Uma prova de amor
Capítulo 15
C A P Í T U L O
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No dia seguinte, Daphne me liga da sala de espera da clínica de fertilização. Estou prestes a entrar na reunião semanal do editorial e queria um tempo para revisar minhas notas, ou dizer bom dia a Richard, ou as duas coisas. Liguei para ele ontem à noite, depois da minha conversa com Jess, mas ainda me sinto estranha por ter ido embora logo após nossa primeira vez juntos. Explico para Daphne que não posso conversar com ela agora e prometo ligar de volta assim que minha reunião acabar.
— Mas ainda são 9h12 — ela resmunga.
— Sim. E daí?
— Sua reunião não começa às 9h15, começa?
Sei exatamente aonde ela quer chegar com essa conversa, mesmo assim caio na sua armadilha e digo:
— Não. Ela começa às 9h30.
— Então você ainda tem alguns minutos para mim, não é?
Balanço a cabeça e solto um suspiro. Daphne pensa que só porque tenho meu próprio escritório e minha linha telefônica, posso conversar o quanto quiser. Mas em vez de me aprofundar nos detalhes sobre minha manhã ou qualquer coisa sobre meu encontro com Richard, eu digo:
— Ok, Daph. Tenho cerca de três minutos. O que há de novo?
Posso sentir seu sorriso de vitória pelo telefone.
— Então — ela começa —, estamos no consultório do médico. Tony está fazendo os exames. Sabe, para ver se há algo errado com ele.
— Certo — digo, checando meu e-mail. Vejo que tem mensagem de Richard. Só de ver o nome dele meu coração palpita. Ele foi tão maravilhoso na noite passada.
Ela diz:
— O primeiro passo é a análise do esperma dele.
— Hum-hum — digo. — Isso faz sentido.
— Eles o colocam numa salinha cheia de vídeos pornôs, revistas de mulheres peladas e tal.
Dou uma risada e digo:
— Pobre Tony!
— Pobre Tony? — Daphne pergunta. — Neste exato momento ele está olhando mulheres peladas. Acho que você não precisa sentir pena dele.
— Mas tenho certeza de que ele deve estar meio envergonhado — digo, enquanto abro meu e-mail para ler a mensagem de Richard: “Quando vou vê-la novamente?”.
Sorrio e digito em resposta: “Às 9h30. Você não vai participar da reunião do editorial?”.
Daphne continua:
— Ele não está nem um pouco envergonhado. Tony acha tudo isso hilário. Estava contando piadas, perguntando para a enfermeira se ela tinha algum vídeo de garota com garota.
— Tony conta piadas quando está sem graça. Lembra quando ele esqueceu de deixar o carro engatado naquele Dia de Ação de Graças? — Relembro quando seu Acura preto novinho em folha desceu a rampa e bateu em quatro carros, causando um grande estrago. — Ele fez comentários autodepreciativos durante anos por causa desse episódio. E ele ainda fala disso.
— Ah, mas é diferente... — ela diz. — Aquilo foi bem engraçado. Depois que tudo acabou, na verdade.
— Isso também vai ser engraçado algum dia — digo, enquanto leio a resposta quase instantânea de Richard: “Ver você sozinha. Como vi ontem à noite”.
— Então não existe nenhum motivo razoável para eu estar chateada? — Daphne pergunta.
Esta é a pergunta que tem sua marca registrada. Daphne sempre quer que eu avalie a racionalidade de suas reações emocionais em relação alguma coisa. Sempre tenho vontade de lhe dizer que, sim, ela não está sendo sensata, um instinto para o qual Maura sempre cede, mas aprendi a ser cautelosa.
— Entendo por que está irritada — digo para minha irmã enquanto digito uma resposta para Richard: “Assim que for possível”.
— Na minha opinião, é nojento — ela comenta. — E nos deixa ainda mais humilhados durante todo esse processo.
— Tente não ver as coisas desse modo — digo, tentando amenizar. — Vai tocando em frente.
— Bom, você não acha que o Tony poderia ter dito a eles que não precisava de uma... “ajudinha extra”? Não acha que ele poderia ter pensado um pouquinho na esposa dele em vez de ter que se masturbar com material pornô?
— Tenho certeza de que ele está pensando em você. Confie nele, Daph.
— Até parece — ela retruca. — Nossa vida sexual é uma droga. A não ser quando estou ovulando, ela praticamente não existe. E, quando estou ovulando, é por pura obrigação.
— Tudo vai melhorar — digo, pensando novamente em Richard. Como foi bom ontem à noite. Que sorte não ter que passar pela experiência penosa do sexo com a finalidade única da procriação. — Vocês estão passando por um período muito estressante.
