Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 30 de 32

Páginas do PDF

Uma Mulher Livre

Capítulo 26

 

Na terceira semana de junho, Annabelle, Consuelo e Brigitte zarparam no Mauretania. Deixaram Le Havre num radiante dia ensolarado e quente, e tinham duas belas cabines anexas num convés superior.

O Mauretania era um dos maiores, mais rápidos e luxuosos navios em funcionamento. Annabelle também havia viajado nele aos 16 anos com os pais. E havia reservado duas das cabines mais suntuosas do navio. Viajantes frequentes adoravam-no pelas cabines espaçosas, mesmo na segunda classe, o que era raro.

Consuelo estava eufórica de tanta empolgação. Brigitte mostrava-se nervosa com a travessia. Um parente distante dela, que estava na terceira classe do Titanic, não sobreviveu. Ela começou a chorar e a se benzer quase no momento em que embarcaram, falando sobre aquele desastre, o que aborreceu a patroa. Annabelle não queria que ela assustasse Consuelo, lembrando-lhe de como o avô e o tio haviam morrido. Brigitte não lhes poupava detalhes de tudo o que ouvira e lera na época, inclusive sobre os gritos das pessoas agonizando no mar.

— É verdade, mamãe? — A menina a fitou com olhos arregalados. Não conseguia imaginar um navio tão grande afundando. Consuelo conhecia a história, mas não os detalhes.

— Em parte — disse Annabelle, sendo honesta. — Às vezes acontecem coisas ruins, mas não sempre. Isso foi há muito, muito tempo, e muitos, muitos, muitos navios foram e voltaram pelo oceano desde então sem nenhum problema. Este aqui viaja em segurança há 18 anos, e não haverá icebergs em nosso caminho nesta viagem. Veja como o dia está bonito e ensolarado, e como o navio é grande. Eu prometo que nós vamos ficar bem — disse com carinho, lançando um olhar de advertência para Brigitte por cima da cabeça da menina.

— O Titanic era maior... o que me diz do Lusitania? — insistiu Brigitte. Annabelle quis estrangulá-la por assustar a filha.

— O que é lufimânia? — perguntou Consuelo, errando o nome.

— Brigitte só está assustada. Eu prometo que a viagem será fantástica. E faremos muitas coisas divertidas em Nova York, e veremos minha antiga casa em Newport. — Por razões diferentes, estava tão nervosa quanto Brigitte. Não estava preocupada com a possibilidade de o navio afundar naquela viagem, principalmente em tempos de paz, mas seria a primeira vez que iria para Nova York em dez anos. Estava ansiosa para saber como seria e por ter de enfrentar os fantasmas e traumas que havia deixado para trás. Acabara concordando com Lady Winshire. Consuelo tinha o direito de conhecer sua história e aprender mais sobre sua origem, assim como havia feito com a família Winshire. E Annabelle não podia esconder isso da filha para sempre. Demorara muito para voltar. A guerra havia sido uma boa desculpa, mas não por muito tempo, depois vieram os estudos. Mas a guerra havia acabado há quase sete anos, praticamente o tempo que Consuelo tinha de vida. Era muito tempo. Mas ela não precisava ouvir os detalhes do naufrágio do Titanic, cortesia de Brigitte, com direito a gritos agonizantes na água. Não, ela não queria, muitíssimo obrigada. E foi o que lhe disse com clareza quando Consuelo se afastou para brincar com o cachorro de alguém. Havia muitos passageiros no navio. E crianças com as quais Consuelo poderia brincar.

Pediu a Brigitte para desfazer as malas, mantendo-a ocupada, e levou Consuelo para ver a piscina, o espetacular salão de jantar, as salas de jogos e o canil no outro convés. Haviam deixado a pug em casa com Hélène, que a adorava. Consuelo lhe dera o nome de Coco.

Quando o navio deixou o porto, as três ficaram no convés e observaram a França desaparecer de vista lentamente. Consuelo estava implorando para jogar shuffleboard, então Annabelle lhe prometeu que brincariam à tarde. E, naquela noite, ela e a mãe jantaram no suntuoso salão de jantar. Aquela era uma viagem muito diferente da que Annabelle fizera para a Europa dez anos antes, quando raramente deixava a cabine e não fazia ideia do que o futuro lhe reservava quando chegasse ao destino. Tudo o que Annabelle queria então era fugir das pessoas que a desprezavam em Nova York. E agora, enfim, dez anos depois, estava voltando aos Estados Unidos.

