Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 5 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 4

C A P Í T U L O

 

4

 

A única vantagem de largar seu marido no meio da noite é que só leva alguns segundos para conseguir um táxi. Na verdade, posso escolher entre dois, ambos vindo na minha direção na esquina da 73 rd e a Columbus Street. Os motoristas, sem sombra de dúvida, veem a minha mala e pensam imediatamente que vão conseguir uma bela corrida até o aeroporto, então, entro em um e digo:

— Oi. Me desculpe. Só vou até o começo da Fifth. — Então, falo abruptamente: — Acabei de ter uma briga enorme com meu marido. Acho que vamos nos divorciar.

Ben sempre achou engraçado eu gostar de conversar com os motoristas de táxi. Ele diz que é coisa de turista e que não sou tão aberta e espontânea com estranhos. Ele está certo em ambas as afirmações, mas, por algum motivo, não consigo me segurar quando estou em um táxi.

O motorista me olha de relance pelo espelho retrovisor. Só consigo ver os olhos dele, o que não é bom, porque eu sempre achei que a boca de uma pessoa revela mais sobre o que ela está pensando. Ele também não entende bem inglês ou é terrivelmente deficiente no departamento empatia, pois ele não diz nada

a não ser:

— Onde, na Fifth?

— No décimo segundo quarteirão. Lado leste — digo, enquanto meus olhos procuram ler o nome dele no cartão atrás do assento. É Mohammed Muhammed. Tenho que segurar as lágrimas quando lembro que Ben me contou uma vez, lá pelo nosso quarto encontro, que encontrar um motorista de táxi chamado Mohammed ou Muhammed, não importa se é o primeiro nome ou sobrenome, é o mesmo que jogar uma moeda, uma possibilidade de cinquenta por cento. Obviamente, era um exagero grosseiro, mas, desde aquela noite, nós sempre olhávamos o crachá e sorríamos quando acertávamos. Era algo que acontecia pelo menos uma vez por semana, mas foi a primeira vez que acertei em dobro. De repente, tenho uma vontade enorme de dar meia-volta e voltar para casa. Tocar no rosto de Ben, beijar suas bochechas, seus olhos e dizer a ele que, com certeza, o crachá desse homem é um sinal de que devemos consertar as coisas e, de algum modo, seguir adiante juntos.

Em vez disso, procuro o telefone na minha bolsa para poder avisar a Jess que estou a caminho. Lembro que o deixei recarregando na cozinha. Murmuro “merda”, lembrando que talvez ela não escute o porteiro tocar o interfone. Isso seria um problema, já que Jess tem o sono pesado. Penso por um minuto em ir direto para um hotel, mas tenho receio de que se ficar sozinha vou desmoronar por completo. Então, continuo a caminho.

Felizmente, Jess escuta a campainha do interfone e, em poucos minutos, estou na casa dela, aconchegada no sofá, relembrando minha briga com Ben enquanto ela faz uma torrada com canela e um enorme bule de café, que é o máximo que ela sabe fazer na cozinha (e eu também). Ela traz uma xícara para cada uma, a minha pura e a dela cheia de açúcar, e diz que está na hora de termos uma conversa séria.

Então, ela hesita antes de acrescentar:

— E o assunto dessa conversa é “Por que Cláudia não quer um filho?”. — Ela me lança um olhar tímido.

— Ah, vamos lá! Você também! — digo.

Ela concorda com a cabeça como uma professora rígida e diz:

— Só quero relembrar seus motivos.

— Você já sabe meus motivos.

— Ótimo, mas eu quero escutá-los novamente. Finja que sou sua terapeuta. — Ela senta ereta, cruza as pernas, segurando sua caneca com o dedinho e o dedão esticados. — E esta é a nossa primeira sessão.

— Então, agora preciso de um terapeuta só porque não quero ter filhos? — Sinto que estou ficando defensiva e emotiva demais, como tem acontecido ultimamente.

Jess balança a cabeça.

— Não. Não porque você não quer ter filhos. Mas porque seu casamento está com problemas. Agora, vamos lá. Seus motivos, madame!

— Por que eu preciso ter motivos? Quando alguém decide ter um bebê, ninguém sai por aí perguntando seus motivos.

— É verdade — Jess comenta. — Mas esse é um assunto completamente diferente sobre o papel da mulher na sociedade.

Na minha cabeça, escuto Ben falando sobre pessoas que dizem completamente diferente em vez de dizerem totalmente diferente. E exatamente como eu fiz quando vi o nome Mohammed Muhammed no táxi, caio em lágrimas e desabo, pensando no quanto eu ia ter saudades dele e de suas observações ridículas.