Olho de relance para meu relógio. Já são 9h19 e eu demoro cerca de três minutos para subir de elevador os três andares e caminhar até a sala de reuniões. Só me restam sete minutos para repassar minhas anotações. Quando estou prestes a me despedir, ela diz:
— Não acha que é culpa dele?
— Culpa? Como assim? — pergunto, perplexa.
Obviamente não é culpa de Tony que essa clínica, a clínica que a própria Daphne pesquisou e selecionou, oferece pornografia para seus clientes.
— Você acha que o problema é dele ou meu? Por eu não conseguir engravidar?
Certamente minha irmã sabe que não tenho como lhe responder, pois essa resposta exige testes e extensos diagnósticos; no entanto, ela acredita piamente na livre especulação e na adivinhação ao acaso.
Faço sua vontade e respondo:
— Provavelmente é um problema dele. Porém, também tenho certeza de que é algo tratável... Olha, Daphne, preciso correr agora. Ligo para você quando acabar a reunião, Ok?
— Ok. Mas cruze os dedos para você estar certa... e que a culpa seja dele — ela diz, antes de nos despedirmos.
Seus últimos comentários sobre culpa me perturbaram tanto que fico olhando para o telefone com a testa franzida, do jeito que as pessoas fazem quando assistem a um programa de televisão realmente mal escrito. Não sei bem por que me incomodou, mas digo a mim mesma que vou pensar sobre isso mais tarde.
Por enquanto, tenho que incorporar meu espírito de vendedora. As reuniões editoriais semanais são feitas para que os editores apresentem manuscritos para o diretor editorial e os chefes dos outros departamentos, que podem cancelar a proposta por várias e distintas razões: esse livro não vai vender; esse livro é muito parecido com aquele que foi lançado ano passado; esse livro é uma droga. Obviamente, há muita coisa em jogo para os editores nessas reuniões e elas têm um efeito darwiniano, com muita política interna em ação. As emoções correm soltas e não é incomum para os editores mais novos, que lutam para que seus nomes sejam reconhecidos, deixarem as reuniões aos prantos. Eu já tive minha cota de reuniões traumáticas enquanto lutava pela minha posição na editora, mas, na verdade, consegui emplacar seis dos meus romances este ano (o que é um recorde na casa), e só quero manter meu lugar de destaque. Também quero impressionar Richard. Seria uma vergonha minha sorte mudar logo após os acontecimentos da noite passada.
Quando entro na sala de reuniões, sinto imediatamente a presença de Richard. Ouço sua risada forte e, do canto dos meus olhos, o vejo colocar café no copo de isopor. Não tenho a audácia de me aproximar dele, nem de olhar em sua direção. Ao contrário, evito conversar e me sento à mesa comprida onde diligentemente analiso minhas notas, quando Jacqueline Dody, minha grande amiga e aliada no editorial, senta-se ao meu lado e me pergunta se eu quero um bolinho. Digo que não, obrigada, e deve ter sido a primeira vez que recusei um daqueles bolinhos recheados de creme da Krispy Kreme. Mas estou nervosa demais para comer. Nunca tive que falar profissionalmente na frente de alguém com quem acabei de dormir ou com quem dormi em qualquer período de minha vida, no caso.
Então, escuto Richard dizer:
— Que diabos? A Parr está recusando bolinhos?
— Você está brincando! — Jacqueline caçoa. — Está a fim do quê, sua magrela? Você pode comer umas calorias a mais.
— Sim — Richard diz —, você não sabia que é falta de educação recusar doces quando se é magra como uma top model?
Olho para ele surpresa e impressionada ao mesmo tempo. Ele conseguiu elogiar meu corpo em cinco minutos.
— Ei, estou tentando me concentrar aqui — me defendo, enquanto Richard senta-se em uma cadeira do meu outro lado. Fico agitada e mais nervosa ainda quando sinto seu pé encostar no meu. Sacudo a cabeça e afasto meu pé, imaginando quantas vezes ele não fez essa brincadeira com outras mulheres. Imagino se Richard já dormiu com alguma outra editora e espero que a resposta seja não.
Quando esfrega seu pé novamente no meu, eu o olho com um falso olhar de advertência.
Ele dá um sorrisinho e pergunta:
— O que foi?
— Nada — digo, sacudindo a cabeça de novo.
