Uma prova de amor
Capítulo 12
C A P Í T U L O
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Nunca pensei que fosse parecida com minha mãe, nem nunca a culpei por eu não querer filhos. Então, apesar de suas boas intenções, suas palavras não influenciaram em nada minha posição em relação à maternidade.
No entanto, algo que ela me disse foi revelador. Talvez por ter sido a primeira vez que minha mãe se desculpou por algo. Talvez por todo mundo querer ser motivo de orgulho para a própria mãe e porque, até certo ponto, não podemos evitar de nos vermos como nossa mãe nos vê. Talvez por isso ser um lembrete de tudo que ainda tenho presente na minha vida. Tenho minha carreira, é claro. Porém, mais importante, tenho relacionamentos ricos que valorizo muito. Sou uma boa irmã, filha e amiga. Minha vida tem significado e vai continuar a ter, mesmo sem Ben.
Então, foi minha mãe, apesar de sem querer, quem me ajudou a passar para o próximo nível de recuperação emocional. A perceber que a vida continua. Até comecei a pensar em namorar novamente. Não que eu quisesse, mas namorar é sempre o primeiro sinal interno e externo de que você está seguindo em frente, depois de um grande rompimento. De certo modo, acho que é o único jeito de seguir em frente.
Então, quando Michael entra no meu escritório um dia e diz “Advinha quem colocou você em segundo lugar na sua lista?”, fico animada. Sei exatamente o que ele quer dizer com “segundo lugar”. Não importa se você é uma agente de seguros em Iowa, uma professorinha na Flórida ou uma editora em Manhattan, você sabe o que acontece quando as pessoas se juntam em volta do bebedouro (ou, no nosso caso, em volta de uma cafeteira automática Euro) e discutem, entre seus estimados colegas, quem é o mais atraente. É uma prática que se origina principalmente da monotonia e das longas horas de trabalho em um escritório. (E só encontra rival na lista feita com famosos: “Celebridades com quem eu posso trair meu companheiro”. Obviamente, minha lista de possíveis traições está vazia, posso fazer o que quiser agora, sem exceções. Mas isso, infelizmente, não me deixa mais perto de ir para a cama com 1o: Sting; 2o: Colin Firth; 3o: Johnny Depp; 4o: Tom Brady; 5o: Ed Harris.)
Claro que o problema de brincar com essas listas nas grandes editoras é que existe bem pouca opção para as mulheres. Primeiro porque a taxa de mulheres é bem superior à de homens no mundo editorial, cerca de 3 para 1. E a maioria dos homens, cerca de 70% deles, é gay. Então, estamos falando de uma faixa de 10 mulheres para 1 homem hétero. E, deixando de lado os departamentos mais badalados, como o de publicidade, o mundo editorial está repleto de uma alta porcentagem de ex-nerds (inclusive eu mesma), que passaram a maior parte de sua infância dentro de casa, lendo livros. Minha amiga Jacqueline, por exemplo, foi citada em um jornal local da Carolina do Norte por ler mais de quinhentos livros em um ano; ela tinha 5 anos na época. Não que eu tivesse feito grande coisa — minha maior façanha quando criança foi participar do concurso estadual de soletrar e perder na rodada final com a palavra precipício. Não se pode dizer, no entanto, que ex-nerds não são atraentes. Ao contrário, acho que somos uma boa raça, pois somos peculiares, inteligentes e bem mais interessantes do que a típica ex-líder de torcida ou ex-atleta. Ainda assim, a lista não tem nada a ver com ser peculiar, inteligente ou atraente de um jeito diferente; a lista é sobre quem é sexy.
Uma das grandes vantagens de ser amiga de Michael é sempre estar por dentro de quem está nas listas dos homens, o que é particularmente interessante nas poucas vezes em que eu sou mencionada. Funciona assim: Michael me diz que estou na lista de alguém e eu finjo ficar envergonhada, perplexa ou irritada, apesar de me sentir secretamente lisonjeada. Quem não ficaria? Mesmo se for escolhida por um nerd, é gostoso saber que você está bem classificada.
