Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 21 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 17

 

Annabelle chegou ao hospital que Elsie Inglis havia montado em Villers-Cotterêts, próximo a Paris e mais perto ainda do front. Dali, conseguiam ouvir as explosões ao longe. O hospital havia acabado de ser inaugurado e lá havia uma operação maior e mais intensa que aquele onde trabalhara em Asnières, no ano anterior. Era operado e dirigido por mulheres, como a Dra. Inglis planejara. A nacionalidade delas representava muito das nações aliadas, mas a maioria era de francesas e inglesas, sendo Annabelle uma das três americanas. Desta vez, tinha um quarto que, apesar de minúsculo, dividia com outra mulher. E todos os pacientes eram trazidos do front. A carnificina era pavorosa: corpos mutilados, crânios despedaçados e um número alarmante de vidas perdidas.

As motoristas das ambulâncias iam constantemente ao front, de onde os homens eram arrastados das trincheiras mutilados, destroçados e em agonia. Normalmente, uma socorrista viajava com a ambulância e a motorista, e elas precisavam ter bastante treinamento e conhecimento para realizar grandes proezas no caminho para salvar os homens que estavam transportando. Se estivessem feridos demais para serem removidos, eram deixados nos hospitais de campanha montados perto das trincheiras. Mas sempre que possível, os soldados feridos eram levados para o hospital em Villers-Cotterêts para cirurgia e tratamento intensivo.

Agora, com um ano de escola de medicina no currículo, e com sua experiência em trabalho voluntário, Annabelle foi designada para a divisão de ambulâncias e vestia o uniforme oficial de socorrista. Trabalhava 18 horas por dia, sacolejando em estradas esburacadas ao longo do caminho, e às vezes segurando os homens nos braços, quando não havia mais nada que pudesse fazer. Lutava bravamente para salvá-los com o material que tinha à mão, e usava todas as técnicas que havia aprendido. Às vezes, os ferimentos eram tantos que nem mesmo seus melhores esforços e ou uma corrida arriscada de volta ao hospital impediam que morressem na estrada.

Ela havia chegado a Villers-Cotterêts no dia de Ano-Novo, que foi apenas outro dia de trabalho para todos eles. Mais de 6 milhões de homens já haviam morrido na guerra. Nos dois anos e meio desde o início das batalhas, a Europa havia sido dizimada e estava perdendo seus homens jovens para o monstro que era a guerra, que os devorava aos milhares. Annabelle às vezes sentia como se estivessem esvaziando o oceano com uma xícara, ou pior, um dedal. Eram muitos corpos para resgatar, alguns com muito pouco a salvar, muitas mentes que jamais se recuperariam das brutalidades vividas. Também era difícil para a equipe médica, e todos estavam exaustos e abatidos ao fim de cada dia. Mas não importava o quanto fosse difícil, ou até desencorajador às vezes, Annabelle estava mais segura do que nunca de sua decisão de ser médica, e, apesar de partir seu coração em tantas ocasiões, ela adorava seu trabalho, e o fazia bem.

Em janeiro, o presidente Wilson estava tentando orquestrar um fim para a guerra, usando a neutralidade dos Estados Unidos para encorajar os Aliados a declararem seus objetivos para obter a paz. Seus esforços não deram frutos, mas ele continuava determinado a manter o país fora da guerra. Ninguém na Europa conseguia entender por que os americanos não se uniam às forças aliadas, mas, em janeiro de 1917, ninguém acreditava que eles permaneceriam fora do combate por muito mais tempo. E não estavam errados.

Em primeiro de fevereiro, a Alemanha retomou as hostilidades irrestritas com seus submarinos. Dois dias mais tarde, os Estados Unidos cortaram relações diplomáticas com a Alemanha. Depois de três semanas, o presidente requisitou permissão do Congresso para armar os navios mercantes americanos para o caso de ataque dos submarinos alemães. O Congresso negou o pedido, mas, em 12 de março, por decreto, Wilson anunciou que os navios mercantes americanos seriam armados dali em diante. Oito dias depois, em 20 de março, seu conselho de guerra votou com unanimidade pela declaração de guerra à Alemanha.