Tudo transcorria perfeitamente, até que, no terceiro dia, Annabelle viu um casal de idade parado perto do shuffleboard, com um casal mais jovem que obviamente eram a filha e o genro. Estavam olhando para Annabelle, que fingiu não reconhecê-los quando passou por eles com Consuelo. Ela logo começou uma conversa animada com a filha, então não precisou admitir que os reconhecera de imediato. Eram conhecidos de seus pais. Quando ela e Consuelo passaram, ouviu a senhora falar com o marido, com uma voz baixa, que foi projetada com clareza pelo convés.

— ... casada com Josiah Millbank... não lembra?... filha de Arthur Worthington... um escândalo pavoroso... ela tinha um caso e ele pediu o divórcio... ela fugiu com outro homem para a França... — Então era isso o que pensavam dela, percebeu Annabelle, estremecendo. E eles ainda se lembravam da história. Imaginou que todos também se lembrariam. Havia sido mesmo uma sentença eterna, da qual nunca seria libertada ou perdoada. Seria uma adúltera para sempre.

Chocava-a perceber que certas pessoas pensavam que havia ido para a França com um homem. Só de ouvir, queria correr para o quarto e se esconder. E então ela se lembrou das palavras de Lady Winshire: “Mantenha a cabeça erguida, Annabelle. Você é uma mulher livre. Não ligue para eles.” Ao pensar nisso, percebeu que Lady Winshire estava certa, até certo ponto. Ela se importava com aquilo, pois não queria ser uma pária, odiava os rótulos que haviam lhe atribuído... adúltera era o pior deles... mas Annabelle não era adúltera e jamais seria. Havia sido fiel ao marido, fora uma mulher virtuosa na época, e ainda o era. Nada havia mudado, independentemente se ela fosse divorciada ou não. E depois de tantos anos, o que eles tinham a ver com a vida dela? Ninguém ficou do seu lado para apoiá-la, consolá-la ou abraçá-la pelas perdas que sofreu. Do contrário, sua vida talvez tivesse sido diferente. Mas, por outro lado, ela nunca teria ido para a Europa, se tornado médica, nem teria Consuelo ao seu lado. Então, no final, ela era a vitoriosa.

Retornando de outra visita ao canil, onde admiraram um adorável pug preto, Annabelle passou por eles novamente, segurando a mão de Consuelo. E desta vez olhou a mulher nos olhos, reconhecendo-a com um aceno de cabeça. Annabelle estava usando um sofisticado chapéu em forma de sino que combinava com o conjunto de seda cinzento que havia comprado para a viagem, e estava muito elegante, não era mais uma americana, e sim uma francesa. No momento em que Annabelle a cumprimentou, a mulher se aproximou depressa com um grande e falso sorriso, jorrando palavras de saudação.

— Minha nossa, Annabelle, é você? Depois de todos esses anos! Como está? E que menininha linha. Deve ser sua filha, parece muito com você... seu marido está a bordo?

— Não — disse Annabelle, apertando educadamente as mãos do casal —, sou viúva. E esta é a minha filha, Consuelo Worthington-Winshire. — Consuelo fez uma educada mesura no vestido que escolhera para usar naquele dia, com luvas brancas e um chapéu.

— Ah... que graça... você deu a ela o nome da sua mãe. Uma mulher maravilhosa. Ainda está morando na França?

— Sim, em Paris — disse Annabelle, friamente.

— Nunca vem aos Estados Unidos? Não a vemos faz anos.

— Esta é a primeira vez que volto desde que parti. — Porque pessoas de duas caras como você, quis dizer, que nunca deixam os rumores morrerem, haviam lhe colocado rótulos e jamais permitiam que ninguém os esquecesse.

— É difícil de acreditar. E o chalé em Newport?

— Vamos ficar algumas semanas lá. Quero que Consuelo conheça o lugar. — A menina falava inglês com um leve sotaque francês, o que era uma gracinha. — E temos muito o que ver em Nova York, disse, sorrindo para a filha, quando já estavam se afastando. Ao menos a mulher havia conversado com ela. Já era algum progresso. Dez anos atrás, nem teria se aproximado. Teria simplesmente lhe virado as costas. Ao menos agora fingia ser agradável, apesar do que pensava de Annabelle ou dizia às suas costas.

