Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 8 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 4

 

Josiah visitou as Worthingtons com frequência durante julho e agosto, assim como Hortie, James e alguns outros amigos. Apresentou-lhes Henry, como prometido, que estendeu suas condolências a Consuelo e ensinou vários jogos novos de cartas para Annabelle, o que a deixou encantadíssima, principalmente quando ganhou dele várias vezes. Ela estava desfrutando da companhia dos bons amigos que tinha em Newport, e mesmo que estivessem distantes do torvelinho social naquele verão, sentia-se menos isolada do que na cidade. A vida ali parecia quase normal de novo, apesar da ausência do pai e do irmão, que, quando vivos, costumavam ficar na cidade para trabalhar.

Quando deixaram Newport no fim de agosto, ela parecia saudável, bronzeada e feliz. A mãe também parecia melhor. Foi um verão pacífico e tranquilo para as duas, depois da tragédia na primavera.

De volta à cidade, Annabelle foi trabalhar no hospital com a mãe de novo e se voluntariou para ajudar, uma vez na semana, no Hospital para Alívio dos Fraturados e Mutilados de Nova York. Faziam um trabalho extraordinário lá que a fascinava. Contou tudo a respeito para Josiah, quando este apareceu na casa da cidade para tomar chá.

— Não tocou em nenhum cadáver, tocou? — perguntou, fingindo estar preocupado, o que fez Annabelle rir.

— Não, só levo comida e água para os pacientes, mas uma das enfermeiras disse que eu talvez pudesse assistir a uma cirurgia qualquer dia.

— Você é de fato uma menina admirável — disse ele, com um sorriso largo no rosto.

No fim do mês, Consuelo enfim criou coragem de separar os pertences do marido e do filho. Desfizeram-se de algumas coisas, doaram a maior parte das roupas, mas mantiveram o escritório de Arthur e o quarto de Robert intactos. Nenhuma delas teve coragem de desmontar os cômodos, e não havia razão para isso. Não precisavam daqueles espaços.

Viram Josiah poucas vezes em setembro, comparando-se com as visitas do verão. Ele estava ocupado no banco, pois ainda estavam organizando o espólio. Embora Arthur não tivesse motivo para pensar que alguma coisa lhe aconteceria, havia deixado seus negócios em perfeita ordem; tanto Annabelle quanto a mãe estavam em excelente situação financeira. As duas podiam viver tranquilas pelo resto da vida com o que lhes fora deixado, e ainda haveria um polpudo patrimônio para os filhos de Annabelle um dia, embora esta fosse a última de suas preocupações.

Annabelle também pouco viu Hortie naquele mês. Faltavam seis semanas para o casamento, e Hortie tinha muito a fazer. Havia as provas do vestido de noiva e um enxoval para ser providenciado. Seu pai havia lhe dado uma casa, por isso ela e James estavam comprando a mobília. Viajariam para a Europa em lua de mel, que duraria até o Natal, e Annabelle sabia que sentiria muita falta dela enquanto a amiga estivesse fora. Uma vez casada, seria praticamente a mesma coisa. Annabelle já havia visto isso acontecer com outras amigas, e já sentia falta de Hortie.

Era início de outubro quando Josiah finalmente apareceu para visitá-las de novo. Annabelle estava no Hospital para Alívio dos Fraturados e Mutilados, e Consuelo estava no jardim, desfrutando de uma tarde ensolarada com uma xícara de chá. Ficou surpresa ao ver Josiah, mas ele era sempre bem-vindo. Assim, quando se levantou para cumprimentá-lo, parecia de fato contente.

— Não nos vemos há séculos, Josiah. Como vai?

— Bem. — Ele sorriu. — Passei as últimas semanas em Boston. Precisei cuidar de uns assuntos familiares por lá. Como você e Annabelle têm passado?

— Estamos bem. Annabelle está ocupada no hospital outra vez, mas pelo menos isso a mantém entretida. Não há mais nada para ela fazer aqui. — Ainda teriam mais seis meses de luto formal, e Consuelo sabia que, embora nunca reclamasse, era difícil para Annabelle. Não saía com os amigos havia seis meses, o que era entediante para uma moça de 19 anos. Precisava viver, mas não havia mais nada que Consuelo pudesse fazer.

— Sei que este período deve parecer longo para vocês duas — murmurou Josiah, sentando-se com ela no jardim e recusando a xícara de chá.

— Não me importo comigo, e sim com ela — admitiu Consuelo. — Ela vai ter quase 20 anos quando voltar a frequentar a sociedade. Não é justo. — Mas o que acontecera a Consuelo também não fora nada justo. A vida simplesmente funcionava assim às vezes.