O presidente fez seu discurso em prol da guerra ao Congresso em 2 de abril. E, quatro dias depois, em 6 de abril, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha. O país finalmente estava entrando no conflito, e os trôpegos Aliados na Europa precisavam desesperadamente de sua ajuda. Nos meses seguintes, jovens americanos deixaram suas casas, dizendo adeus às famílias, esposas e namoradas, para serem treinados. Seriam enviados para o exterior dentro de dois meses. Do dia para a noite, tudo em seu lar havia mudado.

— Já não era sem tempo — disse uma das americanas em Villers-Cotterêts para Annabelle, quando se encontraram no refeitório certa vez, já tarde da noite. As duas haviam trabalhado 19 horas em suas respectivas funções. Ela e as outras americanas eram enfermeiras, e a jovem sabia que Annabelle era socorrista.

— Estava estudando para ser enfermeira antes da guerra? — perguntou ela com interesse. Era uma bonita moça oriunda do sul e tinha o sotaque carregado do Alabama. Seu nome era Georgianna e era uma beldade sulista, mas isso não significava nada ali, assim como a distinta criação de Annabelle na elegante mansão da família em Nova York, que já não tinha mais qualquer relação com sua vida cotidiana. Tudo o que lhe dera foi uma educação decente, boas maneiras e a habilidade de falar francês. O resto já não importava mais.

— Estudei uma escola de medicina no sul da França no último ano — disse Annabelle, bebericando uma sopa bem rala numa caneca. Eles tentavam economizar ao máximo a comida, para benefício tanto da equipe médica quanto dos pacientes. Por isso, há meses, nenhum deles tinha uma refeição realmente decente, mas a comida era boa. Annabelle havia perdido uma quantidade considerável de peso nos quatro meses desde sua chegada. Nem ela conseguia acreditar que era abril de 1917, e que já estava na França havia 19 meses.

Georgianna ficou impressionada com o fato de Annabelle ter começado a estudar medicina, então conversaram sobre isso por alguns minutos. As duas estavam exaustas. A enfermeira era uma moça bonita, com grandes olhos verdes e um cabelo vermelho brilhante. Ela riu quando admitiu que, depois de dois anos ali, ainda falava um francês execrável, mas Annabelle sabia, pelo que ouvira falar, que a moça fazia bem o seu trabalho apesar disso. Nunca conhecera tantas pessoas conscientes, competentes e dedicadas na vida. Eles davam tudo de si.

— Acha que vai concluir seus estudos? — perguntou-lhe Georgianna, ao que Annabelle assentiu, pensativa.

— Espero que sim. — Não conseguia imaginar o que a impediria, a não ser que fosse morta.

— Não quer ir para casa quando isso acabar? — Georgianna não conseguia se imaginar ficando ali. Tinha família no Alabama, três irmãs mais novas e um irmão. Annabelle não queria voltar para Nova York. Não possuía nada lá, exceto punição e dor.

— Na verdade, não. Não tenho muita coisa lá. Acho que vou ficar. — Vinha pensando muito no assunto nos últimos tempos e tomara uma decisão. Tinha mais cinco anos de estudos na escola de medicina e depois disso queria ir a Paris para trabalhar. Com sorte, talvez até com o Dr. De Bré. Não havia nada que quisesse agora em Nova York. E ainda teria de estagiar por mais um ano lá. Estava quase convencida de que sua vida nos Estados Unidos era coisa do passado. O único futuro que possuía estava ali. Era uma vida inteiramente nova, onde ninguém conhecia seu passado, nem a vergonha de seu divórcio. Na França, até onde se sabia, ela nunca havia sido casada. Ela faria 24 anos em algumas semanas. E um dia, com bastante afinco e um pouco de sorte, seria médica. Em Nova York ela sempre seria uma desonra, embora não por culpa sua.