— Talvez nos encontremos em Newport — disse a senhora, ainda curiosa, olhando para o conjunto e o chapéu caros de Annabelle e o bonito vestido de Consuelo. — O que faz em Paris? — perguntou, sendo intrometida, claramente querendo saber mais detalhes da vida de Annabelle, para poder fofocar quando voltasse. Estava escrito na testa dela. Também havia notado a bela esmeralda que Lady Winshire lhe dera e a aliança de casamento que Annabelle ainda usava. Era a que havia comprado para si mesma, antes de Consuelo nascer, e ela nunca tirava, era apenas um anel fino de ouro.

— Sou médica — disse Annabelle, sorrindo, lembrando-se novamente das palavras de Lady Winshire. Dessa vez, quase riu. Aquelas pessoas eram tão pequenas e insignificantes, tão mesquinhas, uns abutres, procurando coisas brilhantes no lixo para carregá-las para os outros, ou trocá-las pela reputação de pessoas de bem, que valiam dez vezes mais do que elas.

— Médica? Que impressionante! — Os olhos da mulher quase pularam das órbitas. — Como foi que conseguiu isso?

Annabelle lhe sorriu com benevolência.

— Fui para uma escola de medicina na França, depois que meu marido morreu.

— Ele era médico também?

— Não — disse simplesmente. O marido que havia morrido não existia. — O pai de Consuelo era o visconde Winshire. Foi morto na guerra, em Ypres. — Tudo isso era verdade. Ela não mentiu a respeito do pai de Consuelo. E não era da conta daquela mulher, e nunca seria, que nunca tivessem se casado. Isso não diminuía suas conquistas, nem o bem que fizera ao mundo.

— Claro — disse a mulher, fungando, mais impressionada do que queria admitir, mas mal podia esperar que Annabelle se afastasse para poder contar à filha, que Annabelle mal reconheceu por estar tão gorda e por ter convivido pouco com ela antes de partir. Ela estava jogando shuffleboard com os amigos.

Logo depois, Annabelle e Consuelo se afastaram.

— Quem era? — perguntou a filha, curiosa.

— Uma pessoa que meus pais conheciam em Nova York — disse ela, sentindo-se melhor do que há muito tempo. Antoine a atingira fundo. E aqueles que vieram antes dele também haviam cobrado seu preço. Mas, de repente, todos pareciam estar perdendo o efeito sobre ela.

— Ela tem olhos maldosos — disse Consuelo com sabedoria, fazendo a mãe rir.

— Sim, tem mesmo. E uma boca maldosa. Eu conheci muita gente como ela.

— Todos em Nova York são assim? — perguntou Consuelo, preocupada.

— Espero que não — disse Annabelle, sorrindo. — Mas não vamos lá por causa deles. Estamos indo por nós. — E também não estava mais disposta a ficar afastada e escondida de ninguém. Eles não eram donos de Newport nem de Nova York. Ela agora tinha seu próprio mundo, com sua vida em Paris, seus pacientes, sua profissão e sua filha. A única coisa que faltava era um homem, mas se tinha de ser menosprezada, humilhada e “perdoada” por homens como Antoine, que não acreditara nela e a desrespeitara, era melhor ficar sozinha. Estava bem assim.

A travessia transcorreu tranquilamente. Foi uma viagem adorável. Annabelle e Consuelo faziam as refeições juntas no salão de jantar todas as noites, e, quando o capitão as convidou para jantar em sua mesa certa vez, Annabelle declinou do convite com educação. Preferia jantar com a filha a suportar as idiotices e hipocrisias de pessoas como os amigos de seus pais que encontrara a bordo.

Quando avançaram pelo porto de Nova York, com o auxílio de rebocadores, Annabelle sentiu um nó na garganta ao ver a Estátua da Liberdade, orgulhosamente de pé com sua tocha erguida. Foi um momento emocionante, era como se a estátua estivesse à espera delas. Annabelle mostrou o hospital de Ellis Island para a filha e explicou o que havia feito lá antes de ser médica, o que na época era um sonho impossível.

— Por que, mamãe? Por que não podia ser médica aqui? — A menina não entendia. Para ela, a mãe ser médica era a coisa mais natural do mundo. Queria ser médica também, e talvez um dia fosse.

— Porque não era muito comum para as mulheres. E ainda não é. As pessoas acham que as mulheres devem casar, ter filhos e ficar em casa.

— Não podem fazer as duas coisas? — Consuelo a fitou com uma expressão intrigada.