— Ela vai ficar bem — tranquilizou-a Josiah. — Annabelle é o tipo de pessoa que tira o melhor proveito de cada situação. Nunca reclamou uma só vez comigo por não poder sair — disse com honestidade, e a mãe dela assentiu.

— Eu sei. Ela é muito tranquila. É uma pena que não a tenha encontrado hoje, vai ficar desapontada. Ela sempre vai ao hospital nas tardes de segunda-feira. — Josiah assentiu, hesitando por um instante, olhando, pensativo, para o nada, para depois fitar Consuelo com surpreendente atenção.

— Na verdade, não vim ver Annabelle hoje. Vim ver você, pois gostaria de discutir um assunto em particular. — Ele parecia sério e metódico ao falar, como se estivesse em uma missão para o banco.

— Algo a respeito dos bens de Arthur? Não pode cuidar disso com os advogados, Josiah? Sabe o quanto sou péssima para essas coisas. Arthur cuidava de tudo. Esse assunto é um mistério para mim.

— Não, não, está tudo bem em relação a isso. O banco está cuidando disso com os advogados, e está tudo em ordem. É um assunto pessoal, e talvez eu esteja sendo precipitado, mas queria discuti-lo com você e espero que seja discreta. — Consuelo não conseguia nem imaginar sobre o que ele estava falando, nem por que Annabelle não poderia estar por perto. Por um instante, preocupou-lhe que Annabelle estivesse certa meses antes, que ele estivesse lhe fazendo a corte. Esperava que não. Gostava muitíssimo dele, mas, se Josiah por acaso tivesse qualquer interesse amoroso por ela, Consuelo declinaria. Não estava interessada nele, nem em mais ninguém. Para Consuelo, este capítulo de sua vida estava encerrado.

— Queria conversar sobre Annabelle — disse ele, sendo claro, para que não ficasse nenhum mal-entendido entre eles. Josiah tinha perfeita noção de que sua idade era mais compatível com a de Consuelo do que com a da filha dela, mas não sentia qualquer centelha romântica por Consuelo, apenas respeito, admiração e uma cordial amizade. As Worthingtons foram extremamente hospitaleiras desde a morte de Arthur, e ele havia gostado muito de passar um tempo com elas. — Sei que as duas estão de luto por mais seis meses, e que você está preocupada com ela. É uma pena que tenha perdido este ano inteiro desde o début, e todas as oportunidades que isso poderia ter oferecido. A princípio, pensei que não devia lhe dizer nada, fossem lá quais fossem meus sentimentos. Annabelle é jovem demais, e achava que ela poderia ser mais feliz com alguém da idade dela. Para ser honesto, acho que não penso mais assim.

“Annabelle é uma moça bem incomum sob muitos aspectos. É inteligente, culta, tem sede de saber, e é muito madura para a idade. Não sei como você se sente a respeito disso, mas gostaria da sua permissão, quando o período de luto estiver encerrado, para pedir a mão dela em casamento e ver como ela se sente. Se você e eu formos discretos, e guardarmos isso conosco, ela terá mais seis meses para se acostumar comigo. Se concordar, pretendo continuar visitando vocês duas com frequência. Mas queria sua permissão primeiro.”

Consuelo ficou ali sentada, encarando-o. Aos seus olhos, Josiah era a resposta para suas preces e um sonho realizado. Estava tão preocupada com a vida passando por Annabelle durante aquele ano, temendo que ela acabasse ficando solteira. E apesar de ser 19 anos mais velho, Consuelo achava que Josiah era perfeito para a filha.

Josiah era de uma excelente família, bem-criado, muito educado, charmoso, bonito e tinha um excelente emprego no banco. E pelo que pôde ver, principalmente durante o verão, os dois estavam se tornando bons amigos, o que Consuelo achava ser uma base muito mais sólida para o casamento que um romance arrebatador, que talvez não durasse tanto. Foi assim que ela e Arthur começaram. Ele era amigo da família, pediu a permissão do pai dela para cortejá-la e sempre foram tão amigos quanto marido e mulher. Consuelo não podia ter pensado em alguém melhor para Annabelle do que um homem mais velho e maduro.

— Espero que não esteja chocada, ou zangada — acrescentou ele com cautela, ao que Consuelo se debruçou para lhe dar um abraço carinhoso.

— Não, como poderia? Estou encantada. Acho que você e Annabelle seriam maravilhosos juntos. — E, aos seus olhos, o ano de luto não havia sido um desperdício afinal. Era a maneira perfeita para que os dois se conhecessem melhor. E não havia as distrações competitivas nos bailes e festas por parte de rapazes tolos que virassem a cabeça de Annabelle. Josiah era um homem correto e estabelecido, seria um marido maravilhoso para qualquer uma, principalmente para sua filha. E Annabelle parecia não se incomodar com ele. Na verdade, gostava muito dele. — Acha que ela suspeita das suas intenções? — perguntou Consuelo, sendo espontânea. Não sabia se ele lhe fizera galanteios, beijara, cortejara ou se dera qualquer indício do que tinha em mente. Annabelle jamais dissera nada à mãe, o que a levava a pensar que a filha não fazia ideia do que Josiah tinha em mente.