As duas mulheres deixaram o refeitório e seguiram seus caminhos. Voltaram para os respectivos alojamentos, prometendo saírem juntas qualquer dia, quando tivessem folga. Só que, quando isso acontecia, elas nunca conseguiam aproveitar. Annabelle não havia tirado uma folga de seus deveres como socorrista desde sua chegada.

A Terceira Batalha de Champagne acabou em desastre para os franceses no fim de abril e trouxe uma leva de pacientes novos, que deixaram todos ocupados. Annabelle estava constantemente transportando homens do front. O único encorajamento que tiveram foi a vitória canadense na Batalha de Vimy. E devido ao enorme desânimo em suas fileiras, deflagaram-se motins entre os franceses durante as primeiras semanas de maio. Também chegavam notícias da Revolução Russa — o tsar havia abdicado em março. Mas qualquer coisa que estivesse acontecendo além das trincheiras mais próximas e do front parecia muito remoto para qualquer um em Villers-Cotterêts. Estavam bastante envolvidos nas questões ali tão perto para se preocuparem com qualquer outra coisa.

Annabelle esqueceu-se completamente de seu aniversário. Um dia atropelava o outro, e ela não fazia ideia de qual era a data. Só uma semana depois, quando viu o jornal que alguém trouxera de Paris, percebeu que havia completado 24 anos. Um mês depois, em junho, todos ficaram empolgados quando souberam que as primeiras tropas americanas haviam desembarcado na França.

Foi três semanas depois, em meados de julho, que um batalhão americano veio para Villers-Cotterêts e montou acampamento nos arredores da cidade. Forças britânicas se juntaram a eles em uma semana, em preparação para uma ofensiva em Ypres. A área ficou consideravelmente agitada com as tropas britânicas e americanas perambulando por toda parte. Eles se divertiam tentando seduzir todas as mulheres do local, e a polícia militar estava sempre arrastando os bêbados para fora de bares e pelas ruas, devolvendo-os aos seus acampamentos. Pelo menos eram discretos, e, apesar dos inevitáveis soldados baderneiros, alguns eram bem simpáticos. Quando voltava com a ambulância de um hospital de campanha nas proximidades, Annabelle viu um grupo de soldados americanos caminhando com algumas mocinhas francesas. Não estava com humor para eles, já que o homem que estavam levando para o hospital em Villers-Cotterêts havia morrido no caminho. Mas, quando a ambulância passou pelos americanos, eles gritaram e acenaram diante de duas mulheres bonitas no front. E, por um instante, Annabelle teve uma vontade enorme de ouvir vozes americanas. Acenou de volta e sorriu. Um dos homens de uniforme veio correndo até o lado da ambulância, então Annabelle não conseguiu deixar de dizer “oi”.

— É americana? — perguntou ele, espantado, e a motorista da ambulância parou e sorriu. Ela o achou uma gracinha. Era francesa.

— Sou — disse Annabella, parecendo cansada.

— Quando chegou aqui? Pensei que as enfermeiras só iriam chegar no mês que vem. — Demoraram mais tempo para organizar as mulheres voluntárias do que os homens conscritos.

Ela riu da pergunta. Reconheceu o sotaque de Boston na voz dele e teve de admitir: era bom ouvi-lo. Era como estar em casa.

— Estou aqui há dois anos — respondeu, com um grande sorriso. — Vocês rapazes estão atrasados.

— Estamos coisa nenhuma. Vamos chutar os alemães de volta ao lugar de onde vieram. Guardaram o melhor para o final. — Parecia uma criança, e de fato era, tão irlandês quanto seus conterrâneos, o que lhe lembrou as visitas feitas a Boston e os verões em Newport. De repente sentiu saudades de casa, pela primeira ou segunda vez em 22 meses. Nem se lembrava da última vez que se sentira assim.