— Acho que sim — respondeu, olhando novamente para a Estátua da Liberdade. Era um lembrete de que a luz da liberdade nunca se apagava. Mesmo quando você fecha os olhos, ela ainda está lá, iluminando o caminho de todos, homens, mulheres, ricos e pobres. A liberdade pertencia a todos, e agora pertencia a Annabelle também.

Consuelo parecia pensativa.

— Se fosse casada com Antoine, ou alguém como ele, você deixaria de ser médica?

— Não, não deixaria. — Ela não fez nenhum comentário sobre Antoine, que havia chamado sua filha de bastarda. Nunca o perdoaria por isso. E não fora capaz de perdoá-lo pelo resto.

Quando pararam no cais e passaram pela alfândega, encontraram dois táxis que as conduziram com suas bagagens ao Plaza Hotel, que tinha uma ótima vista para o Central Park e ficava a pouca distância de sua antiga casa. Annabelle estava chocada com o quanto Nova York havia mudado, com o número de prédios novos e a multidão de pessoas nas ruas. Consuelo estava fascinada, e, logo que se acomodaram e almoçaram, ela e a mãe saíram a pé para explorar a cidade.

Era inevitável que fossem à sua antiga casa primeiro. Annabelle não conseguiu resistir. Precisava vê-la. Estava em bom estado, embora as venezianas estivessem fechadas e a casa parecesse vazia. Supôs que os novos donos estavam viajando para aproveitar o verão. Annabelle ficou parada ali por um longo tempo, com a filha segurando-lhe a mão.

— É onde eu vivia quando era menina. — Ela quase falou “até eu me casar”, mas se conteve. Nunca falou de Josiah para Consuelo, embora soubesse que teria de contar à filha um dia.

— Deve ter sido muito triste quando seu papai e seu irmão morreram — disse a menina, solene, como se estivesse visitando seus túmulos, o que de certa forma era verdade. Era também o de sua mãe. Ela havia morrido naquela casa. E Annabelle havia nascido ali.

— Sua avó Consuelo vivia aqui também.

— Ela era boa? — perguntou a menina, interessada, e sua mãe sorriu.

— Muito. E era bonita, assim como você. Era uma pessoa maravilhosa e gentil. E eu a amava muito.

— Deve sentir muita saudade dela também — murmurou Consuelo.

— Sim, sinto sim. — Parada ali, Annabelle lembrou-se da manhã em que descobriu que o Titanic havia afundado e do dia em que a mãe morreu. Mas se lembrou dos momentos felizes que vivera naquela casa também. De sua infância, de quando tudo era tão simples e fácil. Teve uma vida boa, com pessoas amorosas que a protegiam de todo o mal. E, nos últimos anos, havia pagado suas dívidas por tudo o que tinha conquistado.

Afastaram-se devagar, e Annabelle levou Consuelo para ver outros marcos de sua história. Contou-lhe sobre seu baile de debutante, e as duas visitaram o banco da família, onde Annabelle apresentou Consuelo ao gerente e a vários funcionários que ela conhecia. Consuelo fazia mesuras educadas e cumprimentava todos. No fim da tarde, voltaram para o Palm Court do Plaza para o chá. Foi muito impressionante, e viram mulheres elegantes, ricamente vestidas, ostentando chapéus e joias extravagantes, conversando e desfrutando da hora do chá sob a imensa claraboia.

Consuelo adorou Nova York, e Annabelle se sentia mais feliz do que imaginava. Era bom estar de volta, e estava sendo divertido mostrar tudo à filha. Lady Winshire tinha razão, era um pedaço de sua própria história e da história da filha, e era importante para Consuelo ver onde a mãe havia crescido. Ficaram em Nova York por uma semana, e Annabelle não encontrou nenhum conhecido. Não havia uma única alma que quisesse ver. Ao fim da semana, estava ansiosa para chegar a Newport e ao chalé. Sabia que Consuelo o adoraria, assim como ela própria o adorava quando criança. Independentemente da vida social — tão essencial aos residentes —, o oceano, a praia e toda a beleza natural do lugar eram muito mais atraentes que os chalés — tão vitais aos seus proprietários e a todos os que os conheciam.

