Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 20 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 16

 

A partida de Annabelle passou despercebida no dia em que ela deixou o hospital na Abbaye de Royaumont em Asnières. No dia anterior, fora se despedir do Dr. De Bré e lhe agradecer; também se despediu da enfermeira-chefe. Além deles, não tinha mais ninguém a quem dizer adeus, exceto Edwina, com quem esteve por alguns minutos naquela manhã. Desejaram boa sorte uma à outra. Elas ainda tinham esperanças de um dia se reencontrarem. E então Annabelle entrou no caminhão que a levaria até a estação. Tomou o trem para Nice, e a viagem foi longa e arrastada. Todas as rotas que passavam próximas ao front haviam sido reorientadas em trajetos tortuosos, e a maior parte dos trens fora reivindicada pelo Exército.

Demorou um dia e uma noite para chegar a Nice, mas quando, enfim, desembarcou na cidade, encontrou dois táxis na estação ferroviária, ambos dirigidos por mulheres. Entrou em um deles e deu à motorista o endereço da escola de medicina. Ficava logo nos arredores de Nice, em uma colina com vista para o oceano, em um pequeno château que pertencia à família do fundador da escola, o Dr. Graumont. E com seus tranquilos jardins e pomares ao redor, era difícil crer que uma guerra estava sendo travada em algum lugar do mundo. Gases asfixiantes, corpos despedaçados ou pessoas morrendo eram coisas que não combinavam com aquele cenário. Sentiu-se completamente protegida do mundo real ali. Era o lugar mais tranquilo que já vira desde Newport e, de certa forma, fazia com que Annabelle se lembrasse de lá.

Uma governanta de ar austero lhe mostrou seu quarto, entregou-lhe os lençóis para fazer a própria cama e disse-lhe para estar no andar inferior às oito horas para o jantar. Os alunos de medicina do primeiro ano moravam em um dormitório. Já os veteranos, todos homens, possuíam quartos individuais. Como ela era a única mulher, conseguiu um dos quartos, um cômodo confortável com vista para o mar. Havia 44 estudantes morando no château, todos isentos do serviço militar por algum motivo. Havia um inglês, um escocês, dois italianos, e os demais eram franceses. Annabelle era a única americana. Soube que poderia exercer a medicina quando voltasse aos Estados Unidos fazendo uma prova lá, mas não estava pensando tão longe ainda. Ficaria ali nos próximos seis anos, e parecia-lhe ser o local certo para estar. Teve certeza disso logo que viu o lugar. Sentiu-se segura e protegida.

Lavou o rosto e as mãos, colocou um vestido preto limpo, um dos melhores que levara consigo, e prendeu o cabelo em um coque discreto. Desceu, parecendo imaculada, prontamente às oito para o jantar.

Os estudantes costumavam se encontrar na grande sala de visitas do château antes do jantar todas as noites. Conversavam tranquilamente, em geral sobre assuntos médicos, e todos estavam ali desde setembro. Annabelle foi a intrusa que chegou tarde. Ao entrar na sala, todos os olhos se voltaram para ela. Em seguida, alguns alunos se viraram para continuar conversando e a ignoraram. Annabelle ficou espantada com a fria recepção, mas ficou sentada quieta sozinha até o jantar ser servido, sem puxar conversa com ninguém. Percebeu que alguns deles lhe davam espiadas, mas ninguém se aproximou para conversar. Era como se ela não existisse. Era como se acreditassem que, se não registrassem que ela estava ali, ela desapareceria.

Um senhor de idade, com um fraque de mais idade ainda, veio chamá-los para a refeição, e os grupos seguiram para a sala de jantar, ocupando as três longas mesas do refeitório, que eram tão antigas quanto o château. Tudo lá estava gasto e puído, mas possuía uma espécie de esplendor desbotado, que lembrava muito a França Antiga.

O Dr. Graumont, o diretor da escola, veio cumprimentá-la e a convidou a sentar-se perto dele. Foi extremamente educado quando se apresentou, mas em seguida passou a maior parte do tempo conversando com o rapaz ao seu lado, que parecia ter cerca de 30 anos. Estavam comentando sobre uma cirurgia que ambos haviam acompanhado naquele dia, e não fizeram qualquer tentativa de incluir Annabelle na conversa. Ela se sentia um fantasma, invisível para todos.

