Uma Mulher Livre
Capítulo 3
Annabelle e a mãe partiram para Newport um mês antes do habitual, em junho. O lugar era lindo naquela época do ano, e, como sempre acontecia, a criadagem foi antes para abrir a casa. A temporada social de Newport geralmente era deslumbrante, mas naquele ano estavam planejando dias bem tranquilos. As pessoas poderiam visitá-las em casa, pois não havia como Annabelle e a mãe saírem apenas dois meses depois da morte do pai e do irmão. As familiares fitas pretas foram postas na porta da frente em Newport, simbolizando o luto.
Havia uma série de famílias na mesma situação em Newport naquele ano, inclusive os Astors. Madeleine Astor, que havia perdido seu marido John Jacob no Titanic, estava esperando um bebê para agosto. A tragédia havia devastado o mundo social de Nova York, pois, além de ser a viagem de inauguração, muitos aristocratas e figuras importantes da sociedade estavam no navio. E as notícias constantes sobre a inépcia da tripulação para colocar os passageiros nos botes salva-vidas eram cada vez mais perturbadoras. Quase todos os botes saíram praticamente vazios. Alguns homens forçaram a própria permanência com as mulheres e crianças. E quase ninguém da segunda classe foi salvo. Os interrogatórios oficiais aconteceriam no devido tempo.
Newport esteve bastante calma em junho, mas começou a ficar agitada quando os turistas de Boston e Nova York começaram a chegar e lotar seus “chalés” em julho. Por unanimidade, o que as pessoas chamavam de chalés em Newport eram na realidade mansões de proporções gigantescas em qualquer outro lugar. Eram casas com salões de baile, candelabros enormes, mobília antiga de valor inestimável e jardins espetaculares, na beira do mar. Era uma comunidade notável constituída dos rebentos da sociedade de toda a Costa Leste, um lugar de encontro para os muito ricos. Os Worthingtons se sentiam em casa ali. Seu chalé era um dos maiores e mais bonitos da cidade.
Annabelle começou a se divertir quando Hortie chegou. Juntas, deram uma escapadinha até o mar, saíram para passear, e o noivo de Hortie, James, costumava se reunir com elas em piqueniques no gramado. De vez em quando, levava alguns amigos, o que Annabelle achava divertido. A mãe fingia não notar. Desde que não fossem a festas, não fazia objeção a Annabelle ver gente jovem. Era uma filha tão boa e tão devotada à mãe que merecia. Consuelo se perguntava se algum dos amigos de James, ou uma das antigas amizades de Robert, despertaria o interesse de Annabelle. Ficava preocupada ao pensar que aquele ano de luto poderia determinar o destino de Annabelle. Desde a época do Natal, quando todas as moças foram apresentadas, seis das jovens na faixa etária de Annabelle haviam ficado noivas. E a filha não havia conhecido ninguém, pois não saía de casa. Depois dos dois últimos meses, ela já parecia mais velha e mais madura que as outras, o que poderia assustar os rapazes. E, acima de tudo, a mãe queria vê-la casada. Annabelle, por outro lado, permanecia tranquila e ficava feliz por ver Hortie e os outros, mas nenhum homem despertava-lhe o menor interesse.
Josiah Millbank também foi vê-las assim que chegou, em julho. Sempre levava um presente em suas visitas: flores, quando estavam na cidade, e, agora, em Newport, frutas ou doces. Passava horas conversando com Consuelo, os dois sentados no amplo alpendre em cadeiras de balanço. Após a terceira visita, Annabelle provocou a mãe.
— Acho que ele gosta de você, mamãe — disse ela, sorrindo.
— Não seja boba. — Consuelo corou diante da ideia. A última coisa que precisava era de um pretendente. Ela queria permanecer fiel à memória do marido para sempre e dizia isso para quem quisesse ouvir. Não era uma daquelas viúvas à procura de marido, embora quisesse desesperadamente um para Annabelle. — Ele só está sendo gentil conosco — acrescentou Consuelo com firmeza, convencida do que estava dizendo. — De qualquer forma, é mais jovem que eu, e, se estiver interessado em alguém, é em você. — Embora tivesse de admitir que não havia nenhuma evidência disso. Ele parecia igualmente confortável conversando com mãe ou filha. Nunca se mostrara paquerador, apenas amigável.
— Ele não está interessado em mim, mamãe — confirmou Annabelle com um largo sorriso —, e é apenas cinco anos mais novo que você. Acho que é uma pessoa muito boa. E é velho o bastante para ser meu pai.
