Uma prova de amor
Capítulo 19
C A P Í T U L O
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— Por que eles não pediram para sua outra irmã? — Richard me pergunta, depois que lhe contei a história toda sobre o pior pesadelo de Daphne virando realidade. Contei tudo sobre os exames. E sobre o funesto encontro com o médico que deu a notícia de que usar os óvulos de Daphne mesmo na fertilização in vitro seria perda de tempo e dinheiro. Não tinha planejado contar essa história para ele, mas sinto a necessidade de contar a alguém e não quero discutir esse assunto com Jess. Ela está toda sensível em relação a essa questão de maternidade. Além do mais, Richard e eu acabamos de fazer sexo e estou sentindo aquela proximidade que nos impele a confiar no homem que acabou de nos dar prazer. Duas vezes.
Richard passa a mão pelos meus cabelos e diz:
— A Maura não seria a escolha mais lógica, uma vez que ela já tem filhos?
Aceno que sim com a cabeça e respondo:
— Eles tinham suas razões para me escolherem... Primeiro, sou mais nova. Isso significa que tenho óvulos melhores. Segundo, acho que seria estranho demais, você entende, se eles usassem os óvulos da Maura, então as crianças seriam primos e irmãos. Ou pelo menos meio-irmãos.
— Isso seria meio esquisito mesmo — Richard concorda.
— E a última, e mais importante razão não dita — digo —, é que Maura nunca concordaria com isso.
— Por que não?
— Ela às vezes é... um pouco egoísta — falo, e me arrependo imediatamente de ter dito aquilo. Sinto que fui desleal e não quero que Richard pense mal de Maura antes mesmo de conhecê-la.
— Egoísta como? Mesquinha com seu próprio tempo? Do tipo que não perde tempo buscando um amigo no aeroporto? — ele pergunta, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Não... Talvez autocentrada seja a palavra. Ela tem boas intenções, mas acho que herdou a capacidade de empatia de minha mãe — digo. — Minha mãe é capaz de reclamar durante anos porque a Chanel deixou de fabricar certo tom de batom, mas espera que um doente de câncer simplesmente se anime e pense positivamente...
— Sim, conheço o tipo — Richard diz. — Mas, para falar a verdade, não acho que seria egoísmo recusar esse pedido. Quero dizer, isso é muito para se pedir a alguém, mesmo para uma irmã.
— Você acha? — pergunto.
— Bom. Sim — Richard responde. — Independentemente de serem irmãs. É um pedido enorme.
Estava esperando que ele me dissesse isso, porque eu concordo: é uma coisa muito importante para se pedir. Apesar de tudo, imagino se Richard não está dizendo isso só para me agradar.
— E então, o que você respondeu? — ele perguntou.
— Não respondi nada ainda. Disse a eles que precisava pensar um pouco.
— E eles aceitaram bem a resposta?
— Sim. Parece que sim. Daphne disse que entendia. Tony me agradeceu por pensar na proposta deles. Então, mudamos de assunto e fomos saborear a deliciosa lasanha da minha irmã. Pelo menos fingir saboreá-la, pois eu fiquei com um nó no estômago.
— Então você e Tony teriam que transar? — Richard fala, enquanto agarra de brincadeira meu seio esquerdo.
— Muito engraçado! — digo, afastando sua mão.
— E aí? Vocês teriam que transar?
Reviro os olhos e digo:
— Não seja burro... Seria um procedimento cirúrgico. Teriam que remover meus óvulos. Como na fertilização in vitro.
— Você teria que fazer uma cirurgia? — Richard pergunta, franzindo a testa.
Penso em como os homens são infantis em relação à dor, mas explico.
— Essa é a parte menos complicada.
— E qual é a parte mais complicada? — ele pergunta.
Reflito por um momento e respondo com hesitação:
— Se tiver um filho meu no mundo, vou pensar nele como sendo meu.
Richard pisca e se curva para pegar a taça de vinho que está na mesinha de cabeceira.