— De onde você é? — perguntou ele, enquanto um dos amigos conversava com a motorista da ambulância, do outro lado, mas elas precisavam voltar. Não era certo ficar conversando com eles, com um homem morto lá atrás, embora outros tivessem feito pior. Em dado momento, os horrores da guerra já não são tão chocantes quanto antes.

— De Nova York — disse Annabelle, tranquila.

— Sou de Boston. — E, ao dizê-lo, ela sentiu o cheiro de álcool em seu hálito. Assim que deixavam os acampamentos onde estavam aquartelados, quase todos bebiam muito. Tinham um bom motivo para isso. Bebiam e perseguiam qualquer garota que lhes cruzasse o caminho.

— Pude notar — disse, referindo-se ao sotaque de Boston, enquanto fazia sinal à colega para que retomassem viagem. — Boa sorte — disse para ele e para os outros.

— Sim, para você também — retribuiu ele, dando um passo para trás. E, enquanto voltavam ao hospital, uma onda de nostalgia a inundou. Ela nunca sentiu tanta saudade de seu país na vida. Sentiu falta de cada coisa familiar que não havia visto nem se permitido pensar em dois anos. Suspirou enquanto, juntas, carregavam o homem morto na padiola para o necrotério. Ele seria enterrado nas colinas com inúmeros outros, e a família seria notificada. Não havia como mandar os corpos para casa. Eram muitíssimos. E cemitérios improvisados agora cobriam os campos.

Pensando nos americanos que havia visto naquela tarde, Annabelle saiu para um rápido passeio naquela noite, quando deixou o trabalho, antes de voltar para seu quarto. Haviam perdido todos os homens que trouxeram dos hospitais de campanha naquele dia. Era deprimente e, embora fosse comum, aquilo a aborrecia muito. Aqueles rapazes eram tão jovens, muitos deles bem mais novos que ela. Até muitas das enfermeiras eram mais novas que ela agora. Aos 24, com um ano de escola de medicina nas costas, não se sentia mais uma mocinha. Muitas coisas difíceis haviam lhe acontecido nos últimos anos, e ela tinha visto muita dor.

Estava caminhando, pensando em sua vida perdida nos Estados Unidos, com a cabeça baixa, não muito longe de seu alojamento, voltando do passeio. Passava da meia-noite, e ela havia trabalhado desde as seis horas daquela manhã. Estava cansada e distraída, por isso levou um susto quando ouviu uma voz com sotaque britânico às costas.

— Ei, garota bonita — murmurou alguém. — O que está fazendo aqui fora sozinha? — Ela virou-se e ficou surpresa por ver um oficial inglês andando sozinho pela mesma trilha. Era óbvio que andara bebendo. Havia saído de um bar próximo sem seus companheiros. Estava muito vistoso em seu uniforme, e muito bêbado. Era um homem bonito, aproximadamente da mesma idade dela, e não a assustou, principalmente porque Annabelle percebeu se tratar de um oficial. Já havia visto muitos homens bêbados nos últimos dois anos e jamais teve problemas em mantê-los na linha.

— Parece que precisa de uma carona — disse ela com um sorriso sem emoção. — Pegue aquela direção — disse, apontou para um dos prédios administrativos onde geralmente lidavam com assuntos daquele tipo, já que era uma ocorrência comum. Eram tempos de guerra, afinal, e eles lidavam com milhares de homens em suas bases durante o dia, muitos dos quais farreavam à noite. — Alguém lhe dará uma carona de volta para o acampamento. — Principalmente por ser um oficial, ninguém lhe fará perguntas. Às vezes dispensavam aos conscritos um trato ligeiramente mais rude. Mas os oficiais sempre eram respeitados por sua posição. Podia ver pelo uniforme que era um tenente, e dava para saber, por seu sotaque, que era um aristocrata. Isso não o impedia de ser tão boboca quanto qualquer outro bêbado, ou mesmo de cambalear ligeiramente enquanto a encarava.