Mas, ainda assim, eu pergunto para ele:
— Segundo lugar? — Por que a última coisa que eu quero é parecer desesperada ou ansiosa.
— Você entendeu. Ele acha que você é a segunda garota mais sexy no trabalho — Michael confidencia.
— Quem? — digo, revirando os olhos. — É o Gerald do TI?
— Não.
— Desisto.
— Richard Margo — Michael diz, orgulhoso.
Fico interessada. Richard Margo é nosso vice-presidente executivo e diretor de publicidade, e é bem conhecido na casa tanto pela sua posição de prestígio quanto pela sua reputação de ser um lançador na segunda divisão por uma temporada e, também, por ser um pouco mulherengo. Não do tipo desprezível, mas do tipo “intelectual elegante que nunca foi casado e adora vinhos e belas mulheres”. Ele tem quarenta e poucos anos, mas, ao contrário de muitos homens da idade dele que têm sorte de serem descritos como “bonitos” ou “atraentes”, Richard pode ser chamado de “gostoso”. Ele tem o queixo bem anguloso, olhos azuis profundos e leves entradas no cabelo, uma combinação de características que configura uma aparência de confiança rude. Até mesmo o nariz dele — que parece ter quebrado pelo meno uma vez — é sexy.
Richard não apenas faz parte da minha lista desde que entrei na Elgin Press, mas ele tem constantemente ocupado o primeiro lugar, fato que só admiti para Michael e alguns outros amigos próximos (com as outras pessoas eu desconverso, finjo nunca ter nem pensando no assunto e, então, digo o seguinte: “Por favor, saibam que eles não estão em nenhuma ordem específica”, o que deixa essa prática um pouco menos séria). Na verdade, Richard não só ocupa o primeiro lugar da minha lista do trabalho, como assumiu uma vaga que ficou aberta na minha lista de celebridades quando Jude Law foi pego na cama com sua babá e todo seu charme desapareceu no ar. Naquela época, Ben insistiu que eu não podia misturar minhas listas; no entanto, argumentei que ele era “famoso” no trabalho. A coisa não deu muito certo. (Ben insistiu que a teoria por trás da lista de celebridades era sua natureza inatingível.) Então, eu tirei Richard, substituindo o nome dele pelo Ed Harris, que, por coincidência, poderia passar como irmão do Richard.
— Onde você ficou sabendo isso? — pergunto a Michael, me sentindo meio envergonhada pelo meu coração acelerado. Mas, em minha própria defesa, devo dizer que não faço sexo há meses.
— Da boca do dito-cujo — Michael fala, todo orgulhoso e estalando os dedos.
— Você perguntou isso para o seu chefe? — pergunto, maravilhada com a habilidade de Michael em conseguir informações das pessoas, incluindo das que estão nos altos escalões. Ele encolhe os ombros.
— Sim, e daí? Almoço de rapazes, você sabe como é, Phil Loomis e Jack Hannigan estavam com a gente, e, por coincidência, Hannigan também tinha colocado você na lista dele.
— E aquele maldito Phil me deixou de fora? — digo.
Michael ri, enquanto eu volto o assunto para Richard.
— Então, quem está em primeiro lugar na lista de Margo? Stacy Eubanks?
Stacy Eubanks, secretária no departamento de vendas, é a réplica loura e de olhos azuis de Beyoncé, e dizem que ela faz um bico como artista pornô. (Michael jura que já a viu em um vídeo chamado Lezzie Maguire.)
— Não. Stacy não está na lista dele.
— Quem diria! — digo, dando mais crédito à lista de Richard.
— É mesmo. Eu também fiquei espantado.
— Então, quem é a número 1? — digo com indiferença.
— Aquela nova garota francesa na seção de direitos autorais.
— Ah, sim! Marina LeCroy. Ela é bem... francesa.
— Hum-hum. Mas aparentemente Richard tem uma coisa com ruivas, pois a Naomi Rubenstein está na sua lista também.
— Eu dificilmente chamaria isso de uma coisa com ruivas.
— Duas ruivas entre cinco garotas certamente caracteriza uma coisa. Isto é, não se pode dizer que vocês fazem parte de uma grande porcentagem da população geral feminina.