— Nunca insinuei nada — revelou ele, sendo sincero. — Não o faria sem falar com você, embora tenha pensado nisso o verão inteiro, mas achei que era cedo demais. E, infelizmente, estive fora nas últimas semanas. Não creio que Annabelle suspeite de alguma coisa. Gostaria de esperar para falar com ela sobre isso, até abril, quando o ano de luto terminar. Talvez eu possa conversar com ela em maio. — Ele sabia que ela já estaria então com 20 anos, e ele, com 39, bem velho para ela. Temia que Annabelle fizesse objeções quanto a isso. Ela não flertava com ele, mas Josiah tinha a sensação de que estavam mesmo se tornando bons amigos. E, assim como Consuelo, acreditava que isso era uma excelente base para o casamento. Era sua primeira vez. Nunca fizera o pedido a mulher nenhuma, mas esperava não ser tarde demais. E recentemente pensava muito em ter filhos com ela. Annabelle lhe parecia a perfeita companheira para uma vida inteira. Consuelo estava absolutamente extasiada.

— Eu não poderia ter encontrado uma pessoa melhor para ela se eu mesma tivesse escolhido — disse Consuelo, parecendo contente e tocando o sino para chamar o mordomo. Quando William apareceu, ela pediu duas taças de champanhe. Josiah ficou ligeiramente surpreso. Não esperava que seria assim tão fácil.

— Não sei se já podemos comemorar. Ainda temos de perguntar a ela, em maio. Ela pode não achar tão bom quanto nós. É muito jovem, e eu tenho o dobro da idade dela.

— Acho que ela é muito sensata, não perderia essa oportunidade — disse Consuelo quando o mordomo retornou e entregou a cada um deles uma taça de champanhe. Arthur possuía uma adega notável, e a safra era muito boa. — E ela gosta de você, Josiah. Acho que vão se entender muito bem.

— Também acho — disse ele, parecendo feliz, desejando poder fazer o pedido a Annabelle naquela tarde, mas não seria adequado fazê-lo tão pouco tempo depois da morte de Arthur e Robert. — Espero que ela concorde — disse Josiah, cheio de esperanças.

— Isso é com você — lembrou-lhe Consuelo. — Você tem seis meses para ganhar o coração dela e selar o acordo.

— Sem que ela saiba o que estou fazendo — disse ele, cauteloso.

— Talvez pudesse deixar uma pista de vez em quando — sugeriu sua futura sogra, o que o fez rir.

— Ela é esperta demais para isso. Se eu começar a dar pistas, seria o mesmo que fazer o pedido. E não quero assustá-la fazendo isso tão cedo.

— Acho que convencê-la não vai ser tão difícil quanto pensa — disse Consuelo, sorridente sob a luz mosqueada do sol na quente tarde de outubro. Graças a ele, havia sido o dia perfeito. Só lamentava não ter Arthur para compartilhar a notícia, mas suspeitava que ele também teria ficado feliz.

Ainda estavam conversando amistosamente sobre o plano de Josiah quando Annabelle surgiu no jardim vestindo o avental hospitalar. Havia sangue nele, por isso a mãe fez cara feia.

— Tire essa coisa — ralhou Consuelo — e vá lavar as mãos. Minha nossa, Annabelle, está trazendo germes para dentro de casa. — Ela enxotou Annabelle, que voltou cinco minutos depois, sem o avental, em seu austero vestido preto. Parecia quase uma jovem freira. A aparência era séria, porém a única coisa realmente séria em Annabelle era o vestido, pois ficou toda sorrisos quando viu Josiah. Parecia estar de ótimo humor.

— Tive um dia ótimo — anunciou, notando em seguida que estavam bebendo champanhe. Ela sempre observava tudo e nunca perdia um detalhe. — Por que vocês dois estão bebendo champanhe? O que estão comemorando?

— Josiah veio me contar que recebeu uma promoção no banco — respondeu sua mãe mais do que depressa. — Deram-lhe todo o tipo de contas novas para gerenciar. E achei que devíamos felicitá-lo. Quer uma taça também?

Annabelle assentiu. Adorava champanhe, por isso ela mesma foi buscar a taça, tendo logo depois o zelo de felicitar Josiah pela promoção, embora não achasse o ramo financeiro muito empolgante. Ficava entediada quando o pai e Robert conversavam sobre isso também. Tinha muito mais interesse nas ciências.