— Muitas moças da sua idade se casam com homens da idade dele — comentou a mãe com tranquilidade. — Ele não é tão velho assim, faça-me o favor. Acho que só tem 38, se me recordo bem.
— Seria mais adequado para você. —Annabelle riu e fugiu com Hortie. O dia estava quente e ensolarado, por isso queriam nadar. James prometera aparecer mais tarde. Naquela noite, os Schuylers dariam uma grande festa, à qual James, Hortie e todos os seus amigos compareceriam, embora Annabelle, claro, não pudesse ir. Nem sonharia em pedir isso à mãe, pois não queria aborrecê-la.
Mas, naquela noite, sentadas no alpendre, puderam ouvir a música ao longe. Estouraram fogos de artifício, e Consuelo sabia que eram para celebrar o noivado de uma das filhas dos Schuylers. Ouvi-los fez com que seu coração se partisse pela filha.
Para grande surpresa das duas, Josiah apareceu mais tarde naquela noite trazendo para cada uma um pedaço do bolo da festa. Estava indo para casa, e as duas ficaram tocadas com o gesto atencioso. Josiah ficou para um copo de limonada com elas, logo depois disse que precisava ir, pois tinha um hóspede esperando por ele em casa. Prometeu voltar em breve, e elas lhe agradeceram. Até Annabelle ficou comovida com o gesto de amizade. Não tinha interesse romântico nele, mas, de alguma forma, era como se Josiah estivesse substituindo seu irmão. Gostava de conversar com ele, que a provocava do mesmo jeito que Robert costumava fazer, algo do qual sentia muita falta.
— Pergunto-me por que não levou o hóspede dele à festa — refletiu Consuelo, deixando os copos e a jarra de limonada na copa.
— Talvez seja alguém inconveniente — brincou Annabelle —, uma mulher escandalosa e inconveniente. Talvez ele tenha uma amante — disse, rindo muito, fazendo a mãe dar uma gargalhada. Josiah era tão gentil e educado que aquilo parecia pouco provável. Nem mesmo teria mencionado qualquer hóspede se este fosse o caso.
— Você tem uma imaginação muito fértil — ralhou a mãe. Logo depois as duas subiram, conversando amigavelmente sobre Josiah e o quanto havia sido gentil da parte dele levar um pedaço de bolo para elas. Era a primeira vez que Annabelle realmente lamentava não poder sair. Todos os amigos tinham ido à festa e parecia ter sido uma grande celebração, com fogos de artifício e tudo. Seria um verão muito tranquilo, exceto por Hortie e Josiah, que eram fiéis em suas visitas frequentes, e alguns outros amigos também.
Josiah apareceu no dia seguinte, então Consuelo o convidou para um piquenique com Annabelle e Hortie. Ele parecia perfeitamente à vontade com as duas moças, mesmo com as risadinhas e os gracejos de Hortie. Ele disse que tinha uma meia-irmã da idade delas, do segundo casamento de seu pai, que tinha ficado viúvo. Annabelle ainda não conseguia imaginar Hortie como uma mulher casada, o que ela seria dentro de quatro meses. A amiga ainda era muito nova, mas louca por James. Geralmente, quando ela e Annabelle estavam sozinhas, fazia comentários picantes sobre a noite de núpcias e a lua de mel, o que fazia Annabelle revirar os olhos. Felizmente, Hortie não falou nada daquilo na frente de Josiah, que comentou que a irmã havia se casado em abril e estava esperando um bebê. Ele parecia estar perfeitamente familiarizado com a vida, as ocupações e os interesses das moças em geral, o que fez as duas amigas apreciarem conversar com ele.
Falou sobre seu hóspede; disse que era um colega de Harvard que vinha visitá-los todos os verões. Comentou ainda que era um sujeito estudioso e pacato, que geralmente evitava eventos sociais e festas.
Josiah ficou até o fim da tarde, depois acompanhou Annabelle até em casa quando Hortie foi embora. Consuelo estava sentada no alpendre, conversando animadamente com uma amiga. Era divertido estar ali. Muitas pessoas vinham visitá-las e ela sentia uma aura de renovação nelas. Era particularmente bom para Annabelle, que temia voltar para a cidade. Havia falado com Josiah sobre o trabalho que tanto amava fazer no hospital, e ele não perdeu a chance de provocar:
— Suponho que queira ser enfermeira quando crescer — disse ele, sabendo tão bem quanto ela que isso jamais aconteceria. O mais perto que poderia chegar disso seria com o trabalho voluntário, mas ela ainda lia bastante sobre medicina. Era sua paixão secreta.