Fizeram o check-out no Plaza e pegaram o trem para Boston. O antigo mordomo de seus pais, William, estava esperando por elas na estação, com um dos antigos carros que ainda mantinham em Newport. Ele começou a chorar no momento que viu Annabelle, e curvou-se para falar com Consuelo, que estava muito impressionada com o quanto ele era velho e o quanto era respeitoso com ela. E sentiu tanto por ele quando começou a chorar que ficou na ponta dos pés para beijá-lo. Tanto William quanto Annabelle estavam com os olhos marejados quando se cumprimentaram. Os criados sabiam de Consuelo pelas cartas que Annabelle mandava para Blanche, mas não estava claro quem era o pai da criança ou quando o casamento havia acontecido. Pelo que puderam entender, ele havia morrido logo após ter se casado com Annabelle. William olhou para Consuelo com os olhos cheios de lágrimas e expressão nostálgica.

— Ela se parece muito com você quando tinha essa idade. E tem um pouquinho da sua mãe. — Ele ajudou-as a se acomodarem no carro, depois partiram para a viagem de sete horas até Newport, com Consuelo observando e comentando sobre tudo ao longo do caminho. William lhe explicava cada detalhe. E também ali Annabelle descobriu que muita coisa havia mudado, embora não Newport em si. Quando entraram na cidade, esta parecia tão venerável quanto antes. E os olhos de Consuelo se arregalaram quando viu o chalé e a vasta extensão de terra no qual se localizava. Era uma propriedade imponente, em perfeitas condições.

— É quase tão grande quanto a casa da vovó na Inglaterra — disse Consuelo, maravilhada com a enorme propriedade, fazendo a mãe sorrir. O chalé estava exatamente como ela se lembrava, e lhe trouxe de volta sua própria infância com uma súbita pontada.

— Não exatamente — garantiu-lhe Annabelle. — A casa da sua avó é maior. Mas eu tive verões maravilhosos aqui. — Inclusive o último. Voltar àquele lugar trazia muitas lembranças de Josiah e do terrível fim de seu casamento. Mas a fazia pensar também no começo feliz, quando era jovem e cheia de esperança. Agora estava com 32 anos, e muita coisa havia mudado. Mas ainda lhe parecia seu lar.

Tão logo o carro parou, Blanche e os outros saíram correndo do chalé. Ela abraçou Annabelle e não conseguiu parar de chorar. Estava bem mais velha, e, quando viu Consuelo, a abraçou também. E, assim como William, disse a Annabelle que a filha era a cara dela.

— E agora você é médica! — Blanche ainda não conseguia acreditar. Era mais surpreendente ainda que finalmente tivesse voltado para casa. Achavam que isso jamais aconteceria. E tiveram muitíssimo medo de que ela vendesse a casa. Era a casa deles também. E haviam mantido tudo em condições impecáveis. Era como se ela tivesse partido no dia anterior, não dez anos antes. Aqueles dez anos pareciam uma vida inteira, porém, quando reviu a casa, o tempo desde a última vez que estivera ali pareceu se reduzir a nada.

A lembrança fez com que Annabelle sentisse saudade da mãe novamente, principalmente quando passou por seu quarto. Ela ficaria em um dos quartos de visita e dera para Consuelo e Brigitte seu antigo quarto de criança para que a filha pudesse brincar. Mas, na maior parte do tempo, a filha aproveitaria o ar livre, assim como Annabelle fazia naquela idade. Mal podia esperar para levar Consuelo para nadar, o que fizeram naquela tarde.

Annabelle lhe contou que havia aprendido a nadar ali, assim como Consuelo aprendera em Nice e Antibes.

— A água aqui é mais fria — comentou Consuelo, mas ela gostou assim mesmo. Adorou brincar nas ondas e passear pela praia.

Mais tarde naquele dia, quando voltaram para casa, Annabelle deixou a filha com Brigitte. Queria dar um passeio sozinha. Havia algumas recordações que não queria dividir. Estava justamente saindo de casa quando Consuelo desceu correndo a escada para ir com ela, e Annabelle não teve coragem de dizer não à filha. Ela estava tão feliz ali, descobrindo o antigo mundo da mãe, que era tão diferente daquele em que viviam agora, com a casa minúscula e confortável no 16º arrondissement. Tudo em seu velho mundo agora lhe parecia imenso, assim como parecia para a filha.

