Uma Mulher Livre
Capítulo 8
Como prometido, Annabelle e Josiah pararam para se despedir da mãe dela a caminho da cidade. O Hispano-Suiza, dirigido por Thomas, os levaria à estação para que pegassem o trem naquela tarde. Seguiriam para Chicago na primeira parte da viagem e de lá trocariam de trem para prosseguir a jornada rumo a Wyoming, no oeste, para um rancho que Josiah havia visitado uma vez e adorado. Os dois andariam a cavalo, sairiam para pescar e caminhar em meio ao incrível cenário da Grand Teton. Josiah lhe disse que a montanha era mais bonita que os Alpes Suíços — e não precisariam pegar um navio para chegar lá. Ficariam por quase três semanas. Depois voltariam para Nova York para procurar uma casa nova, grande o bastante para eles e para os filhos que esperavam ter. Consuelo torcia para que, assim como Hortie, Annabelle voltasse grávida da lua de mel.
Consuelo examinou o rosto da filha na manhã seguinte, procurando as mudanças e a meiguice de uma mulher amada, mas só o que viu foi a criança sorridente que amou durante toda a vida. Nada havia mudado. Ela ficou feliz em ver que Annabelle havia se adaptado bem. Não havia recalcitrância nem o ar apavorado que às vezes se via no rosto das noivas depois da noite de núpcias. Annabelle estava tão feliz como de costume, e ainda tratava Josiah mais como velho amigo que um novo amor. Antes de se despedirem da mãe, pararam na casa de Josiah para darem tchau a Henry também.
Consuelo estava almoçando com o pai e a madrasta de Josiah quando o novo casal chegou. Todos estavam animados e conversavam sobre as delícias e a beleza da noite anterior. A mãe abraçou a filha mais uma vez. Annabelle e Josiah agradeceram ao pai dele pelo jantar de ensaio e partiram no Hispano-Suiza minutos depois.
Ela teria gostado de parar para se despedir de Hortie também, mas Consuelo disse que James havia mandado um recado dizendo que ela estava em trabalho de parto. A mãe e o médico estavam com ela, e James almoçava com os amigos. Annabelle esperava que tudo corresse bem. Sabia que Hortie estava nervosa em relação ao tamanho do bebê, e com o quanto seria difícil parir. Uma das amigas, que debutara na mesma época que elas, havia morrido no parto poucos meses antes. Foi chocante para todos. Era algo que acontecia, e às vezes não podia ser evitado. E depois geralmente vinham as infecções, que quase sempre matavam a mãe. Então Annabelle fez uma oração silenciosa por Hortie ao partir, imaginando se Consuelo estaria certa, se seria um menino. Era um pensamento animador, o que a fez imaginar também se voltaria grávida da lua de mel, com um bebê concebido nas florestas de Wyoming.
Estava grata por Josiah ter sido gentil e respeitoso na noite anterior. Acrescentar a novidade do sexo a um dia tão sobrecarregado teria sido demais, embora estivesse disposta a experimentar caso ele tivesse insistido. Mas precisava admitir, estava contente por ter acontecido o contrário. Josiah era o marido perfeito, gentil e compreensivo, e como lhe prometera no começo, ainda era seu melhor amigo. Ela o olhava com adoração enquanto eram conduzidos à cidade. Conversaram um pouco mais sobre a festa, e ele lhe descreveu Wyoming mais uma vez. Havia prometido lhe ensinar a pescar. Para Annabelle, parecia ser a lua de mel perfeita. Josiah também achava.
Chegaram a Nova York às cinco da tarde, bem adiantados para o trem das seis horas, e se acomodaram no maior compartimento da primeira classe. Annabelle bateu palmas de felicidade quando viu o lugar.
— Isso é tão divertido! Adorei! — Deu uma risadinha, enquanto Josiah sorria contente.
— Você é tão bobinha, e eu te amo. — Passou os braços em torno dela e a beijou ao mesmo tempo que a puxava para si.
Passariam o dia seguinte em Chicago, antes de pegar outro trem e seguir para o oeste naquela noite. Josiah lhe prometera mostrar a cidade durante a breve parada e reservara uma suíte no Palmer House Hotel, para poderem descansar com conforto entre uma viagem e outra. Ele havia pensado em tudo. Queria que Annabelle ficasse feliz. Ela merecia, depois de tudo o que perdera, tudo o que sofrera, e ele jurou para si mesmo, enquanto o trem deixava a Grand Central Station, que jamais a desapontaria. E cada palavra era verdadeira. Era uma promessa solene.
