois da cerimônia religiosa em memória do pai e do irmão, Josiah a convidou para o que prometia ser um jantar muito elegante no Delmonico’s, onde Annabelle nunca havia ido. Ela mal podia esperar. Comprou um vestido novo para a ocasião, e a mãe arrumou seu cabelo. Consuelo suspeitava do que estava por vir e, pelo bem dos dois, esperava que tudo corresse bem.

Josiah foi buscá-la às sete da noite. Estava no próprio carro desta vez e, no minuto em que viu Annabelle no vestido novo, assobiou. Era um delicado plissado de seda marfim que deixaria os ombros à mostra se não fosse por um xale de seda branca. Era um grande contraste com o preto sombrio que usou por tanto tempo. Sua mãe ainda estava de luto e disse que ainda não se sentia pronta para abandonar o preto. E Annabelle temia que nunca ficasse, mas estava grata por deixar seus vestidos pretos de lado. Já era hora.

Chegaram ao refinado restaurante às sete e meia e foram conduzidos à mesa em um canto sossegado. Era excitante sair para jantar com Josiah. Mais ainda do que com Hortie, sentia-se muitíssimo adulta ao sentar diante dele à mesa e tirar o xale. Ainda estava usando a pulseira de ouro que ele havia lhe dado no Natal. Nunca a tirava.

O garçom perguntou se ela gostaria de um coquetel, e Annabelle declinou com nervosismo. A mãe lhe avisara para não beber muito, apenas um pouco de vinho. Não causaria uma boa impressão, dissera à filha, se ficasse bêbada no jantar. Annabelle havia achado graça da ideia e disse à mãe que ela não precisava se preocupar. Josiah pediu um uísque com soda, o que surpreendeu Annabelle. Nunca o viu tomar bebidas fortes antes, por isso se perguntou se ele também estava nervoso, embora não conseguisse imaginar o porquê, já que eram tão amigos.

— Gostaria de um champanhe? — ofereceu ele, quando sua bebida chegou.

— Não, estou bem. — Ela deu uma risadinha. — Minha mãe me mandou não ficar bêbada e envergonhá-lo. — Josiah riu também. Não havia nada que não pudessem dizer um ao outro. Discutiram mil assuntos em comum e desfrutaram da companhia um do outro. Os dois pediram a famosa lagosta à Newburg do restaurante, e omelete norueguesa de sobremesa.

Tiveram uma noite adorável e, para acompanhar a sobremesa, Josiah pediu champanhe para os dois. Annabelle sorriu ao tomar um gole. Só havia bebido uma taça de vinho durante o jantar, seguindo o conselho da mãe.

— Delicioso — comentou Annabelle. Ele havia pedido um excelente champanhe. Josiah havia bebido mais do que ela, mas ainda estava sóbrio. Queria estar em seu juízo perfeito para o que tinha a dizer. Esperou por muito tempo, e o dia enfim havia chegado. Seu estômago revirava, mas ele sorriu e fez um brinde.

— A você, Srta. Worthington, e à maravilhosa amiga que se tornou — cumprimentou ele, fazendo-a sorrir.

— A você também — disse ela com gentileza, bebendo outro gole do champanhe. Não fazia a menor ideia do que Josiah tinha em mente. Ele podia ver isso no rosto dela. Annabelle era o retrato da inocência.

— É sempre um prazer estar com você, Annabelle — disse com simplicidade, e era verdade.

— Digo o mesmo — afirmou ela. — Sempre nos divertimos muito. — Começou a falar sobre os livros de medicina que ele lhe dera, mas Josiah a interrompeu com educação, o que a fez encará-lo, surpresa. Geralmente a deixava falar durante horas sobre o que havia aprendido nos livros.

— Tenho algo para lhe dizer. — Annabelle o encarou, pasma, imaginando o que poderia ser. Esperava que não fosse nenhum problema. — Esperei muito tempo para dizer isso. Não achei prudente abordar o assunto antes de abril, por causa do período de luto. E seu aniversário está chegando. Então aqui estamos.

— Estamos comemorando alguma coisa? — perguntou ela, de forma inocente, sentindo-se um tanto tonta por causa do champanhe.

