Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 24 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 20

 

Com a guerra encerrada, as pessoas começaram a retomar suas vidas. Os soldados voltaram aos seus lares, casaram com as mulheres que haviam deixado lá, ou com as que haviam conhecido nos anos de combate, retornando para suas antigas vidas e ocupações. Os mutilados e feridos eram vistos por toda a parte nas ruas, de muletas, em cadeiras de rodas, muitos deles com membros artificiais. Às vezes parecia que metade dos homens na Europa estava aleijada, mas pelo menos eles estavam vivos. E aqueles que não retornaram foram chorados e lembrados. Annabelle pensava muito nos antigos colegas que não haviam voltado. Sentia falta de Marcel todos os dias, e até de Rupert, que lhe atormentara sem misericórdia em seus primeiros meses no château e no fim se tornara um amigo gentil.

Os recém-chegados apareciam com regularidade, e, na primavera, o château contava com sessenta alunos comprometidos, determinados, dispostos a serem médicos e a servirem ao mundo. Annabelle ainda era a única mulher, e todos estavam apaixonados por Consuelo. A primeira festa de aniversário da menina contou com 61 enternecidos convidados, todos estudantes de medicina, e ela começou a andar no dia seguinte. Era a queridinha de todos, e até havia conquistado o coração do habitualmente austero Dr. Graumont. Estava com 17 meses quando a mãe começou seu terceiro ano de estudos. Annabelle sempre tinha o maior cuidado de mantê-la afastada de estranhos, já que a feroz epidemia mundial de gripe persistia. Até aquele momento, milhões de pessoas haviam morrido.

A escola de medicina se tornou o lar perfeito para Annabelle e Consuelo, com sessenta tios afeiçoados que lhe faziam festa sempre que tinham a oportunidade. Levavam-lhe presentinhos, brincavam com ela, e sempre havia alguém que a pegasse no colo ou a ninasse. Consuelo tinha uma vida feliz.

Annabelle acabou deixando a casa em Antibes quando os proprietários decidiram vendê-la, e ficou triste por dizer adeus a Gaston e Florine. Mas Brigitte ficou com elas, e o chalé nas terras do château era bastante confortável para as três.

De vez em quando, ao perceber que Consuelo estava crescendo, Annabelle pensava em entrar em contato com a família do visconde. Agora que tinha sua própria filha, imaginava se os pais dele desejariam ter algum tipo de elo com o filho através da menina. Mas não conseguia criar coragem. Não queria dividir Consuelo com ninguém. O bebê era exatamente a cara de Annabelle, como se mais ninguém tivesse contribuído para que ela tivesse nascido. Todos que a viam diziam que era o retrato de Annabelle sob todos os aspectos.

Os anos de estudos passaram com a velocidade de um raio. Annabelle estava tão ocupada e envolvida com o que fazia que era como se tudo tivesse acabado em um piscar de olhos, embora ela houvesse trabalhado muito para chegar até ali.

Annabelle fez 30 anos no mês em que se formou como médica na escola de medicina do Dr. Graumont. E Consuelo havia completado 5 anos em abril. Deixar a escola e o chalé onde haviam vivido era como deixar seu lar outra vez. Era ao mesmo tempo empolgante e sofrido. Annabelle decidira ir para Paris e havia solicitado associação ao hospital Hôtel-Dieu de Paris, perto de Notre-Dame, na Île de La Cité. Era o mais antigo hospital da cidade. Pretendia abrir um consultório médico. Sempre teve esperanças de trabalhar para o Dr. De Bré, mas ele havia morrido na primavera anterior. E seu último laço com o lar havia sido rompido um mês antes de sua graduação. Annabelle recebera uma carta do presidente do banco do seu pai, avisando que Josiah havia morrido no México em fevereiro, e que Henry Orson falecera pouco depois. O homem que cuidava de seus assuntos no banco achou que ela gostaria de saber e incluiu uma carta que Josiah lhe deixara. Ele estava com 59 anos.