Às seis horas daquela tarde, quando o trem de Josiah e Annabelle deixava a estação, o bebê de Hortie ainda não havia nascido. Estava sendo um parto difícil. O bebê era grande, e ela, pequena. Ela estava gritando e se contorcendo havia horas. James voltou para casa depois do almoço e achou os gritos dela tão lancinantes e desconcertantes que teve de se servir de uma bebida forte e sair de novo para jantar com os amigos. Odiava pensar em Hortie sofrendo, mas não havia nada que pudesse fazer. Aquilo dizia mais respeito às mulheres. Tinha certeza de que o médico, a mãe dela e as duas enfermeiras estavam fazendo tudo o que podiam.
Estava bêbado quando voltou para casa, às duas horas daquela madrugada, e ficou espantado ao saber que o bebê ainda não havia nascido. Estava embriagado demais para notar o pavor estampado no rosto da sogra. Hortie agora estava tão fraca que os gritos haviam diminuído, para grande alívio dele, e um lastimável gemido animal ecoava pela casa. James pôs um travesseiro sobre a cabeça e foi dormir. Uma rápida batida na porta do quarto de hóspedes, onde estava dormindo, o mais longe possível do quarto em que a esposa estava em trabalho de parto, por fim o despertou às cinco da manhã. Era sua sogra para dizer que seu filho havia nascido, e que pesava quase 4,5 quilos. O bebê havia destruído a filha dela, mas ela não contou isso a James. Se ele estivesse mais sóbrio, teria percebido sozinho. James a agradeceu pela notícia e voltou a dormir, prometendo ver Hortie e o bebê pela manhã quando acordasse. Não poderia vê-la naquele momento, de qualquer forma, pois o médico estava dando pontos nos rasgos que o parto causara.
Hortie teve um sofrido trabalho de parto de 26 horas. Ainda estava soluçando muito quando o médico começou a dar pontos, com todo cuidado, antes de finalmente lhe ministrar clorofórmio. Foram horas difíceis, e ela poderia ter morrido. E havia a preocupação com uma infecção, então ela ainda não estava fora de perigo. Mas o bebê estava bem. Só a mãe dele não estava nada bem. Sua iniciação na maternidade havia sido uma prova de fogo. A mãe de Hortie falaria sobre o assunto com suas amigas por meses. Mas tudo o que diria publicamente era que o bebê havia chegado, e que mãe e filho passavam bem. O resto só poderia ser dito entre mulheres, a portas fechadas, mantendo a agonia do parto, e seus terríveis riscos, cuidadosamente longe dos ouvidos masculinos.
Quando Consuelo soube de tudo pela mãe de Hortie no dia seguinte, lamentou que a moça tivesse sofrido tanto. O parto de Robert havia sido fácil para Consuelo, mas o de Annabelle foi mais desafiador, pois ela nasceu virada, os pés saíram antes, e foi um milagre as duas terem sobrevivido. Só esperava que a filha tivesse um parto mais fácil que o da amiga. Estavam fazendo todo o possível para evitar uma infecção, mas era difícil, depois de um nascimento tão trabalhoso, embora ninguém soubesse o porquê.
Consuelo disse que a visitaria nos próximos dias, mas a mãe dela admitiu que Hortie ainda não estava bem e que talvez demorasse um tempo para se recuperar. Estavam planejando mantê-la de cama por um mês. Contou que James ficou com Hortie e o bebê por alguns minutinhos, que haviam dado uma cor às bochechas dela e penteado seus cabelos, mas que ela só chorou. James estava empolgadíssimo com o filho. Isso fez Consuelo pensar em Arthur, que sempre fora muito atencioso com ela depois do nascimento das crianças. Para um homem jovem, havia sido carinhoso e compreensivo, algo incomum. E ela tinha a sensação de que Josiah seria assim também. Mas James era pouco mais que um garoto e não tinha ideia do que um parto acarretava. Havia dito no casamento que esperava ter outro em breve, e Hortie rira e revirara os olhos. Consuelo lamentava por ela, sabendo o que tinha acabado de sofrer. Enviou uma cesta de frutas e um imenso buquê de flores de presente naquela tarde, e rezou para que ela se recuperasse logo. Era tudo o que se podia fazer. Ela estava em boas mãos. E Consuelo sabia muito bem que, depois daquele dia, Hortie já não seria mais a garota despreocupada de antes. Ela pagara seus pecados.
