Uma Mulher Livre
Capítulo 19
O bebê era perfeito em todos os aspectos. Era saudável, feliz e fácil de lidar. Era como um anjinho caído do céu que havia pousado nos braços da mãe. Annabelle nunca achou que pudesse amar tanto o bebê. Qualquer laço com o pai que o gerara havia desaparecido no momento de seu nascimento. Consuelo pertencia a Annabelle e a ninguém mais.
Annabelle foi visitar o Dr. Graumont na escola de medicina em julho, logo após o início da Segunda Batalha de Marne. O número de mortos continuava a crescer de maneira assustadora desde que ela deixara Villers-Cotterêts. E, após o nascimento de Consuelo, Annabelle percebeu que não poderia voltar ao front. Não queria levar a filha consigo, ficar muito tempo longe dela ou expô-la ao risco de doenças e epidemias. Embora se sentisse culpada por não mais contribuir com os esforços de guerra, Annabelle sabia que seu lugar agora era com a filha. Florine se ofereceu para ficar com ela caso Annabelle realmente voltasse ao front, mas ela não conseguia ficar longe do bebê por uma hora, quanto mais deixar Consuelo durante meses com outra pessoa. Então decidiu ficar em Antibes por um tempo.
Ainda tinha intenção de frequentar a escola de medicina e esperava poder conseguir retomar as aulas. Tinha uma história bem estruturada quando foi ver o Dr. Graumont. Disse-lhe que havia se casado com um oficial britânico logo após chegar a Villers-Cotterêts. Mantiveram o casamento em segredo pois não queriam que a família dele soubesse até que pudessem ir à Inglaterra anunciá-lo, mas, antes que tivessem oportunidade de fazê-lo, ele foi morto. E como ninguém sabia do casamento, ela decidiu manter o próprio nome, principalmente porque sua família agora não possuía herdeiros, então não queria abandonar o sobrenome Worthington, para honrá-los. A história era meio forçada, mas o Dr. Graumont pareceu acreditar nela, ou pareceu disposto a aceitar qualquer história que Annabelle contasse. Disse que a criança era muito bonita e concordou em deixá-la usar um pequeno chalé da propriedade para acomodar-se com a filha quando retornasse para o início do próximo período, em setembro. Havia nove alunos na faculdade de medicina, e mais três novos que começariam em setembro. Infelizmente, contou-lhe que sete de seus colegas originais haviam morrido desde a partida de todos. Estava aliviado por ver Annabelle sã e salva, e ainda mais bonita desde que dera à luz. Ela havia completado 25 anos naquela primavera e parecia ainda mais feminina. Estava claramente preparada para retomar os estudos e nem um pouco intimidada com o fato de que estaria com 30 anos quando se formasse e fosse uma verdadeira médica. Tudo o que queria naquele momento era recomeçar. Só faltavam seis semanas para o início do semestre.
Decidiu manter a casa em Antibes, para ir sempre que possível. Mas precisava de alguém para cuidar de Consuelo quando estivesse assistindo às aulas, então contratou uma jovem, Brigitte, para ficar com elas. As três morariam no chalé que o Dr. Graumont havia designado para elas, por uma taxa simbólica. Tudo estava se encaixando.
E, na data combinada, em setembro, Annabelle, o bebê e Brigitte chegaram ao château. Acomodaram-se ali, e as aulas de Annabelle começaram no dia seguinte. Foi muitíssimo empolgante, e ela estava mais feliz do que nunca. Tinha Consuelo, a quem amava muito, e estava mergulhada em seus estudos de medicina outra vez. E o trabalho no hospital de Nice agora era mais fácil. Depois de tudo o que aprendera na abadia e no hospital em Villers-Cotterêts, como socorrista, estava muito mais adiantada do que quando partiu.
A guerra ainda continuava em setembro, e, naquela mesma época, uma assustadora epidemia de gripe começou a se espalhar tanto pela Europa quanto pelos Estados Unidos, dizimando civis e militares. Milhares estavam morrendo, principalmente crianças e idosos.
No final do mês, as tropas francesas e americanas começaram a Ofensiva Meuse-Argonne. Em poucos dias, as forças do general Douglas Haig atacaram e romperam a Linha Hindenburg. Seis dias depois, a Áustria e a Alemanha entraram em contato com o presidente Wilson para requisitar um armistício, enquanto as forças britânicas, americanas e francesas continuavam esmagando a oposição e virando o jogo. O embate continuou por mais cinco semanas, período em que Annabelle e seus colegas na escola de medicina não conseguiam falar de outra coisa.
Por fim, em 11 de novembro, às onze horas da manhã, o combate cessou. A guerra que havia devastado a Europa por mais de quatro anos e custado 15 milhões de vidas estava encerrada.
Annabelle abraçou seu bebê quando ouviu a notícia, lágrimas lhe escorriam pela face.