Uma Mulher Livre

Danielle Steel · Capítulo 22 de 32

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Uma Mulher Livre

Capítulo 18

 

Em setembro, os alemães estavam vencendo completamente os russos. E em Villers-Cotterêts, Annabelle vomitava todos os dias. O pior havia acontecido. Não ficava menstruada desde julho, e sabia que estava grávida. Só não sabia o que fazer a respeito. Não tinha para quem contar, nenhuma maneira de interromper a gravidez. As costas, a cabeça e outras partes do corpo levaram semanas para sarar, mas os efeitos do que ele lhe fizera durariam para sempre. Pensou em procurar alguém que lhe fizesse o aborto, mas não sabia a quem perguntar, porém sabia o quanto era perigoso. Duas das enfermeiras haviam morrido ao fazer aborto desde sua chegada ao hospital. Annabelle não ousava correr esse risco. Preferiria simplesmente se matar, mas tampouco tinha coragem para isso. Só que ela não queria um filho daquele monstro. Segundo seus cálculos, a criança nasceria em abril, portanto teria de deixar o hospital tão logo a barriga começasse a aparecer. Felizmente, ainda não estava aparente. E ela estava trabalhando mais do que nunca, carregando homens e equipamento pesados, sacolejando nas estradas esburacadas na ambulância. Rezava para que a natureza lhe fosse gentil e fizesse com que ela sofresse um aborto, mas, conforme o tempo passava, ficou cada vez mais óbvio que isso não iria acontecer. E quando seu quadril e seu corpo começaram a alargar, ela pegou tiras de gaze do material de cirurgia e amarrou nela o mais apertado que conseguiu. Mal podia respirar, mas estava determinada a trabalhar pelo máximo de tempo possível. E não tinha ideia de onde ir quando já não pudesse mais fazer isso.

No Natal, a barriga ainda não tinha aparecido, mas agora ela já conseguia sentir o bebê se mexendo suavemente dentro de si. Annabelle tentou resistir, e disse a si mesma que tinha todos os motivos para odiá-lo, mas não conseguia. O bebê era tão inocente quanto ela, mesmo que odiasse seu pai. Pensou em entrar em contato com ele para lhe dizer o que havia acontecido e obrigá-lo a assumir a responsabilidade, mas sabia que, dado o que havia visto naquela noite, ele simplesmente negaria o fato. E quem sabia quantas mulheres ele não teria estuprado antes, ou desde então? Annabelle era apenas um destroço que flutuara diante dele no mar da guerra, e ele a descartaria exatamente como naquela noite, junto com o bebê dela. Não dispunha de recurso nenhum, era apenas uma mulher carregando um filho ilegítimo em tempos de guerra, e ninguém daria a mínima para o fato de ter sido violentada.

Continuava trabalhando em janeiro. Estava com seis meses de gravidez, e escondia a grossura do tronco com o avental. Não havia volume porque ainda amarrava as tiras de gaze bem apertado, e, por causa da preocupação, e também da escassez, comia muito pouco. Não havia ganhado peso nenhum, se é que era possível, havia perdido. Andava muito deprimida desde julho, quando tudo aconteceu. E não contou a ninguém.

Foi em um dia chuvoso, muito frio, mais adiante naquele mês, quando estava trabalhando na enfermaria da ala de cirurgia certa tarde, cobrindo a ausência de alguém, que ouviu dois homens conversando. Os dois eram britânicos, um era oficial, o outro, sargento. Os dois haviam perdido membros nas batalhas mais recentes nas trincheiras. E Annabelle parou o que estava fazendo quando os ouviu mencionar Harry. Não sabia o porquê, poderia ser qualquer um, mas um momento depois o oficial disse que era uma perda terrível o fato de Harry Winshire estar morto. Falaram sobre como havia sido um bom homem e o quanto sentiriam sua falta. Annabelle queria se virar e berrar-lhes que ele não era um bom homem coisa nenhuma, que era um monstro. Cambaleou para fora da enfermaria e ficou lá fora tremendo no frio, sorvendo o ar, como se estivesse sendo estrangulada. Ele não apenas a violentara, mas agora ele estava morto. Seu bebê não teria pai, jamais teve. Sabia que provavelmente era melhor assim, que ele merecia ter morrido, mas, quando percebeu a enormidade do que estava acontecendo, sentiu-se de repente subjugada por uma sensação de puro terror, que oscilou vagarosamente como um salgueiro na brisa, e então ela desmaiou, caindo na lama ao seu redor. Duas enfermeiras a viram cair e vieram correndo, enquanto um dos cirurgiões que deixava o prédio parou e se ajoelhou ao seu lado. Como sempre, todos temeram pelo cólera, mas, quando a tocaram, viram que não tinha febre. Suspeitaram que fosse excesso de trabalho e falta de comida ou sono, uma condição da qual vinham sofrendo havia anos.