— Está certo — digo, imaginando quem são as outras duas na lista dele.
— E então, o que você vai fazer quanto a isso? — Michael indaga.
— Nada — digo, rindo.
— Nada? Por que não?
— Porque... sou profissional — explico, num tom empertigado e brincalhão.
— Não há nenhuma política contra relacionamento entre funcionários aqui na editora. E, além do mais, você não trabalha diretamente para o cara. — Michael argumenta. — Você nem mesmo trabalha na área de publicidade. Qual o impedimento?
— Não sei. Poderia parecer que eu estou tentando tirar proveito. De certo modo, isso tiraria o mérito dos meus livros.
— Ah! Você está exagerando.
Tecnicamente ele está certo. Richard dirige o departamento de publicidade e, como tal, é responsável por todos os títulos da casa. Mas muitos outros publicitários trabalham com meus livros e existem outros entraves e dificuldades nas vendas e no marketing, portanto, seria impossível para Richard interferir sozinho no sucesso de meus livros. Ainda assim, a publicidade representa um papel importante e eles podem, com facilidade, detonar um livro; então, poderia haver uma insinuação de favoritismo manchando meu sucesso. Fim da questão, nunca namorei ninguém do trabalho e não tenho a intenção de começar agora. Digo isso ao Michael e completo:
— Essa discussão toda não faz sentido, nem sei ao certo se Richard Margo está interessado em mim. Ele só entrou no seu joguinho para satisfazer à sua vontade.
— Não teria tanta certeza sobre isso — Michael insinua. — Além do quê, eu pus você na berlinda.
— De que modo? — pergunto, nervosa.
— Contei a ele sobre seu divórcio — Michael diz. — Ele não tinha ideia.
— Michael! — exclamo. Sei que é ridículo tentar esconder os fatos de todo mundo, mas não consigo evitar, não gosto de ter meus problemas pessoais discutidos em ambiente de trabalho. E tem uma aura em torno do divórcio que sugere o fracasso, o que nunca é bom para sua imagem profissional.
— Não é nada demais — Michael retruca.
— O que ele disse? — pergunto.
— Que sentia muito em saber isso... Mas você tem que saber que ele não pareceu nem um pouco triste com a notícia. Se é que me entende.
Michael sai do meu escritório depois de se despedir com um aceno dramático e fazer uma batucada bem habilidosa na minha mesa.
Por mais que eu tente minimizar meu interesse na lista de Richard, conto as novidades para Jess à noite. Ela nunca viu Richard, mas já me ouviu falar dele durante esses anos e sente um cheiro de romance no ar. Então, em vez de aceitar a história pelo que ela é de verdade, uma certa levantada na minha autoestima, ela fica extremamente animada e diz que ele é perfeito para mim.
— Ele é velho demais para querer filhos — ela comenta.
Balanço minha cabeça e digo para ela não ser ridícula.
Porém, uma semana depois, quando Richard de repente me diz que quer discutir algumas questões durante o horário de almoço, não posso deixar de me questionar sobre suas intenções. Já participei de inúmeras reuniões com ele, mas nunca só nos dois. E nunca na hora do almoço.
— Claro — digo, tentando me lembrar ao mesmo tempo que, apesar das tais listas, não tenho nenhum interesse real em Richard (ou vice-versa). Tenho certeza de que ele quer apenas falar de negócios. Afinal de contas, com o passar do tempo, estou assumindo posições mais altas na hierarquia da empresa e talvez um almoço com Richard simplesmente reflita meu status na casa. Talvez ele queira repassar os planos de publicidade para o lançamento do novo romance de Amy Dickerson. Ou talvez ele queira formular uma estratégia para lidar com o mais difícil dos meus autores, Jenna Coblentz. Jenna é um sucesso comercial há mais de uma década, mas é tão exigente em relação à publicidade de seus livros que seu comportamento chega à beira do abuso, e é responsabilidade do editor agir como um para-raios para os publicitários.
— Que tal quinta-feira? — Richard me pergunta, com sua voz rouca de locutor de rádio.