A morte e a carta de Josiah inundaram-na de lembranças, trouxeram um maremoto de tristeza. Fazia oito anos que ele a deixara e ela viera para a Europa, há sete anos desde o divórcio. A carta dele era terna e nostálgica. Havia sido escrita quando ele estava perto do fim da vida. Disse que estava feliz no México com Henry, mas que sempre pensava nela com amor, e pesar, pelas coisas terríveis que lhe fizera, mas esperava que Annabelle também encontrasse a felicidade e um dia o perdoasse. Ao ler a carta, sentiu como se o mundo no qual crescera e que compartilhara com Josiah já não existisse mais. Já não possuía mais nenhum laço com ele. Sua vida estava na França, com sua filha e exercendo sua profissão. Os laços haviam sido desfeitos havia muito tempo. A única coisa que lhe restava nos Estados Unidos era a casa em Newport, que estava vazia havia oito anos, cujos adoráveis criados de seus pais ainda tomavam conta. Duvidava que um dia fosse revê-la, mas não tinha coragem de vendê-la ainda, nem precisava. Seus pais lhe deixaram mais do que o suficiente para viver e assegurar seu futuro e o de Consuelo. Um dia, quando reunisse coragem, venderia o antigo chalé de veraneio da família. Mas, por enquanto, não era capaz disso. Assim como também não conseguia entrar em contato com os pais do indigno visconde. Ela e Consuelo viviam em um mundo só delas.

Foi doloroso deixar a escola de medicina e os amigos que fizera lá. Todos os seus colegas graduados estavam se dispersando por várias partes da França. Muitos ficariam no sul, e ela nunca fora próxima do único entre eles que estava indo para Paris. Durante todos os anos em que esteve na Europa, não teve nenhum relacionamento amoroso. Esteve muito ocupada trabalhando no esforço de guerra, e depois com os estudos e com a filha. Era uma viúva digna e jovem, e agora seria uma médica dedicada. Não havia espaço em sua vida para mais nada, e queria que as coisas permanecessem assim. Josiah havia partido seu coração, e o pai de Consuelo havia destruído o resto. Não queria nenhum homem em sua vida, e mais ninguém além da filha. Consuelo e seu trabalho eram tudo de que precisava.

Annabelle e Consuelo embarcaram no trem para Paris em junho com Brigitte, que estava animada por ir para a cidade com elas. Annabelle não ia a Paris, que agora era uma cidade agitada, havia anos. Chegaram à Gare de Lyon e pegaram um táxi para o hotel na Rive Gauche, onde Annabelle havia feito reserva. Era um pequeno estabelecimento que o Dr. Graumont lhe recomendara, adequado para duas mulheres e uma criança. Ele a havia alertado sobre os perigos de Paris. Annabelle notou que o motorista do táxi era russo e possuía um ar distinto. Muitos nobres russos agora estavam em Paris, dirigindo táxis e trabalhando em empregos servis, depois da Revolução Bolchevique e do assassinato da família do tsar.

Foi empolgante dar entrada no hotel como Docteur Worthington. Seus olhos brilhavam como os de uma criança. Ainda era a bela mulher que havia chegado à Europa, e, quando brincava com Consuelo, parecia ser menina outra vez. Mas por trás do espírito jovem, estava uma mulher séria, responsável, alguém em quem os outros poderiam acreditar e confiar a saúde e a vida. Seu jeito delicado de tratar os pacientes havia sido motivo de inveja de outros estudantes, mas ela conquistara o respeito dos professores. O Dr. Graumont sabia que ela seria uma excelente médica, e um tributo à escola dele.

Elas se acomodaram no hotel. O Dr. Graumont enviaria os pertences delas depois, assim que encontrassem uma casa. Annabelle queria um lugar onde pudesse estabelecer seu consultório e praticar a medicina.

No dia seguinte à sua chegada, foi ao hospital Hôtel-Dieu de Paris para saber se tinha permissão para internar seus pacientes lá, enquanto Brigitte levava Consuelo ao Jardim de Luxemburgo. A linda menina bateu palmas de empolgação quando encontrou de novo a mãe no hotel.

— Vimos um camelo, mamãe! — disse Consuelo, descrevendo-o, enquanto Brigitte e a mãe riam. — Queria montar nele, mas não me deixaram. — Fez beicinho, mas depois explodiu em risadinhas gostosas outra vez. Era uma criança encantadora.

A permissão do hospital Hôtel-Dieu foi concedida com a recomendação do Dr. Graumont. Era um passo importante para Annabelle. Levou Consuelo e Brigitte para jantar no Hôtel Meurice para comemorar, e um dos motoristas russos as conduziu pelas ruas de Paris para que vissem os marcos da cidade à noite, iluminados. Era muitíssimo diferente do que Annabelle viu quando chegou lá em plena guerra, de coração partido e marginalizada pelos conhecidos em Nova York. Este era o começo de uma vida completamente nova pela qual havia batalhado muito.

Finalmente voltaram para o hotel às dez da noite. Consuelo havia dormido no táxi, e Annabelle a carregou no colo e a colocou na cama com delicadeza. Depois, foi para o próprio quarto e olhou pela janela, contemplando a noite de Paris. Não se sentia tão jovem e empolgada havia anos. Mal podia esperar para começar a trabalhar, mas primeiro precisava encontrar uma casa.

