Uma Mulher Livre
Capítulo 25
Annabelle recebeu duas cartas nos primeiros dias de primavera. Ambas lhe deram o que pensar. Uma era de Lady Winshire, convidando mãe e filha para passarem alguns dias com ela. A distinta senhora achava que seria bom para Consuelo ver de onde a outra metade da família tinha vindo e como vivia, para que a menina conhecesse parte de sua origem. Esperava que fossem assim que tivessem chance. Annabelle pensou na possibilidade, mas não estava segura. Harry Winshire era uma lembrança terrível, porém, o que a mãe dele dissera era verdade. O assunto não tinha a ver com Harry, e sim com Consuelo e a avó, que finalmente havia conhecido. E ela tinha a sensação de que Consuelo apreciaria visitá-la.
A outra carta era do funcionário do banco de seu pai que ainda gerenciava seus bens. Annabelle sempre recebia uma remessa de dinheiro na França, mas o grosso de sua fortuna havia permanecido nos Estados Unidos. Ele estava perguntando, pela primeira vez em muito tempo, o que ela queria fazer com a casa em Newport. Annabelle não ia lá havia dez anos, mas nunca teve coragem de se desfazer da propriedade. Tinha muitas recordações daquela casa, porém não conseguia se imaginar voltando para lá, mesmo como visita. E aquilo era parte da herança de Consuelo também, muito mais do que os bens de Lady Winshire, já que o pai da menina jamais fizera parte da vida delas.
O funcionário do banco havia escrito para dizer que tinha recebido uma oferta bastante razoável pelo chalé. Blanche, William e os outros criados ainda estavam lá, cuidando da casa e haviam perdido qualquer esperança de revê-la. Annabelle não podia dizer que estavam errados. Nunca tivera vontade de voltar aos Estados Unidos em todos aqueles anos. Às vezes sentia falta de seu lar, mas também conhecia as misérias do ostracismo que experimentaria caso retornasse, mesmo se fosse apenas para fazer uma visita. Não lhe restava mais ninguém. E ela temia que, caso voltasse, pudesse reabrir velhas feridas causadas pela saudade que sentia da família e de tudo o que perdera, inclusive Josiah. Não queria reviver aquela dor. Mas não se sentia pronta para vender o chalé, embora o bancário tivesse razão, a oferta que tinham recebido era boa. Annabelle não sabia o que fazer.
Pensou primeiro na oferta de Lady Winshire e conversou sobre o assunto com Consuelo no jantar daquela noite. A menininha ficou animada na mesma hora e disse que queria ir. E, de uma estranha forma, este era o desejo de Annabelle também. Achava que sair de Paris por um tempo seria bom para as duas. Consuelo implorava para que fossem a Deauville outra vez, mas Annabelle estava relutante, depois da sua amarga experiência com Antoine. Era como se tivesse lembranças ruins por toda a parte, parecia que estava constantemente se escondendo dos próprios fantasmas.
Respondeu à carta de Lady Winshire no dia seguinte dizendo que aceitariam o convite. Lady Winshire escreveu de volta imediatamente para marcar a data. Acabaram, escolhendo o fim de semana do aniversário de Consuelo. Ela faria 7 anos. O tempo estaria um pouco melhor até lá. Annabelle pediu que Hélène comprasse as passagens e providenciasse tudo para a viagem. Pegariam o trem para Calais, atravessariam o Canal até Dover, e Lady Winshire disse que mandaria alguém encontrá-las. Era uma viagem de apenas duas horas até sua propriedade.
Quando o fim de semana escolhido chegou, Consuelo estava tão empolgada que mal conseguia ficar sentada quieta. Deixariam Brigitte em Paris, onde a jovem pretendia passar uns dias com o novo namorado. Annabelle embarcou no trem, carregando suas duas valises e guiando Consuelo. Acomodaram-se no compartimento da primeira classe que Hélène havia reservado. Era a maior aventura de Consuelo desde que viera para Paris dois anos antes, e o fim de semana em Deauville com Antoine. Já não falavam mais sobre ele. Mesmo em tenra idade, Consuelo havia compreendido que o assunto era doloroso para a mãe e que ela o evitava. Annabelle o viu certa vez no hospital, mas, no momento em que percebeu que era ele, virou e subiu correndo a escada dos fundos para ver seu paciente. Não queria falar com ele de novo nunca mais. A traição dele era imperdoável.