— Para mim está ótimo — respondo sem nem mesmo consultar minha agenda.
— Às 13h no Bolo? — ele pergunta. Bolo é um local bem conhecido do pessoal do trabalho e da turma da publicidade em geral. Ele nunca escolheria esse lugar se estivesse com segundas intenções.
— Combinado — digo, soando bem profissional.
Na quinta-feira, visto minha melhor calça jeans e uma jaqueta de algodão anarruga verde para ir trabalhar. Estou casual, mas estilosa. Gasto cerca de dez minutos retocando a maquiagem na minha mesa antes de sair para o almoço. Reafirmo para mim mesma que não tenho nenhum interesse em Richard, mas não custa nada estar com uma boa aparência, especialmente se você vai se encontrar com um homem tão atraente.
Richard mandou um e-mail mais cedo, me avisando que estava no dentista e iria direto para o restaurante. Caminho vigorosamente os poucos quarteirões que me separam do Bolo, mas chego cinco minutos atrasada. Vejo Richard imediatamente, sentado numa mesa de canto, usando um casaco esportivo e gravata. Uma taça de vinho tinto e uma cumbuca de azeitonas estão a sua frente. Ele está falando ao telefone, parecendo um pouco agitado ao olhar seu caderninho de anotações, daquele tipo tradicional que velhos jornalistas costumam carregar. Ele transmite um ar de importância. Mas, também, deve ser porque eu sei que ele é importante.
Quando ele levanta os olhos e me vê, seu rosto se ilumina e ele acena para mim. Faço um sinal, querendo dizer “Termine sua ligação. Espero aqui”. Ele balança a cabeça, se despede rapidamente e desliga o aparelho, colocando-o no bolso junto com o bloquinho. Ao me aproximar, ele se levanta um pouco e diz:
— Olá, Cláudia.
— Oi, Richard — digo, enquanto sinto o perfume da sua loção pós-barba, algo que notei nele há alguns anos uma vez que dividimos o elevador. Adoro loção pós-barba ou perfume num homem. Ben não gostava de usar. Até mesmo seu desodorante era sem perfume. Gosto da sensação de encontrar algo de que não sinto falta nele. Infelizmente, isso não tem ocorrido com muita frequência ultimamente.
— Alguma cárie?
— Nenhuma — ele diz.
— Você é daqueles que não passa um dia sem usar o fio dental? — pergunto.
— Não — ele responde, meio encabulado. — Deve ser genético, eu acho.
Nosso garçom, um jovem louro bem exuberante, que parece ser um artista da Broadway, para ao nosso lado, se apresenta como Tad e pergunta o que gostaríamos de beber. Geralmente, eu não bebo vinho durante o almoço na semana, mas, como ele está bebendo, peço uma taça de Chardonnay.
— Ótimo. Não gosto de beber desacompanhado — Richard diz depois que o garçom se afasta. — A menos que esteja sozinho, é claro.
Eu rio.
Ele ri.
Então, como se quisesse contrabalançar nossa escolha de bebida, Richard entabula uma conversa leve e passa a falar imediatamente de negócios. Nossa lista de publicações do verão, em geral. Um novo autor que acabei de contratar. Uma crítica recente das memórias de Skvarla no Times. (Não que o departamento de publicidade se importe muito com o conteúdo do artigo. Até mesmo uma propaganda ruim é boa publicidade.)
— E a grande novidade é... — Richard diz, como se estivesse salientando a razão do nosso almoço. — Estou prestes a colocar Amy Dickerson no programa The Today Show! — E fez um sinal com os dedos indicador e polegar.
— Você está brincando comigo? — pergunto, embora Michael já tivesse me dado a notícia. É uma grande oportunidade para qualquer livro, mas principalmente para um romance. Mas não era um motivo que merecesse um almoço com o chefe da publicidade.
Richard faz que sim com a cabeça.
— Aparentemente, Katie realmente acha o livro bacana — ele comenta.
