Uma prova de amor
Capítulo 9
C A P Í T U L O
9
Não sei dizer exatamente o que me motiva a pegar o metrô em direção ao meu antigo apartamento. Antes desta tarde, eu estava convencida de que, a não ser por uma incrível coincidência, nunca mais veria Ben. Claro que os martínis representaram um fator importante na minha decisão, mas nunca fui do tipo de mudar meu comportamento quando bebo. Por exemplo, nunca me envolvi com alguém, quando estava bêbada, com quem não me envolveria se estivesse sóbria. Além do mais, quando desci na estação na esquina da 72nd com a Broadway Street, não estava tão embriagada quanto estava no Brooklyn. Poderia facilmente botar a cabeça no lugar e voltar para o apartamento de Jess.
A verdade é que esse meu pequeno desvio no roteiro tem menos a ver com o álcool e mais com o que Michael me disse no bar. Aquela coisa sobre o medo influenciar minha decisão de me divorciar. Enquanto caminho os vários quarteirões até meu antigo apartamento, penso nos meus próprios defeitos, marcando a lista de adjetivos com que as outras pessoas já me chamaram durante uma discussão, e que eu mesma me digo durante os momentos de silêncio e introspecção: teimosa, crítica, mal-humorada e impaciente. Tenho minha cota de defeitos, mas nunca considerei a covardia um deles. Ao contrário, sempre me considerei uma pessoa capaz de aceitar desafios e se arriscar. É uma das razões de eu ser tão bem-sucedida no trabalho.
Ainda assim, algo soou verdadeiro nas palavras de Michael. Talvez eu esteja simplesmente com medo. Talvez eu tenha deixado Ben ir embora porque o medo de ter um filho supera o fato de eu não querer ter um. Talvez eu temesse a pessoa que eu me tornaria. Talvez eu temesse algo que não sei bem dizer o que é, nem para Ben nem para mim mesma.
De certo modo, acho que encontrar Ben vai me dar essas respostas. Ou talvez seja apenas uma desculpa para vê-lo. Bom, não interessa. Nada mudou. Eu ainda não quero ter um filho e Ben ainda deseja um.
No entanto, aqui estou eu, parada na calçada, olhando pensativamente para a janela da cozinha do terceiro andar de onde eu costumava admirar a paisagem todas as manhãs e noites. Imagino Ben com a barba por fazer e os pés descalços, preparando um lanchinho de fim de tarde. Posso imaginá-lo despejando leite em um copo e arrumando os biscoitos cream-cracker em um prato antes de lambuzá-los com a quantidade certa de pasta de amendoim em um dos lados. Posso vê-lo lambendo os dois lados da faca e jogando-a dentro da pia. Posso vê-lo comendo seus biscoitos com pasta de amendoim enquanto fica sentado no sofá assistindo a uma partida de golfe. Posso enxergar todas essas coisinhas comuns que ele costumava fazer, coisas que agora estão bem distantes, lá na memória.
Respiro fundo e subo os degraus da entrada até a porta da frente. Meu coração dispara, fecho os olhos e aperto a campainha no botão que tem meu antigo nome. “Davenport, Apto. 8C.” Espero ouvir a estática do interfone e a voz dele dizendo “Olá?”, mas escuto apenas o silêncio. Olho para o relógio. São 17h15. Talvez ele tenha saído para dar uma corrida. Ben adora correr no parque a essa hora do dia. Algumas vezes eu fui com ele.
Decidi fazer uma hora e fui comprar um sorvete na lojinha de doces da esquina. Fui caminhando até lá, lentamente, observando o movimento do meu velho bairro, notando coisas que nunca tinha percebido antes. Uma lata de lixo de arame verde. Uma rachadura na calçada. Uma fileira de gerânios vermelhos plantados em uma jardineira numa janela do segundo andar. Quando entro na lojinha, o balconista do Oriente Médio sorri e me cumprimenta como se me reconhecesse. Talvez sim. Talvez ele tenha notado que Ben agora vem sozinho.
Sorrio e peço um sorvete de creme e chocolate na casquinha, com granulado colorido em cima. Também compro uma garrafa de água mineral Evian e uma embalagem de Trident de menta. Faltam quatro centavos para eu pagar a conta com dinheiro, então, retiro meu cartão de crédito; porém, o balconista diz para eu não me preocupar com isso, que eu retornaria outra hora. Quase digo a ele que provavelmente não voltarei mais, mas simplesmente agradeço. Pego meu sorvete, volto para meu antigo prédio e tento a campainha novamente, caso ele tenha voltado enquanto saí. Sem resposta.