— Você pensaria nele como seu? Ou você ia querer que ele fosse seu?
— Qual a diferença? — digo, pensando que, nesse sentido, meus óvulos e meu ex-marido talvez tenham algo em comum.
Caímos no sono logo após essa conversa, mas acordo no meio da noite e começamos outro tipo de bate-papo. É um fenômeno que só acontece no início de um relacionamento, quando o sono não parece ser tão importante assim. Falamos sobre o programa de rádio de Steven Gaines em Hamptons e como deveríamos tentar agendar um dos nossos autores para conceder uma entrevista a ele, quando Richard pergunta abruptamente sobre meu aniversário de 35 anos, que vai acontecer dali a duas semanas. Tento me lembrar da última em vez que saí para comemorar meu aniversário com o pessoal do trabalho. Acho que não faço isso desde que fiz 30 anos. Não gosto muito de festas de aniversário, mas também não as detesto. Para mim, é indiferente. Quero dizer, todo mundo comemora o aniversário uma vez ao ano. Por que tanta comoção por causa disso, pelo menos depois que você passou dos 25 anos?
— Como você sabia do meu aniversário? — pergunto. — O Michael lhe contou?
— Não. Primeiro Michael teria que me contar que sabe sobre a gente.
— Como você descobriu, então?
— Talvez eu tenha dado uma olhadinha na sua carteira de motorista — Richard admite.
— Você é bastante criativo — digo.
Richard revira os olhos:
— Posso ser muito criativo... quando quero alguma coisa — ele confessa. Sinto o olhar dele sobre mim, no escuro.
— E o que exatamente você quer? — pergunto, meu coração batendo em disparada, embora eu não saiba bem o porquê.
Richard não responde à minha pergunta, mas encontra meus lábios e os beija. Eu correspondo ao beijo e fico pensando no modo como Richard me quer. Será que é com o mesmo desejo que eu o quero? Será que é só isso que eu quero dele? Ou será que tudo não passa de companheirismo, para preencher o vazio e passar o tempo? Será que estamos nos apaixonando? Será que algum dia vou querer ficar com Richard, do mesmo modo que quis ficar com Ben? Será que vou querer me casar novamente com quem quer que seja?
Como se estivesse lendo minha mente, Richard para de me beijar e diz:
— Posso levar você para comemorar seu aniversário em algum lugar?
— Sim — digo. — Eu adoraria.
— Você gostaria de ir a algum lugar em particular?
— Qualquer lugar com você seria perfeito — digo, com a voz firme, e quase me convenço de que estou falando a verdade.
Na manhã seguinte, volto para o apartamento de Jess para me trocar para o trabalho. Jess está sentada na sala, usando uma lingerie de seda preta (ela não tem nenhuma calcinha de algodão), passando hidratante nas pernas. A sala cheira a baunilha. Seu cabelo ainda está molhado e espetado com gel. Ela está feliz e cantando “Perfect world”, de Liz Phair:
— “Quero ser impetuosa, alta, vulnerável e sedutora.”
Penso, “Bom, você é todas essas coisas” e, então, digo:
— Por acaso aquele cretino retornou suas ligações?
Estou, é óbvio, me referindo ao Trey. Ele é oficialmente reconhecido como “o cretino” agora. Primeiro ele era “Cretino”, um nome próprio, mas decidimos que ele não merecia nem isso e o rebaixamos a um idiota genérico e comum. De acordo com a assistente dele, Daria, Trey está em Tóquio. Ela está mentindo por ele. Já sabemos que mentir é uma de suas principais tarefas no trabalho. Da última vez que falou com Daria, ela disse “Diga a ele que tem telefone na Ásia”. Daria bufou e respondeu: “Pode deixar”, antes de desligar o telefone na cara de Jess. Não dava para saber quem Daria desprezava mais: se Jess ou o próprio patrão. Talvez Trey também estivesse dormindo com ela, eu disse, uma vez. Jess não achou nada engraçado e fiquei em alerta máximo: segure as piadas para mais tarde.