— Não chore, meu bem — Jess fala, dando tapinhas na minha perna.

Tento segurar as lágrimas, respiro fundo e digo:

— Estou tão cansada de todo mundo achar que eu tenho que ter filhos para ser feliz. Acreditei que Ben era diferente, mas ele é igualzinho a todos os outros. Ele me enganou.

— Entendo...

Percebo que Jess não está concordando comigo, então, digo:

— Você está do lado dele, não está? Você acha que eu deveria engolir essa e ter um bebê!

— Eu não estou... julgando seus sentimentos em relação a não ter filhos. Sou a última pessoa que poderia julgar as escolhas de vida de alguém, certo? — Dou de ombros e ela continua: — Acho que sua decisão é perfeitamente legítima. É a escolha certa para um monte de mulheres... Acho que, de certo modo, é uma escolha muito corajosa... Porém, também acho que deveríamos conversar sobre isso. Não quero que você se arrependa.

— Sobre não ter filhos ou sobre perder Ben?

— Ambas as coisas — ela replica. — Porque, neste momento, parecem ser a mesma coisa.

Assoo o nariz e concordo.

— Tá bom.

Jess se aproxima do sofá e diz:

— Então, vá em frente. Não deixe pedra sobre pedra.

Tomo um gole do café, penso por um segundo e, em vez de repetir meus motivos de sempre, digo:

— Já lhe contei sobre um estudo de ratos que não têm o gene Mest?

Ela balança a cabeça.

— Não. Não me lembro.

— Bom, tem esse estudo no qual uns cientistas descobriram que os ratos que não têm esse gene específico, o gene Mest, têm uma reação anormal em relação aos seus recém-nascidos. Basicamente, sem esse gene, eles não têm o instinto materno e, portanto, não alimentam nem cuidam de suas crias como os outros ratos fazem.

— E daí? Você está querendo dizer que não tem o gene Mest?

— Só estou dizendo que algumas mulheres provavelmente não têm esse... instinto materno... Acho que não tenho.

— De jeito nenhum? Nem um pouquinho? — ela pergunta. — Porque eu ouvi falar que muitas mulheres achavam que não tinham esse instinto até elas terem seu próprio filho. E, então, voilà! O instinto aparece.

— Será que isso é verdade? — pergunto. — E se ele não aparecer?

— Bom. Acho que existem muitos estilos bem-sucedidos de maternidade. Você não tem que ser uma Betty Crocker ou uma June Cleaver para ser uma boa mãe.

— Tudo bem. Mas e se eu me arrepender de ter tido um filho? O que eu faço?

Jess franze as sobrancelhas, parecendo estar concentrada.

— Você é muito boa com crianças — ela diz. — Parece gostar de verdade delas.

— Eu realmente gosto de crianças — falo, lembrando dos meus sobrinhos e de Raymond Jr. Como foi gostoso aninhar seu corpinho quente e sentir aquele cheirinho suave de bebê. — Mas não tenho absolutamente nenhuma vontade de ter o meu próprio filho em tempo integral. E acredito piamente que, se tivesse um, ia acabar ficando com raiva de Ben. Pior ainda, acho que ficaria ressentida com meu próprio filho. Isso não é justo para ninguém.

Jess assente de novo, adotando aquela expressão séria de terapeuta que quer dizer “continue, estamos fazendo progresso”.

— Gosto da minha vida do jeito que ela é. Gosto do nosso estilo de vida. Da nossa liberdade. Não consigo me imaginar constantemente preocupada como os pais costumam ficar... Preocupação com a síndrome da morte súbita, com queda de escadas, com acidentes com motoristas bêbados... Essa preocupação é constante durante dezoito anos. De certo modo, ela nunca desaparece. Você se preocupa com seus filhos para sempre. É o que todos dizem.

Jess concorda.

— E, falando a verdade, Jess, quantas pessoas casadas com filhos parecem estar felizes de verdade? — pergunto, lembrando-me de Maura e de como seu casamento começou a ficar abalado depois que sua primeira filha, Zoe, chegou ao mundo. E o relacionamento deles foi ficando cada vez pior depois que mais dois filhos vieram. Não sou minha irmã, e Ben não é Scott, mas não parece incomum que um relacionamento mude depois que os filhos entram em cena. Existe um esgotamento de tempo, de energia, de dinheiro, de paciência. Você não pode mais colocar seu relacionamento em primeiro lugar. Então, para melhor ou para pior, a dinâmica entre as duas pessoas muda e toma nova forma. Uma forma que, às vezes, parece ter mais a ver com sobrevivência do que com aproveitar a vida.