Nosso diretor editorial, Sam Hewlett, dá início à reunião com seu costumeiro tom objetivo, e passa a palavra para Molly Harrington, uma editora que está lançando um romance histórico adulto situado em Bruges. Tento me concentrar em Molly, mas só consigo pensar no que aconteceu na noite passada. A certa altura, Richard começa a rabiscar linhas emaranhadas em seu bloco, e eu me vejo hipnotizada por elas e pelas suas mãos. Quando ele percebe meu olhar, escreve “Eu ainda posso” no papel. Então, ele faz um risco por cima, olha em volta para ter certeza de que não tem ninguém observando, e escreve “sentir o gosto”; ele então vira a página e escreve “do seu corpo”. Meu coração começa a bater com força quando me lembro de sua boca em mim, na noite anterior. Prometo não olhar para aquele bloco de novo.
Duas horas e seis livros mais tarde (quatro dos quais foram rejeitados), é a minha vez de me apresentar. Richard vira sua cadeira na minha direção e sorri. Tento ignorá-lo, mas tenho um pouco de dificuldade no começo, quando apresento meu romance e falo incoerentemente sobre como a história é espirituosa e encantadora. Então digo:
— Para ser mais específica, o livro é sobre uma mulher que mora em Chicago e, por vários motivos, decide deixar para trás sua vida maravilhosa e estável para ir viver no sul da França. Ela enfrenta uma série de obstáculos e adversidades, mas, no final, faz algumas descobertas surpreendentes sobre si mesma... O livro é comovente e envolvente.
Sam me interrompe e diz:
— Qual o público que você vê como alvo?
Respondo:
— Acho que todos que gostam de Peter Mayle vão adorar. Mas a história tem uma característica pé no chão e penso que vai atingir um público bem maior do que apenas os fãs de Mayle. Mulheres de todas as idades vão amar essa história. E, honestamente, os homens vão gostar da história também.
Outra editora, Dawn Bolyn, se inclina para a frente com um jeito presunçoso. Dawn é uma daquelas pessoas ultracompetitivas, críticas e que aparentam ter inveja do sucesso dos outros, particularmente do meu. Então, não fico surpresa quando ela diz:
— Parece uma cópia barata de Sob o sol da Toscana.
— Bom, Dawn — digo, com paciência até exagerada. — Para começo de conversa, a história do livro se passa na França, não na Itália.
Para o desapontamento de Dawn, meu comentário recebe algumas risadinhas. Então, replico:
— E os livros não são nada parecidos.
E, por favor, use um pó nesse seu rosto oleoso.
Jacqueline interrompe a conversa a meu favor.
— Bom, eu adorei o texto. É bem vigoroso e descritivo, sem ser exagerado... E a história é fascinante. Eu estava com uma ressaca forte no domingo todo e não consegui parar de lê-lo.
Todo mundo deu risada porque Jacqueline é conhecida por exagerar na bebida quando saímos para uns drinques depois do trabalho.
Sam diz:
— Bom, concordo com a Jacqueline que o texto é descritivo e forte... Mas tem alguma coisa no livro que parece... trivial.
É bem ameaçador quando Sam chama um livro de trivial, então começo a ficar preocupada. Enquanto busco uma resposta incisiva, Richard tira a tampinha da caneta que estava em sua boca e diz:
— Cláudia, diga uma coisa, a autora se mudou para a França?
Sacudo minha cabeça dizendo que não. Sei que ele está tentando novos ângulos de crítica.
— Então, infelizmente, não vamos poder publicá-lo como não ficção, fazer uma cobertura da vida dela, mas ainda assim me parece uma boa ideia. Consigo até imaginar um grande lançamento... Além do mais, acho que o histórico de Cláudia é uma justificativa em si. Correr riscos é com ela mesma.
Todos os olhares se voltam para Richard. Ele não costuma falar nessas reuniões, e sua opinião tem um grande peso e tenho certeza de que ele favoreceu a balança a meu favor. Não deu outra, Sam pede uma votação e minha proposta passa por uma margem mínima.
Olho para Richard, que me dá uma piscadela rápida e sorrateira.
Penso comigo mesma: “Ah, meu Deus, será que eu acabei de me dar bem no trabalho por causa de sexo?”.
Não sei direito a resposta, mas, de repente, me ocorre que existe uma linha muito tênue entre uma vida correta e uma escandalosa.
Ligo para Daphne assim que retorno ao meu escritório. Ela está no carro, sozinha, a caminho do supermercado.
— Como foram as coisas? — pergunto.
— Foram. Ele conseguiu entregar esperma — ela diz amargurada. — Com a ajuda das universitárias Shari e Shelli.
— E o resultado?
— Vai demorar alguns dias... Mas o que são mais alguns dias para quem está esperando uma década para ter um bebê, não é?
Tenho vontade de salientar que ela não está realmente esperando há uma década. Não se pode contar os anos em que você não estava tentando. Que estava usando preservativo, tomando anticoncepcional e “tirando antes da hora e rezando”, método preferido de Daphne e de Tony durante os anos da faculdade, quando não tinham um tostão.