— Não quero voltar para o acampamento — disse com teimosia —, prefiro ir pra casa com você. O que me diz, vamos parar em algum lugar e tomar um drinque? O que você é, afinal? Enfermeira? — Ele a avaliava com certa altivez, tentando colocá-la em foco.

— Sou socorrista, e você vai precisar de uma, se não se deitar um pouco. — Ele parecia prestes a desmaiar.

— Excelente ideia. Sugiro que nos deitemos juntos.

— Essa não é uma opção. — Annabelle o encarou com frieza, imaginando se deveria simplesmente se afastar e deixá-lo por conta própria. Não havia mais ninguém na trilha, mas ela não estava longe dos alojamentos. Àquela altura, todos haviam ido para casa, exceto aqueles do turno da noite que estavam dirigindo ambulâncias ou trabalhando nas enfermarias.

— Quem você acha que é, afinal? — perguntou ele, atirando-se na frente dela para agarrá-la, ao que Annabelle recuou. Ele tropeçou e quase caiu, e parecia zangado quando se endireitou. — Você não é ninguém, é o que você é — continuou, tornando-se sórdido de repente. — Meu pai é o conde de Winshire. E eu sou Lorde Harry Winshire. Sou um visconde — disse vangloriando-se, mas com a voz arrastada.

— Que bom saber, visconde — disse ela com educação, à altura da posição e do título dele. — Mas precisa voltar ao acampamento antes que se machuque. E eu estou indo para o meu alojamento. Boa noite.

— Vadia! — disse ele, cuspindo-lhe a única palavra quando Annabelle lhe virou as costas. A conversa havia se prolongado demais, e ela não queria demorar ali. Estava óbvio que era um homem mimado, desagradável e estava bêbado. Annabelle não sentia medo dele, já havia enfrentado coisa pior antes, mas não queria arriscar a sorte. Mas, antes que ela pudesse dar mais um passo pela trilha deserta, ele a agarrou, girou-a com força em seus braços, tentando beijá-la. Annabelle o afastou com força e lutou bastante. Ele era surpreendentemente forte, mesmo estando bêbado.

— Pare com isso! — gritou ela. Mas ficou chocada com a força dele e com seus braços firmes.

Annabelle percebeu, de repente, que estava sendo subjugada. Ele lhe cobriu a boca com uma das mãos e com a outra a arrastou para a entrada escura de um dos alojamentos próximos. Não havia ninguém por perto, e ele tapava sua boca com tanta força que Annabelle não conseguia gritar. Ela mordeu-lhe os dedos, mas isso não o deteve. E lutou feito uma leoa quando ele a atirou no chão e deitou-se sobre ela com todo o peso. O ar fugiu-lhe dos pulmões quando caiu no chão, e a mão que não cobria sua boca havia erguido sua saia e puxava para baixo sua roupa íntima. Annabelle não conseguia acreditar no que estava acontecendo, então usou toda a força para enfrentá-lo, mas era uma mulher pequena contra um homem grande e forte. E ele agora estava tomado pela raiva, além de estar embriagado, e determinado a possuí-la. Annabelle o enfureceu ao dispensá-lo, e agora ele a faria pagar por isso. Tudo o que ela conseguia enxergar era a fúria negra em seus olhos enquanto continuava a agarrá-la e pressioná-la no chão. Não tirava a mão de sua boca, e tudo o que Annabelle conseguia emitir eram sons guturais abafados que ninguém conseguia ouvir.