Mais tarde, durante o jantar, o Dr. Graumont falou-lhe brevemente sobre o Dr. De Bré e perguntou como ele estava, mas o assunto não foi muito além disso. Em seguida, deu um boa-noite a Annabelle, enquanto os outros voltavam para os quartos. Nem ao menos um de seus companheiros de estudos se apresentou ou perguntou-lhe o nome. Annabelle subiu sozinha para o quarto e sentou-se na cama, sem saber direito o que pensar e já não tão certa como antes de sua decisão. Seriam longos seis anos se ninguém falasse com ela no château. Estava mais do que óbvio que não lhes agradava ter uma mulher entre eles, então decidiram ignorá-la. Mas Annabelle não estava ali para se socializar, e sim para aprender.

Estava na sala de refeições na manhã seguinte, precisamente às sete horas, como fora avisada. O café da manhã foi precário em função da guerra, e ela comeu muito pouco. Os outros chegaram e saíram sem lhe dirigir a palavra, mas Annabelle encontrou a sala a tempo para a aula das oito horas. O château inteiro fora dedicado à escola, o que permitiu a família preservá-lo e mantê-lo conservado. Uma vez iniciada a aula, Annabelle lembrou por que estava ali. Era fascinante. Estavam estudando moléstias dos rins, com a apresentação de diagramas de cirurgias. E iriam ao hospital em Nice no dia seguinte, onde fariam todas as observações cirúrgicas e trabalhariam com pacientes. Ela mal podia esperar.

Ainda estava empolgada com a palestra quando foram almoçar, e ela estava mais grata do que nunca ao Dr. De Bré. Toda aquela euforia fez com que ela se esquecesse do quanto seus colegas de classe haviam sido inamistosos, então começou a conversar com um inglês, comentando sobre a aula. Ele a encarou como se Annabelle tivesse acabado de se despir de todas as roupas.

— Sinto muito, eu falei alguma coisa errada? — perguntou ela inocentemente.

— Não me recordo de ter falado com você — retrucou ele, de forma rude, menosprezando-a. Aquilo significava, em termos claros, que ele não tinha interesse nenhum nos comentários dela.

— Não, mas eu falei com você — disse ela com calma, recusando-se a ficar intimidada. Ouvira-o dizer que vinha de quatro gerações de médicos. Era obviamente muito convencido, mas, assim como ela, era apenas um aluno do primeiro ano, embora consideravelmente mais velho. Ele havia comentado com alguém que frequentara Eton e depois Cambridge, o que explicava a discrepância entre suas idades. Estava claro que ele se achava muitíssimo melhor que Annabelle, e não tinha qualquer intenção de gastar seu tempo conversando com ela. O fato de ela ser bonita também não o deixara impressionado. Estava muito mais interessado em ser desagradável e colocá-la em seu devido lugar.

“Sou Annabelle Worthington” — continuou ela, em tom agradável, recusando-se a ser depreciada. Queria acertá-lo na cabeça com o prato, mas sorriu com educação e se voltou para o estudante ao seu outro lado, apresentando-se. Ele olhou para o homem à sua frente, como se esperasse uma indicação dos outros, mas depois sorriu apesar de tudo.

— Sou Marcel Bobigny — disse ele em francês, e os outros o encararam como se ele fosse um traidor e olharam para os próprios pratos enquanto comiam.

Annabelle e Marcel começaram a conversar sobre a palestra daquela manhã, e os outros ficaram quietos na maior parte do almoço. Estava claro que ela não era bem-vinda, e até o diretor da escola a ignorou. Annabelle pegou o caderno e a caneta e foi para a aula seguinte, depois de agradecer Marcel pela conversa. Ele se curvou educadamente, e Annabelle ouviu seus companheiros repreenderem-no por conversar com ela, que se afastou com a cabeça erguida.

