Uma Mulher Livre
Capítulo 2
Centenas de funerais aconteceram naquela semana em Nova York, assim como em outras cidades. Todos os jornais estavam recheados de histórias tristes e relatos chocantes. Estava claro para todos que muitos dos botes salva-vidas haviam se afastado do navio quase vazios, carregando apenas passageiros da primeira classe, o que chocou o mundo. O aclamadíssimo herói era o capitão do Carpathia, que rapidamente se prontificou a resgatar os sobreviventes. Ainda havia pouca explicação sobre o porquê de o navio ter afundado. Uma vez que atingiu o iceberg, não puderam impedir o naufrágio. Mas muito ainda se comentava sobre o motivo de o Titanic ter avançado pelo campo de gelo, mesmo depois de ter sido avisado sobre o perigo. Felizmente o Carpathia ouviu os apelos desesperados de socorro no rádio, se não fosse isso, talvez não tivesse restado nenhum sobrevivente.
O médico da família foi examinar Consuelo e a encontrou com ótima saúde, embora deprimida e em estado de choque. Toda a vida parecia ter se esvaído dela. E a Annabelle restou planejar os funerais do pai e do irmão nos mínimos detalhes. A cerimônia conjunta seria realizada na Igreja da Trindade, a favorita do pai.
A cerimônia foi melancólica e nobre, com centenas de enlutados que foram prestar seus sentimentos. Os dois caixões no funeral dos Worthingtons estavam vazios, já que nenhum corpo fora, e infelizmente jamais seria, resgatado. Das 1.517 pessoas que morreram, apenas 51 corpos foram encontrados. Os outros desapareceram silenciosamente no túmulo de águas do mar.
As centenas de pessoas que compareceram à cerimônia depois se encaminharam para a casa dos Worthingtons, onde comida e bebida foram servidas. Alguns velórios tiveram uma atmosfera festiva, mas não aquele. Robert tinha apenas 24, e seu pai, 46 anos. Ambos estavam na flor da idade e morreram de uma maneira muito trágica. Tanto Annabelle quando Consuelo estavam envoltas em luto; Annabelle com um belo chapéu preto, a mãe com véu de viúva. E, naquela noite, quando todos haviam deixado a casa, Consuelo parecia inacreditavelmente despedaçada. Estava tão fragilizada que Annabelle não pôde deixar de se perguntar o quanto da mãe ainda restava. Seu espírito parecia ter morrido com seus dois homens, e Annabelle estava seriamente preocupada com ela.
Foi um grande alívio para Annabelle ouvir a mãe anunciar, duas semanas depois do funeral, durante o café da manhã, que queria ir ao hospital onde fazia serviço voluntário. Disse que achava que lhe faria bem dedicar-se a outras pessoas, e Annabelle concordou.
— Tem certeza de que está bem para isso, mamãe? — perguntou Annabelle baixinho, preocupada. Não queria que a mãe ficasse doente, embora fosse início de maio e a temperatura estivesse agradável.
— Estou bem — respondeu a mãe com tristeza. Tão bem quanto poderia estar por um longo tempo. Então, naquela tarde, as duas colocaram seus vestidos pretos e aventais brancos e foram ao St. Vincent’s Hospital, onde Consuelo trabalhava como voluntária fazia anos. Annabelle acompanhava a mãe desde os 15 anos. Na maior parte das vezes, trabalhavam com os indigentes e lidavam mais com ferimentos e lesões do que com doenças infecciosas. Annabelle sempre fora fascinada por aquele trabalho e possuía um talento natural; a mãe também tinha jeito para cuidar dos doentes e um coração generoso. Mas o aspecto médico envolvido era o que mais intrigava Annabelle, que costumava ler livros de medicina que explicavam os procedimentos que ela observava ali. Nunca fora melindrosa, diferente de Hortie, que havia desmaiado na única vez que Annabelle a convencera a participar. Quanto pior a situação, mais Annabelle gostava. A mãe preferia servir comida nas bandejas, enquanto Annabelle auxiliava as enfermeiras onde quer que a deixassem ir, trocando roupas dos pacientes e limpando feridas. Os pacientes sempre diziam que ela tinha mãos leves para cuidar dos ferimentos.