O médico ajudou a levá-la para dentro, e Annabelle recobrou a consciência quando a colocavam em uma maca. Estava ensopada, o cabelo grudado na cabeça por causa da chuva, o avental estava colado ao corpo. Ela se desculpou profusamente por ter causado tanto trabalho e tentou se levantar para escapar deles. Mas, no momento em que o fez, desmaiou de novo, e desta vez o médico puxou a maca para uma salinha e fechou a porta. Não a conhecia bem, mas a via com frequência.

Perguntou calmamente se ela estava com disenteria, mas Annabelle garantiu que sentia-se bem, que estava trabalhando desde as primeiras horas da manhã e que não havia comido nada desde o dia anterior. Tentou sorrir com animação, mas o médico não se deixou enganar. O rosto dela estava tão branco quanto o avental. Perguntou-lhe o nome, e ela respondeu.

— Srta. Worthington, acredito que esteja sofrendo de fadiga de batalha. Talvez precise se afastar por alguns dias, para tentar se recuperar. — Ninguém tirava folga havia meses, e ela não queria parar de trabalhar, mas também sabia que seus dias no hospital estavam contados. Sua barriga crescia exponencialmente agora e era cada vez mais difícil escondê-la, por mais apertado que amarrasse as tiras de gaze. — Tem mais alguma coisa sobre sua saúde que não tenha me contado? — perguntou ele, preocupado. A última coisa que queriam era a equipe médica espalhando doenças infecciosas, começando uma epidemia ou simplesmente morrendo por excesso de trabalho e enfermidades não reveladas. Todos eram tão conscienciosos com o trabalho que muitas enfermeiras e vários médicos escondiam que estavam doentes. Ele temia que este fosse o caso dela. Annabelle parecia péssima.

Ela começou a balançar a cabeça, e então o médico viu lágrimas em seus olhos.

— Não, estou bem — insistiu.

— Tão bem que acabou de desmaiar duas vezes — observou ele, gentilmente. Tinha a sensação de que havia algo mais, mas Annabelle estava determinada a ficar calada, e parecia tão malnutrida quanto muitos outros. Pediu que ela se deitasse para poder examiná-la por cima das roupas, e, tão logo Annabelle se deitou, ele viu o leve inchaço da barriga e buscou os olhos dela. Sempre delicado, pôs as mãos sobre a barriga dela e pôde sentir o volume que estava escondido com tanta determinação havia tempos, então compreendeu imediatamente o que era. Annabelle não era a primeira jovem a engravidar de um soldado em época de guerra. Quando a encarou, ela começou a chorar.

— Acho que este é o problema — disse ele quando Annabelle se sentou, pegou um lenço e assoou o nariz. Parecia mortalmente embaraçada e desesperadamente infeliz. — Para quando é?

Annabelle quase engasgou com as palavras, quis explicar como havia acontecido, mas não ousou. A verdade era tão horrorosa, e, com certeza, ele e todos no mundo a culpariam, nunca acreditariam nela. Estava certa disso, havia visto acontecer com outras antes. Mulheres diziam que haviam sido violentadas, quando na verdade simplesmente haviam tido um caso extraconjugal. Por que ele deveria acreditar nela? Então, como o segredo de Josiah que salvaguardara para protegê-lo quando foi abandonada, agora ela guardava o do visconde Winshire. E Annabelle era quem havia pagado o preço por tudo.

— Para abril — respondeu, com ar de desespero.

— Conseguiu manter em segredo por bastante tempo. — Ele afrouxou o avental, abriu o cós, ergueu-lhe a blusa e ficou horrorizado quando viu o quanto ela havia se apertado, e obviamente vinha fazendo isso havia meses. — Fico espantado que consiga respirar. — Era muito mais apertado que qualquer corpete, e uma crueldade com mãe e criança.

— Não consigo — disse ela, em meio a lágrimas.

