Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 15 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 11

 

Nada na vida havia preparado Annabelle para o que Josiah tinha a dizer. O impacto de suas palavras foi tão forte quanto o daquela manhã em que lera a notícia sobre o Titanic. O que Josiah lhe disse a atingiu feito uma bomba. A princípio, ele não sabia por onde começar. Annabelle estendeu o braço, segurando a mão dele.

— O que está acontecendo? — perguntou, de forma gentil. Não conseguia imaginar um problema que amenizasse o desespero que via no rosto dele. Josiah parecia devastado. Ele então respirou fundo e começou.

— Não sei como contar isso, Annabelle — disse, apertando-lhe a mão. Sabia o quanto ela ainda era inocente, o quanto seria difícil para ela entender. Queria ter contado isso a Annabelle seis meses antes, mas achou melhor esperar que as festas de fim de ano passassem, mas depois a mãe dela ficou doente. E não conseguiu falar logo após a morte de Consuelo. Annabelle estava fragilizada demais com a perda da mãe para suportar outro golpe, e ainda mais vindo dele. Agora, quase seis meses haviam se passado desde a morte de Consuelo, e a venda da casa também fora um choque. Mas ele simplesmente não podia esperar mais. Ela precisava saber. Josiah não podia mais viver uma farsa, isso o estava deixando louco.

— Não entendo o que há de errado — disse ela, agora com os olhos cheios de lágrimas também, antes mesmo de saber o que era. — Fiz alguma coisa que o aborreceu? — Josiah balançou a cabeça com veemência.

— Claro que não. Você não foi nada além de maravilhosa comigo. É uma esposa perfeita, devotada. Não foi você quem fez algo errado, Annabelle, fui eu... desde o começo. Achei realmente que poderia ser um bom marido, que poderia lhe dar uma vida boa. Eu queria... — Josiah tentou dizer mais, mas Annabelle o interrompeu de imediato, tentando nadar contra a maré. Mas agora já era um maremoto, algo que nem ele poderia deter. E tinha de ser enfrentado.

— Mas você é um bom marido, e me dá uma vida boa. — Havia certo apelo em sua voz, o que partiu o coração de Josiah.

— Não, não mesmo. Você merece muito mais. Muitíssimo mais do que posso lhe dar. Pensei que pudesse, eu estava certo disso a princípio, senão jamais teria feito isso com você. Mas não consegui. Você merece um homem que possa lhe dar tudo o que quiser, que consiga realizar seus maiores desejos, e que possa lhe dar filhos.

— Não estamos com pressa, Josiah. Você sempre diz que temos tempo.

— Não, não temos — disse ele, parecendo resoluto, a boca endurecida em uma linha firme. Estava sendo mais difícil do que ele temia. A pior parte era que ele a amava, mas sabia que agora não tinha o direito de nutrir esse sentimento por ela, jamais teve. E sentia-se culpado por quebrar a promessa feita à mãe dela de que cuidaria de Annabelle, mas a situação era bem mais complicada do que Consuelo poderia ter imaginado. — Estamos casados há quase dois anos. Nunca fiz amor com você. Dei milhares de desculpas e a iludi. — Annabelle havia imaginado uma ou duas vezes se ele teria algum problema físico do qual se envergonhava. Mas sempre teve a sensação de que era algo emocional e uma questão de adaptação, algo que esperava que Josiah resolvesse com o tempo, o que nunca aconteceu. Os dois sabiam que, depois de quase dois anos de casamento, ela ainda era virgem. Annabelle jamais revelou isso a ninguém, nem mesmo a Hortie ou à mãe. Tinha muita vergonha, e temia que fosse por algo que estivesse fazendo errado, ou que Josiah não a achasse atraente. Havia tentado de tudo, desde novos penteados a roupas diferentes, até camisolas mais sedutoras. Então, por fim, desistiu disso também e concluiu que Josiah estava ansioso e que isso aconteceria quanto tivesse de acontecer, quando o marido estivesse pronto. Mas havia se preocupado demais, embora agora tentasse suavizar a situação para ele. — Realmente pensei, quando nos casamos, que eu era capaz de ser um homem para você. Mas não sou. Sempre que pensava nisso, sabia que era errado, e não conseguia trocar sua virtude por uma mentira.