A casa que ela queria ver não era longe e, quando chegou lá, viu que as árvores estavam malcuidadas e as venezianas, fechadas. Estava abandonada. Blanche lhe dissera que fora vendida havia dois anos, mas achava que ninguém vivia lá e que não era usada havia uma década. Parecia deserta. Era a velha casa de Josiah, onde havia passado seus verões quando casada, e onde ele e Henry continuaram com o romance, mas Annabelle não pensava nisso agora. Só pensava nele. E Consuelo pôde notar que a casa havia sido importante para a mãe também, embora fosse pequena e escura, e parecesse triste.

— Você conhecia as pessoas que viviam aqui, mamãe?

— Sim, conhecia — murmurou Annabelle. Pôde quase senti-lo perto dela ao pronunciar as palavras, e esperava que Josiah agora estivesse em paz. Há muito tempo ela o havia perdoado. Não restava mais nada a perdoar. Ele tinha feito o melhor que pôde, e a amara do seu próprio modo. E ela o amara também. Não existia o desapontamento que experimentou com Antoine mais recentemente. As cicatrizes do que acontecera com Josiah haviam se apagado há muito tempo.

— As pessoas morreram? — perguntou Consuelo, triste. Parecia que sim, a julgar pela condição da casa.

— Sim, morreram.

— Um bom amigo? — Consuelo estava curiosa porque a mãe parecia muito distante e abalada. E Annabelle hesitou por longos segundos. Talvez fosse a hora. Não queria mentir sobre sua história para sempre. A mentira de que havia sido casada com o pai de Consuelo bastava, e um dia ela lhe contaria a verdade sobre aquilo também, não que havia sido violentada, mas que eles nunca tinham sido casados. Agora que Lady Winshire a reconhecera, não seria tão pesado, mesmo que ainda fosse difícil de explicar.

— Esta casa pertenceu a um homem chamado Josiah Millbank — murmurou ela, enquanto espiavam o jardim. Estava malcuidado, e parecia completamente abandonado, o que era verdade. — Fui casada com ele. Nós nos casamos aqui em Newport quando eu tinha 19 anos. — Consuelo a fitou com olhos arregalados, quando estavam sentadas num velho tronco de árvore. — Eu fui casada com ele por dois anos, e ele era um homem maravilhoso. Eu o amei demais. — Ela queria que Consuelo também soubesse dessa parte, não apenas o que dera errado.

— O que aconteceu com ele? — perguntou Consuelo, falando baixinho. Muitas pessoas haviam morrido na vida da mãe. Todas haviam partido.

— Ele ficou muito doente e decidiu que não queria mais ficar casado comigo. Achou que não seria justo comigo, pois estava muito doente. Então ele foi para o México, e se divorciou de mim, o que significa que ele terminou com nosso casamento.

— Mas você não quis ficar com ele, mesmo ele estando muito doente, para cuidar dele? — Ela parecia chocada, e Annabelle sorriu enquanto assentia.

— Sim, quis. Mas não era o que ele queria. Ele pensava que estava me fazendo uma coisa boa, porque eu era muito jovem. Ele era bem mais velho. Velho o bastante para ser meu pai. E ele achava que eu devia me casar com outro homem que não fosse doente e ter muitos filhos.

— Como meu pai — disse ela com orgulho, mas uma nuvem passou por seus olhos. — Mas depois ele morreu também. — Era tudo muito triste, e fez com que ela percebesse, mesmo aos 7 anos, tudo o que sua mãe havia sofrido, apesar de agora estar inteira, viva e de até ter conseguido se tornar médica.

— De qualquer forma, ele se divorciou de mim e foi para o México. — Ela não falou sobre Henry. Consuelo não precisava saber. — E todos aqui ficaram muito chocados. Pensaram que ele havia se divorciado de mim porque eu havia feito algo errado. Ele nunca contou para ninguém que estava doente, nem eu. Então pensaram que eu tinha feito algo terrível, e fiquei muito triste. Fui para a França e comecei a cuidar dos feridos de guerra. E depois conheci seu pai e tive você. E todos viveram felizes para sempre — disse ela com um sorriso, segurando a mão de Consuelo. Era uma versão bem editada, mas era tudo o que Consuelo precisava saber. E seu casamento com Josiah não era mais um segredo. Parecia melhor assim. Não queria guardar segredos da filha, nem contar mentiras para encobri-los. E ela havia sido justa com Josiah na história. Sempre fora.

— Mas por que todo o mundo foi malvado com você quando ele foi embora? — Aquilo parecia horrível para Consuelo, e muito injusto com a mãe.