— Entendo o que você quer dizer. — Jess parece tímida e diz: — Trey sempre se refere à família dele como “a corda em volta do pescoço”.

— Encantador — digo. — Era isso mesmo que eu queria dizer.

— Não acho que ele se refira ao filho — Jess fica na defensiva —, mas em relação a ela.

Jess se esforça para não dizer o nome da esposa de Trey, Brenda. Acho que isso a faz se sentir menos culpada. Ela continua:

— Mas eu não acho que ele se sentiria do mesmo modo se tivesse se casado com a pessoa certa... E não acho que você e Ben iriam acabar desse modo. Acredito que os filhos trazem os problemas à tona. Vocês não têm problemas sérios. Vocês manteriam um bom casamento com filhos.

Sei que vou irritar Jess, mas me arrisco e digo a ela que a esposa de Trey provavelmente achava que também teria um bom casamento com um filho, no começo do relacionamento. Trey deveria achar isso também. Jess tensiona a mandíbula em protesto, mas continuo:

— Tenho certeza de que quando Maura e Scott ficavam se agarrando na Jacuzzi dele, e em todos os cômodos de seu apartamento de solteiro, ela nunca teria pensado que um dia ele a trairia. Que as coisas ficariam tão... deprimentes.

Jess continua:

— Esses casos são as exceções. A maioria dos casais fica ainda mais feliz depois dos filhos.

— Não acho. Os infelizes parecem ser a regra... Você se lembra da situação da Daphne — digo.

— Daphne parece ter um casamento sólido — Jess diz.

— Eles têm. Mas agora, ela e Tony estão tão obcecados em conceber um filho, que esse assunto ocupa todos os espaços da vida deles. Eles não conseguem falar sobre mais nada. Não pensam em mais nada. Eles estão... se tornando chatos.

Jess ri e fala:

— Eles não foram sempre meio chatos?

Jess é a única pessoa que eu deixo criticar minha família. Porém, apesar disso, não resisto em defender Daphne.

— Chatos de um jeito bem meigo — digo, lembrando como ela fica animada com coisas simples, como um álbum de recortes. — Na verdade, eu a chamaria de simplória, não de chata. Saudavelmente simples... Mas ultimamente ela e Tony estão bem sombrios. Não que eu os culpe...

Jess suspira e diz:

— Bem, mas... A questão é... Existem muitos casais felizes que têm filhos.

— Talvez — eu respondo. — Mas não sei se nos encaixaríamos nessa lista. Eu não estou a fim de fazer da minha vida um experimento de ciência.

— Como os ratos Mest? — Jess pergunta.

— Como os ratos Mest — respondo.

Fico no apartamento de Jess e só volto para o meu apartamento depois de quatro dias, quando sei que Ben está no trabalho, para poder pegar meu celular e mais algumas roupas. Fico esperando que ele me ligue, mas o telefone não toca. Nenhuma vez. Não acho que ele vai me ligar, mas, todas as vezes que eu checo minhas mensagens de voz e escuto “sem novas mensagens”, sinto uma onda de angústia me encharcando. Claro, eu também não liguei para ele, talvez ele sinta a mesma coisa que eu quando verifica suas mensagens em vão. No entanto, algo me diz que ele não está sofrendo e isso faz minha dor ficar ainda pior. Aquela coisa toda de que “o sofrimento adora companhia” nunca é mais bem aplicada do que quando você está terminando um relacionamento. Saber que a outra pessoa está bem é demais para se suportar.

Jess insiste em dizer que estou ficando paranoica, que é claro que Ben está tão triste quanto eu, mas tenho duas boas razões para acreditar que estou em uma situação pior do que a dele. Compartilho a primeira razão com Jess, enquanto estamos comendo comida chinesa em casa, certa noite, e lembro a ela que Ben é abençoado com a habilidade de se separar da dor e ficar em uma confortável dormência. Você sempre ouve que não é saudável reprimir emoções, mas todas as vezes que eu vejo Ben lidar com a tristeza, suportando a dor como um herói, não posso deixar de ter inveja. Nunca fui capaz de fechar essa parte do meu cérebro. Lembro-me de quando, no ano passado, o primo de Ben e também seu melhor amigo, Mark, foi diagnosticado no estágio quatro de câncer de próstata. Ben permaneceu estoico, quase desafiador durante toda a provação, até mesmo quando recebeu uma ligação no meio da noite com a notícia de que Mark havia falecido.

Quando Ben deitou na cama depois de conversar brevemente com a mãe de Mark, perguntei se queria conversar. Ele sacudiu a cabeça antes de apagar a luz e sussurrar:

— Não, na verdade, não. Não há muita coisa para se dizer.