Hortie conseguiu sair da cama em três semanas, em vez de um mês. O bebê estava crescendo. Tinham uma ama-seca para ele, e haviam amarrado os seios de Hortie para estancar o leite. Ela ainda estava um tanto cambaleante, mas parecia bem. Era jovem e saudável, teve sorte de não ter infecções e já não corria mais risco. Consuelo a visitou várias vezes. James estava explodindo de orgulho com o filho enorme, a quem deram o nome de Charles. O bebê ficava mais gordo a cada dia. E, três semanas depois do parto, levaram Hortie de volta para Nova York em uma ambulância, para que ela se recuperasse na cidade. Estava feliz por voltar para casa. Consuelo deixou Newport no mesmo dia.
Foi solitário voltar para Nova York. A casa estava quieta demais sem Annabelle, que era tão cheia de luz, vida e diversão, sempre cuidando da mãe e se oferecendo para fazer coisas com ela. Todo o peso da solidão e isolamento de seu futuro atingiu Consuelo como uma bomba naquele momento. Era difícil ficar sozinha. E agradeceu porque os recém-casados chegariam da lua de mel em dois dias. Havia encontrado Henry Orson na rua, que também lhe pareceu solitário. Josiah e Annabelle traziam tanta luz e alegria quando estavam por perto que, sem eles, todos se sentiam despojados. Consuelo, Hortie e Henry mal podiam esperar pela volta do casal.
E então, com uma explosão de alegria, eles retornaram. Annabelle insistiu em parar para falar com a mãe a caminho de casa, e Consuelo ficou contente por vê-la, parecia saudável, feliz e bronzeada. Josiah também parecia bem. Ainda se provocavam feito crianças no pátio da escola, brincando, rindo, fazendo piada de tudo. Annabelle disse que Josiah a ensinou a pescar com mosca artificial, e que ela tinha pegado uma truta enorme sozinha. Josiah parecia orgulhoso dela. Haviam andado a cavalo, caminhado pelas montanhas e desfrutado bastante a vida no rancho. Annabelle parecia uma criança que passara o verão fora. Era difícil acreditar que já era adulta e casada. E Consuelo não via nenhuma das sutilezas e insinuações de feminilidade no rosto da filha. Não sabia se um bebê havia sido concebido e também não queria perguntar. Mas Annabelle parecia a mesma moça gentil, amorosa e feliz que era quando partiu. Perguntou como Hortie estava, e Consuelo respondeu que estava bem. Não queria assustar Annabelle com histórias sobre o parto, nem seria adequado aos ouvidos de Josiah, então simplesmente disse que tudo tinha corrido bem e que o bebê havia recebido o nome de Charles. Deixou que Hortie contasse o resto a Annabelle, ou não. Esperava que não. A maior parte era muito assustadora para uma jovem ouvir. Particularmente uma jovem que talvez pudesse passar pelo mesmo em breve. Não havia razão para apavorá-la.
Ficaram lá durante uma hora e depois se despediram. Annabelle prometeu visitar a mãe no dia seguinte, e os dois aproveitariam para jantar com ela. E, após se despedirem de Consuelo, o casal foi para casa. Consuelo ficou imensamente feliz em vê-los, mas a casa pareceu mais vazia do que nunca quando o casal partiu. Mal comia ultimamente, pois era muito desolador sentar na sala de jantar sozinha.
Conforme prometido, Annabelle foi almoçar com ela no dia seguinte. Estava vestindo um dos trajes do enxoval, um conjunto de lã azul-marinho bem adulto, mas ainda parecia uma criança para a mãe. Mesmo com os ornamentos da feminilidade e uma aliança no dedo, agia como uma menina. Parecia muito feliz ao conversar durante o almoço e perguntou-lhe o que andava fazendo. A mãe respondeu que não estava na cidade havia muitos dias, pois tinha ficado em Newport por mais tempo que de costume, desfrutando do clima de setembro, e agora planejava retomar o trabalho voluntário no hospital. Esperava que Annabelle dissesse que a acompanharia, ou mencionasse que voltaria ao Hospital para Alívio dos Fraturados e Mutilados, mas, para a surpresa de Consuelo, ela disse que preferia ser voluntária no Hospital para Imigrantes de Ellis Island. O trabalho lá seria mais interessante e desafiador, e estavam tão desfalcados que ela teria mais oportunidades de ajudar com o trabalho médico, e não apenas carregar bandejas. Ao ouvir isso, a mãe ficou aborrecida.
— Aquele povo está sempre doente, eles trazem doenças de outros países. As condições lá são terríveis. Acho que é uma coisa muito tola de se fazer. Você acabará pegando uma gripe de novo ou algo pior. Não quero que faça isso.
Mas Annabelle agora era uma mulher casada, e era da conta de Josiah o que ela fazia. Consuelo perguntou à filha se ele sabia de suas intenções. Annabelle assentiu e sorriu. Josiah era muito sensato em relação a esse tipo de assunto e sempre fora compreensivo com os interesses médicos dela e o trabalho voluntário que a esposa fazia. Inclusive a incentivava. Havia contado a ele sobre seus novos planos.