— Terá de parar de trabalhar em breve — disse ele, mas Annabelle já sabia. — E o pai? — perguntou com delicadeza.

— Morto — murmurou. — Eu só descobri hoje. — Não disse que odiava Harry e que estava feliz por sua morte. Ele a merecia. Sabia que o médico ficaria chocado se falasse tal coisa.

— Entendo. Vai para casa?

— Não posso — disse ela. Ele simplesmente não conseguiria entender as razões dela. Annabelle já não era mais bem-vinda em Nova York ou em Newport, e a gravidez decretaria para sempre o seu fim.

— Terá de arranjar um lugar para viver. Quer que eu a ajude a encontrar uma família com que possa ficar? Talvez você possa ajudar a cuidar das crianças. — Annabelle balançou a cabeça. Andava pensando muito nisso nos últimos tempos, enquanto a barriga crescia. Também não podia voltar à escola de medicina, pelo menos não por enquanto. O lugar em que conseguiu pensar foi a área acima de Antibes, perto da antiga igreja, aonde ia às vezes quando tinha uma folga na escola de medicina. Se conseguisse encontrar uma casinha por lá, poderia se esconder até o bebê nascer e depois voltar ao front ou à escola com o bebê. Era difícil imaginar-se retornando ao front com um bebê, e não tinha com quem deixá-lo. Tinha muito a pensar, mas declinou da ajuda. Queria resolver as coisas sozinha. E ele não sabia que ela podia fazer os próprios arranjos financeiros e que era capaz de alugar ou comprar uma casa, se preferisse.

— Obrigada, eu dou um jeito — agradeceu com tristeza, enquanto ele a ajudava a descer da maca.

— Não espere muito — aconselhou ele. Surpreendia-lhe que tivesse conseguido esconder a gravidez por seis meses.

— Não esperarei — prometeu. — Obrigada — disse ela, com lágrimas nos olhos outra vez, com o médico lhe afagando o ombro, tentando tranquilizá-la enquanto deixavam a sala. As duas jovens enfermeiras ainda estavam esperando lá fora para saber como Annabelle estava.

— Ela está bem — disse o médico com um sorriso. — Vocês todas trabalham muito aqui. Eu disse a ela que precisa tirar uma folga, antes que contraia cólera e comece uma epidemia. — Sorriu para todas elas tranquilamente, deu uma olhada significativa para Annabelle e se foi. As outras duas mulheres a levaram para o quarto, e ela tirou o resto do dia de folga.

Ficou deitada na cama, pensando. Ele estava certo. Tinha de partir logo, sabia disso. Antes que todos descobrissem e ela fosse mais uma vez desonrada sem ter culpa nenhuma.

 

Annabelle conseguiu ficar em Villers-Cotterêts até primeiro de fevereiro, e, então, com pesar, disse que precisava partir. Falou à supervisora que estava voltando para a escola de medicina em Nice. Mas ninguém podia reclamar. Havia ficado lá por 14 meses e sentia-se uma traidora por partir agora, mas ela não tinha escolha.

Foi um dia triste para ela quando deixou o hospital e as pessoas com quem trabalhava. Pegou o trem para Nice e demorou dois dias para chegar lá, com três desvios e longas esperas em muitas estações, para permitir que os transportes militares passassem, carregando suprimentos para o front.

A primeira coisa que fez quando chegou a Nice foi procurar uma pequena joalheira e comprar uma aliança de ouro. Colocou-a no dedo, e o joalheiro a parabenizou. Era um senhor gentil, que disse que esperava que ela fosse muito feliz. Annabelle saiu da loja em silêncio, com lágrimas nos olhos. Inventara a história para si mesma de que era uma viúva de guerra, cujo marido fora morto em Ypres. Não havia motivo para que ninguém duvidasse dela. Annabelle parecia respeitável, e o país estava cheio de viúvas agora, muitas cujos bebês haviam nascido após a morte dos maridos. Annabelle era apenas mais uma em um mar de baixas e tragédias causadas pela guerra.

Fez o check-in em um hotelzinho em Nice e comprou vários vestidos pretos em tamanhos maiores. Ficou chocada ao notar que, uma vez que não usava mais as bandagens restritivas, sua barriga estava surpreendentemente grande. Não tão grande quanto a de Hortie, mas era óbvio que ela teria um bebê, e não havia motivo para esconder isso agora. Usando uma aliança e o vestido preto de viúva, parecia a mulher respeitável que era, e a tristeza que qualquer um enxergava em seus olhos era real.

