Uma Mulher Livre
Capítulo 12
Annabelle não viu ninguém depois que Josiah foi embora. Blanche sabia que alguma coisa terrível havia acontecido, mas não ousava perguntar. Annabelle ficou no quarto e recebia em uma bandeja as refeições, nas quais mal tocou. Uma vez por dia, saía para um longo passeio à beira-mar, mas não via ninguém nem falava com qualquer conhecido. Hortie apareceu em uma tarde, mas Annabelle se recusou a recebê-la. Pediu que Blanche dissesse à amiga que ela estava doente. Annabelle estava ferida demais, até para ver a melhor amiga, e envergonhada demais para contar que estava se divorciando. Ela não podia falar qual era o motivo, mesmo não sendo responsável pelo fim do casamento. A verdade era inconcebível, e ela queria proteger Josiah. Entrava em pânico sempre que pensava que não o veria de novo.
Sabia que uma vez que as pessoas soubessem do divórcio ninguém acreditaria nela, e todos em Nova York e em Newport ficariam chocados. Perguntou-se quanto tempo levaria para que a notícia se espalhasse. De luto pela mãe, não se esperava que saísse, mas as pessoas achariam estranho não ver mais Josiah. Blanche já suspeitava do que havia acontecido, embora acreditasse ser briga de casal, mas não imaginava que aquilo acabaria em divórcio. Ela e o mordomo comentavam que Josiah devia estar tendo um caso, mas ninguém poderia sequer suspeitar que era com Henry, ou que o casamento de Annabelle tinha chegado ao fim. Blanche tentou dizer que tudo ficaria bem, mas tudo o que Annabelle conseguiu fazer foi chorar e balançar a cabeça. Nada jamais voltaria a ficar bem.
O advogado de Josiah marcou uma reunião em julho. Josiah já havia deixado o cargo no banco e partido para o México. Duas semanas antes, Henry havia alegado uma doença de família e deixado o banco também. Nunca ocorreu a ninguém ligar os dois fatos, mas a saída dos dois homens foi uma perda para o banco.
Josiah lhe enviara uma carta antes de partir, pedindo desculpas mais uma vez pela terrível perfídia e pela traição. Disse que carregaria a culpa pelo resto da vida e garantiu que seu amor por ela sempre foi sincero. O divórcio já havia sido solicitado em Nova York, e o advogado lhe levou uma cópia dos documentos. O único motivo pelo qual pôde dar entrada nos papéis foi por infidelidade, o que a abalou no íntimo ao ler. Estava ciente disso, mas ver era pior. Havia dito ao marido que não solicitaria o divórcio, então Josiah não teve escolha senão fazê-lo ele mesmo.
— Todos pensarão que o traí — disse com ar angustiado ao advogado, que meneou a cabeça. Teve esperanças de que Josiah não desse entrada no divórcio, mas ele o fizera, com o único pretexto existente.
— Ninguém jamais verá esses papéis — garantiu-lhe o advogado. — Não havia outra escolha, já que a senhora não aceitou pedir o divórcio. — Annabelle teria morrido antes disso. Ela o amava.
Por fim, a confiança de Josiah e de seu advogado no sistema se provou enganosa. Um escrevente do tribunal vendeu uma cópia dos papéis do divórcio aos jornais, e, em agosto, foi publicado que Josiah havia pedido divórcio por adultério. Em um único golpe, a vida e a reputação de Annabelle foram arruinadas. Da noite para o dia, ela se tornou uma pária.
Ainda estava em Newport quando soube de tudo através do banco do pai, e a notícia se espalhou feito fogo. Todos em Newport comentavam sobre o divórcio do casal. Custou a Annabelle duas semanas para que criasse coragem de visitar Hortie para falar sobre o assunto, e, quando o fez, enfrentou outro choque. Em vez de deixá-la subir direto para o quarto de Hortie, onde a amiga estava deitada, como sempre, o mordomo a conduziu à sala de visitas, no momento que a mãe de Hortie saía do cômodo e passava por ela com ar de desaprovação no rosto. Não falou uma palavra com Annabelle, e dez minutos se passaram até que Hortie aparecesse, consideravelmente maior que da última vez em que Annabelle a vira. Estava bastante nervosa e não se sentou. Em vez disso, ficou olhando para Annabelle, desconfortável. As lágrimas escorriam dos olhos de Annabelle, mas Hortie virou-se e fingiu não vê-las.
— Imagino que soube da notícia. Todos souberam — disse Annabelle, com ar sofrido, assoando com discrição o nariz no lenço de renda que fora da mãe. Estava carregando o guarda-sol também, pois viera andando de casa em um dia bastante quente.
— Não fazia ideia de que havia outra pessoa — disse Hortie com a voz embargada, sem se aproximar da amiga ou dizer qualquer palavra de conforto. Ficou parada feito estátua do outro lado da sala, longe de Annabelle, os braços firmes junto ao corpo.