Quando o trem deixou a Gare du Nord, Consuelo olhava para tudo com fascinação, fazendo Annabelle sorrir. Almoçaram no vagão-restaurante, “feito mocinhas”, como Consuelo dizia, e depois ficaram admirando a paisagem pela janela, até a menina finalmente cair no sono no colo da mãe. Annabelle recostou a cabeça no assento, pensando nos últimos meses. Haviam sido difíceis. Era como se Antoine tivesse tomado não apenas o sonho que lhe oferecera, mas sua esperança de que as coisas um dia seriam diferentes em sua vida.
Era como se ela estivesse condenada para sempre pelo passado. Havia sido vítima das decisões, fraquezas e mentiras de outras pessoas. Era deprimente desprender-se da sensação de que a verdade jamais viria à luz e que seu nome nunca seria limpo. Não importava o tanto que fizera desde então, ou o que havia conquistado na vida, o que parecia persistir eternamente, como uma tatuagem que nunca conseguiria remover, eram os pecados com os quais fora marcada, mesmo todos eles não sendo seus. Era uma boa mãe e uma ótima médica, uma pessoa decente, mas, apesar disso, seria sempre rotulada por seu passado, e Consuelo também, para sempre. Apenas Antoine havia ousado dizer aquela palavra. Era um rótulo cruel para uma criança inocente.
Apenas três horas depois, chegaram a Calais e embarcaram no pequeno navio. Annabelle estava temerosa. Não costumava enjoar, mas o Canal estava sempre revolto e ela temia que Consuelo ficasse mareada. No fim, foi mesmo uma viagem difícil, mas Consuelo amou cada minuto. Quanto mais a balsa se inclinava e singrava o mar instável, mais ela achava graça e dava gritinhos de pura alegria. Quando chegaram a Dover, do outro lado, Annabelle estava começando a ficar enjoada, mas Consuelo estava mais feliz do que nunca. Desembarcou saltitando, segurando a mão da mãe e carregando a boneca favorita.
O chofer de Lady Winshire estava esperando por elas no cais, conforme prometido, em um antigo Rolls. A viagem durou duas horas e elas passaram por campos com fazendas, vacas e com propriedades enormes, e às vezes um velho castelo. Para Consuelo, aquilo era uma grande aventura. E agora que não estavam mais no mar, Annabelle estava apreciando a viagem também.
Mas nenhuma das duas estava preparada para a magnificência da propriedade Winshire, ou para o esplendor da enorme casa. Árvores imensas e antigas margeavam a longa entrada de carros e, graças à fortuna de Lady Winshire, independente da do finado conde, a casa em si, construída no século XVI, estava em condições impecáveis. O estábulo era maior, mais limpo e mais bonito do que muitas casas. Lady Winshire fora uma amazona notável na juventude e ainda gostava de manter um estábulo com cavalos impecáveis, com meia dúzia de cavalariços que os montavam todos os dias.
Ela saiu para cumprimentá-las parando nos degraus da entrada, parecendo mais magnífica do que nunca, trajando um vestido azul-escuro, resistentes sapatos de caminhada, as pérolas de costume e um chapéu enorme. Brandiu a bengala prateada como se fosse uma espada, apontando para as valises e pedindo ao motorista que levasse as malas para os aposentos delas. E, com um sorriso largo, depois de abraçar tanto Annabelle quanto Consuelo, que examinava com olhos arregalados tudo o que via, gesticulou para que a acompanhassem para dentro de casa.
Havia uma galeria interminável com uma fileira de retratos de família, uma sala de estar gigantesca com um candelabro magnífico, uma biblioteca com quilômetros de prateleiras de livros antigos, uma sala de música com duas harpas e um grande piano, uma sala de jantar com uma mesa comprida o bastante para acomodar quarenta pessoas nos jantares dançantes que costumavam oferecer. As salas de recepção pareciam intermináveis, até que alcançaram uma pequena e acolhedora sala de visitas, na qual a nobre senhora gostava de sentar para admirar os jardins. Enquanto Annabelle olhava ao redor, admirando a casa, era difícil crer que alguém que tivesse crescido ali pudesse violentar uma mulher, e depois ameaçar matá-la caso contasse o fato a alguém. Havia muitas fotografias dos dois filhos dos Winshires na cornija da lareira na sala em que estavam sentadas. E depois que saborearam chá com bolinhos, coalhada e geleia, Lady Winshire pediu que uma das criadas mostrasse o estábulo para Consuelo. Ela havia arranjado um pônei, para o caso de a neta querer tentar montar, e Annabelle lhe agradeceu pela gentileza de recebê-las e pelas calorosas boas-vindas quando Consuelo desapareceu para ver o pônei.