— Na verdade — disse com honestidade, sem medo de ser espontânea com ele —, preferiria ser médica. — Era como se pudesse lhe contar qualquer coisa, pois ele não fazia o tipo que iria zombar dela. Josiah havia se tornado um bom amigo desde a morte de seu pai. Mas, naquele momento, ele pareceu espantado. Annabelle o surpreendeu, era uma pessoa bem mais séria do que ele supunha. Ele podia ver pela expressão no rosto da jovem que ela estava falando sério.
— Isso é bem impressionante — disse ele, solene por um minuto. — Faria isso?
— Minha mãe jamais permitiria. Mas eu adoraria, se pudesse. Pego livros de medicina e anatomia na biblioteca às vezes. Não entendo tudo o que dizem, mas aprendi coisas interessantes. Acho a medicina fascinante. E agora existem muito mais médicas do que antes. — As mulheres já entravam para as escolas de medicina havia mais de sessenta anos, mesmo assim ele não imaginava Annabelle fazendo tal coisa, pois suspeitava que ela estava certa: a mãe teria um ataque. Ela queria que Annabelle tivesse uma vida bem mais tradicional, que casasse e tivesse filhos, por isso sua apresentação à sociedade.
— Nunca quis ser médico — confessou ele. — Mas quis muito entrar para o circo quando eu tinha uns 10 ou 12 anos. — Ela riu ao ouvir a confissão, era uma coisa engraçada de se admitir. — Eu adorava animais e sempre quis ser mágico, para poder fazer meu dever de casa desaparecer. Eu não era bom aluno.
— Não sei se acredito nisso, já que foi para Harvard — respondeu ela, ainda rindo dele. — Acho que teria sido divertido entrar para o circo. Por que não fez isso?
— Seu pai me ofereceu um emprego, embora isso tenha sido mais tarde. Não sei, acho que não tinha a presença de espírito necessária. Mas nunca tive ambições como a sua. Morreria só de pensar em todos os anos de estudo que isso exigiria. Sou muito preguiçoso para ser médico.
— Não acredito nisso — disse ela com simpatia. — Mas sei que eu adoraria. — Seus olhos brilhavam ao falar no assunto.
— Quem sabe? Talvez um dia você possa usar um pouco do que aprendeu nos livros no seu trabalho voluntário. — Ele a admirava por poder fazer ao menos isso.
— Não me deixam fazer muita coisa — respondeu, parecendo desapontada.
— O que gostaria de fazer? — perguntou ele, interessado.
— Faço lindos bordados, é o que todos dizem. Gostaria de tentar suturar alguém alguma vez. Garanto que eu conseguiria. — Josiah ficou chocado com o que ela disse, mas depois deu um grande sorriso.
— Lembre-me de não me cortar na sua frente, senão vai tirar uma agulha e um bastidor do bolso.
— Eu adoraria — admitiu ela, sorrindo com travessura.
— É bom que alguém a mantenha ocupada, Srta. Worthington, pois tenho o pressentimento de que vai aprontar alguma diabrura.
— Diabruras médicas me cairiam muito bem. Pense só, se não fôssemos quem somos, eu poderia ir à escola de medicina e fazer o que quisesse. Não é revoltante? — perguntou, parecendo uma mulher madura e, ao mesmo tempo, uma menina. Sem pensar, ele a abraçou, como teria feito com sua irmãzinha. Era como ela lhe parecia. E Annabelle, por sua vez, tinha desenvolvido por ele um sentimento fraterno. Um belo relacionamento e uma linda amizade estavam nascendo entre eles.
— Se não fossem quem são, vocês não poderiam arcar com a escola de medicina — disse ele, sendo prático, ao que ela assentiu com a cabeça.
— É verdade. Mas se eu fosse homem, eu poderia. Robert poderia ter sido médico, caso quisesse, e meus pais teriam permitido. Às vezes, é muito difícil ser mulher. Há tanta coisa que não se pode fazer e que não é considerada adequada. É mesmo muito entediante — disse ela, chutando um seixo com a ponta do sapato, o que fez Josiah rir.
— Não me diga que é uma daquelas mulheres que querem lutar por direitos e liberdade. — Ela não parecia ser esse tipo de pessoa, o que o teria surpreendido.
— Não. Estou perfeitamente feliz com as coisas do jeito que estão. Só queria poder ser médica.