— Não havia, e nunca houve — disse Annabelle com clareza. — Adultério era o único pretexto permitido. Josiah queria o divórcio, eu não. Ele achou que seria melhor... não conseguia... não queria... — As palavras foram sufocadas por um soluço. Não sabia como explicar, porque nada do que realmente acontecera fazia muito sentido, e não podia revelar nenhum detalhe, nem mesmo para a melhor amiga. Josiah estaria arruinado para sempre se ela contasse que ele a havia deixado por outro homem, e não tinha coragem de dizer a Hortie que ainda era virgem, então simplesmente sentou-se na cadeira e chorou. E não havia como contar-lhe sobre a chocante doença dele. — Não sei o que fazer — disse Annabelle, infeliz. — Quero morrer. — Hortie confundiu sua agonia com culpa. A mãe disse que ela merecia tudo o que Josiah lhe fizera, pois um homem da estatura moral de Josiah nunca se divorciaria da mulher por qualquer razão, e que Hortie podia ter certeza de que, fosse lá o que fosse, o que Annabelle havia feito era imperdoável. Do contrário, eles ainda estariam casados. E se ele havia se divorciado alegando que ela era adúltera, então Annabelle era adúltera. Disse que lamentava muitíssimo por Josiah, mas nem um pouco por Annabelle, que recebeu exatamente o que merecia. E James avisou a Hortie, em termos bem claros, que estava proibida de ver a amiga outra vez. Não queria que a perversão tivesse alguma influência sobre a esposa.
— Lamento muito que isso tenha acontecido — disse Hortie, desconfortável. — Deve ter cometido um erro terrível. — Tentou ser caridosa, mas no fundo achava que a mãe estava certa. Josiah era um homem gentil demais para aceitar algo leviano. Para divorciar-se de Annabelle, largar o emprego e deixar a cidade, ela devia ter se comportado de maneira abominável. Nunca imaginou que Annabelle seria capaz disso, mas aquilo só servia para provar que não conhecemos nem mesmo nossos melhores amigos. Estava muito desapontada com ela, e a julgar pela enxurrada de lágrimas de Annabelle, podia ver o quanto a amiga se sentia culpada. A mãe e James estavam certos.
— Não cometi erro algum — disse Annabelle, soluçando enquanto chorava. Ela se sentia uma criança abandonada, e ficou chocada com a falta de solidariedade de Hortie, depois de tudo o que passaram juntas desde a infância. Hortie parecia bastante distante e soava muito fria.
— Acho que não quero saber o que aconteceu — disse Hortie, alcançando a porta. — Lamento, mas você precisa ir. James disse que não posso vê-la outra vez. Adeus, Annabelle, tenho de subir e me deitar, não estou me sentindo bem. — Então Hortie saiu da sala e fechou a porta ao passar, sem dizer mais nada. Annabelle ficou sentada olhando para a porta, incapaz de acreditar no que havia acabado de acontecer. Tremia violentamente quando se levantou, saiu correndo de lá e voltou para casa. Pensou em se atirar ao mar, em se matar, mas não tinha coragem para tanto. Teria gostado, pois assim veria seus pais e Robert outra vez, estava certa disso. Não podia acreditar que Hortie também a abandonara, que tivesse dito que jamais a veria novamente. E então percebeu que todos que conhecia fariam o mesmo. Cada porta em Newport e em Nova York seria fechada para ela, uma vez que pudesse voltar a sair.
Annabelle bateu a porta depois de entrar correndo em casa e subir para o quarto. Atirou-se na cama, abalada demais até para chorar. Ainda estava deitada quando Blanche entrou no quarto e falou carinhosamente com a mulher que conhecia desde criança.
— Sei que não fez o que dizem, Srta. Annabelle. Vi a senhorita quase todos os dias, durante toda a sua vida. Sei que foi uma boa esposa para ele. Não sei o que aconteceu entre vocês dois, mas sei que não tem nada a ver com você. — E então aproximou-se, passou os braços em volta de Annabelle, e as duas choraram juntas. Annabelle não podia contar a Blanche o que realmente tinha acontecido, mas ela sabia que a patroa estava sendo acusada injustamente. E enquanto choravam abraçadas, Annabelle sentiu mais falta da mãe do que nunca. Havia se recusado a pedir o divórcio de Josiah, que, pensando em poupá-la de um destino pior, marcou-a como adúltera para sempre.
Sentiu o gosto do que isso significava nas últimas semanas de agosto, quando a temporada de verão chegou ao fim. Foi algumas vezes à mercearia, ao correio, e, sempre que o fazia, as pessoas que encontrava no caminho viravam o rosto e se recusavam a falar com ela. Os homens a encaravam com ar de desaprovação, as mulheres a olhavam como se ela fosse invisível. Havia de fato se tornado a pária que dissera a Josiah que seria. Ele havia achado que isso seria melhor para ela, e a libertara por amor e remorso, mas, ao fazê-lo, condenara Annabelle a uma sentença eterna de reprovação e desprezo. Ela mesma a banira de seu próprio mundo. Soube então que sua vida estava acabada em Newport e em Nova York, que jamais seria admitida outra vez em casas decentes ou nos círculos idôneo. Seria para sempre a adúltera de quem Josiah Millbank se divorciou. Ele podia muito bem tê-la enforcado. A mulher decente que sempre foi estava morta.