— Espero que sim — murmurou ele. — Isso depende de você. A decisão é sua. O que quero dizer desde o último verão é que estou apaixonado por você. Não quero estragar nossa amizade ou assustá-la. Mas em algum momento me apaixonei por você, Annabelle. Acho que nos damos muito bem juntos, e não posso ficar solteiro para sempre. Nunca conheci uma mulher que tenha me feito querer casar. Mas não posso pensar em base melhor para o casamento do que a amizade, e é justamente o que temos. Então eu gostaria de pedir que me dê a honra de se casar comigo. — Ao dizer isso, viu que a jovem o encarava completamente perplexa. A boca estava ligeiramente aberta e os olhos, arregalados.

— Está falando sério? — perguntou-lhe, quando enfim recuperou o fôlego.

Josiah assentiu.

— Sim, estou. Sei que posso ter pegado você de surpresa, mas gostaria que pensasse no assunto. Annabelle, estou apaixonado por você há muito tempo.

— Por que não me falou nada antes? — Ele não sabia se ela estava feliz ou zangada. Mas, acima de tudo, Annabelle estava chocada.

— Achei que deveria esperar até o momento oportuno. — Annabelle assentiu. Era realmente o correto e fazia sentido. E Josiah sempre fazia tudo certo. Era uma das coisas que adorava nele. Porém, ela ainda o encarava com descrença. — Ficou aborrecida? — perguntou ele, parecendo preocupado, então ela meneou a cabeça. Lágrimas surgiram nos olhos dela enquanto o fitava.

— Não, claro que não. Estou muito comovida — respondeu, levando a mão até a dele.

— Sei que sou bem mais velho que você. Poderia ser seu pai. Mas não quero ser. Quero ser seu marido, e prometo cuidar bem de você para sempre.

Annabelle acreditava naquelas palavras, então indagou:

— Minha mãe sabe disso? — Isso explicaria as várias pequenas insinuações a respeito de Josiah, sempre descartadas por Annabelle.

— Pedi a permissão dela em outubro, e ela aceitou. Acho que acredita que seria bom para nós dois.

— Também acho — sussurrou Annabelle com um sorriso tímido. — Jamais esperava que isso pudesse acontecer. Pensei que fôssemos apenas amigos.

— Ainda somos — replicou ele, sorrindo de volta. — E, se aceitar o meu pedido, sempre seremos. Acho que marido e mulher devem ser bons amigos, acima de tudo. Quero ter filhos com você e passar o resto da minha vida ao seu lado. E eu sempre, sempre serei seu amigo.

— Eu também serei — disse ela, parecendo vaga. Pensar em ter filhos com ele a assustava um pouco, mas aquilo tocava seu coração. Enquanto o ouvia, tentou não pensar em todas as bobagens que Hortie havia contado sobre a lua de mel em Paris. O que ela compartilhava com Josiah parecia muito mais puro. Odiaria estragar isso. Mas Hortie sempre foi um pouco doida, e agora que havia descoberto o sexo estava pior. A única coisa que a desacelerava agora era estar ficando mais gorda a cada dia.

— Gostaria de um tempo para pensar? Sei que foi uma surpresa para você. Tenho segurado a língua por muito tempo. — E então ele riu. — Por isso o uísque, e a meia garrafa de vinho desta noite, e agora o champanhe. Acho que sua mãe deveria ter me avisado para não ficar bêbado. Precisei tomar um pouco de coragem para falar. Não sabia se você me rejeitaria ou se diria sim.

— São essas as minhas opções? — perguntou ela, esticando-se para lhe segurar a outra mão. — Rejeitar ou dizer sim?

— Em essência. — Josiah sorriu, apertando as mãos dela.

— Então é simples. A resposta é sim. Se eu o rejeitasse, seria uma confusão danada. Acho que nos colocariam para fora do restaurante, ou talvez você não fosse mais meu amigo.

— Sim, eu seria. — E então ele repetiu a mesma pergunta que ela fez ao ouvir o pedido. — Está falando sério? — Estava se referindo ao tímido “sim”. Foi gentil, mas sincero.