— Não dou a mínima se é bonita — ouviu um deles murmurar aos outros. — Ela não tem nada o que fazer aqui. — Mas ela tinha tanto direito de estar ali quanto eles. Havia pagado pelos estudos e estava tão ansiosa para ser médica quanto todos ali, talvez até mais. Mas estava claro que havia um acordo tácito entre os estudantes para segregá-la.

Aquele tratamento tosco para com ela continuou por quatro semanas de aulas e visitas ao hospital em Nice, aonde iam três vezes por semana ouvir palestras e ver os pacientes; e Annabelle notou que estava sendo observada atentamente tanto por professores quanto por alunos. Pressentia que qualquer equívoco que cometesse, ou qualquer afirmação incorreta que pronunciasse, seria usado contra ela de imediato, então sempre tinha extremo cuidado com o que dizia. Até o momento, não cometera qualquer engano óbvio, e os dois trabalhos que fizera sobre moléstias do trato urinário e rins receberam notas excelentes.

E era quando visitavam e conversavam com os pacientes que seus invejosos colegas de classe mais a odiavam. Annabelle era sempre muito gentil e compassiva, fazia-lhes perguntas pertinentes sobre os sintomas, deixando-os imediatamente confortáveis com ela. Os pacientes preferiam falar com Annabelle, procurando-a sempre, a falar com seus colegas, e aqueles que a viam mais de uma vez ficavam contentes por encontrá-la de novo. Aquilo deixava seus colegas loucos.

— Você tem intimidade demais com os pacientes — criticou certo dia o estudante inglês, que era sistematicamente desagradável com ela.

— Que interessante — respondeu Annabelle calmamente. — Acho você rude demais com eles.

— Como poderia saber? Já esteve em algum hospital antes?

— Acabei de passar três meses trabalhando perto do front em Asnières, e trabalhei como voluntária em hospitais por seis anos, nos últimos dois com imigrantes recém-chegados a Ellis Island, em Nova York. — Ele não disse mais nada depois disso, e não iria admitir a Annabelle, mas ficou impressionado ao saber que ela passara três meses em Asnières. Ouvira dizer o quanto o trabalho lá era pesado. Marcel Bobigny a alcançou depois da aula e perguntou como havia sido trabalhar na Abbaye de Royaumont. Era a primeira vez que conversava de verdade com alguém ali em um mês. E ela ficou grata por, enfim, ter com quem falar.

— Foi difícil — disse, sendo honesta. — Todos nós trabalhávamos cerca de 18 horas por dia, às vezes mais. O hospital é dirigido e operado por mulheres, o que era o conceito original, mas agora receberam alguns médicos de Paris. Precisam de toda a ajuda possível.

— Que tipo de casos viu por lá? — perguntou ele com interesse. Achava que os outros estavam errados por tratarem-na com antipatia. Marcel gostava dela. Annabelle era bem-humorada, amigável, esforçada, e não era pretensiosa como os outros.

— Víamos principalmente membros amputados, muita gangrena, vítimas de explosões, gás asfixiante, disenteria, cólera, muito do que se espera encontrar tão perto do front. — Falou de maneira simples e prática, sem tentar impressioná-lo ou vangloriar-se.

— O que a deixavam fazer?

— Aplicar clorofórmio na sala de cirurgia, de vez em quando. Eu geralmente esvaziava bandejas cirúrgicas, mas o cirurgião-chefe me ensinava de bom grado os procedimentos enquanto eu o assistia. No resto do tempo, eu ficava na enfermaria cirúrgica, cuidando dos feridos no pós-operatório, e às vezes eu dirigia a ambulância para ajudar.

— É uma experiência muito boa para alguém que não tem formação oficial. — Ele estava impressionado.

— Eles precisavam de ajuda.

Marcel assentiu, desejando poder também um dia estar lá. Confidenciou isso a Annabelle, que sorriu. Ele era o único estudante a tratá-la de forma civilizada, era até gentil. A maior parte deles a ignorava.

Em fevereiro, um mês e meio após sua chegada, todos estavam animados ao jantar, discutindo a Batalha de Verdun, que tinha começado há vários dias e causado muitas perdas para ambos os lados. Era uma batalha violenta que perturbava a todos, e Marcel puxou Annabelle para a conversa. Os outros estavam tão envolvidos na discussão que até se esqueceram de ignorá-la ou de fazer cara feia quando ela falava.