— Nada. Nem uma palavra — Jess resmungou, sacudindo os ombros. — Quero que ele se foda.
Olho com atenção para o rosto dela, procurando um sinal de raiva falsa. Não encontro nada. Pode-se dizer que ela está começando a falar a verdade. Na verdade, ela está tão decidida que começo a pensar que só há uma explicação: Jess quer essa criança muito mais do que quer ficar com Trey. Praticamente o oposto de Ben e eu. Como é possível minha melhor amiga e eu sermos tão diferentes?
— Que se foda! — ela repete.
— Foi assim que você se meteu nessa confusão — digo e solto uma risada.
— Sim. É mesmo um pouco confuso — ela admite. — E, no entanto... parece tão certo.
Então ela me informa que já marcou sua primeira consulta de pré-natal para a próxima quinta-feira, às 14 horas.
— Que emocionante! — digo, quase acreditando em minhas palavras.
— Você vem comigo? — ela pergunta, hesitante. — A enfermeira me disse que eles vão auscultar o coração do neném com um ultrassom. Eu gostaria de dividir esse momento com alguém... Com você.
— Claro... vou sim — digo, emocionada por ela me querer lá. E eu quero estar com ela, mas tenho minhas reservas. Em primeiro lugar, é no outono que as coisas ficam mais movimentadas no trabalho e eu não consigo me imaginar sentada numa sala de espera por horas. Segundo, e mais importante, parece que vou estar abrindo um precedente ruim. Será que Jess vai querer que eu a acompanhe em todas as consultas dali em diante? E aqueles momentos excruciantes da sala de parto? Imagino-a me pedindo para cortar o cordão umbilical ou tirar uma foto da cabeça do bebê coroando.
Penso na ironia de tudo o que tem acontecido: uma mulher, que não quer ter filhos, recebe o pedido para ser doadora de óvulos e servir de pai substituto no mesmo mês.
Mais tarde, naquele mesmo dia, recebo o telefonema de uma agente importante, conhecida no mercado editorial simplesmente por: Coral. Não sei se Coral é seu nome de batizado ou se é algum apelido, mas sei que ela tem um dos maiores egos do mercado, o que acho que se justifica por seu bom trabalho, por assim dizer. Ela tem alguns clientes muito famosos e todos os que representa acabam se tornando best-sellers. Como consequência, todo editor delira com a simples ideia de um encontro com ela, pois sabe que é alguém importante, já que ela se dignou a ligar para marcar uma reunião com você.
Cerca de um ano atrás, Coral me ligou pela primeira vez sobre um manuscrito chamado No nude beaches. Senti que tinha alcançado meu lugar no mundo editorial quando ela falou sem parar sobre como eu adoraria essa história radical e sentimental sobre o amadurecimento de três garotas que viajam juntas pela Europa, logo depois da formatura na faculdade. Coral estava certa, amei a história, mas, infelizmente, todo mundo também adorou e acabei a perdendo num leilão massacrante de cinco sessões, quando a Elgin limitou o adiantamento que eu poderia pagar em quinhentos mil dólares. Foi um golpe desolador, principalmente quando o livro estourou no número três da lista dos mais vendidos do Times, fato extraordinário para um romancista de primeira viagem. Lembro-me de passar em frente à vitrine da Barnes & Noble da Union Square certa noite a caminho de casa. Estava tão perturbada que nem mesmo apontei o livro para Ben, mas ele deve ter visto, pois disse: “Não se preocupe. A Coral vai ligar para você novamente”.
Então, é claro que me lembro dele quando Rosemary me liga e diz, toda animada:
— Cláudia, Coral está na linha!
Meu coração acelera, pego o telefone e digo olá.
— Cláudia, querida — Coral fala. — Parabéns pelo romance da Amy Dickerson. É bri-lhan-te!
— Obrigada, Coral. Fico muito feliz com o elogio. Estamos satisfeitos com o modo como o livro está se saindo... E então, como vai? — digo, certa de que Coral não me ligou apenas para bater um papo. Ela deve ter alguma coisa para me dizer.