— Não é mentira — disse ela, de forma corajosa, lutando por sua vida e por seu casamento. Mas ela havia perdido antes de começar. Annabelle jamais teve chance. — Nós nos amamos. Não me importa se jamais fizer amor comigo. Há coisas mais importantes na vida do que isso. — Josiah achou graça do quanto ela ainda era inocente. Várias pessoas de ambos os sexos discordariam dela, assim como ele mesmo. Annabelle simplesmente não tivera a experiência, e se ficasse com ele, jamais teria.

— Você merece mais do que posso lhe dar. Annabelle, você precisa me ouvir. Pode ser difícil para entender, mas quero ser honesto. — Ele sabia que deveria ter sido honesto desde o início, mas seria imprescindível. Estava para roubar-lhe toda a inocência em uma única noite, e talvez destruir sua fé nos homens para sempre. Mas ele não tinha escolha. Havia pensando nisso por um longo tempo e esperou mais do que deveria. Não podia continuar com aquilo. Ele a amava. Mas tudo no casamento deles estava errado.

Seus olhos estavam arregalados ao observá-lo, os dedos dele tremiam conforme aumentava a pressão, preparando-se para o que ele ia dizer. Seu corpo inteiro tremia, embora não percebesse. Josiah podia ver os ombros de Annabelle balançando enquanto esperava.

— Não é com mulheres que eu quero fazer amor — disse ele, com uma voz rouca. — É com homens. Pensei que poderia ser um marido decente para você, que poderia ir contra minha própria natureza, mas não posso. Isso não é quem eu sou. É por isso que não me casei antes. Eu amo você profundamente, amo tudo em você, mas não da forma que você gostaria. — Então ele acrescentou o que parecia ser o golpe final. — Henry e eu somos apaixonados desde quando éramos garotos. — Os olhos dela estavam tão arregalados que, por um momento, Josiah pensou que ela fosse desmaiar. Mas Annabelle era mais corajosa que isso e negou-se a ceder à tontura e à náusea que a tragavam.

— Henry? — A voz dela era pouco mais que um guincho. Henry, que sempre foi um constante companheiro deles, que julgava ser o amigo mais querido do casal? Ele a traiu totalmente, e tinha uma parte do marido que ela jamais teria. E Josiah a havia traído também.

— Sim. Ele entendeu que eu queria me casar e ter filhos com você. Eu realmente amava você e fiquei muito sentido quando seu pai morreu. Queria ser tudo para você. Pai, irmão, amigo. A única coisa que descobri que não conseguia fazer, e eu queria, mesmo, era ser seu marido. Não consegui criar coragem para levar a mentira adiante. E não consegui ignorar minha própria natureza. Tudo em mim rejeitava a ideia. — Annabelle estava assentindo em silêncio, tentando absorver o que ele acabara de dizer. Era muito para assimilar de uma vez. Tudo a respeito do casamento deles, os votos, a lua de mel, as promessas feitas um ao outro, os dois anos desde então, tudo havia sido uma fraude. — Pensei que poderia me forçar a ter uma vida dupla, mas não consigo. E não posso continuar fazendo isso com você, enquanto tenta gentilmente me perguntar por que nada jamais aconteceu entre nós. E agora nunca poderá acontecer. Descobri algo há seis meses que muda tudo e agora estou grato por nunca ter conseguido superar minhas reservas. Descobri em dezembro que tenho sífilis. Sob nenhuma circunstância eu tocaria em você agora, ou tentaria ter com você os bebês que tanto quer. Não arriscaria sua vida. Eu te amo demais para isso. — Duas lágrimas solitárias escorreram pela face dele ao falar, e Annabelle abraçou Josiah, enterrando o rosto em seu pescoço, soluçando histericamente. Tinha sido a pior notícia que havia recebido até aquele momento.

— Josiah... não pode ser. — Ela ergueu o rosto marcado por lágrimas para encará-lo. Ele ainda parecia o mesmo, mas ela nem conhecia os sinais da doença. Mas, no momento, não havia nenhum. Só com o tempo eles apareceriam. Por fim, ele ficaria cego e poderia até morrer. Seu destino estava selado, e o de Henry também. Haviam descoberto juntos, e pelo menos sabiam que um não viveria sem o outro. O amor deles era forte e sobrevivera há vinte anos, a toda uma vida adulta, e os acompanharia até o túmulo. — Tem certeza? — perguntou Annabelle.