— Bem, eu gostaria de ser o rei da Inglaterra, mas isso também não vai acontecer. Certas coisas simplesmente estão além do nosso alcance, Annabelle, e temos de aceitar isso. Você tem uma vida boa do jeito que é.
— Sim, tenho — concordou ela. — E amo minha mãe. Não faria nada para aborrecê-la, e isso a aborreceria muito.
— Aborreceria, sim.
— Ela sofreu muito este ano, e só quero fazê-la feliz.
— Você já faz — disse ele, de um jeito confortante. — Posso ver. Você é uma filha maravilhosa, e uma pessoa adorável.
— Não é, não — disse Hortie, sorrateiramente, surgindo do nada. Havia voltado para buscar a amiga para nadar outra vez. — Ela dissecou um sapo uma vez. Leu como fazer em um livro. Foi a coisa mais nojenta que eu já vi. Ela definitivamente não é uma pessoa adorável. — Os três riram daquilo.
— Presumo que seja verdade — comentou Josiah, começando a conhecer Annabelle melhor. Era uma moça admirável, sob vários aspectos.
— É, sim — disse Annabelle, orgulhosa. — Fiz exatamente como o livro dizia, foi muito interessante. Queria poder dissecar uma pessoa de verdade. Um cadáver, sabe, como na escola de medicina.
— Ah, meu Deus! — exclamou Hortie, parecendo tonta. Josiah ficou chocado, mas achou graça.
— É melhor vocês duas irem nadar — disse ele, enxotando-as enquanto subia ao alpendre para se despedir de Consuelo.
— Sobre o que vocês três estavam conversando? — perguntou Consuelo, com interesse.
— Ah, o de sempre, festas, débuts, noivados, casamentos — respondeu Josiah, encobrindo Annabelle, sabendo que a mãe ficaria chocada se soubesse que a filha gostaria de poder dissecar um cadáver. Ainda estava rindo consigo mesmo enquanto caminhava de volta ao próprio chalé. Annabelle Worthington era mesmo uma jovem interessante, nada parecida com as costumeiras moças de 19 anos.
Ao chegar em casa, seu colega de quarto na faculdade havia acabado de retornar do almoço. Josiah acenou para ele quando o viu. Henry Orson era um de seus amigos mais antigos, e ele gostava do tempo que passavam juntos todos os verões. Eram bons amigos desde a faculdade, e Henry era um homem de posses, a quem todos admiravam.
— Como foi o almoço? — perguntou-lhe Josiah. Ambos eram homens bem-apessoados e poderiam ter todas as mulheres que quisessem, mas eram bastante respeitosos. Nunca seduziam nem se aproveitavam delas. Henry havia noivado dois anos antes e ficou muitíssimo desapontado quando sua noiva se apaixonou por um homem mais jovem, um rapaz da mesma idade dela. E desde então não teve qualquer envolvimento sério com outra mulher, o que deixava todas as mães de Newport esperançosas, assim como acontecia em relação a Josiah.
— Chato — respondeu Henry, meio entediado. — Como foi o seu? — Henry, em geral, achava reuniões sociais tediosas e preferia discutir negócios com outros homens sérios a paquerar mocinhas.
— Fiz um piquenique com uma jovem dama que quer dissecar um cadáver humano — contou Josiah, sorrindo, o que fez Henry dar uma gargalhada.
— Jesus! — exclamou Henry, parecendo impressionado e achando graça, fingindo estar assustado. — Ela parece perigosa. Fique longe dela!
— Não se preocupe — disse Josiah, gargalhando, enquanto entravam juntos em casa. — Ficarei.
Os dois jogaram cartas pelo resto da tarde e conversaram sobre o mercado financeiro, a paixão de Henry. Era um tema que o tornava entediante às mulheres, mas interessante aos homens, já que era extremamente inteligente e instruído. Josiah sempre ficava feliz por conversar com ele. Havia arranjado um emprego para Henry no banco do pai de Annabelle havia alguns anos, e ele era muitíssimo respeitado por seus colegas e superiores. Embora menos sociável que Josiah, se saíra muito bem no banco, assim como o amigo. Henry não conhecia Annabelle ou Consuelo, mas Josiah prometeu apresentá-las a ele durante a estada em Newport, ao que Henry balançou a cabeça, ao mesmo tempo que fazia cara feia para suas cartas.
— Não se ela for me dissecar feito um cadáver — disse Henry, agourento, sorrindo em seguida ao baixar uma cartada vencedora.
— Droga — disse Josiah, cruzando os braços e sorrindo para o amigo. — Não se preocupe. Ela é apenas uma criança.