A Batalha de Verdun foi o assunto principal de todas as noites no jantar, até que, duas semanas depois, no começo de março, a Quinta Batalha de Isonzo, na Itália, contra a Áustria-Hungria, tomou precedência. A conversa ricocheteava entre questões médicas e a guerra e causava uma profunda preocupação em todos.

Certo dia, o inglês lhe perguntou quando os Estados Unidos entrariam na guerra. O presidente Wilson ainda garantia a todos que não, mas já não era segredo que o país estava suprindo os dois lados e sendo duramente criticado por isso. Annabelle disse claramente que achava isso errado, e todos concordaram. Ela acreditava que os Estados Unidos deviam entrar na guerra e vir para a Europa para ajudar seus aliados. A conversa então se voltou para o Lusitania, que todos acreditavam ter sido afundado por estar transportando suprimentos bélicos escondidos, o que nunca foi oficialmente revelado. Falar sobre o Lusitania de alguma forma levou ao Titanic, e Annabelle de repente ficou quieta e triste. Rupert, o inglês, notou e fez um comentário.

— Não foi nossa melhor hora — admitiu, com um sorriso.

— Nem a minha — murmurou ela. — Meus pais e meu irmão estavam nele. — Todos à mesa se calaram e a encararam.

— Eles conseguiram se salvar? — perguntou um dos alunos franceses, mas ela meneou a cabeça.

— Minha mãe escapou em um dos botes salva-vidas, mas meu pai e meu irmão afundaram com o navio.

Houve um coro de lamentos, e Marcel discretamente mudou de assunto, tentando aliviar o momento desconfortável. Gostava de Annabelle e queria protegê-la dos outros. Mas, pouco a pouco, eles também foram amolecendo. Era difícil resistir à sua gentileza, simplicidade, inteligência e humildade.

Duas semanas depois, o navio de passageiros francês Sussex foi torpedeado, o que trouxe o assunto à tona outra vez. Àquela altura, a situação no front havia se agravado, e quase 4 milhões de pessoas haviam morrido. O número estava aumentando a cada dia. Às vezes, aquilo os distraía dos estudos e ninguém conseguia falar sobre mais nada. Mas todos estavam trabalhando bastante. Não havia preguiçosos no grupo, e com as turmas tão pequenas, todos os estudantes se destacavam.

Aos poucos, todos foram relaxando a respeito de Annabelle, e em maio muitos deles já estavam de fato dispostos a falar, conversar e até rir com ela. Aprenderam a respeitar suas perguntas inteligentes proferidas em voz calma, e seus modos à cabeceira dos pacientes eram muito melhores que os deles. Todos os professores notaram isso, e o Dr. Graumont escrevera ao Dr. De Bré para garantir-lhe que não cometera engano. Disse-lhe que Annabelle Worthington era uma aluna excelente e que seria uma ótima médica. E, para Annabelle, comparado à abadia em Asnières, o hospital em Nice era extremamente monótono, mas interessante mesmo assim. E ela finalmente realizou seu desejo. Começaram a dissecar cadáveres, o que achou tão fascinante quanto sempre imaginara que seria.

As notícias da guerra continuavam a distraí-los, conforme prosseguiam com as aulas durante o verão. Em primeiro de julho, começou a Batalha do Somme, com a maior baixa na guerra até aquele momento. Quando o dia terminou, havia 6 mil mortos e feridos. Os números eram apavorantes. E, à medida que o verão avançava, a situação só piorava. Por isso, às vezes era difícil concentrar-se nos estudos. Era chocante a quantidade de vidas perdidas conforme a guerra se desenrolava. E aparentemente não havia perspectiva de término. A guerra na Europa completava dois anos.

