Uma Mulher Livre
Capítulo 24
Annabelle vagou pela casa feito um fantasma durante os três dias seguintes. Cancelou os compromissos, não foi ao consultório, e disse a todos que estava doente. E estava mesmo. Estava deprimida e muito triste com tudo o que Antoine lhe dissera e tudo o que ele havia destruído. Se tivesse lhe apedrejado na rua ou cuspido nela, não a teria machucado tanto. E, de fato, ele fizera ambas as coisas. E pior. Ele havia partido seu coração.
Pediu a Brigitte levar Consuelo à escola e ao parque, dizendo-lhes também que estava doente. Só Hélène, no consultório, não acreditou nela. Ela sentia que algo terrível havia acontecido e temia que isso tivesse alguma relação com Antoine.
Annabelle estava deitada pensando nos últimos acontecimentos, nas coisas que ele lhe dissera, quando a campainha tocou. Não queria levantar para atender a porta, e Brigitte não estava em casa. Não queria ver ninguém. E depois de tudo o que Antoine lhe dissera, ela não tinha mais nada a falar, com ninguém, principalmente com ele. Não tinha notícias dele desde que a deixara no parque. E pretendia nunca mais falar com ele novamente. De qualquer forma, duvidava que fosse receber qualquer notícia de Antoine.
A campainha persistiu por pelo menos dez minutos, então, por fim, ela vestiu o robe e desceu. Talvez fosse uma emergência e alguém na vizinhança precisasse de um médico. Abriu a porta sem se preocupar em olhar quem era e deu de cara com Antoine. Ela não tinha ideia do que dizer. E, por um instante, nem ele.
— Posso entrar? — perguntou, solene. Annabelle hesitou, sem saber o que ele queria ali. Então, devagar, deu um passo para o lado. Levou um instante para fechar a porta, e não o convidou a sentar. Ficou de pé olhando para ele parado perto da porta. — Podemos sentar e conversar um pouco? — perguntou, cauteloso. Felizmente ele não lhe dera nenhum anel de noivado, por isso Annabelle não precisava lhe devolver nada.
— Melhor não — disse ela, com uma voz sem expressão. — Acho que você falou mais do que o suficiente naquele dia. Acho que não há razão para dizer mais nada. — Antoine ficou surpreso com a expressão dos olhos dela. Parecia que algo dentro dela havia morrido.
— Annabelle, eu agi com severidade. Mas o que você me contou era difícil demais de engolir. Houve um casamento sobre o qual nunca me contou, um bebê que não era desse homem. Você mentiu dizendo que era viúva. Você me devia mais do que isso. Foi inclusive exposta a uma doença fatal que poderia facilmente ter me transmitido uma vez que estivéssemos casados. — O que ele disse foi mais um tapa na cara, provando novamente que ele não havia acreditado em uma única palavra do que ela lhe contara. As palavras de Antoine mais uma vez apunhalaram seu coração já fragilizado.
— Eu lhe disse que jamais fui exposta a isso. Se existisse qualquer risco, jamais teria sequer saído para jantar com você. Não teria corrido o risco de me apaixonar, caso tivesse sido exposta a uma doença que poderia matá-lo. Eu amo você, Antoine. Ou amava. Eu que jamais dormi com Josiah.
— Isso é um pouquinho difícil de acreditar. Você ficou casada com ele por dois anos.
— Ele estava dormindo com o melhor amigo — disse ela, com voz arrastada. — Eu simplesmente não sabia. Pensei que houvesse algo de errado comigo. No fim, havia muitas coisas de errado com ele. E tudo o que você fez só reforça que eu não devia ter lhe contado nada. — Annabelle estava devastada quando encontrou os olhos de Antoine.
— Preferiria continuar mentindo para mim, como fez desde o início? Teria se casado comigo sob falsas pretensões. Devo lembrá-la que isso é fraude.
— Foi por isso que eu lhe contei. O que eu quis dizer agora é que eu não devia nem ter me preocupado em lhe contar. Nunca devia ter me envolvido com você.
— Como pode dizer tal coisa? Eu amo você — disse Antoine, parecendo pomposo. Mas Annabelle não estava mais apaixonada por ele.
— Não consigo mais acreditar nisso, depois de tudo o que me disse. Não se trata alguém que se ama assim.
— Eu estava angustiado. — Annabelle não fez qualquer comentário e desviou o olhar. Antoine não se aproximou dela. Tinha medo de que, caso chegasse perto, Annabella fosse violenta com ele. O olhar dela era fulminante.
— O que falou sobre Consuelo é imperdoável. Nunca deixarei que se aproxime dela outra vez. Não é culpa dela ser filha ilegítima. É minha porque fui eu quem a pari, e por livre escolha, apesar de tudo. E eu também não tive culpa por um bêbado lunático ter me atirado no chão e me violentado. Você me culparia para sempre por isso, em vez de acreditar em mim. — Seus olhos carregavam mágoa e tristeza.
— Foi por isso que vim conversar com você. Pensei muito sobre o assunto — disse Antoine, cauteloso. — Admito que isso não é o que eu esperava. E não é realmente o que eu queria de uma esposa. Mas eu amo você e estou disposto a ignorar seus erros do passado e perdoá-la. Tudo o que quero de você é que faça um exame e me prove que não está com sífilis.
— Isso não será necessário — disse Annabelle, abrindo a porta outra vez e estremecendo com o vento frio da tarde de janeiro. — Não precisa me desculpar pelos meus erros nem pelos de ninguém, nem ignorá-los. Consuelo não contaminará seus sobrinhos nem seus encontros de família porque nós não estaremos lá. E eu não preciso fazer um exame, porque você jamais chegará tão perto de mim novamente.