— Sim, estou. Nunca pensei em nós dessa maneira. E sempre que a minha mãe insinuava alguma coisa eu achava que ela estava ficando doida. Mas agora, pensando bem, não há mais ninguém no mundo com quem eu gostaria de me casar. Exceto talvez Hortie, mas ela me daria muito trabalho. Então, se é para casar com minha melhor amizade, prefiro casar com você. — Os dois estavam rindo enquanto ela explicava.

— Já disse que te amo? — perguntou ele.

— Acho que sim. Mas sempre pode dizer novamente — respondeu ela, com carinho, dando um sorrisinho encantador.

— Eu te amo, Annabelle.

— Eu também te amo, Josiah. Te amo muito, muito mesmo. Acho que é a melhor maneira de garantir nossa amizade para sempre. — Quando ela disse isso, Josiah viu seus olhos se encherem de lágrimas e os lábios tremerem. Pôde ver que ela estava triste.

— O que há de errado? — murmurou ele.

— Queria contar para Robert e para o meu pai. Esta é a coisa mais importante que já me aconteceu, e não tenho para quem contar. Minha mãe já sabe. E quem vai me levar até o altar? — Ao dizer isso, lágrimas correram por suas faces.

— Vamos dar um jeito — disse ele com carinho, secando as lágrimas da amada com a mão. — Não chore, querida. Vai dar tudo certo.

— Eu sei. — Annabelle tinha certeza de que estaria sempre em boas mãos ao lado de Josiah. De repente, o casamento fazia todo sentido, embora não pensasse assim antes. Mas agora era ideia dele, e dela, não uma sugestão doida de alguém. Agora tudo fazia sentido. — E quando vamos nos casar?

— Não sei. A decisão é sua. Estou ao seu dispor a partir de hoje. Podemos nos casar quando quiser.

— Que tal em Newport no verão? — sugeriu ela, pensativa. — No jardim. Seria menos formal que na igreja. — E não haveria altar, algo que tanto a entristecia agora. Não tinha tios que a conduzissem pela nave da igreja, ninguém que pudesse representar seu pai ou seu irmão. Não tinha ninguém. Teria de cruzar a nave sozinha. — Talvez pudéssemos fazer uma cerimônia bem pequena e uma grande festa depois. Sem papai e Robert, não me parece certo ter uma cerimônia grande, e acho que seria muito difícil para minha mãe. O que me diz de Newport em agosto?

— Parece ótimo. — Josiah abriu um grande sorriso. As coisas estavam indo melhor do que ele havia planejado ou sequer ousara esperar desde outubro passado. — Isso lhe dá tempo suficiente para organizar um casamento?

— Acho que sim. Não quero uma cerimônia como a do casamento da Hortie. E ela é a única madrinha que quero, e estará com nove meses de gravidez.

— Eu diria que ela está mais para mãedrinha — brincou ele. Os dois sabiam que a maioria das pessoas ficaria chocada por vê-la em um evento social naquela condição.

— Ela disse que talvez tenha o bebê em Newport — acrescentou Annabelle.

— Talvez ela o tenha na cerimônia. — Josiah riu. Tinha a sensação de que com Annabelle a vida seria sempre interessante.

— Ainda posso trabalhar como voluntária no hospital? — perguntou ela, parecendo preocupada.

— Pode fazer o que quiser — respondeu Josiah, sorrindo para ela.

— Minha mãe disse que eu teria de parar quando me casasse.

— Não tem de parar por mim, só talvez quando estiver grávida. Seria bom parar o trabalho por um tempo neste caso. — Só de ouvi-lo, ela podia dizer que ele seria compreensivo e que sempre estaria ali para protegê-la. Parecia o casamento perfeito, e Annabelle não conseguia imaginar por que não havia pensado nisso antes. Gostava de tudo o que Josiah falava.