Sorrio ao ouvi-lo usar a palavra “bacana”. Richard geralmente usa gírias dos anos de 1970. A maioria das pessoas pareceria fora de moda ou tola ao usar uma gíria de uma geração anterior, mas com Richard é algo cativante. Acho que se você é bonito e bem-sucedido, pode fazer de um tudo, que ninguém liga.
Resisto à vontade de dizer é uma brasa, mora, e cruzo meus dedos, desejando boa sorte.
Tad retorna com minha taça de Chardonnay e dois cardápios. Ele pergunta se queremos saber quais são os pratos do dia.
— Claro — respondemos em uníssono, e então escutamos Tad fazer a descrição mais detalhada de um ensopado de camarões da história mundial. Ben sempre detestou os adjetivos usados para descrever um prato, principalmente as palavras úmida e tenra. Comerciais de biscoitos sempre foram um problema para ele. Repreendo-me mais uma vez: “Pare de pensar no Ben!” e examino o cardápio, tentando encontrar algo que não seja muito difícil de comer. Decido pela salada de atum semicru. Richard escolhe o hambúrguer grelhado. Gosto dessa combinação de hambúrguer com vinho.
— E então, tem lido alguma coisa boa ultimamente? — Richard pergunta.
— Você quer dizer em geral ou está se referindo a manuscritos? — pergunto.
— Os dois — ele replica.
Conto sobre alguns títulos da primeira categoria e alguns projetos da segunda.
— O que mais você tem de novidade para me dizer? — Richard pergunta assim que Tad anota nossos pedidos e se afasta da mesa. Ele me olha com expectativa, como se tivesse sido eu quem havia marcado o “almoço de negócios”.
Tomo um gole do vinho e digo:
— Em relação ao trabalho? — Minha mente repassa rapidamente as várias fofocas da área. Quando estou prestes a perguntar se ele sabe de alguma coisa sobre a autora de suspense Jennifer Coast estar insatisfeita com seu editor na Putnam, se ela está tentando levar seu novo manuscrito para outra editora, Richard balança os ombros e recosta na cadeira.
— Ou qualquer outro assunto. — Sua menção a qualquer assunto revela que esse almoço não tem nada a ver com negócios.
Penso cuidadosamente na minha resposta, sentindo como se tivesse chegado a uma encruzilhada. Como naquele tipo de livro de aventura de que eu gostava tanto quando estava no Ensino Fundamental. Poderia tranquilamente escolher conversar sobre os boatos de Jennifer Coats ou voltar à discussão para falar sobre a participação de Amy Dickerson no Today Show.
Em vez disso, levanto a mão esquerda e mexo meu dedo anular, falando sem rodeios:
— Acabei de me divorciar.
Richard parece surpreso e eu espero que ele não banque o desentendido e finja que não sabe de nada. Mas, pensando bem, acho que ele ficou surpreso por eu contar algo tão pessoal assim, logo de cara. Eu mesma me surpreendi.
Richard brinca com o lóbulo da sua orelha e diz:
— Eu soube. Sinto muito.
Penso em dizer “Tudo bem”, mas sempre detestei quando as pessoas respondem assim depois que ocorreu uma morte ou algum evento triste em suas vidas. No fim das contas, não está tudo bem. Então, respondo:
— Obrigada. Acontece.
Richard concorda com a cabeça enquanto gira o vinho em seu copo. Ele toma um longo gole, e então diz:
— Pelo menos com metade deles, é o que dizem.
— Isso mesmo — concordo. — Estranho que você nunca tenha participado desse jogo, não é?
A primeira pergunta íntima foi oficialmente feita.
Richard dá uma risada.
— Essa você acertou.
— Já chegou perto alguma vez? — pergunto.
Segunda.
— Claro.
— Quão perto?
Terceira.
— Para falar a verdade, não cheguei muito perto.
Richard cumprimenta alguém do outro lado da sala com um aceno rápido. Penso em virar para trás para ver quem é, mas não quero ser pega em flagrante. Como se Richard tivesse adivinhado o que eu estava pensando, ele diz:
— Jason Saul.
Olho para ele confusa e ele explica:
— Um cara que trabalha no marketing? Com uma barbicha?
— Ah, sim! — digo. — Na verdade, é um cavanhaque. Não uma barbicha.