Sento no alto da escada e dou umas pequenas mordidas no sorvete de creme. Não sei por que constantemente peço dois sabores misturados, se gosto bem mais do sorvete de creme. Sei que deveria preferir o de chocolate. Também chego à conclusão de que os granulados não foram uma boa ideia. Eles são bons em uma taça, mas fazem muita sujeira em uma casquinha. Como um pouquinho mais depressa porque o sorvete começa a derreter. Digo a mim mesma que só vou esperar Ben até o sorvete acabar. Não quero ficar parecendo uma perseguidora. A última coisa que preciso agora é me sentir como se o estivesse assediando. Além do mais, aquela sensação de leveza se esvaiu completamente agora e foi substituída por uma leve dor de cabeça, do tipo que com certeza vai piorar. Seguro a casquinha com uma das mãos, abro a garrafa de água com a outra e bebo metade dela sem parar. Começo a entrar em pânico só de imaginar o que direi a ele. Tem algum sentido eu estar aqui?
Um pombo passa voando perto de mim. “Ratos com asas”, como Ben os chama. Dou uma lambida na parte de chocolate do sorvete e penso em voltar para o metrô quando, de repente, vejo Ben se exercitando, a cerca de um quarteirão de distância, esperando que o sinal fique verde para ele poder atravessar a West End Avenue. Ele está usando calções laranja-escuros, uma camiseta cinza de basquete da Wake Forest e seu boné favorito do White Sox. Sinto um nó no estômago e, logo a seguir, uma sensação de bem-estar por ter adivinhado que ele estava correndo. Ainda conheço você, suspiro, e então faço um sinal com a mão caso ele me veja. Não é um aceno ansioso, simplesmente um cumprimento casual. Espero que ele acene de volta, mas ele não o faz; ele arruma o boné, abaixando a aba com uma das mãos. Limpo minha boca com o guardanapo e me levanto, pensando que ele vai me ver a qualquer momento.
Em vez disso, ele se vira na outra direção e olha para uma garota que fica ao seu lado. Minha mente paralisa e, de repente, se conecta. Ben está correndo com uma garota. Ele está saindo com ela. Um encontro de final de tarde, no verão. Um encontro no parque para uma corrida.
Relembro a primeira vez que corremos juntos. Foi depois que dormimos juntos. Cerca de uma semana mais tarde. Duas, no máximo. Disso eu tenho certeza. Tenho uma memória excelente, especialmente no que diz respeito a encontros. E a Ben.
Analiso com atenção essa mulher, essa garota, com quem ele está. Ela tem o cabelo bem louro, grosso e comprido, preso com perfeição em um rabo de cavalo sedoso que balança para frente e para trás graciosamente. É o tipo de cabelo que eu desejava ter quando era bem mais nova, queria fazer o meu ficar daquele jeito. A garota dá alguns passos na direção dele e logo está ao seu lado. Ben diz alguma coisa para ela e então se curva para frente e segura a barra do short como se estivesse recuperando o fôlego. Posso ver ser perfil de longe. Ele se ergue e eu percebo seu peito subir e descer com o esforço do final da corrida. Sua camiseta está molhada no peito. A garota alonga a perna esquerda. Ela tem pernas compridas e grossas, parece uma jogadora de vôlei de praia só que sem o bronzeado. Sua pele é tão clara quanto seu cabelo. Seu rosto é comprido e angular. Eu não a classificaria como bonita, mas ela é atraente e, infelizmente para mim, muito sedutora. Não consigo determinar a idade dela, mas algo em sua expressão e postura me faz pensar que ela tem vinte e poucos anos.