— Tenho muito o que compensar — disse a senhora com simplicidade, e a jovem sorriu. Annabelle não a considerava responsável pelos crimes do filho. E como poderiam ser considerados crimes quando haviam resultado em Consuelo? Foi o que disse a Lady Winshire, que agradeceu Annabelle por sua generosidade dizendo que o filho não merecia tanto, por mais que o tivesse amado. Lady Winshire confessou, com tristeza, que ele havia sido impetuoso e mimado.
Conversaram durante algum tempo e passearam pelo jardim. Então, logo depois, um dos cavalariços apareceu, trazendo Consuelo no pônei. Ela sentia-se em êxtase. Parecia que a menina estava se divertindo, graças à avó recém-descoberta. Lady Winshire perguntou se Annabelle gostaria de cavalgar também. Ela disse que não fazia isso havia anos, mas que talvez tentasse na manhã seguinte. Ela não estava mais habituada àqueles luxos e indulgências desde que deixara os Estados Unidos. Seria divertido, pensou Annabelle, cavalgar outra vez. Cavalgara muito na juventude, principalmente nos verões que passara em Newport.
Quando Consuelo e o cavalariço voltaram ao estábulo, Annabelle comentou que estava pensando em vender a casa de Newport.
— Por que a venderia? — perguntou a senhora, com ar de desaprovação. — Você disse que é da sua família há gerações. Precisa preservá-la, se é parte da sua história. Não a venda.
— Não sei se voltarei para lá um dia. Estou longe faz dez anos. Ela está lá, desprezada e quase vazia, com cinco criados.
— Deveria voltar — disse Lady Winshire com firmeza. — Faz parte da história de Consuelo também. A menina tem direito a ela, à sua, à nossa casa, é tudo parte de quem ela é, e de quem ela se tornará um dia. Assim como é parte de você. — Claro que nada disso ajudara Harry, pensou Annabelle, mas não o diria à mãe dele, que, de qualquer maneira, estava ciente disso. — Não pode fugir do que é, Annabelle. Não pode negar sua origem. E Consuelo devia vê-la. Você deveria levá-la para visitar a casa um dia.
— Está tudo acabado para mim — disse Annabelle, parecendo teimosa enquanto Lady Winshire meneava a cabeça.
— Está só começando para ela. Consuelo precisa de mais do que Paris, assim como você. Ela precisa de nossas histórias misturadas, e oferecidas como se fossem um buquê.
— Recebi uma boa oferta pelo chalé. Sempre se pode comprar uma propriedade na França. — Mas ela nunca o fizera, entretanto. Tudo o que possuía era a casinha modesta no 16º arrondissement. Não tinha nada no país em que morava e, precisava concordar, ver Consuelo ali estava lhe fazendo bem.
— Suspeito que possa fazer isso a hora que quiser — adivinhou a nobre senhora. Annabelle havia herdado uma grande fortuna do pai, e outra ligeiramente menor da mãe, e não gastara quase nada nos últimos anos. Esbanjar já não combinava mais com seu estilo de vida, ou com sua vida como médica, e sempre teve o cuidado de não ostentar sua riqueza nos últimos dez anos. Isso lhe dava certo mérito, mas, agora, aos 32 anos, tinha idade suficiente para desfrutar de sua fortuna.
Lady Winshire se dirigiu a ela com um sorriso.
— Espero que vocês duas venham me visitar com frequência. Ainda vou a Londres de vez em quando, mas fico aqui na maior parte do tempo. — Aquela propriedade havia sido a residência da família de seu finado marido, o que a fez abordar outro assunto que queria discutir com Annabelle quando Consuelo não estivesse presente. Não sabia se era muito cedo para mencioná-lo, mas aquilo não saía de sua cabeça. — Andei pensando muito na situação de Consuelo, pois você e o pai dela nunca foram casados. Isso pode ser um fardo pesado para ela carregar daqui a alguns anos. Você não poderá mentir para sempre, e um dia ela pode desconfiar de alguma coisa. Falei com meus advogados, e não faz sentido que eu a adote. Afinal, ela é sua filha. Harry não pode desposá-la postumamente, o que é uma pena. Mas posso reconhecê-la oficialmente, o que melhoraria um pouco as coisas, e Consuelo poderia acrescentar nosso nome ao seu, se lhe parecer aceitável — disse, com cautela. Não queria ofender a mãe da menina, que havia sido muito corajosa ao assumir todas as responsabilidades sozinha. Mas Annabelle sorriu. Havia ficado mais sensível ao assunto desde os insultos ultrajantes de Antoine, especialmente por ele ter chamado Consuelo de bastarda. Pensar nisso agora era terrível.