— Qual a diferença?
Descrevo a diferença, apontando para o meu queixo. Richard concorda com a cabeça, o que indica que esclareceu sua dúvida. Lembro da minha história favorita em relação a pelos faciais. Anos atrás, Michael estava competindo com um cara do escritório sobre qual dos seus bigodes crescia mais rápido. Michael estava perdendo feio e, para demonstrar a questão na hora do almoço, ele apontou na direção de uma garota chamada Sally, que, na verdade, era um pouco apaixonada por ele, e disse: “Até mesmo a Sally ganha de mim nesse quesito”. Ele estava tentando ser engraçado, mas, infelizmente, Sally era uma morena de ascendência italiana que realmente depilava o buço. Sally se sentiu horrorizada e humilhada, assim como Michael se sentiu ao perceber o que tinha acabado de falar. Conto essa história agora para Richard e ele ri.
— Sally ainda trabalha lá? — Richard pergunta.
— Não. Ela saiu pouco tempo depois. Acho que ficou traumatizada.
Richard balança a cabeça e comenta:
— Então, sobre o que mesmo estávamos falando?
— Por que você nunca se casou? — pergunto.
Quarta.
— Quando encontrar alguém de que eu goste de estar perto, mais do que eu gosto de ficar sozinho — ele diz —, aí, eu me caso.
Dou uma risada e lhe digo que essa era a minha filosofia até encontrar Ben.
— E o que aconteceu? Descobriu mais tarde que preferia sua própria companhia à dele?
Quinta.
— Não exatamente... Só... diferenças irreconciliáveis.
Richard faz uma pausa, como se considerasse o que dizer em seguida. Então, ele faz um sinal para o garçom e pede outra taça de vinho.
Decido contar a verdade.
— Eu não queria ter filhos. E ele queria.
Talvez eu devesse mandar fazer uma camiseta com essa frase. A maioria dos divórcios não costuma ser tão fácil de ser explicada.
— Vocês não deveriam ter discutido isso durante o período do namoro? — ele pergunta com delicadeza.
— E discutimos. Ele voltou atrás no que tínhamos combinado. Agora ele quer filhos. Ou pelo menos um. Um a mais do que eu quero.
— Cretino.
Dou uma risada. Gosto do som da voz dele chamando Ben de cretino.
Tad retorna com o vinho de Richard. Então, aqui estamos, bebendo várias taças de vinho durante o almoço, enquanto conversamos sobre meu divórcio e seu perpétuo estado de celibatário. E talvez ele esteja pensando a mesma coisa, pois as barreiras se romperam e, de repente, estamos fazendo perguntas íntimas e pessoais demais. A certa altura, pergunto:
— Então, fiquei sabendo que estou na sua lista e na do Hannigan?
— E eu soube que estou num dos primeiros lugares da sua há mais de treze anos.
Digo, zombando:
— Aquele Michael é tão fofoqueiro quanto uma mulherzinha!
— Isso é verdade, então?
Meu coração dispara quando respondo que sim, é verdade.
— Estou lisonjeado — ele diz.
— Deveria mesmo — respondo.
Ele se curva em minha direção e toca a base da minha taça.
— Pode acreditar, estou lisonjeado mesmo.
Tento não afastar meu olhos dos dele quando me inclino sobre a mesa e toco em sua taça.
— Eu também.
Terminamos nosso almoço tagarelando e rindo. E, seguindo a sugestão de Tad, o garçom, concordamos que uma xícara de café era uma ótima ideia. Quando a conta chega, Richard a pega e diz que vai colocá-la como despesa da empresa.
— Já que conversamos muito sobre negócios... — digo.
— Certo — Richard concorda.
Sorrio, me sentindo animada e relaxada, sinal de um bom encontro. Que é o que essa situação toda está começando a parecer. E embora eu só reconheça isso mais tarde, depois que caminhamos de volta para o escritório e eu tive de me concentrar muito para checar um manuscrito revisado, foi a primeira vez, depois de muito tempo, que fiquei pensando num outro homem. Um outro que não fosse Ben.