Teria gostado de visitar o Dr. Graumont na escola de medicina, mas achou que não conseguiria. Mais tarde ela o visitaria com o bebê, contaria a história do homem com quem se casara e que depois fora morto. Mas tudo para ela agora era recente demais. Não se sentia preparada para encarar ninguém antes do nascimento do bebê. E ainda não tinha certeza de como explicar que não havia mudado de nome. Pensaria nisso depois. Por ora, tinha de encontrar um lugar para morar. Um dia foi a Antibes, à pequena igreja que tanto adorava. Era uma capela de marinheiros com vista para o porto e os Alpes Marítimos. Estava saindo da igreja quando perguntou à zeladora se sabia de casas disponíveis para alugar naquela região, de preferência. E a mulher meneou a cabeça, depois a inclinou para o lado, com ar pensativo.

— Acho que não — disse ela, com seu forte sotaque do sul. O francês de Annabelle era tão fluente agora que ninguém suspeitaria que não era de Paris, ou de alguma das cidades ao norte da França. — Uma família vivia aqui antes da guerra. Eles se mudaram para Lyon, e os dois filhos foram mortos. Não vêm aqui desde então, e acho que não voltarão. Os garotos adoravam o lugar. Partiria o coração deles. — Ela informou a Annabelle onde era a casa. Ficava a uma curta caminhada da igreja, e era uma villa pequena e bonita que parecia ter sido uma casa de veraneio. Viu um senhor cuidando do terreno, ele acenou de volta quando Annabelle o cumprimentou e perguntou se havia alguma possibilidade de que aquela casa estivesse para alugar. Ele respondeu que achava que não, mas estava disposto a escrever aos proprietários em nome dela. Contou que toda a mobília e os pertences deles ainda estavam lá, perguntou se isso seria problema. Annabelle garantiu que não, que de fato preferia assim.

Ele pôde ver que ela estava para ter um bebê, sete meses agora, por isso Annabelle contou que era viúva. Disse-lhe que ficaria grata em alugá-la por quanto tempo desejassem. Até o fim do ano, talvez. Esperava voltar à escola no semestre seguinte, em janeiro no máximo. Em setembro, o bebê estaria com 5 meses, e ela poderia voltar à escola de medicina, se tivesse com quem deixá-lo. Talvez pudesse ir e voltar todos os dias, se conseguisse um veículo para chegar lá. Annabelle deixou o nome do hotel com o zelador, e ele disse que entraria em contato com ela quando recebesse notícia dos proprietários, qualquer que fosse a resposta. Esperava que ele ficasse comovido com a situação dela e convencesse os proprietários a alugarem a casa.

No caminho de volta para Nice, pensou que poderia ficar no hotel, se necessário, embora não fosse o ideal para um bebê, mas era organizado e limpo. Uma casa funcionaria melhor, mas, se não conseguisse encontrar uma, poderia ficar onde estava.

Nas várias semanas seguintes, saía para passear todos os dias em Nice. Caminhava na praia, comia o mais decentemente possível e dormia muitas horas. Encontrou um médico local por intermédio do hospital e marcou uma consulta, contando a mesma história inventada de que era uma viúva de guerra. Ele foi gentil e simpático, e Annabelle lhe informou que queria dar à luz em casa. Não queria correr o risco de esbarrar com algum dos médicos que conhecia, da escola de medicina, no hospital. Não quis dizer ao médico o motivo, mas ele estava disposto a atendê-la em casa.

Certo dia de março, quando voltou de um passeio, encontrou uma mensagem de Gaston, o zelador da casa em Antibes. Pedia que ela fosse vê-lo, o que Annabelle fez. Ele tinha boas notícias. Os proprietários lhe foram solidários e estavam felizes em alugar a casa. Talvez até ficassem dispostos a vendê-la um dia, embora ainda não estivessem decididos. Como Gaston suspeitava, eles disseram que guardavam muitas recordações dos filhos lá, e seria triste retornar. Por enquanto, estavam dispostos a alugá-la por seis meses e decidir o que fazer depois. Gaston se ofereceu para mostrar a casa, e Annabelle ficou satisfeita com o que viu. O quarto principal, de proporções confortáveis, era ensolarado, e havia dois quartos menores. Os três quartos dividiam um único banheiro, o que não a incomodava. O banheiro era antigo e ladrilhado, e tinha uma enorme banheira, o que a agradou. E lá embaixo havia uma sala de estar e outra de jantar, e um pequeno solário envidraçado que dava para um pórtico. Era do tamanho ideal para ela e um bebê, e talvez também para uma mocinha que ajudasse a cuidar da criança mais tarde. Por enquanto, tudo o que queria era ficar sozinha.