— Absoluta. E logo que descobri, soube que devia ser honesto com você, mas então sua mãe ficou doente... Eu simplesmente não tive coragem de te dar mais um golpe. Mas temos de fazer algo a respeito agora. Não posso deixar isso continuar.

— Não quero fazer nada — disse ela, firme, largando as mãos dele para secar as próprias lágrimas. — Quero ficar casada com você até o fim.

— Não deixarei que faça isso. Não é justo com você. Henry e eu queremos ir embora juntos e desfrutar seja lá quanto tempo nos resta. — Annabelle ficou chocada por perceber que ele não tinha intenção de passar seus últimos dias com ela, queria ficar com o homem que amava. Era a pior das rejeições que já conhecera. Josiah respirou fundo, para contar o resto. — Falei com meu advogado em segredo. Ele já cuidou da papelada toda. O divórcio será o mais discreto possível. Se alguém perguntar, pode dizer que fui um marido terrível e que estará melhor sem mim.

— Mas não quero me livrar de você — soluçou, agarrando-se a ele novamente. Os dois sabiam que adultério era a única razão para um divórcio, e, se Josiah se divorciasse mesmo dela, as pessoas pensariam que ela havia sido infiel. Annabelle não queria se divorciar dele, e não o faria. Josiah também tinha consciência disso. Se quisesse libertá-la, pelo bem dela, teriam de se separar. Annabelle precisava aceitar isso. — Não podemos ficar casados? — perguntou, soando apavorada, enquanto ele meneava a cabeça. Josiah estava determinado, e nada o convenceria do contrário. Annabelle sabia como ele agia quando estava determinado. Era um homem fácil de se conviver na maior parte do tempo, exceto pela casual melancolia e pela teimosia, que dizia ter herdado do pai.

— Não podemos permanecer casados, Annabelle — disse, gentilmente. — Poderíamos tentar anular nosso casamento, mas não sem dizer o porquê, o que seria embaraçoso para ambas as partes. Depois de dois anos, nem sei se poderíamos fazer isso. É bem mais simples e rápido se nos divorciamos. Quero que fique livre para seguir com sua vida assim que possível. Devo isso a você. Precisa encontrar outro homem, casar e ter a vida que merece. Precisa de um marido de verdade e de um casamento de verdade. Não dessa fraude.

— Mas não quero seguir em frente e casar com outro homem — disse ela, soluçando.

— Você quer filhos, e eu posso ficar doente e resistir por anos. Não quero você amarrada a mim, desperdiçando sua vida por tantos anos. — Ele a forçava a desistir dele, para que pudesse ir embora, tudo o que Annabelle não queria. Ela só queria ficar com ele. Ela o amara desde o primeiro dia. Não estava zangada com Josiah, estava com o coração partido. E a última coisa que queria era se divorciar dele.

— Apenas me escute — insistiu Josiah. — Eu sei o que é certo. Cometi um erro terrível e devemos corrigi-lo agora. Poderíamos nos divorciar no Kentucky, mas isso me parece estúpido e sorrateiro. Faz mais sentido fazer isso aqui em Nova York, enquanto moramos na cidade. Ninguém saberá dos detalhes. Teremos uma audiência privada e seremos discretos em relação ao assunto. — Ele então respirou fundo. — Volto para a cidade amanhã, para conversar com meu advogado mais uma vez. E depois Henry e eu vamos embora. Vamos passar um tempo no México. — Eles prefeririam ir para a Europa, mas já não era mais razoável nem prático fazê-lo, então decidiram ir para o México. Lá não teriam nenhum conhecido e poderiam desaparecer tranquilamente, isso era tudo o que queriam agora, pelo tempo que ainda lhe restavam.

— Quando você volta? — perguntou Annabelle, soluçando. Depois de perder todos, agora estava perdendo Josiah.

— Vou ficar um bom tempo fora — disse, parecendo mais ríspido do que pretendia, evitando dizer “nunca”. Annabelle precisava aceitar que estava acabado. Eles nem deveriam ter se casado para início de conversa, agora ele quer pôr um fim logo naquela farsa. Era o certo a fazer. Mas a expressão no rosto de Annabelle dizia que ele estava enganado. Parecia completamente arrasada com tudo o que ele dissera, principalmente que estaria de partida no dia seguinte.