Nas três semanas seguintes, parecia-lhe que estava vendo todas as casas de Paris, tanto na Rive Gauche quanto na Rive Droite, enquanto Brigitte levava Consuelo a cada parque da cidade — o parque de Bagatelle, o Jardim de Luxemburgo, o Bois de Boulogne — e para andar de carrossel. As três saíam para jantar todas as noites. Annabelle não se divertia tanto assim havia anos, aquela era uma vida adulta completamente nova para ela.

Entre visitar uma casa e outra, Annabelle parava para comprar roupas novas, sérias o bastante para uma médica, mas elegantes o suficiente para uma mulher parisiense. Lembrou-se de quando havia comprado seu enxoval com a mãe, e contou a história a Consuelo. A menininha adorava ouvir histórias da avó, do avô e do tio Robert. Dava-lhe a sensação de pertencer a mais gente além da mãe, e sempre fazia o coração de Annabelle doer um pouquinho pela família que não podia lhe dar. Mas tinham uma à outra, e ela sempre lembrava a Consuelo que isso era o bastante para elas. A menina comentou que precisavam de um cachorro também. Todos em Paris possuíam um. Annabelle prometeu que, quando encontrassem uma casa, também teriam um cachorro. Foram dias felizes para elas, e Brigitte também estava se divertindo, flertando com um dos mensageiros do hotel. Tinha acabado de completar 21 anos e era uma jovem muito bonita.

No fim de julho, Annabelle estava bastante desanimada. Ainda não havia encontrado uma casa. Tudo o que via era grande ou pequeno demais, e não era o ideal para seu consultório médico. Parecia que nunca encontrariam o que precisavam. Até que achou o lugar perfeito em uma rua estreita no 16º arrondissement. Era uma casa pequena mas elegante, com um pátio frontal e um jardim nos fundos, e um anexo com entrada separada onde poderia atender seus pacientes. As condições do imóvel eram excelentes, e a propriedade estava sendo vendida pelo banco. Annabelle gostou do ar distinto daquela casa. Parecia-lhe perfeitamente adequada para uma médica. E havia um pequeno parque ali perto, onde Consuelo ainda poderia brincar com outras crianças.

Annabelle imediatamente fez uma oferta pela casa, que se ajustou ao preço solicitado e estabelecido pelo banco, e tomou posse dela no fim de agosto. Nesse meio-tempo, providenciou móveis, roupas de cama e mesa, louças, algumas bonitas antiguidades infantis para o quarto de Consuelo, peças adoráveis para os próprios aposentos e móveis mais simples para Brigitte. Comprou móveis mais sóbrios para o consultório e passou o mês de setembro providenciando os equipamentos médicos necessários à prática clínica. Foi a uma gráfica e encomendou artigos de escritório e contratou uma atendente, que disse ter trabalhado na Abbaye de Royaumont também, embora Annabelle jamais a tivesse visto lá. Hélène era uma senhora tranquila, que havia trabalhado para vários médicos antes da guerra e estava feliz por ajudar a jovem iniciante a começar seu consultório.

No início de outubro, Annabelle estava pronta para abrir o consultório. Demorou mais que o esperado, mas ela queria que tudo estivesse em ordem. Com mãos trêmulas, pendurou sua placa e esperou que algo acontecesse. Só precisava que uma única pessoa passasse pela porta, e depois as coisas aconteceriam pelo boca a boca. Se ainda estivesse vivo, o Dr. De Bré teria indicado Annabelle a alguns pacientes, mas, infelizmente, o médico não estava mais entre eles. O Dr. Graumont havia escrito a vários médicos que conhecia em Paris pedindo que indicassem a jovem doutora a alguns pacientes, mas a gentileza ainda não havia rendido frutos.

Nas primeiras três semanas, absolutamente nada aconteceu. Annabelle e Hélène, a secretária, ficavam sentadas olhando uma para a outra sem ter nada para fazer. Ela almoçava na parte principal da casa com Consuelo todos os dias. Por fim, no comecinho de novembro, uma mulher entrou em seu consultório com o punho torcido, e um homem com um corte profundo no dedo. Daí em diante, como mágica, havia um fluxo constante de pacientes na sala de espera de Annabelle. Um paciente indicava o outro. Não eram casos difíceis, eram coisas pequenas, fáceis de lidar. Mas a seriedade, a competência e a gentileza dela com os pacientes os conquistaram imediatamente. Logo as pessoas estavam trocando de médico, mandando amigos para o consultório dela, levando seus filhos, consultando-a sobre problemas pequenos e até mais sérios. Em janeiro, ela estava com o consultório cheio todos os dias. Fazia o que estava preparada para fazer, e adorava cada minuto. Teve o cuidado de agradecer aos outros médicos pelas referências, e era sempre respeitosa com suas opiniões prévias, de modo a não fazer que parecessem tolos perante os pacientes, embora alguns bem merecessem. Annabelle era meticulosa, talentosa e tinha um jeito ótimo com os pacientes acamados. Apesar da beleza e da aparência jovem, estava claro que era uma profissional séria, e os pacientes confiavam plenamente nela.