— O que fez hoje no hospital? — perguntou ele, sendo gentil. De repente era como se ela já fosse sua esposa, pois sentia emoções muito ternas por ela, o que não se permitia mostrar.

— Muitas coisas interessantes — disse, sorrindo-lhe abertamente antes de tomar um gole do champanhe. Não fazia ideia de que estava brindando seu futuro noivado, e isso fez tanto Josiah quanto Consuelo sorrirem também. Haviam se tornado conspiradores naquela tarde. — Deixaram-me acompanhar a sutura de uma ferida nojenta.

— É melhor parar por aí, senão ficarei enjoada — avisou a mãe, fazendo Annabelle rir e mudar de assunto. — Terá de parar com isso um dia — disse Consuelo com ar enigmático. — Um dia será uma mulher casada e não poderá ficar zanzando por hospitais, assistindo a suturas de ferimentos.

— Você faz isso — lembrou-lhe Annabelle com um sorriso.

— Não mesmo. Levo bandejas aos pacientes em um hospital bem mais civilizado, e não tinha tempo para isso quando vocês eram pequenos. Pode retomar o trabalho voluntário quando for mais velha.

— Não vejo por que teria de parar se me casasse — reclamou Annabelle. — Muitas mulheres têm filhos e ainda trabalham no hospital. Além disso, talvez eu nunca me case. Quem sabe o que vai acontecer?

— Não quero ouvir isso! — exclamou Consuelo, fazendo cara feia e voltando-se para Josiah. Mal podia esperar que se casassem e começassem a ter filhos. Seria um capítulo inteiramente novo em suas vidas, e ela sabia que Annabelle seria uma mãe maravilhosa. Era muito paciente e amorosa, por isso achava que seria uma excelente esposa para Josiah.

Conversaram então sobre o casamento de Hortie, que aconteceria em poucas semanas. Ela estava tão ocupada que Annabelle agora mal a via. E Josiah disse que compareceria à cerimônia. Annabelle murmurou que não poderia ir, sendo então surpreendida por sua mãe.

— Não vejo por que não possa ir à cerimônia religiosa — disse Consuelo, benevolente. — Não há nada que diga que não podemos ir à igreja. Na verdade, provavelmente deveríamos ir à missa com mais frequência. Você pode voltar para casa depois e pular a recepção. Pelo menos veria Hortie se casar. Afinal, ela é sua amiga mais antiga e querida. — E provavelmente a jovem seria madrinha da filha quando ela casasse com Josiah, disso Consuelo sabia.

— Ficaria contente em levar as duas — ofereceu-se Josiah mais que depressa, virando-se para sua futura esposa, que não fazia ideia do que ele estava pensando. Seria sua primeira oportunidade de acompanhá-la em público, algo que o deixou animado.

— Acho que eu não deveria ir — murmurou Consuelo. Ela achava que ainda não estava pronta para aparecer em público. — Mas seria muito gentil de sua parte se acompanhasse Annabelle à cerimônia.

— Você gostaria disso? — perguntou ele diretamente a Annabelle. Ela deu um grande sorriso ao dizer que sim.

— Adoraria. — Todos os amigos dela estariam lá. Hortie queria que ela fosse uma das madrinhas, mas agora seria impossível. Deste modo, pelo menos, poderia estar no casamento. E seria divertido sair com Josiah, era quase como sair com Robert. O irmão costumava acompanhá-la a festas, embora fossem festas pequenas antes de seu début. E Hortie teria um grande casamento. A festa era para oitocentos convidados, mas provavelmente haveria um número maior de pessoas.

— Temos de encontrar algo para você vestir — disse a mãe, pensativa. Teria de usar um vestido preto apropriado, mas ela não tinha nenhum traje de festa em cores escuras.

— Será tão divertido! — disse Annabelle, batendo palmas, parecendo uma criança, e a mãe e Josiah sorriam.

— Tudo será divertido de agora em diante — disse-lhe a mãe com ar amoroso. Estava muito aliviada com o pedido de casamento de Josiah.

Como agradecimento, Annabelle abraçou Josiah, e ele ficou bastante contente.

— Obrigada por me acompanhar — agradeceu, animada.

— É um daqueles sacrifícios que se tem de fazer na vida — brincou ele. — Serei perseverante. — Mal podia esperar para que os próximos seis meses passassem, pois então, com sorte, estariam se casando. A mãe dela teve o mesmo pensamento naquele momento, por isso ela e Josiah trocaram um olhar conspirador acima da cabeça de Annabelle e sorriram. Annabelle não sabia ainda, mas seu futuro agora estava seguro. Era o que a mãe mais queria para a filha, desde seu nascimento.