Annabelle não conseguia imaginar como sobreviveria sem ele. Ficaria completamente sozinha no mundo quando ele partisse. Josiah tinha Henry, sempre o teve; ela não tinha ninguém. Nem pais, nem irmão, e agora nem ele.

— Por que não podemos ficar casados? — perguntou, queixosa, parecendo uma criança. — Não será diferente do que era antes.

— Sim, será. Você sabe a verdade agora, e eu também. Preciso libertar você, Annabelle. Devo-lhe ao menos isso. Fiz você desperdiçar dois anos da sua vida. — Pior do que isso, ele a destruíra. Annabelle agora não tinha nada, exceto sua herança. Já nem mais possuía uma casa na cidade. Nem poderia ficar no apartamento dele caso se divorciassem. Mas Josiah também tinha pensado nisso. — Pode ficar no apartamento até se reestruturar, até decidir o que quer fazer. Partirei em alguns dias. — Ele e Henry já haviam planejado tudo.

— Queria não ter vendido a casa — disse, soluçando, mas os dois sabiam que fora a coisa certa a fazer. A casa era muito grande para ela, e não poderia ficar lá sozinha, principalmente sendo uma mulher descasada. Precisava de um lar. E Josiah tinha certeza de que ela se casaria de novo em pouco tempo. Era uma moça bonita de apenas 21 anos. E possuía toda a inocência e o frescor da juventude. Ao menos não havia estragado isso, embora Annabelle parecesse ter envelhecido uma década na última hora. Ficou então de pé e a envolveu nos braços. Abraçou-a, mas não a beijou. A fraude que havia perpetrado estava acabada. Já não pertencia mais a ela, nunca pertenceu. Sempre fora de Henry, e agora os dois pagariam um preço alto por sua tentativa de ser algo que não era. Ele a amava, mas não como um marido deveria amar sua esposa. Fora uma triste descoberta para ele também. E ainda pior para ela agora. Josiah não nutria mais esperanças. Estava aliviado por nunca ter feito amor com Annabelle. Nunca teria se perdoado se a houvesse infectado também. O que havia feito já era bastante ruim. Sentia-se péssimo por ter mentido durante todo aquele tempo. Pior ainda, havia mentido para si mesmo. Ele amava Annabelle, mas os votos de casamento foram vazios e não significaram nada.

Acompanhou-a até o quarto lá em cima, mas se recusou a ficar com ela naquela noite. Disse que já não era mais direito. Dormiu no quarto de hóspedes no andar de baixo, e Annabelle ficou deitada na cama soluçando durante a noite inteira. Por fim, desceu e tentou deitar na cama de Josiah, apenas para poderem ficar abraçados, mas ele não deixou. Mandou-a de volta para o próprio quarto, sentindo-se um monstro. E depois que Annabelle se foi, ele deitou novamente e chorou. Ele realmente a amava, e partia-lhe o coração deixá-la, mas sabia que não havia outra escolha. Sabia o quanto a afligiu o fato de não ter acontecido nada entre eles, e não queria que ela o visse definhar, até, por fim, morrer. Não tinha o direito de fazer isso com ela, e planejava ficar longe. A doença já estava avançando em ritmo rápido, e Henry começava a apresentar os primeiros sinais. Os dois haviam se submetido a tratamento com arsênico, o que não ajudara em nada. Queriam sair de Nova York agora e se afastar de todos que conheciam, por causa do que viria em seguida. Era hora de deixar Annabelle e permitir que ela começasse uma nova vida. Sabia que com o tempo, quando ela tivesse se adaptado, entenderia que aquilo era o certo.

Ela ficou soluçando nos degraus da entrada quando Josiah foi embora no dia seguinte. Estava de preto por causa da mãe e parecia desolada quando ele partiu de carro. Deixá-la foi a coisa mais difícil que ele já fizera, sentiu-se enjoado e chorou sem parar durante todo o caminho até Nova York. Matá-la com as próprias mãos não teria sido tão difícil quanto deixá-la, mas ele não teria se sentido tão mal.