Em agosto, Annabelle tentou não pensar em seu aniversário com Josiah. Teria sido o terceiro, e ela já estava na Europa havia 11 meses. Parecia difícil de acreditar. Desde que chegara à escola de medicina em Nice, o tempo havia voado. Estavam fazendo muitas coisas e tentando aprender o máximo possível. Agora trabalhavam com mais frequência com os pacientes e passavam três dias inteiros por semana no hospital em Nice. Os feridos de guerra estavam sendo mandados para lá, já que os homens machucados que não voltariam ao front estavam sendo transferidos para mais perto de casa. Ela até encontrou dois homens dos quais cuidara em Asnières. Ficaram animados ao ver Annabelle, que ia visitá-los sempre que podia.

A esta altura, ela e Marcel eram bons amigos. Conversavam todas as noites depois do jantar e costumavam estudar juntos. Os outros alunos finalmente a aceitaram. Ela agora era bem-vista, benquista e respeitada por todos os companheiros. Alguns estudantes até acharam graça do quanto haviam sido desagradáveis com ela no início, e Rupert, o inglês pomposo que fora o mais grosseiro, aos poucos se tornou seu amigo. Era difícil para qualquer um deles encontrar falhas no trabalho de Annabelle, que não deixava de ser agradável com ninguém. Marcel dizia que ela era uma espécie de madrinha para eles.

Estavam caminhando pelo pomar certo dia, depois da aula, quando ele se virou para ela com ar curioso.

— Por que uma mulher tão bonita como você não está casada? — perguntou-lhe. Annabelle sabia que ele não estava interessado nela, já que havia acabado de ficar noivo de uma moça em Nice. A escolhida era amiga de sua família havia anos. Marcel era de Beaulieu, não muito longe, e ia visitar a família, e até jantar, sempre que podia. Sua noiva o visitava na escola, e Annabelle gostava muito dela.

— Acho que não posso ser casada e ser médica. O que você acha? — indagou ela, esquivando-se da pergunta. Annabelle achava que havia uma diferença. Para ela, a profissão exigia mais sacrifício e comprometimento das mulheres do que dos homens.

— Por que tenho a sensação de que veio para a Europa com o coração partido? — Ele era um homem astuto e conseguia ver isso em seus olhos. — Não sei se isso tem muito a ver com sacrificar a vida pessoal pela profissão, mas talvez tenha medo de ter uma vida pessoal e esteja se escondendo na medicina. Acho que pode ter os dois — disse ele, gentilmente, olhando-a nos olhos.

Annabelle não disse nada por um bom tempo e mordeu em uma maçã. Fizera 23 anos em maio. Era bonita e estava viva, mas tinha medo de se machucar novamente. Marcel estava certo. Ele a conhecia bem.

— Por trás da risada e dos sorrisos gentis — prosseguiu ele —, há algo muito triste, e não acho que tenha a ver com seus pais. As mulheres só ficam assim quando estão com o coração partido. — Lamentava que isso lhe tivesse acontecido. Ela, mas do que qualquer uma que ele conhecia, merecia um homem gentil e amoroso.

— Devia ser vidente em vez de médico — brincou ela dando um sorriso agradecido. Mas Marcel sabia, mesmo sem que ela confirmasse, que estava certo. Porém Annabelle não tinha intenção nenhuma de contar-lhe que era divorciada. Não estava disposta a admitir isso a ninguém, nem mesmo a ele, agora que eram amigos. Sentia muita vergonha.

Havia recebido uma carta do banco no mês anterior, avisando que os documentos definitivos do divórcio haviam chegado. Ela e Josiah agora estavam divorciados. Ela havia recebido apenas uma carta dele, no ano anterior, no Natal, dizendo-lhe que ele e Henry ainda estavam no México. Não fazia ideia se eles ainda estavam lá, mas esperava que Josiah estivesse bem. Podia deduzir do que ele lhe escrevera que os dois estavam muito doentes. Annabelle havia escrito de volta, preocupada com ele, mas não recebera notícias desde então.

— Estou certo? — insistiu Marcel. O jovem gostava de Annabelle e vivia querendo saber mais sobre ela. Ela, por outro lado, nunca falava sobre sua infância ou mesmo sobre sua vida. Era como se não quisesse ter uma. Tudo o que ela queria agora era passar uma esponja no passado e recomeçar. Ele podia pressentir, sempre que conversavam, que seu passado escondia alguns segredos.