— Ele não vê problema.
— Ora, eu vejo. — Consuelo franziu a testa, bastante chateada.
— Mamãe, não se esqueça de que o pior caso de gripe que já tive foi contraída em salões de baile e festas quando fui debutante. Não quando eu trabalhava com os pobres.
— Razão ainda maior para que não faça isso — replicou Consuelo, firme. — Se consegue ficar doente em festas, em meio a pessoas saudáveis e de boa condição, imagine se não ficaria doente trabalhando com pessoas que vivem em condições terríveis e estão infestadas de doenças. Além disso, quando ficar grávida, o que eu espero que aconteça logo, se já não aconteceu, seria uma ideia terrível e colocaria você e o bebê em risco. Josiah pensou nisso? — Algo que Consuelo não compreendeu cruzou os olhos da filha, mas sumiu em um lampejo.
— Não estou com pressa de começar uma família, mamãe. Josiah e eu queremos nos divertir primeiro. — Era a primeira vez que Consuelo ouvia isso dela, o que a deixou surpresa. Imaginou se estaria usando um dos novos, ou mesmo algum dos antigos, métodos para evitar filhos. Mas não ousou perguntar.
— Quando decidiu isso? — O comentário da filha havia respondido à pergunta de Consuelo sobre Annabelle ter engravidado na viagem. Aparentemente, ela não tinha.
— Acho que sou muito jovem, e estamos nos divertindo muito para nos preocuparmos com um bebê. Queremos viajar mais. Talvez ir para a Califórnia no ano que vem. Josiah disse que São Francisco é um lugar lindo e quer me mostrar o Grand Canyon. Não posso fazer essa viagem grávida.
— O Grand Canyon pode esperar — disse a mãe, parecendo desapontada. — Lamento ouvir isso. Eu espero ter netos — completou, triste. Não tinha nada na vida agora, exceto as visitas de Annabelle, que adorava, uma vez que não morava mais com ela. Netos preencheriam o vazio nela.
— Vai tê-los — garantiu Annabelle. — Só que não será agora. Não tenha tanta pressa. Como Josiah diz, temos muito tempo. — Ele havia dito isso mais de uma vez na viagem, e ela não teve escolha senão concordar. Ele era seu marido, afinal, e ela tinha de respeitá-lo.
— Bem, mesmo assim não quero você trabalhando no hospital de Ellis Island. Pensei que gostasse do trabalho voluntário que estava fazendo. — O Hospital para Alívio dos Fraturados e Mutilados já era bem ruim, na opinião de Consuelo. O Ellis Island era inimaginável.
— Acho que o hospital de Ellis Island seria mais interessante, e me daria mais chances de melhorar minhas habilidades — repetiu Annabelle, e a mãe ficou surpresa por ouvir isso.
— Que habilidades? O que você esconde na manga?
Annabelle era sempre cheia de ideias novas, particularmente sobre medicina e ciência. Eram claramente sua paixão, mesmo que não as exercesse de maneira oficial.
— Nada, mamãe — respondeu Annabelle, séria, parecendo um pouco triste. — Só queria poder ajudar mais, e acho que sou capaz de fazer mais do que me deixam nos hospitais aqui. — A mãe não sabia que ela desejava ser médica. Aquele era um sonho que Annabelle sabia que nunca daria frutos, então por que falar disso e aborrecê-la? Mas pelo menos poderia chegar mais perto, como voluntária. No Hospital para Imigrantes de Ellis Island, com carência de pessoal e lotado de pacientes, ela teria como fazer isso. Foi Henry Orson quem lhe sugeriu. Conhecia um médico de lá e prometeu apresentá-la a ele. E como a ideia tinha sido de Henry, Josiah aprovou o plano.
Annabelle foi visitar Hortie depois do almoço com a mãe. Ainda ficava na cama na maior parte do tempo, mas se levantava com cada vez mais frequência. Annabelle ficou chocada com o quanto ela parecia magra e cansada. O bebê era grande e bonito, mas Hortie parecia ter voltado de uma guerra, e disse que fora uma guerra mesmo.