Ela escreveu uma carta de agradecimento aos proprietários e disse que mandaria o banco fazer a transferência do dinheiro. Gaston ficou muito satisfeito e a parabenizou, dizendo que seria bom ter vida na casa outra vez, e que sua esposa ficaria feliz em limpar o imóvel e até ajudá-la com o bebê quando ele nascesse. Annabelle lhe agradeceu e foi a um banco em Nice naquela tarde. Apresentou-se ao gerente e pediu-lhe que enviasse um telegrama para o seu banco nos Estados Unidos, informando-lhes onde estava. Tudo o que precisavam saber era para onde enviar o dinheiro, já que havia fechado sua conta em Villers-Cotterêts quando partiu. Ninguém lá sabia por que ela estava em Nice ou o que estava acontecendo em sua vida, e Annabelle não conseguia deixar de imaginar quantos bebês Hortie teria tido desde sua partida. Ainda sentia falta da velha amiga. Foi uma traição Hortie virar as costas para ela, mas Annabelle sabia que a amiga fizera aquilo por fraqueza. E isso não impedia Annabelle de se importar com ela, embora soubesse que nunca mais seriam amigas de novo. Mesmo que retornasse a Nova York um dia, muita coisa havia mudado desde então.

Annabelle mudou-se para a casa acima de Cap d’Antibes em 4 de abril. O médico disse que o bebê chegaria logo, embora não soubesse quando. A futura mamãe já estava imensa; caminhava devagar pelas colinas todos os dias e ia à igreja que adorava para admirar a vista. Florine, esposa de Gaston, limpava a casa para ela e às vezes cozinhava também. Annabelle passava as noites lendo seus velhos livros de medicina. Ainda tinha sentimentos conflitantes a respeito da criança. Havia sido concebida em meio a tanta violência e angústia, que era difícil imaginar como não se lembrar disso sempre que a visse. Mas o destino havia dado uma à outra. Pensara em entrar em contato com os pais do visconde para avisá-los, mas não lhes devia nada, e, se fossem tão caprichosos e desonrados quanto o filho, não queria nada com eles. Ela e o bebê teriam um ao outro, e não precisavam de mais ninguém.

Na terceira semana de abril, Annabelle saiu para um longo passeio, parou na igreja, como sempre fazia, e sentou-se pesadamente no banco para admirar a vista. Havia acendido uma vela para a mãe e rezado por Josiah. Não tinha notícias dele havia mais de dois anos e não sabia onde ele e Henry estavam, fosse ainda no México ou de volta a Nova York. Depois que ele a deixara, não fizera qualquer contato. Queria que ela estivesse livre para começar uma nova vida, mas jamais poderia ter remotamente imaginado as voltas e reviravoltas do destino que ela havia suportado.

Voltou para casa caminhando devagar sob a luz matizada do sol naquela tarde, pensando em todos eles, Josiah, Hortie, sua mãe, seu pai, Robert. Era como se pudesse senti-los perto dela. Quando chegou em casa, foi para o quarto se deitar. Florine havia saído, e Annabelle caiu no sono. Para sua grande surpresa, passava da meia-noite quando despertou. Um desconforto nas costas lhe acordara, e, de repente, sentiu uma dor perfurante no ventre e soube de imediato o que era. Não havia quem lhe chamasse o médico, e ela não tinha telefone, mas não estava assustada enquanto permanecia deitada ali. Tinha certeza de que era um processo simples e que poderia fazer aquilo sozinha. Mas, conforme a noite avançava e as dores pioravam, não teve tanta certeza. Parecia inacreditavelmente cruel que tivesse sofrido ao conceber a criança, e agora tivesse de sofrer de novo, por uma criança sem pai, que ela não planejou ter. Todos aqueles anos desejando um bebê com Josiah, mas nunca lhe ocorreu que uma criança entraria em sua vida dessa maneira.