— Porque não entediam. Eles não sabiam o que realmente tinha acontecido. Então contaram histórias ruins sobre isso e sobre mim.

— Por que você não contou a verdade? — Aquela parte não fazia nenhum sentido para ela.

— Ele não queria que eu contasse. Ele não queria que ninguém soubesse que estava doente. — Nem o porquê, o que era muito mais compreensível. Sem mencionar a parte de Henry Orson.

— Isso foi bobagem dele — disse Consuelo, olhando por cima do ombro para a casa vazia.

— Sim, foi.

— Você o viu de novo?

Annabelle meneou a cabeça.

— Não. Ele morreu no México. Eu já estava na França.

— As pessoas sabem a verdade agora? — perguntou Consuelo, parecendo pensativa. Não gostou nem um pouco daquela parte da história, quando foram ruins com sua mãe. Ela devia ter ficado muito triste na época. Ela parecia triste só por falar agora.

— Não, não sabem. Já passou muito tempo — respondeu Annabelle.

— Obrigada por me contar, mamãe — disse Consuelo, orgulhosa.

— Eu iria contar para você um dia, quando fosse mais velha.

— Lamento que tenham sido ruins com você — murmurou. — Espero que não sejam mais assim. — O único que havia agido assim recentemente fora Antoine. Ele não fora apenas ruim, mas cruel. Havia sido a pior traição de todas, e aquilo reabrira velhas feridas. Falar com Lady Winshire sobre isso a ajudara. Naquele momento via que pessoa pequena e mesquinha que Antoine realmente era, já que não podia amá-la, devido ao seu passado. Annabelle não teria feito o mesmo com ele. Era uma pessoa muito superior.

— Agora não importa. Eu tenho você — garantiu-lhe Annabelle, e aquilo era verdade. Consuelo era tudo de que ela precisava.

Elas se levantaram e voltaram para o chalé. E, nas três semanas seguintes, elas brincaram, nadaram e fizeram todas as coisas que Annabelle tanto amava fazer quando era criança.

Na última semana, levou Consuelo ao Newport Country Club para almoçar. Era uma das poucas coisas de gente grande que haviam feito. Fora isso, Annabelle tinha evitado todos os lugares onde poderia encontrar velhos amigos. Mas, desta vez, decidiram sair, o que foi muita coragem da parte dela.

E justo quando estavam saindo de lá, Annabelle viu uma mulher corpulenta se dirigir ao restaurante. Estava irritada, com o rosto vermelho, e havia uma babá com ela. Guiava seis criancinhas e carregava um bebê no colo. Estava brigando com uma das crianças e seu chapéu estava torto. E foi apenas quando estavam a pouca distância uma da outra que Annabelle viu que era sua velha amiga Hortie. As duas ficaram chocadas e pararam onde estavam, olhando uma para a outra.

— Ah... o que você está fazendo aqui? — perguntou Hortie, como se aquele não fosse lugar para Annabelle. E depois tentou encobrir o momento desconfortável com um sorriso nervoso. Consuelo franziu o cenho, examinando-a. Hortie nem a notara, apenas encarava Annabelle como se tivesse visto um fantasma.

— Estou aqui com minha filha para uma visita. — Annabelle sorriu para Hortie, lamentando por ela. — Vejo que a fábrica de bebês ainda está ativa — provocou. Hortie revirou os olhos e gemeu, e, por um instante, pareceu a amiga que Annabelle tanto amou e que jamais teria abandonado.

— Está casada novamente? — perguntou Hortie, curiosa, olhando em seguida para Consuelo.

— Viúva.

— E ela é médica — anunciou Consuelo com orgulho, fazendo as duas mulheres rirem.

— É verdade? — Hortie olhou para Annabelle, impressionada, mas sabia que Annabelle amava qualquer coisa relacionada à medicina quando era moça.

— Sou, sim. Nós moramos em Paris.

— Foi o que ouvi falar. Disseram que você foi uma espécie de heroína na guerra.

Annabelle riu.

— Dificilmente. Eu era socorrista e dirigia ambulâncias até os hospitais de campanha para resgatar homens feridos. Não há nada de muito heroico nisso.

— A mim parece heroico — disse Hortie, rodeada por seu bando de crianças, enquanto a babá tentava mantê-los sob controle, com pouco sucesso. Hortie não se desculpou pela traição nem disse que sentia falta dela, mas era possível enxergar isso em seus olhos. — Vai ficar por um tempo? — perguntou, esperançosa.