Retornaram exaustas naquela noite, depois de uma tarde longa e cansativa, e voltaram ao hospital naquela mesma semana. Aquilo no mínimo mantinha Annabelle e a mãe distraídas da dupla perda. De repente, a primavera, que era para ser a época mais empolgante da vida de Annabelle, após seu début, havia se transformado em um período de solidão e luto. Não podiam aceitar convites pelo próximo ano, o que preocupava Consuelo. Enquanto Annabelle permanecesse em casa de luto, todas as outras moças que haviam acabado de ser apresentadas se tornariam comprometidas. Temia que a tragédia que se abatera sobre elas também pudesse impactar o futuro da filha da maneira mais infeliz possível, mas não havia nada que pudessem fazer. Annabelle parecia não pensar no que estava perdendo. Sentia-se mais angustiada com as perdas do que com seu futuro ou a falta de vida social.
Hortie ainda a visitava com frequência, e, em meados de maio, celebraram, sem muito alarde, o 19º aniversário de Annabelle. Consuelo estava muito frustrada durante o almoço e comentou que havia se casado aos 18, quando foi apresentada à sociedade, e que Robert havia nascido quando ela estava com a idade de Annabelle. Pensar nisso a levou às lagrimas outra vez, então ela deixou as duas moças no jardim e subiu para se deitar.
— Coitada da sua mãe — disse Hortie, solidária, fitando em seguida a amiga. — E coitada de você também. Sinto muito, Belle. Isso tudo é tão horrível. — Sentia-se tão mal por ela que levou mais duas horas para dizer que ela e James haviam marcado a data do casamento para novembro, e que os planos para uma grande recepção já estavam sendo executados. — Não se importa mesmo de não poder sair agora? — perguntou-lhe. Teria odiado ficar presa em casa por um ano, mas Annabelle aceitava o fato com dignidade. Tinha apenas 19 anos, e o próximo ano não seria nada divertido. Mas havia amadurecido muitíssimo naquele curto tempo desde que o pai e o irmão haviam morrido.
— Não me importo — murmurou Annabelle. — Enquanto mamãe continua disposta a trabalhar no hospital, tenho sempre algo para fazer quando vou lá com ela.
— Oh, nem me fale sobre isso. — Hortie revirou os olhos. — Deixa-me doente. — Mas sabia que a amiga adorava o trabalho. — Ainda vão para Newport este ano? — Os Worthingtons possuíam um belo chalé naquela região, em Rhode Island, vizinho ao dos Astors.
— Mamãe diz que sim. Talvez possamos ir mais cedo, em junho, em vez de julho, antes do início da temporada. — Cuidar da mãe era a única preocupação de Annabelle naquele momento, diferentemente de Hortie, que tinha um casamento para planejar, um milhão de festas para ir e um noivo por quem estava loucamente apaixonada. Sua vida era como a de Annabelle deveria ser, mas não era mais. Seu mundo, como ela o conhecia, fora interrompido, transformado para sempre.
— Ao menos estaremos juntas em Newport — comemorou Hortie. As duas adoravam nadar, quando as mães permitiam. Conversaram sobre os planos para o casamento por algum tempo, depois Hortie foi embora. Para Annabelle, foi um aniversário bem sossegado.