— Não importa. Agora estou aqui, de coração partido ou não.

— Acha que um dia vai voltar? — Marcel continuava curioso.

Annabelle ficou calada enquanto pensava, depois respondeu com sinceridade.

— Não sei. Não tenho nada lá, exceto um chalé em Rhode Island. — Os criados ainda estavam lá, cuidando da casa e esperando que ela voltasse. Annabelle escrevia para Blanche de vez em quando e para ninguém mais. — Minha família se foi. Não tenho razão para voltar.

— Deve ter amigos — disse ele, olhando para Annabelle com tristeza. Odiava imaginá-la sozinha. Era uma pessoa tão calorosa, gentil e amável que não conseguia imaginá-la sem amigos, mesmo sendo tão tímida. — Você não cresceu sozinha. Alguém ainda deve estar lá. — O que ele disse a fez pensar em Hortie, mas Annabelle meneou a cabeça. Não havia lhe sobrado nenhum amigo. Por melhores que fossem as intenções de Josiah, ele acabara tirando tudo dela. Havia sido ingênuo ao pensar que estava fazendo a coisa certa ao libertá-la. Tudo o que fizera foi torná-la uma pária em seu próprio mundo. O único amigo que tinha agora era Marcel.

— Não. Tudo em minha vida mudou. É por isso que vim para cá. — Mas nem ela tinha certeza que ficaria ali. Agora não pertencia a ninguém e a lugar nenhum. Sua vida agora era a escola de medicina, e assim seria pelos próximos cinco anos. Sua casa era o château. Sua única cidade, Nice. E os homens com quem ia à escola eram os únicos amigos que tinha, principalmente Marcel.

— Fico feliz que tenha vindo para cá — disse ele simplesmente, sem querer se intrometer muito nem tocar em velhas feridas.

— Eu também. — Annabelle sorriu, e eles voltaram para o château caminhando devagar. Marcel estava impressionado porque nenhum de seus colegas tinha interesse amoroso por ela. Mas Annabelle carregava uma mensagem velada que dizia: “Não se aproxime demais.” Havia um muro ao redor dela agora. Marcel podia sentir isso, mas não sabia o porquê, e achava aquilo uma lástima. Manter-se distante, como ela fazia, era um desperdício. Ela era uma mulher adorável. Achava que merecia ter alguém em sua vida e esperava que isso acontecesse em breve.

Foi um verão longo e quente no château, com muitos dias de estudos e visitas ao hospital, e, em agosto, enfim, tiveram duas semanas para ir para casa ou sair de férias. Annabelle foi a única a ficar. Não tinha nenhum lugar para onde ir. Saiu para longos passeios e fez algumas comprinhas em Nice, embora não houvesse quase nada nas lojas por causa da guerra. Comprou umas coisinhas para repor o guarda-roupa, pois muito do que levara era preto, e o luto pela mãe já tinha acabado. Certa tarde, quando conseguiu pegar emprestado um caminhão antigo que mantinham na escola, dirigiu até a velha Antibes e a região próxima e encontrou uma antiga e bela igreja do século XI, de onde ficou olhando a paisagem bem acima da cidade. A tarde estava perfeita, e a vista era espetacular.

À noite, parou para jantar em um pequeno café, depois voltou para a escola. Até o Dr. Graumont estava fora, e Annabelle ficou sozinha no château com as duas criadas. Teve duas semanas tranquilas e ficou feliz quando os outros voltaram, particularmente quando Marcel chegou. Todos disseram ter se divertido, embora seu amigo inglês, Rupert, tivesse retornado devastado por ter perdido o irmão na guerra. Vários deles já haviam perdido irmãos, primos, amigos. Era uma dura lembrança do tumulto e da angústia que tomavam a Europa e pareciam jamais ter fim.