Em fevereiro, ela hospitalizou o filho de uma das pacientes. O garoto tinha apenas 12 anos e estava com uma pneumonia grave. Annabelle o visitava duas vezes por dia no hospital e, em dado momento, ficou muito preocupada, mas o menino resistiu, e a mãe ficou grata a ela para sempre. Annabelle tentou algumas técnicas usadas no hospital em Villers-Cotterêts com os soldados, e era sempre criativa ao mesclar métodos novos e antigos. Ela ainda lia e estudava com devoção à noite, para saber sobre novas pesquisas. Estava sempre aberta a novas ideias, e isso a mantinha em vantagem. Também lia tudo o que saía em todas as revistas médicas. Ficava lendo até tarde, geralmente aconchegada na cama com Consuelo, que agora falava que queria ser médica também. Outras menininhas queriam ser enfermeiras, mas, na família de Annabelle, os padrões eram altos. Ela não conseguia deixar de se perguntar às vezes o que a mãe teria pensado disso. Sabia que não era o que ela desejava, mas esperava que estivesse orgulhosa dela mesmo assim. Sabia o quanto Consuelo teria ficado devastada com o divórcio e imaginou se Josiah teria insistido em se separar dela caso sua mãe ainda estivesse viva. Mas agora eram águas passadas. E por que ela ficaria casada com ele, se ele sempre foi apaixonado por Henry a vida inteira? Annabelle jamais teve qualquer chance. Não ficou amarga por isso, e sim triste. Sempre que pensava no assunto, sentia uma dor estranha que suspeitava ter de carregar pela vida inteira.

A única coisa que nunca a deixava triste era Consuelo. A filha era a criança mais feliz, iluminada e engraçada do mundo, e adorava a mãe. Achava que o sol se erguia e se punha nela, e Annabelle lhe criou um pai de fantasia, para que a menininha não se sentisse privada. Contou que ele era inglês, uma pessoa maravilhosa, de uma família adorável, e que havia morrido como um bravíssimo herói de guerra antes de seu nascimento. Nunca pareceu ocorrer à menina perguntar por que não conhecia a família do pai. Sabia que todos os parentes da mãe estavam mortos, mas Annabelle nunca disse que os de Harry também haviam morrido. Consuelo nunca tocava nesse assunto, apenas ouvia com interesse, mas certo dia se dirigiu à mãe durante o almoço e perguntou se a “outra” avó poderia visitá-la um dia, aquela da Inglaterra. Annabelle a encarou do outro lado da mesa como se uma bomba houvesse explodido, e não soube o que responder. Nunca ocorrera a Annabelle que aquele dia chegaria, e ela não estava preparada para isso. Consuelo estava com 6 anos, e todos os seus amigos no parque tinham avó. Então por que a dela não podia visitá-la também?

— Eu... hã... bem, ela está na Inglaterra. E não falo com ela há muito tempo... bem, na verdade... — Ela odiava mentir para a filha — nunca... nunca a conheci. Seu papai e eu nos apaixonamos e nos casamos durante a guerra, e depois ele morreu, então nunca conheci a família dele. — Ela se atrapalhou com as palavras enquanto era observada pela filha.

— Ela não quer me ver? — Consuelo parecia desapontada, e Annabelle sentiu o coração afundar. Havia criado aquela confusão, e, em vez de contar à filha que seus avós nem sabiam de sua existência, simplesmente não sabia o quer dizer. Mas também não queria ser forçada a entrar em contato com eles. Estava em um dilema terrível.

— Garanto que ela gostará de conhecer você, se puder... isto é, se não estiver doente ou coisa parecida... talvez ela esteja muito velha. — E então, com um suspiro e o coração pesado, Annabelle prometeu: — Vou escrever para ela, e veremos o que ela diz.

— Que bom. — Consuelo abriu um grande sorriso do outro lado da mesa.

E quando Annabelle voltou para o consultório, estava amaldiçoando Harry Winshire como não o fazia havia anos.