Contorcia-se a cada contração, apertando os lençóis. Viu o sol surgir ao amanhecer, e já sangrava bastante. As dores eram insuportáveis, e Annabelle agora começava a sentir como se estivesse se afogando e fosse morrer. Aquilo a fez lembrar das histórias horríveis que Hortie lhe contara, e nos partos terríveis pelos quais havia passado. Estava começando a entrar em pânico quando Florine apareceu na porta do quarto. Ouviu-a lá de baixo e subiu a escada correndo. Annabelle estava deitada na cama com os olhos esbugalhados, incapaz de falar de tanta dor que havia sentido a noite inteira. Estava em trabalho de parto havia oito horas.

Florine entrou depressa no quarto e ergueu as cobertas com delicadeza para espalhar os lençóis velhos que haviam separado para este propósito. Tentava tranquilizar Annabelle dizendo que as coisas estavam indo bem. Conseguiu até ver a cabeça do bebê.

— Não importa — disse Annabelle, desesperada. — Quero que ele saia... — Deixou escapar um grito quando o bebê pareceu avançar por um instante, para depois recuar. Florine desceu correndo para procurar Gaston e mandou que trouxesse o médico depressa. Mas nada do que estava vendo a alarmou, tudo estava correndo bem. E sabia, por outros partos aos quais assistira, que ainda poderia demorar muito tempo. O pior ainda estava por vir, e a sombra que viu da cabeça do bebê não era maior que uma moedinha.

Annabelle ficou deitada na cama chorando, enquanto Florine molhava sua cabeça com panos embebidos em essência de lavanda, mas, depois de um tempo, ela não deixou mais a outra mulher fazer nem isso. Não queria que ninguém a tocasse, e estava chorando de dor. Uma vida inteira pareceu passar até a chegada do médico. Ele estava fazendo outro parto, de gêmeos. Chegou à casa de Annabelle às duas da tarde, mas nada havia progredido, embora as dores estivessem ficando piores.

Pareceu muito satisfeito quando a examinou, depois de lavar as mãos.

— Estamos indo muito bem — disse, encorajando a paciente, que gritava a cada contração. — Acho que teremos o bebê aqui na hora do jantar. — Annabelle o encarou com verdadeiro desespero, sabendo que não conseguiria suportar mais um minuto daquela agonia. E, por fim, enquanto soluçava desesperadamente, o médico pediu a Florine que erguesse os travesseiros dela e segurasse-lhe os pés. Annabelle se rebelava contra eles e chamava pela mãe, mas o médico a repreendeu com seriedade e disse que ela precisava cooperar. O topo da cabeça do bebê estava muito maior agora, e, repetidas vezes, ele mandava Annabelle empurrar. Ela por fim tombou nos travesseiros, exausta demais para repetir o movimento, mas o médico a mandou empurrar com mais força e não parar. O rosto dela ficou roxo quando o topo da cabeça do bebê começou a sair, com um rostinho enrugado, enquanto Annabelle gritava e olhava para a criança emergindo de seu útero.

Empurrou com toda a sua força, e finalmente ouviu-se um longo e fino choro. Um rostinho de olhos brilhantes os olhava, enquanto Annabelle ria e chorava ao mesmo tempo, e Florine exclamava de empolgação. O bebê estava em um emaranhado de bracinhos e perninhas em meio ao cordão, que foi cortado pelo médico. Florine envolveu a criança em um cobertor e a entregou à mãe. Era uma menina.

— Ah... ela é tão linda!... — disse Annabelle, as lágrimas escorrendo pelas bochechas. Aquele pequeno ser era perfeito, com feições lindas, membros graciosos, e mãos e pés minúsculos. O médico tinha razão, passava pouco das seis da tarde, o que ele dizia ter sido rápido para o primeiro filho. Annabelle não conseguia parar de olhar para a filha e falar com ela, enquanto o médico terminava seu trabalho. Florine limparia Annabelle mais tarde, e por enquanto a deixaram coberta com uma manta. E com ternura infinita, Annabelle levou o bebê ao seio, seguindo seu perfeito instinto maternal. Aquele pequenino anjo nos braços era seu único parente no mundo, e havia valido cada instante de dor, que agora parecia insignificante.

— Como vai chamá-la? — perguntou-lhe o médico, sorrindo para as duas, sentido porque a mãe era viúva. Mas ao menos tinha a criança.

— Consuelo — murmurou Annabelle —, como minha mãe. — Então se inclinou devagar e beijou a cabeça da filha.