Quando retomaram as aulas em setembro, a Batalha do Somme ainda estava fervilhando, e já durava dois meses. Por fim terminou em meados de novembro, o que foi um grande alívio para todos. Por alguns dias, a paz reinou. Era o fim da terrível batalha que deixou mais de 1 milhão de mortos e feridos. E apenas dez dias depois de terminada, os alemães atacaram os britânicos com aeronaves pela primeira vez. Uma nova guerra começou, o que aterrorizou todo o mundo. Perto do Natal, todos estavam de moral baixo com as perdas e os constantes ataques. Mais dois alunos perderam seus irmãos. No fim do mês, o Dr. Graumont reuniu todos no salão principal. Ele havia recebido uma carta do governo francês que queria ler para os alunos. Era uma convocação para que toda mão de obra com formação médica prestasse assistência no front. Havia uma grande demanda por eles nos hospitais de campanha por toda a França. Ele ficou calado depois de ler a carta e então disse que cabia a cada um decidir o que fazer. Explicou que a escola lhes concederia uma licença, caso desejassem se voluntariar, sem prejuízos, e automaticamente os aceitaria de volta quando retornassem. Estavam recebendo cartas de hospitais havia meses, inclusive de um hospital novo, organizado mais uma vez por Elsie Inglis, agora em Villers-Cotterêts, ao nordeste de Paris, mais perto do front que Asnières e a Abbaye de Royaumont. Mais uma vez, todas as profissionais médicas em Villers-Cotterêts eram mulheres, e Annabelle seria bem recebida lá.

Todos os alunos comentaram o assunto durante o jantar naquela noite, e a conversa foi intensa. Pela manhã, metade deles havia tomado uma decisão, e um a um os alunos foram ver o Dr. Graumont. Partiriam nos dias posteriores. Além disso, havia sido um inverno penoso no front, e, por toda a Europa, os homens estavam morrendo com ferimentos, doenças e exposição ao frio. Os estudantes não conseguiam resistir aos apelos por ajuda. No fim, restaram apenas quatro deles na escola. Annabelle se decidiu no primeiro dia. Estava triste por interromper sua formação médica, mas sentia que realmente não havia outra escolha. Seria egoísmo ficar.

— Vai nos deixar também? — perguntou o Dr. Graumont com um sorriso triste, mas sem se surpreender. No último ano, aprendera a gostar dela e a respeitá-la muito. Annabelle daria uma excelente médica um dia; na verdade, sob vários aspectos já o era.

— Tenho de ir — disse ela, tristonha. Odiava ter de deixar a escola e o château. — Eu voltarei.

— Espero que sim — disse ele, sendo honesto. — Para onde vai?

— Para o hospital da Dra. Inglis em Villers-Cotterêts, caso me aceitem.

Com o treinamento que os alunos recebiam, todos poderiam ser socorristas. Era mais do que ela havia sido capaz de fazer em Asnières, e seria mais útil aos homens.

— Tenha cuidado, Annabelle. Mantenha-se em segurança. Estarei esperando por você aqui — garantiu-lhe.

— Obrigada — respondeu ela, dando-lhe um abraço caloroso. Arrumou as malas naquela noite e deixou duas delas no château, pois planejava levar apenas uma valise. No dia seguinte, quase todos, exceto os quatro alunos restantes, haviam ido embora.

Todos se abraçaram e desejaram boa sorte uns aos outros, e prometeram retornar. As despedidas com Annabelle foram particularmente fraternais e afetuosas, e todos insistiram para que ela tomasse cuidado, e ela repetia o mesmo para eles.

Marcel a conduziu ao trem antes de partir. Annabelle estava carregando sua pequena mala enquanto caminhava ao lado dele. Era seu único amigo verdadeiro, e fora gentil com ela desde o começo. Ainda era grata a ele por isso.

— Cuide-se — disse Marcel, dando-lhe um último abraço e beijando-a nas bochechas. — Espero que todos nós estejamos de volta em breve — disse com fervor. Ele partiria no final daquela tarde.

— Eu também. — Annabelle ficou acenando para Marcel enquanto ainda podia ver o amigo, que ficou parado acenando de volta na plataforma. Ficou observando-o até que ele sumisse de vista. Foi a última vez que o viu. Duas semanas depois, ele estava dirigindo uma ambulância que passou por cima de uma mina. Marcel foi a primeira baixa da escola do Dr. Graumont, e Annabelle perdeu outro amigo.