— Isso significa então que você tem a doença — retrucou ele, estreitando os olhos.
— Você esqueceu que falou que não encostaria nem o bico da sua bota em mim? Lembro-me disso muito bem. De fato, lembro de tudo o que disse, e nunca esquecerei. Pode ser capaz de me perdoar, mas eu não conseguirei perdoar você.
— Depois de tudo o que fez, como ousa? — Antoine de repente se enfureceu com ela outra vez. — Você tem muita sorte por eu estar disposto a lhe aturar. Uma mulher como você, que sabe lá Deus quantos homens teve na vida, maridos sifilíticos, filhos ilegítimos, e quem pode adivinhar ou saber com quem mais esteve entre estes dois e depois. — Annabelle queria lhe dar um tapa, mas não valia a pena. Não mais.
— Ouvi tudo o que disse, Antoine. Nunca esquecerei. Agora saia da minha casa. — Os dois estavam tremendo com o vento frio, e Antoine a encarou sem acreditar.
— Deve estar brincando. Quem mais você acha que a aceitaria depois de tudo o que fez? — Ele parecia majestoso parado ali, e muito bonito. Mas Annabelle não gostava mais do homem no terno bem-talhado.
— Talvez ninguém — disse ela, respondendo à pergunta. — E eu realmente não me importo. Estou sozinha desde que Josiah me abandonou há nove anos, quase dez. Tenho Consuelo, minha “bastarda”, como você ressaltou. Não preciso de mais ninguém. E não quero você. — Ela indicou a porta aberta novamente. — Obrigada por sua generosa oferta, doutor, mas não vou aceitá-la. Agora saia, por favor. — Ela havia se empertigado em sua plena altura, e Antoine viu nos olhos dela que estava falando sério. Ele não conseguia acreditar no que estava acontecendo.
Antoine a olhou com desprezo.
— Você é uma tola. Ninguém jamais a desejará se contar a verdade.
— Não pretendo estar em tal situação outra vez. Você me ensinou a lição. Muito obrigada. Lamento que isso tenha sido um desapontamento para nós dois, e que a verdade tenha sido tão difícil de acreditar, e aceitar, uma vez que a contei.
— Eu lhe disse — repetiu ele —, estou disposto a perdoá-la, ou tolerar, pelo menos, desde que faça o exame que pedi. Você tem de admitir que isso é justo.
— Nada a respeito disso é justo. Nunca foi, nem antes de você, nem agora. E não quero ser tolerada. Eu quero ser amada. Pensei que fosse. Aparentemente, nós dois cometemos um grande erro. — Antoine ficou parado, encarando-a, balançou a cabeça e, sem dizer mais nada, saiu. Annabelle fechou a porta, recostou-se nela e tremeu da cabeça aos pés. Nenhum homem lhe fora tão gentil quanto ele no início, ou tão cruel no final.
Sentou-se sozinha na sala de estar, olhando para o nada. Ainda não conseguia acreditar que Antoine achava que Consuelo era uma bastarda e que poderia contaminar a família dele, ou que ele a considerava uma prostituta por ela ser divorciada e, ainda, que duvidava de sua palavra quando ela contou que havia sido violentada.
Ainda estava sentada quando Brigitte e Consuelo voltaram do parque. A menina sentou no colo da mãe, parecendo preocupada, e passou os braços por seu pescoço. Aquilo era tudo o que Annabelle precisava agora. A filha era a única pessoa em quem podia confiar, em quem sempre confiaria.
— Te amo, mamãe — disse ela, fazendo os olhos de Annabelle se encherem de lágrimas.
— Eu te amo também, querida — respondeu, abraçando a filha.
E mesmo ainda se sentindo péssima, como se tivesse sido atropelada por um caminhão, Annabelle voltou a trabalhar no dia seguinte. Não havia escolha. Precisava tocar sua vida. Tinha aprendido uma terrível lição com Antoine sobre como as pessoas tinham mente estreita, e que faziam suposições sobre os outros. Havia sofrido o mesmo em Nova York, anos antes, quando todos acreditaram no pior a seu respeito. Antoine violara sua confiança e destruíra sua fé na raça humana de uma vez por todas.
Hélène parecia preocupada com ela havia semanas. Annabelle não teve mais notícias de Antoine. Ele a achava uma tola por não estar disposta a ser “tolerada” e “perdoada” pelos erros que alegava não ter cometido. Estava disposto a acreditar apenas no pior.
Annabelle voltou a se dedicar aos pacientes e à filha, e se esqueceu dos homens. Parecia amarga nos meses seguintes, mas em março já estava um pouco melhor. Ela sorria outra vez e passava as tardes de domingo com Consuelo no parque. A menininha havia ficado triste no início, por não ir mais aos almoços dos St. Gris — costumava se divertir com os sobrinhos de Antoine. A mãe lhe dissera que ela e Antoine acharam que haviam cometido um engano e não eram mais amigos. E sempre que Annabelle pensava no que ele havia falado sobre a filha contaminá-los, de ser indigna deles, lembrava-se do porquê de estar sozinha, e pretendia continuar assim. Tudo o que Antoine fizera no fim, além de desapontá-la e de acabar com qualquer esperança que lhe restava sobre a decência da humanidade, foi convencê-la do que ela já sabia: jamais escaparia do destino ao qual Josiah lhe condenara, destino que Harry Winshire confirmara. Tudo o que qualquer um veria nela seriam rótulos impostos por outros, e sempre pensariam que ela era culpada. Estava convencida agora de que ninguém jamais acreditaria em sua inocência, que confiaria nela ou que a amaria, independentemente do que ela dissesse. Antoine havia confirmado cada um dos seus piores temores.