— Acho uma ótima ideia — disse Annabelle, agradecida. — Provavelmente vai facilitar as coisas para ela no futuro.
— Não se importaria? — Lady Winshire parecia esperançosa.
— Eu apreciaria muito. — Ela associava o nome da família a Lady Winshire, e não ao filho maligno. — Isso a tornaria Consuelo Worthington-Winshire, ou Consuelo Winshire-Worthington. O que preferir.
— Acho que Worthington-Winshire ficaria ótimo. Posso mandar os advogados redigirem os papéis quando quiser. — Ela abriu um grande sorriso para Annabelle, que se inclinou e a abraçou.
— A senhora tem sido muito gentil conosco — disse Annabelle, agradecida.
— Por que não seria? — respondeu, irritada. — Você é uma mulher admirável. Tem sido uma mãe maravilhosa para ela. De alguma forma, apesar de tudo, conseguiu se tornar médica. E, pelo que soube, uma ótima médica. — Seu próprio médico havia verificado isso discretamente, através de conhecidos seus na França. — Apesar do que meu filho lhe fez, você se recuperou e não guardou ressentimentos da criança, nem de mim. Nem sei se tem mágoa dele, e não sei se eu teria sido capaz de fazer o mesmo no seu lugar. Você é respeitável, responsável, decente, batalhadora. Trabalhou feito uma troiana durante a guerra. E não tem ninguém da família para apoiá-la. Fez tudo sozinha, sem ninguém para ajudá-la. Foi muito corajosa por ter uma criança fora do casamento e conseguiu fazer o melhor possível. Não consigo pensar em uma única coisa em você que não seja digna de respeito ou louvor. De fato, eu a considero bastante notável e estou orgulhosa de você. — O que ela disse fez os olhos de Annabelle se encherem de lágrimas. Era o antídoto para tudo o que Antoine dissera.
— Queria poder ver isso da mesma maneira — comentou Annabelle, triste. — Tudo o que vejo são os meus erros. E tudo o que as pessoas veem, exceto a senhora, são os rótulos que os outros me colocaram. — Ela lhe confessou um dos seus piores segredos e revelou que havia se divorciado antes de deixar os Estados Unidos, e contou o motivo. Aquilo só fez Lady Winshire admirá-la ainda mais.
— É uma história bastante impressionante — disse ela. Não ficava chocada com facilidade, e a história do casamento de Annabelle com Josiah só fez com que ela sentisse pena de Annabelle. — Foi tolice dele achar que poderia acabar com isso.
— Acho que ele acreditou que podia e depois descobriu que não daria certo. E o amigo dele estava sempre por perto. Isso deve ter tornado as coisas ainda mais difíceis para ele.
— As pessoas às vezes são idiotas — disse Lady Winshire, balançando a cabeça. — E foi idiotice ainda maior da parte dele pensar que o divórcio não mancharia o seu nome. Foi muito bonito dizer que estava tentando deixá-la livre para outra pessoa. Divorciar-se de você por adultério simplesmente a atirou aos lobos. Ele poderia muito bem tê-la queimado num poste em praça pública. Francamente, os homens às vezes conseguem ser tão ignorantes e egoístas. Imagino que não possa desfazer isso com facilidade agora. — Annabelle meneou a cabeça. —Só precisa dizer a si mesma que não se importa. Que sabe a verdade. Isso é tudo o que interessa.
— Mas isso não impedirá que as pessoas batam a porta na minha cara — disse Annabelle, lastimosa. — E na de Consuelo.
— Você se importa mesmo com essas pessoas? — perguntou Lady Winshire. — Se são mesquinhos o bastante para fazer isso com você e com a sua filha, elas é que não são boas o suficiente para nenhuma de vocês duas, e não o contrário. — Annabelle lhe contou então tudo o que aconteceu com Antoine, e Lady Winshire ficou revoltada. — Como ele ousou lhe dizer tais coisas? Não há nada mais baixo e cruel que o falso moralismo da chamada burguesia. Ele não iria fazê-la feliz, minha querida. Fez muito bem em não aceitá-lo de volta. Ele não era digno de você. — Annabelle achou graça do que ela disse, e teve de concordar. Estava triste pelo ocorrido, mas, uma vez que descobriu quem Antoine era, não sentia mais falta dele. Só sentia saudades do sonho do que esperava que teriam, mas claramente nunca aconteceria. Havia sido uma ilusão. Um belo sonho que se transformara em pesadelo diante das palavras feias e das suposições dele. Antoine estava bastante disposto a acreditar no pior a seu respeito, fosse verdade ou não.