— Foi horrível — relatou à amiga. Seus olhos ainda contando a história. — Ninguém nunca me disse que seria assim. Pensei que estivesse morrendo, e minha mãe falou que foi por pouco. E James disse que quer outro logo. Acho que ele está tentando começar uma dinastia, ou um time de beisebol, ou qualquer coisa assim. Ainda não consigo sentar, e foi sorte não ter tido uma infecção. Provavelmente teria me matado, como aconteceu com Aimee Jackson no ano passado. — Hortie parecia bastante impressionada e muito abalada com o que havia sofrido. E Annabelle não pôde deixar de se perguntar se o bebê valia isso. Era uma gracinha, mas não teria sido tão adorável se sua chegada tivesse matado Hortie, o que quase aconteceu. Pareceu-lhe aterrorizante quando a amiga lhe contou como foi. — Acho que gritei durante as 26 horas. Nem sei se quero fazer isso de novo. E imagine se fossem gêmeos, acho que eu me mataria. Imagine dois em uma mesma noite! — Ela parecia horrorizada, embora seis meses antes achasse que ter gêmeos seria algo divertido. Ter bebês se mostrara um assunto bem mais sério do que ela havia imaginado. E a história que contou deixava a velha amiga assustada. Tanto que Annabelle ficou grata por não estar grávida. — E você? — perguntou Hortie, parecendo maliciosa de repente e bem mais ao seu estilo. — Como foi a lua de mel? O sexo não é fabuloso? É uma pena que termine em gravidez, mas acho que isso pode ser evitado, se tiver sorte. Acha que já está grávida?
— Não — respondeu Annabelle, depressa. — Não estou. E não estamos com pressa. E o que você está me contando faz com que eu nunca queira engravidar.
— Minha mãe disse que eu não deveria falar sobre isso com mulheres que não tiveram filhos ainda. — Hortie parecia culpada. — Lamento se assustei você.
— Está tudo bem — disse Annabelle, sorridente. Ela não fez nenhum comentário sobre sua vida sexual, nem pretendia. — Você só me deixou feliz por eu não estar grávida. — Hortie então se recostou na cama e deu um suspiro cansado, e a ama-seca trouxe o bebê para mostrar como estava gordo e bonito. Era uma gracinha de criança e dormia profundamente nos braços da ama.
— Acho que ele valeu a pena — disse Hortie, parecendo incerta, quando a ama saiu. Ela não gostava muito de segurá-lo. A maternidade ainda a assustava, e Hortie ainda não havia perdoado o bebê pela agonia que lhe causara. Sabia que se lembraria disso por muito, muito tempo. — Minha mãe disse que vou acabar esquecendo. Não tenho tanta certeza disso. Foi horrível — repetiu. — O pobre James nem faz ideia, e não tenho permissão de contar a ele. Os homens não devem saber. — Parecia uma ideia estranha para Annabelle, já que teriam informado a ele caso Hortie morresse. Mas como isso não aconteceu, devia permanecer um mistério e a mãe tinha de fingir que tudo havia sido fácil e tranquilo.
— Não sei por que ele não pode saber. Eu contaria a Josiah. Não há nada que eu não possa contar a ele. E acho que ele ficaria preocupado comigo, se eu não contasse.
— Alguns homens são assim. James não é. É uma criança. E Josiah é bem mais velho, é mais como um pai. E vocês se divertiram?
— Foi maravilhoso. — Annabelle sorriu. — Aprendi a pescar com mosca, e cavalgamos todos os dias. — Ela havia adorado galopar nos contrafortes com Josiah, em meio a um mar de flores silvestres.
— O que mais aprendeu? — perguntou Hortie com olhar malicioso, mas Annabelle fingiu não perceber. — Aprendi umas coisas bem interessantes com James na nossa lua de mel em Paris. — Todos na cidade sabiam que antes do casamento, pelo menos, James procurava prostitutas constantemente. Havia murmúrios a respeito. E ele provavelmente havia aprendido coisas com elas que Annabelle não queria saber, embora Hortie não parecesse se importar. Annabelle preferia estar casada com Josiah, mesmo que não começassem uma família por agora. E afinal precisavam encontrar uma casa, pois o apartamento dele era muito pequeno.
Hortie não conseguiu nada com suas perguntas e insinuações picantes, e acabou ficando cansada e foi tirar um cochilo; então Annabelle a deixou e foi para casa. Havia sido bom vê-la, e o bebê era bonito, mas a história do parto deixou Annabelle abalada. Ela queria um filho, mas não gostaria de passar por tudo aquilo. E imaginou quanto tempo se passaria até ela mesma parir. Teria gostado de segurar Charles por um momento, mas Hortie não ofereceu nem parecia ter vontade de segurá-lo ela mesma. Mas, pelo que havia lhe acontecido, Annabelle disse a si mesma que aquilo era compreensível e se perguntou se levava tempo para desenvolver instintos maternos, assim como se levava tempo para se acostumar com a ideia de estar casada. Nem ela ou Josiah haviam se acostumado com isso ainda.