Queria falar para ele que havia muita coisa para se dizer. Poderíamos conversar sobre como a vida de Mark foi curta, mas plena. Poderíamos falar sobre as lembranças da infância dele e do primo, que sempre foi mais como um irmão. Poderíamos conversar sobre o tempo da faculdade, na Brown, que tinha sido a primeira escolha de cada um e os dois passaram e puderam estudar juntos. Poderíamos conversar sobre o final, como foi doloroso ver Mark definhar. Poderíamos falar sobre o que viria a seguir, sobre o discurso que eu sabia que Ben estava formulando em sua cabeça há várias semanas.

Mas ele não disse nada. Lembro-me de perceber, no escuro, que ele estava acordado, então, eu também fiquei, no caso de ele mudar de ideia e querer conversar, ou pelo menos chorar. Mas ele não chorou. Não naquela noite nem no dia seguinte. Nem mesmo no funeral, quando seu lindo discurso levou todo mundo às lágrimas.

Levou seis meses para Ben desabar. Estávamos no corredor de cereais do supermercado quando ele pegou uma caixa e um olhar de puro sofrimento estampou em seu rosto. Não tive que perguntar no que ele estava pensando. Ele voltou para casa e entrou no quarto, então eu ouvi aquele som estranho e assustador de um homem crescido segurando os soluços. Quando ele apareceu, um pouco mais tarde, seus olhos estavam vermelhos e inchados. Eu nunca o tinha visto daquele jeito. Ele me abraçou com força e sua voz saiu entrecortada, quando disse:

— Sinto tanta falta dele, que droga!

— Não que eu esteja comparando nosso rompimento com a morte de Mark — digo a ela, depois de lhe contar a história.

Jess concorda com a cabeça e diz:

— Entendo. Mas, se vocês realmente terminarem tudo, vai ser como uma morte.

— Sim. Especialmente porque ele e eu não somos daqueles casais que ficam “em contato com seus ex” — explico. — Se acabou, está acabado. Eu não quero ser amiga de Ben.

Jess suspira e, então, diz:

— Bom. Talvez não esteja tudo terminado.

— Mas acho que está, sim — comento. — Pense nisso. Ben levou seis meses para enfrentar de verdade o fato de que Mark havia morrido. Quando ele se permitir sentir minha falta, será tarde demais.

Jess faz uma cara de preocupada, o que me faz pensar na segunda razão pela qual Ben está sofrendo menos do que eu. Esta eu não compartilho com Jess. Nunca disse isso em voz alta, nem mesmo escrevi no meu diário. É algo do qual eu tenho consciência a certo nível, mas não me permito pensar nisso.

A razão é esta: amo Ben mais do que ele me ama. Sei que ele me ama muito. Sei que ele me ama mais do que amou Nicole ou qualquer outra. Mas ainda acho que o amo mais. É uma daquelas coisas das quais você nunca tem certeza, pois não existem dados de relacionamentos em um computador que lhe deem uma resposta. Não é possível quantificar o amor e, se você tentar, vai acabar focando em fatores enganosos. Coisas que têm mais a ver com personalidade, o fato de algumas pessoas serem ou mais expressivas, ou mais emotivas, ou mais carentes em um relacionamento. Porém, atrás de tais cortinas de fumaça, a resposta está ali. O amor é raramente, e quase nunca, uma equação equilibrada. Alguém sempre ama mais.

Em nosso relacionamento, essa pessoa sou eu. Com alguns casais, as coisas podem variar. Mas, no começo, no meio e no final do nosso, acho que eu o amei mais o tempo todo. Ben diria que estou sendo ridícula; no entanto, se de algum modo ele fosse forçado a responder honestamente, acho que ele reconheceria a pura verdade de minha afirmação. Também acho que ele concordaria que isso não tem nada a ver com nossos valores como pessoas. Acho que somos igualmente inteligentes, bem-sucedidos, engraçados e atraentes, o que parece cobrir os Quatro Pontos no negócio da comparação de companheiros. Somos iguais e sempre me senti segura, confiante e digna. Mas, ainda assim, amo Ben um pouquinho mais, o que me faz temer perdê-lo com mais intensidade do que se fosse o contrário.

Isso me faz lembrar de outro ponto. Sempre pensei, erroneamente, que a preocupação e o medo servem como uma apólice de seguro. No nível do subconsciente, acredito que, se você se preocupa com algo, é menos provável que aconteça. Muito bem, estou aqui para dizer que as coisas não funcionam assim. O que você mais teme pode acontecer a qualquer momento. E, quando acontece, você sente que foi traída, já que sentiu todo aquele medo no início.