Todas essas observações acontecem em uma questão de segundos, mas é o suficiente para que uma parte do sorvete se derreta e escorra pela casquinha caindo na minha mão e no meu braço. Também é tempo suficiente para que o semáforo mude e ele e sua parceira venham correndo em minha direção. E é tempo o bastante para eu perceber que estou encurralada. Se eu ainda tivesse a chave da porta de entrada, acho que entraria no prédio e me esconderia atrás das escadas, perto das caixas de correspondência. Tenho certeza de que Ben já pegou suas cartas. Não posso me virar e caminhar para o outro lado porque Ben me conhece pelas costas tão bem quanto pela frente. Vou me torturar imaginando se ele me viu e me deixou ir embora. E a minha terceira opção — me aproximar agressivamente deles — é algo que não consigo fazer. Então, fico ali, parada, como se meus pés tivessem criado raiz no concreto da calçada. Tento desesperadamente me limpar, mas dezenas de outras gotas de sorvete estão escorrendo pela casquinha, levando os granulados junto com elas. Estou um verdadeiro desastre.
Sua idiota, penso baixinho, por ter vindo aqui e ainda por cima comprar um sorvete de casquinha em um dia tão quente. Um sorvete coberto de granulados coloridos. Quantos anos eu tenho, 12? Era nisso que eu estava pensando quando ele me vê. A expressão dele é confusa no início, como se eu estivesse completamente fora do contexto parada em frente ao lugar onde morei durante anos. Então, ele sorri constrangido, obviamente incomodado pela iminente apresentação. Ela ainda não percebe nada. Ela nem me nota e olha na minha direção como se olha para tantas pessoas todos os dias. Especialmente em uma cidade grande. Ela está no meio de uma história. Falando alguma coisa sobre uma fratura que sofreu correndo em volta da represa no mesmo sentido, dia após dia. Foi diagnosticada no ano passado, pouco antes da maratona de Nova York. Ela não pôde participar da corrida. Um dos dias mais tristes da vida dela.
Percebo que ele quer interrompê-la, evitar um constrangimento ainda maior do que quando uma terceira pessoa não percebe que algo estranho está acontecendo. Mas ela termina a história. E encerra dizendo o seguinte:
— Mas esse é um dos meus objetivos de vida. Correr uma maratona de três horas e meia.
Fico irritada por termos o mesmo objetivo, porém, eu desejava apenas terminar uma maratona. Imagino quais são seus outros objetivos de vida. E se eles incluem Ben. Maternidade. Sinto vontade de vomitar. Ben tem um olhar angustiado também e isso ajuda um pouquinho, mas não muito.
— Oi, Cláudia! — ele exclama.
— Oi, Ben.
— É bom ver você — ele diz.
— Bom ver você também — digo. — Como vai?
— Estou bem — ele responde. — Só... saí para uma corridinha.
Olho diretamente para a garota e imagino se ele contou a ela sobre mim. Contou a ela que fui sua esposa, tecnicamente até a semana passada.
— Ah, me desculpe, hum, essa é minha amiga Tucker Jansen — ele gagueja. — Tucker, essa é Cláudia Parr — ele fala, fazendo uma pausa por um segundo antes de pronunciar meu nome de solteira.
Tento gravar seu nome quando ela me dá um sorriso educado e afável. Infelizmente, isso não revela absolutamente nada. Ainda não sei se ela sabe quem eu sou. Noto, no entanto, que ela tem pouquíssimas linhas de expressão em volta dos olhos. Com certeza tem pouco mais de 20 anos. Diria que não tem mais que 26. O nome Tucker parece corroborar minha hipótese. Ninguém que nasceu nos anos de 1960 e de 1970 se chama Tucker. Essa loucura de usar sobrenomes só começou mais tarde. Ela é uma garota dos anos 1980. Ela tinha provavelmente 5 anos quando o filme O primeiro ano do resto de nossas vidas estreou. Três quando Flashdance chegou aos cinemas. É bem possível que ela nem tenha assistido a esses filmes.
Engulo em seco, desço os degraus e estendo minha mão.
— Oi, Tucker. Prazer em conhecê-la. — Felizmente sou canhota, então minha mão direita não está grudenta.
O aperto de mão de Tucker é firme, mas sua pele é macia. Incrivelmente macia!
— Prazer em conhecê-la também — ela replica.
Ficamos parados, sem saber o que fazer. O que dizer a seguir? Se Tucker sabe quem eu sou, ela não diz nada. E se ela não sabe quem eu sou, não pode dizer nada. Ele não pode dizer “Esta é minha ex-esposa”. Ou “Esta é minha nova namorada”. Ou “Vocês duas têm muita coisa em comum. Vocês duas tiveram fraturas de estresse! Só que Cláudia fraturou sua perna em uma escada rolante. E ela só queria terminar uma maratona”.