A noite estava silenciosa, exceto pela risada de mulheres ao longe e pelos gritos embriagados de homens saindo do bar. Qualquer som que ela emitia era fraco demais para que alguém ouvisse, e havia terror nos olhos dela. Agora ele já havia desabotoado a calça com a mão livre, e ela conseguia sentir a rigidez dele contra si. O que Josiah jamais fora capaz de fazer, aquele estranho bêbado estava para tomar dela à força. Annabelle fazia tudo o que podia para impedi-lo, mas de nada adiantava. Ele usou a perna para afastar as dela, e, em um instante, estava dentro dela, arrojando-se com violência e gemendo. Annabelle continuou tentando lutar, mas ele a pressionava com força no chão. E, a cada vez que arremetia mais fundo, Annabelle se encolhia de dor e era esmagada contra a soleira em que estavam deitados. Em um instante, estava terminado, ele se aliviou com um grito e depois a empurrou com tanta força que a deixou caída no chão encolhida na soleira feito uma boneca de porcelana quebrada. Annabelle não conseguia gritar, ou fazer emitir qualquer som. Sentia muito medo. Virou-se, vomitou e sufocou um soluço. Ele se pôs de pé, abotoou a calça, e a olhou do alto com desprezo.

— Se contar a alguém sobre isso, volto e mato você. Vou encontrá-la. E aceitarão minha palavra, e não a sua.

Annabelle sabia que aquilo tinha grandes chances de ser verdade, ele era um oficial e, supostamente, não apenas um nobre, mas um visconde. Independentemente do que ela dissesse, ninguém ousaria desafiá-lo, muito menos puni-lo, por um incidente como aquele. Para ele, não significava nada; para ela, a virtude que manteve por toda a vida, e sustentou mesmo depois de dois anos de casamento com o homem que amava, tinha sido tomada e descartada por ele como se não passasse de lixo. Baixou a saia enquanto ele se afastava, e ficou deitada na soleira, soluçando, até enfim se erguer, sentindo-se tonta. Ele também havia batido a cabeça dela no degrau de pedra enquanto a violentava.

Estava às cegas enquanto andava de volta para seu alojamento, e parou outra vez para vomitar, grata por não ser vista por ninguém. Queria se esconder em algum lugar e morrer, mas sabia que jamais esqueceria o rosto dele ou o ar assassino naqueles olhos ao tomá-la. Ele desapareceu na noite, e ela subiu quase rastejando os degraus do alojamento e foi para o banheiro, aliviada por não ter ninguém lá. Ela se limpou da melhor maneira possível, havia sangue entre as pernas e na saia, já que era virgem, o que de nada importou para ele. Para ele, Annabelle era apenas outra vadia que ele tomara depois de uma noite de farra no bar. Sentia uma dor latejante entre as pernas e uma terrível dor nas costas e na cabeça por ter sido atirada no degrau de pedra, mas nada disso se comparava à dor em seu coração.

E ele estava certo, se tentasse contar a alguém, ninguém lhe ouviria ou daria importância para aquilo. As garotas alegavam que os soldados as violentavam todos os dias, e ninguém fazia nada a respeito. Quando insistiam com as autoridades em um tribunal militar, eram humilhadas e desonradas, e ninguém acreditava nelas. Eram imediatamente acusadas de serem vadias que haviam encorajado seus atacantes. E com um lorde inglês sendo acusado de ter perpetrado o crime, Annabelle seria colocada para fora de qualquer gabinete oficial às gargalhadas. Pior ainda, estavam em meio a uma guerra, por isso o estupro de uma socorrista era o menor dos problemas de qualquer um. Tudo o que podia fazer agora era rezar para não ter engravidado. Não conseguia imaginar que o destino pudesse ser tão cruel assim. Tudo em que Annabelle conseguia pensar, enquanto se arrastava para a cama naquela noite, relembrando o que tinha acontecido, era que nada nem ninguém poderia ter sido mais cruel do que o visconde. E, enquanto estava ali deitada soluçando, só conseguia pensar em Josiah. Tudo o que sempre quis foi dividir uma vida com ele e ter filhos. E, em vez disso, aquele desgraçado havia transformado um ato de amor em algo horrível ao violentá-la. E não havia nada que ela pudesse fazer a respeito a não ser tentar esquecer.