Continuaram conversando por um bom tempo e fazendo planos. A mãe dele tinha falecido havia alguns anos, e seu pai tinha se casado pela segunda vez com uma mulher de que Josiah não gostava muito, mas achava que devia convidá-los, além de sua meia-irmã e o marido. Ele tinha dois tios e um irmão, que morava em Chicago, e por isso Josiah não tinha certeza se ele poderia comparecer. Contou que o irmão era um pouco excêntrico. Então acreditava que não haveria muitos familiares presentes, e tudo o que restara a Annabelle fora a mãe e vários primos distantes. Annabelle queria manter a lista com menos de cem convidados, talvez cinquenta. E a mãe poderia lhes dar uma grande festa na cidade no outono, o que Josiah achou ótimo. Gostava da ideia de uma cerimônia íntima e restrita, um momento especial, só deles, e não um evento grandioso para milhares. Nunca quis um casamento grande, aliás, até agora, nunca havia pensado em se casar.

— Aonde quer ir na lua de mel? — perguntou ele, todo contente. Agosto já estava chegando.

— Qualquer lugar que não necessite de um barco ou navio para chegar. Acho que não poderia fazer isso com minha mãe, e não sei se eu mesma gostaria.

— Vamos pensar em algumas opções. Talvez a Califórnia ou algum lugar nas Montanhas Rochosas. Ou Canadá, ou até o Maine. A Nova Inglaterra é linda no verão.

— Não me importa aonde iremos, Josiah — disse ela, com honestidade —, desde que eu esteja com você. — Era exatamente como ele se sentia. Fez um sinal para o garçom e pediu a conta. Tudo havia sido perfeito, e ele se desculpou por ainda não ter um anel. Havia ficado nervoso pensando em escolher o certo.

Josiah a levou para casa, e Consuelo estava acordada quando chegaram. Como sabia o que estava acontecendo, ficou agitada demais para dormir. Consuelo os fitou com expectativa quando eles passaram pela porta, e os dois exibiram grandes sorrisos.

— Tenho um genro? — perguntou, falando pouco mais alto que um sussurro.

— Terá um em agosto — disse Josiah, orgulhoso, com um dos braços ao redor dos ombros da noiva.

— Em Newport — acrescentou Annabelle, sorrindo em êxtase para o futuro marido.

— Ah, meu Deus, um casamento em Newport em agosto, com apenas três meses para organizar? Vocês dois não perdem tempo, não é?

— Queremos uma cerimônia pequena, mamãe — murmurou Annabelle, e a mãe compreendeu o porquê. Ouvir isso foi um grande alívio para ela também.

— Pode ter o que quiser — disse, de forma generosa.

— Só queremos uns cinquenta ou sessenta convidados, cem se for preciso, no jardim.

— Seu desejo é uma ordem — disse Consuelo, de brincadeira. Queria poder ligar para a florista e para o bufê naquele mesmo instante. Em vez disso, aproximou-se de Josiah e o abraçou, depois beijou a filha. — Estou muito feliz por vocês. Acho que serão muito felizes juntos.

— Nós também — disseram os dois em uníssono, e os três riram. Consuelo insistiu em servir-lhes uma taça de champanhe, e de repente Annabelle se lembrou do dia em outubro em que chegou do hospital e encontrou a mãe e Josiah bebendo champanhe no jardim.

— Você foi mesmo promovido naquele dia? — perguntou Annabelle a Josiah, enquanto a mãe servia o champanhe.

— Não, recebi você, ou a permissão da sua mãe. Eu disse a ela que queria esperar até maio para fazer o pedido.

— Que sorrateiros! — Ela riu, enquanto Consuelo fazia um brinde ao casal.

— Que sejam tão felizes quanto Arthur e eu fomos, que tenham vida longa e feliz, e uma dúzia de filhos.

Tanto Annabelle quanto Josiah levantaram as taças e tomaram um gole, depois a jovem se aproximou da mãe e a abraçou forte. Sabia que de certa forma era difícil para ela também. As duas sentiam muita falta de Arthur e Robert.

— Eu te amo, mamãe — murmurou Annabelle, enquanto Consuelo a abraçava forte.

— Também te amo, querida. E estou muito feliz por você. E sei que onde quer que seu pai e Robert estiverem agora, também estarão felizes.

As duas secaram os olhos enquanto Josiah pigarreava e virava de costas, para que não vissem que ele chorava também. Era realmente a noite mais feliz da vida dele.