E eu certamente não posso dizer “Então, Ben, você acha que eu permito que o medo domine a minha vida?”.
Portanto, ficamos ali, parados, sorrindo artificialmente até eu dizer:
— Bom, eu estava aqui perto. Pensei em dar um alô.
— Fiquei feliz com isso — Ben respondeu.
— É. Mas tenho que ir agora — digo, olhando de relance para meu relógio. Ainda estou segurando a casquinha de sorvete inacabada, que está começando a vazar por um buraquinho no fundo. Lembrete para mim mesma: na próxima vez que for procurar seu ex-marido, compre um sorvete de copinho.
Tucker diz:
— Bom, também tenho que ir...
Essa declaração é um sinal evidente de que ela sabe exatamente quem eu sou. Ela fica desajeitada e desconfortável, parada ali com meu ex-marido enquanto sou forçada a ir embora. É uma atitude bem sensível da parte dela, mas que faz eu me sentir ainda mais patética. No entanto, talvez ela realmente tenha que voltar para casa. Talvez ela tenha que tomar banho e se aprontar para a parte noturna do encontro deles. Ou talvez eles já estejam tomando banho juntos. Ela parece ser bem desinibida, o tipo de garota que entra no chuveiro com um novo namorado com as luzes bem acesas.
Eu me sinto tentada a deixar Tucker ir embora e ficar para conversar com ele. No entanto me sinto humilhada demais e decido que é melhor ir embora antes. Demonstrar que não me importo com o que está rolando entre eles. Dou um sorrisinho formal bem rápido e digo adeus. Então, vou embora. Ouço os dois trocarem algumas palavras e, logo em seguida, ela está atrás de mim, gritando meu nome. Ela sabe bem o que estava acontecendo.
Ela pergunta se estou indo para o metrô. Percebo um sotaque de Chicago e penso: “Uma garota do Meio-Oeste, sem frescuras”.
Digo que sim.
— Eu também — ela retruca.
Ótimo. Agora vou ter que caminhar vários quarteirões até a estação com ela, talvez mais ainda se estivermos indo na mesma direção. Agora eu acho que vou vomitar. Na verdade, sinto o gosto dos martínis e dos granulados coloridos na minha boca quando pergunto:
— Então, de onde você conhece Ben?
— Nós nos conhecemos em uma festa.
— Ah, legal — digo, e não resisto em perguntar: — Quando?
— No Memorial Day.
— Que legal — digo novamente, me sentindo aliviada por não ter acontecido enquanto estávamos juntos.
— Ben e eu somos apenas amigos — ela comenta, de um jeito desajeitado.
— Ah.
— Sim.
Depois de um longo silêncio, digo:
— Nós também. Embora tenhamos sido casados.
— Sim. Eu sei.
— Ótimo — digo e solto uma risada nervosa.
— Sim — ela diz e solta um gracejo ansioso.
E foi aí que eu pensei que eu preferiria ser uma participante daquele programa No Limite a continuar essa conversa com a nova “amiga” do Ben. Então, invento que tenho que fazer algo no Upper West Side.
— Tenho que correr até lá e dar uma olhada em umas coisas — digo, apontando em direção a uma loja ali perto.
— Ah... — ela diz. — Você tem cachorro ou gato?
Só eu mesma para escolher uma pet shop quando não tenho um bicho.
— Nenhum dos dois... Eu, hum, preciso comprar uns presentinhos... Tenho alguns amigos que têm cachorro — balbucio. — Então, foi um prazer conhecê-la, Tucker.
— O prazer foi meu, Cláudia. Espero vê-la novamente.
Não se eu vê-la primeiro e tiver a oportunidade de escapar.
— Então... Tchau! — digo.
— Tchauzinho — ela responde.
Tchauzinho?
Eu me enfio dentro da loja e finjo estar interessada em um aquário cheio de peixinhos dourados, me consolando por saber que Ben detesta quando as garotas dizem tchauzinho. Isso não vai durar. Ela é jovem, atlética e meiga. E tenho certeza de que ela está louca para ter filhos. Ela até mesmo aparenta ser fértil. Porém, ela fala tchauzinho. Pelo menos tenho esse consolo enquanto me preparo para passar outro sábado à noite sozinha.