— Estou bem, querida... Ouça. Adoraria pôr o papo em dia enquanto almoçamos... E talvez eu tenha algo para você ler. Algo que seria perfeito para você e seu catálogo.
— Acho uma excelente ideia — digo, animada, mas esperava que Coral me mandasse o manuscrito ou o enviasse por e-mail, como fazia a maioria dos outros agentes. Contudo, talvez ela queira me oferecer algo exclusivo e pretenda me mostrar em primeira mão. Digo a mim mesma para manter a calma e respondo: — Quanto a esse manuscrito, agradeço por ter se lembrado de mim, Coral. Vou adorar avaliá-lo.
— Fabuloso — ela responde. — Vamos nos encontrar na próxima quinta, no Eleven Madison Park... Que tal, às 13 horas? Ou às 13h30?
Olho para minha agenda e vejo “CONSULTA DA JESS” escrito em letras maiúsculas. Droga, conflito com o bebê.
— Hum... — respondo. — Tenho algo marcado nesse dia, Coral. Mas estou livre qualquer outro dia da semana.
— Sinto muito, querida. Estou com a agenda lotada nas próximas semanas — ela responde, parecendo irritada.
Penso, “Ninguém coloca a Coral de lado”, e reviro os olhos. Começo a ceder, mas não o faço. Então, uso suas próprias táticas. Estou ocupada demais, e sou bem experiente, para ficar presa nesses joguinhos. Digo:
— Bom, me desculpe, Coral. Quinta é impossível para mim.
Cruzo os dedos para que ela arrume outra data ou, melhor ainda, para que me envie o manuscrito. No entanto, ela diz:
— Que pena! Quem sabe uma próxima vez.
Desligo o telefone e digo a mim mesma que se apenas o fato de a Coral ligar faz de mim alguém importante, desdenhá-la, então, torna você alguém. Digo a mim mesma que não há nada mais importante do que a amizade. Ou filhos. Ou amigos tendo filhos. Mas não posso evitar estar ressentida por um bebê que nem mesmo é meu.
Na manhã seguinte, Jess entra no meu quarto exatamente quando estou acordando e diz:
— Cláudia, estou sangrando. — A voz dela está calma, mas seu rosto está pálido.
— Onde? — pergunto, imaginando um corte por acidente na cozinha.
— Fiquei menstruada — Jess murmura. — Não estou mais grávida.
A palavra aborto passa pela minha mente, mas sacudo a cabeça e digo:
— É normal ter um pouco de sangramento no comecinho. — Parece que estou citando um livro de medicina, então, acrescento uma nota casual: — A Maura teve pequenos sangramentos em todas as gravidezes.
— Será que tanto sangue é normal? — Jess pergunta, com a voz trêmula. — Cláudia, não acredito que ainda esteja grávida, definitivamente.
Olho para minha melhor amiga, com medo de dizer alguma coisa, de falar a coisa errada. Já ouvi dizer que metade das mulheres sofre um aborto em algum momento da vida, mas esta é a minha primeira experiência com o fato. Digo a Jess como sinto muito por tudo isso. Conforto minha amiga e digo que ela irá superar esse sofrimento. Digo a ela o que sempre digo à Daphne quando ela fica menstruada: que algum dia ela será mãe. Que algum dia isso vai acontecer. E eu acredito nisso.
Ao ouvir minhas palavras, uma parte de mim se sente envergonhadamente aliviada pela mudança dos acontecimentos. Estou aliviada por não ter que passar por toda essa privação com Jess. Estou aliviada por poder passar mais tempo com ela antes que ela se torne mãe. Mas, principalmente, estou aliviada pela minha melhor amiga. Sei que ela está sofrendo agora, e tenho certeza de que algum dia ela irá olhar para trás e verá que as coisas aconteceram por alguma razão. Que assim foi melhor. Quero que ela tenha um filho, com um homem bem melhor que Trey. Um homem que a mereça. Um homem parecido com Ben.