— Mais alguns dias.

Mas Hortie não a convidou para ir à sua casa, tampouco disse que passaria pelo chalé dos Worthingtons. Sabia que James jamais permitiria isso. Ele achava que Annabelle seria má influência. Divorciadas e adúlteras não eram bem-vindas em seu lar, embora as histórias sobre ele fossem bem piores.

Por um minuto, Annabelle quis dizer que havia sentido falta dela, mas não ousou. Era tarde demais para as duas. E vê-la deixou Annabelle triste. Hortie parecia balofa, cansada e sobrecarregada, e não estava envelhecendo bem. A moça bonita de anos atrás havia desaparecido para dar lugar a uma mulher de meia-idade com uma penca de crianças, que dera as costas à melhor amiga. Annabelle sempre sentiria falta dela. Reencontrá-la foi como ver um fantasma. Elas se despediram sem se abraçarem, e Annabelle não falou nada quando saíram do restaurante.

Consuelo também não disse nada até estarem no carro a caminho de casa, quando se virou para a mãe e falou baixinho.

— Essa é uma das pessoas que falaram coisas ruins de você?

— Mais ou menos. Ela era minha melhor amiga quando éramos mais novas. As pessoas às vezes fazem coisas tolas — disse Annabelle, sorrindo para a filha. — Éramos como irmãs quando tínhamos a sua idade, e mesmo depois de crescidas.

— Ela é feia — disse Consuelo, cruzando os braços e fazendo cara feia. Estava zangada em defesa da mãe. — E gorda. — Annabelle riu.

— Ela era muito bonita quando era menina. Teve muitos filhos.

— São feios também e fazem muita bagunça — disse Consuelo em desaprovação, aninhando-se na mãe.

— Isso é verdade — comentou Annabelle. Hortie nunca fora capaz de controlar os filhos, mesmo quando só tinha um ou dois. Parecia que James a mantinha grávida deste então.

O resto dos dias delas em Newport foi tudo o que as duas esperavam. Soou como boas-vindas para Annabelle, algo que lhe aqueceu o coração. Enquanto faziam as malas para partir, Consuelo perguntou à mãe se poderiam voltar. Annabelle andava pensando a mesma coisa, e ficou feliz por não ter vendido a casa. Mais uma vez, Lady Winshire estava certa. Tinha razão sobre muitas coisas. E sua esmeralda nunca saía da mão de Annabelle. Era um presente que apreciava, particularmente agora que eram amigas.

— Eu estava pensando que seria bom voltarmos em todos os verões para passarmos algumas semanas. Talvez um mês. O que acha? — perguntou a Consuelo, enquanto Brigitte fechava as malas da menina.

— Eu iria gostar. — Consuelo abriu um grande sorriso.

— Eu também. — Aquilo manteria sua ligação com os Estados Unidos e estabeleceria um laço da filha com o país também. Com o tempo, tudo sarava. Havia entendido isso enquanto estava ali. Mesmo que falassem sobre ela e se lembrassem do escândalo de anos atrás, se você se mantém firme, as pessoas esquecem. Ou ao menos os rótulos feios desbotam o bastante para que as pessoas não se importem em lê-los com a mesma frequência. Aquilo já não lhe importava tanto agora. E muita coisa havia acontecido desde então. Ela agora tinha uma vida nova em outro lugar, um lar, uma profissão e uma filha que tanto amava. Mas também sentia que uma antiga parte dela lhe fora devolvida. E era uma parte de uma velha vida da qual sentia falta.

William as levou de carro de volta para Boston, onde pegaram o trem para Nova York. Estavam planejando passar apenas dois dias lá na volta e fazer as poucas coisas que deixaram de fazer na chegada.

— Cuide-se, Srta. Annabelle — disse William com lágrimas nos olhos outra vez. — Retorna em breve? — Todos viram que ela havia se divertido. Houve momentos, na praia, ou correndo pelo gramado com Consuelo, em que ela mesma parecia uma menina.

— No próximo verão. Prometo. — As despedidas com Blanche também foram cheias de lágrimas, mas ela lhe fizera a mesma promessa.

William abraçou e beijou Consuelo e Annabelle, que ficou acenando da plataforma enquanto conseguia vê-lo.

E então mãe e filha se acomodaram na cabine para a viagem a Nova York. Haviam se divertido muito em Newport. A viagem havia superado todas as expectativas de Annabelle.