Nesse momento, Consuelo entrou na sala saltitando, empolgada com todos os cavalos que havia visto no celeiro e com o passeio no pônei. E ficou ainda mais animada quando viu o seu quarto. Era um cômodo grande, ensolarado, decorado com sedas e chitas floridas, anexo ao quarto da mãe. E, naquela noite, ao jantar, contaram-lhe sobre seu novo nome duplo.
— Parece difícil de soletrar — disse Consuelo, sendo prática, e tanto a mãe quanto a avó riram.
— Você vai se acostumar com ele — disse-lhe a mãe. Estava mais grata do que nunca ao reconhecimento legal de Lady Winshire à sua filha. Talvez evitasse que fosse chamada de bastarda outra vez por alguém tão cruel quanto Antoine.
Jogaram cartas depois do jantar, e por fim as três foram para a cama. Consuelo já estava quase dormindo, recostada na mãe. Acabou dormindo na cama de Annabelle. E foi direto para o celeiro na manhã seguinte tão logo estava vestida.
As duas mulheres conversaram tranquilamente durante o dia inteiro, sobre assuntos variados, de política e medicina a romances. Lady Winshire era inteligente e extremamente culta. Suas conversas lembraram a Annabelle as que tinha com a própria mãe, e a nobre senhora lhe deu muito o que pensar com a conversa do dia anterior, sobre não ter medo dos rótulos que as pessoas lhe colocaram injustamente. Durante o fim de semana inteiro lembrou-se de que era uma mulher livre. Aquilo fez Annabelle sentir orgulho de si mesma, e não se achava mais a pária que havia sido ao deixar Nova York. As palavras de Antoine só haviam sido piores porque vieram de alguém que ela amava, alguém que ela acreditava que a amava também.
No último dia, durante um almoço no jardim, a avó de Consuelo lhe fez uma surpresa. Quando serviram o bolo de aniversário da menina, Lady Winshire chamou um dos cavalariços, e este veio carregando uma caixa de chapéu amarrada com um grande laço cor-de-rosa. Tanto Consuelo quanto a mãe acharam que, dentro, havia um chapéu de montaria para ela usar quando voltasse. E então Annabelle viu que a caixa se mexeu um pouco e começou a desconfiar do que havia ali dentro. O cavalariço segurou a caixa com firmeza enquanto Consuelo desfazia o laço e removia a tampa com cuidado. Tão logo o fez, um rostinho preto lhe deu uma olhada e pulou da caixa para suas mãos. Era um filhote de pug preto e castanho, como os cães da própria Lady Winshire, e Consuelo ficou tão feliz que mal conseguiu falar enquanto o cão lhe lambia o rosto. As duas mulheres ficaram sorrindo, e Consuelo virou-se para a avó e se atirou no pescoço dela.
— Obrigada! Ela é tão maravilhosa! Que nome devo colocar nela?
— Você escolhe, minha querida. — Lady Winshire estava sorridente. Aquela neta inesperada havia se tornado uma grande alegria em sua vida.
Todas ficaram tristes com a despedida quando Consuelo e a mãe entraram no carro rumo a Dover, para a longa viagem de barco e depois de trem até Paris. Lady Winshire lhes recomendou que voltassem logo. Consuelo agradeceu novamente pela cadelinha, que ainda não tinha nome, mas estava muito animada com a viagem. E Lady Winshire lembrou Annabelle, discretamente, que enviaria os papéis sobre Consuelo tão logo fossem redigidos.
A nobre senhora ficou de pé nos degraus da entrada acenando enquanto elas se afastavam, e Consuelo brincou com a cadelinha durante todo o caminho de volta até Paris. Disse à mãe que havia sido o melhor aniversário que ela já teve. A viagem havia sido boa para Annabelle também.
Um dia depois que chegou em casa, Annabelle escreveu aos advogados pedindo que não vendessem o chalé de Newsport. E, já no consultório na manhã seguinte, pediu a Hélène que reservasse passagens em um navio para Nova York, em junho, com retorno para Paris em julho. Havia levado todos os conselhos de Lady Winshire a sério.