— Em breve vocês vão esclarecer tudo — comento enquanto olho de relance para minhas unhas e digo a mim mesma para ir à manicure antes do meu próximo encontro com o Richard.
Escuto Daphne fazer um discurso retórico sobre um motorista idoso que não ligou a seta. Desde que um senhor de idade atropelou várias crianças da escola num cruzamento em nossa cidade, ano passado, Daphne anota metodicamente as placas dos veículos e denuncia motoristas irresponsáveis para o Departamento de Trânsito.
— Olha, Deus os proteja, você entende... Tenho certeza de que não sabem que não deveriam mais estar dirigindo. Não é mais seguro, concorda?
Interrompo seu longo discurso e digo:
— Ouça, Daphne, estava pensando numa coisa... Lembra que você me disse que esperava que isso fosse um problema do Tony? Culpa dele?
— Sim.
— O que você quis dizer com isso, exatamente?
— Quis dizer que eu não quero ser culpada por isso.
— Culpada pelo Tony?
— Sim.
— Você realmente acha que ele vai te culpar? — pergunto. — O Tony não é esse tipo de pessoa.
— Eu sei... Mas às vezes eu penso isso.
— Acho que ninguém deveria culpar alguém por isso — digo.
— Sim. Bom. É que essa situação é bem estressante... — A voz dela vai se apagando.
— Sinto muito mesmo, Daphne. Gostaria que você não tivesse que passar por isso.
— Eu sei... Me diz o que vai acontecer comigo? Diz que eu vou ser mãe algum dia?
— Isso vai acontecer — digo, acreditando piamente nisso. — E, se o pior acontecer, vocês podem adotar. Certo?
— Acho que sim. Mas é o último recurso. Quero ter meu próprio filho.
— Mas seria seu filho da mesma maneira — digo.
— Você entende o que estou querendo dizer — ela explica. — Quero carregar o bebê. Quero sentir a experiência completa da maternidade...
— Você vai — afirmo.
— Talvez seja por isso que eu queira tanto que a culpa seja de Tony — ela confessa. — Se a culpa for dele, ainda assim eu posso ter um filho.
— Você quer dizer com outra pessoa? Você abandonaria o Tony? — digo, horrorizada.
— Ah, meu Deus, claro que não! — Daphne exclama. — Estou me referindo ao banco de espermas ou a algo do tipo — ela responde.
Quase lhe pergunto se Tony estaria disposto a tomar esse caminho. Eu ficaria bem surpresa se ele aceitasse essa saída. Sei que ele faria praticamente qualquer coisa pela Daphne, mas ao mesmo tempo acho que é aquele tipo de machão que teria dificuldade para aceitar isso. Mas decido calar a boca e não tocar nesse assunto. Daphne já tem muita coisa com que se preocupar.
Naquela tarde, depois de eu retornar uma dúzia de ligações de vários agentes e autores, me pego me lembrando de Ben e de nosso casamento, e de como as coisas não aconteceram como pensei que seriam no dia em que eu disse aceito. Afinal de contas, pessoas que são almas gêmeas ficam juntas apesar dos desencontros e das desavenças. Eles podem ter que lidar com a culpa e os erros temporariamente, mas uma hora os problemas se resolvem. O amor conquista tudo. Na saúde e na doença. É assim que são os bons casamentos. Penso num exemplo extremo, como Dana Reeve continuou com Christopher, apesar de que ficar casada com um tetraplégico não deve ter sido algo que tenha passado pela sua cabeça no dia do casamento. O amor deles era forte e verdadeiro, e mais importante do que todas as coisas que não mais podiam fazer juntos. Era mais importante do que ter uma vida sexual fantástica ou sair para cavalgar, ou ter mais filhos. Dana teve que deixar muitos dos seus sonhos se apagarem, mas ela o fez de bom grado. Ele valia qualquer sacrifício.
Fico sentada à minha mesa por um longo tempo, de costas para o computador, ignorando o “ding” de novas mensagens na caixa de entrada, provavelmente de Richard, e imaginando o que Ben faria se eu tivesse sido diagnosticada com alguma doença terminal. Se eu tivesse apenas alguns anos para viver. Ou... se eu não pudesse ficar grávida, ao contrário de não querer engravidar. Não consigo imaginar Ben me abandonando sob essas circunstâncias. Então, como ele pôde me largar simplesmente por eu não querer ter filhos? Eu não o estava submetendo a grandes sacrifícios; eu só queria que as coisas continuassem iguais. Meu marido não me amava o bastante para ficar comigo nesses termos? Eu estava realmente pedindo demais?