Nas semanas seguintes aos funerais, Consuelo e a filha receberam inúmeras visitas, como era esperado. Apareceram os amigos de Robert e várias viúvas para prestar condolências a Consuelo, além de dois homens do banco de Arthur a quem conheciam muito bem e, por fim, um terceiro, que Consuelo encontrara diversas vezes e de quem gostava muito. O nome dele era Josiah Millbank, tinha 38 anos e era muito respeitado no banco. Era um homem tranquilo, de modos aristocráticos, que contou a Consuelo várias histórias sobre o marido que ela nunca tinha ouvido, o que a fez rir. Ficou surpresa por ter apreciado tanto a visita de Josiah, que já estava lá havia uma hora quando Annabelle voltou de um passeio com Hortie. Annabelle se lembrava de tê-lo encontrado antes, mas não o conhecia muito bem. Era mais da geração do pai que da sua, sendo 14 anos mais velho que seu irmão, por isso, embora já tivessem se visto em festas, não tinham muita coisa em comum. Mas, assim como a mãe, ela ficou impressionada com sua distinção e seus bons modos. Ele foi simpático com Annabelle também.
Ele comentou que iria para Newport em julho, como sempre fazia. Tinha uma casa simples e confortável lá. Josiah era de Boston, de uma família tão respeitável quanto a delas, e mais rica ainda. Porém levava uma vida sossegada e não ostentava sua riqueza. Prometeu que as visitaria outra vez em Newport, e Consuelo disse que apreciaria a gentileza. Depois que ele partiu, Annabelle notou que Josiah havia levado um imenso buquê de lilases brancas e que as flores já haviam sido colocadas em um vaso. Consuelo comentou sobre ele depois de sua saída.
— É um homem muito bom — murmurou Consuelo, admirando as lilases. — Seu pai gostava muito dele, e posso ver por quê. Pergunto-me por que nunca casou.
— Algumas pessoas não casam — disse Annabelle, parecendo despreocupada. — Nem todo mundo tem de casar, mamãe — acrescentou com um sorriso. Ela estava começando a pensar que seria uma dessas pessoas. Não conseguia se imaginar deixando a mãe agora para ir embora com um homem. Não queria que Consuelo ficasse sozinha. E, para ela, não era nenhuma tragédia o fato de não casar. Para Hortie, sim, teria sido. Com o pai e o irmão mortos e a mãe fragilizada, Annabelle achava que tinha de assumir responsabilidades mais importantes em casa, mas não se ressentia disso nem por um instante. Cuidar da mãe lhe dava um propósito na vida.
— Se está me dizendo que não quer casar — a mãe leu corretamente seus pensamentos, como sempre fazia —, pode esquecer isso agora mesmo. Vamos passar por nosso ano de luto, como é adequado, e depois iremos encontrar um marido para você. É o que seu pai gostaria.
Annabelle se virou então para encará-la com seriedade.
— Papai não iria gostar que eu a deixasse sozinha — disse, tão firme quanto qualquer pai ou mãe.
Consuelo meneou a cabeça.
— Isso é uma bobagem, como bem sabe. Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma. — Mas, ao dizê-lo, seus olhos se encheram de lágrimas mais uma vez, o que não deixou a filha muito convencida.
— Veremos — disse Annabelle com firmeza, retirando-se do cômodo para preparar o chá para ser levado, numa bandeja, ao quarto de Consuelo. Ao voltar, passou o braço ao redor dos ombros da mãe e a conduziu com carinho para tirar um cochilo, acomodando-a na cama, a mesma que havia dividido com o marido que amara e que partira, o que despedaçava o coração de Consuelo.
— Você é boa demais para mim, meu amor — disse, parecendo embaraçada.
— Não sou, não — respondeu Annabelle, animada.
Ela era o único raio de sol remanescente naquela casa. Não dava nada à mãe senão alegria. Agora só havia as duas, e elas tinham uma a outra. Annabelle cobriu Consuelo com um leve xale e desceu para ler no jardim, torcendo que a mãe se sentisse disposta para voltar ao hospital no dia seguinte. Era a única distração de Annabelle, algo a fazer que considerava importante.
Mal podia esperar pela ida a Newport no mês seguinte.