Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 21 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 20

C A P Í T U L O

 

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Espero que meu aniversário de 35 anos coloque um ponto final em todo esse papo de bebês e as pessoas queridas de minha vida me deem isso como presente. Em vez disso, nos dias anteriores ao grande marco, Daphne deixa uma mensagem na secretária eletrônica: “Seria maravilhoso retirarmos os óvulos em breve. Poderíamos evitar fazer a amniocentese se realizarmos o procedimento agora!”.

É claro que ela está se referindo ao fato de que a maioria dos médicos recomenda esse exame, a amniocentese, para mulheres com mais de 35 anos e, embora ela queira soar leve e casual, percebo que está falando sério. Apesar de eu estar enlouquecendo com a ideia de lhe doar um dos meus óvulos, estou tendendo a dizer sim. Principalmente porque quero pôr um fim a esse sofrimento de minha irmã, mas também porque não acho que tenha outra escolha. Não consigo nem imaginar como diria não para ela.

Cometo o erro de discutir essa questão com Jess. A pior parte de seu sofrimento já passou depois que foi ao médico e ele confirmou que esses abortos são comuns. O médico também checou seu nível de hormônios e chegou à conclusão de que estava tudo normal. Ele disse que não havia motivos para se preocupar com o futuro. Mas a hipocondria de Jess misturada com as novidades de Daphne a deixou preocupada. Ela começou uma conversa sobre congelamento de óvulos e passou um tempo enorme de seu horário de trabalho me mandando links sobre tecnologias de reprodução inovadoras.

A certa altura, mando um e-mail de volta dizendo que nunca escutei tanta conversa sobre óvulos em minha vida, nem mesmo quando fiquei menstruada pela primeira vez. Assim que apertei a tecla enviar, fiquei preocupada em tê-la ofendido, mas ela me responde de bom humor com um “hahaha”, finge não perceber a crítica e muda de assunto para discutir os planos de meu aniversário. Deixo bem claro para ela (e minhas irmãs) que não quero uma festa, nem festa surpresa nem nada. Digo a ela que gostaria de sair para jantar com um pequeno grupo. Digo a ela os nomes de sempre, menos o de Ben, e acrescento o de Richard.

Quando Jess me pergunta aonde gostaria de ir, digo que ao Babbo, embora esse fosse um dos nossos lugares favoritos, isto é, meu e de Ben. Já passei daquela fase de me preocupar com os lugares a que nós dois íamos sozinhos. Quero ter o direito de ir aonde quiser e com quem quiser na minha cidade. Então, Jess manda um e-mail para Maura e Scott, Daphne e Tony, Annie e Ray, Richard e Michael (que, a não ser por um passeio no elevador certa manhã, não tem passado muito tempo na minha companhia). Todos respondem aceitando, com exceção de Ray. A desculpa dele é que não conseguiram encontrar uma babá. Não acredito nele, há muitas babás em Manhattan, mas, no fundo, fico feliz porque ele não vai estar presente. Prefiro ter apenas Annie como minha amiga. Não quero passar por aquela fase desagradável de transição entre “casais amigos”.

Enquanto isso, Richard está preparando nossa escapada de três dias para um lugar não revelado. Não sei nem se estamos indo para um lugar de clima quente ou fresco, pois ele combinou com Jess para que ela arrumasse minha mala. Pressiono Jess, quero que ela me revele alguma coisa, porém ela fica firme, do mesmo modo com que se recusa a me contar se um filme tem final feliz ou triste. Gosto de estar preparada quando assisto a um filme, de estar com o estado de espírito correto. Fiquei furiosa quando assistimos a Entre dois amores juntas, um filme a que ela já havia assistido antes.

— Você deveria ter me contado que ele morre! — repreendo Jess.

— Mas eu teria estragado a história! — ela reclama.

— Mas se eu quero saber, não vai estragar nada.

Jess não vê as coisas da mesma maneira que eu. Pessoas que gostam de surpresas querem que você goste de surpresas também.

Então, a única coisa que ela me conta sobre minha viagem com Richard é que ele está me levando para “um lugar muito legal”.

— Eu já estive lá? — pergunto.

Ela diz que não. Então, me diz que, se eu tive que me separar de Ben, pelo menos eu o substituí por alguém legal como Richard.

— Ninguém está substituindo Ben — afirmo.

Jess me olha de um jeito que demonstra não estar muito certa disso.

— Acho o Richard um gostosão. Adoro sua voz grave... — e ela tenta imitá-lo dizendo: — “E, Jess, hum, não se esqueça de colocar o vibrador dela na mala!”.

— Cresça, Jess — digo.

— Cresça você — ela diz, sua resposta favorita desde a época da faculdade.

“Só uma de nós duas quer ser mãe”, penso.

Na noite do jantar, Richard se oferece para pegar Jess e eu. Agradeço, mas digo que nos encontraremos com ele no restaurante. Ele diz que tudo bem e anota meu primeiro pedido de bebida pelo telefone, o que eu acho muito delicado da parte dele.

Algumas horas mais tarde, Jess e eu estamos prontas e lindas em nossos vestidinhos pretos. Estou usando os sapatos que ganhei de aniversário novamente. Pegamos um táxi para o centro da cidade e descemos na esquina da Sixth Avenue com a Waverly Place. É uma noite fresca de setembro e me arrependo de não ter trazido um xale, enquanto caminho meio quarteirão em direção ao Babbo.

— Está mais frio do que imaginava — digo, tremendo.

— Você está nervosa? — Jess pergunta, num tom brincalhão. Ela sabe que sempre sinto frio quando estou nervosa. — Sobre o Richard conhecer todo mundo?

— Talvez esteja um pouquinho — admito. — Quero que você, Maura e Daphne gostem dele.

Assim que termino de falar isso, fico pensando por que é tão importante para mim a aprovação delas. Talvez seja uma questão de orgulho. E também não quero que ninguém fique sentindo a falta de Ben.

— Bom, já adoro a voz dele. Além do quê, se você gosta dele, eu também vou gostar — Jess afirma.

Fico pensando que o contrário nem sempre é verdade, mas evito fazer qualquer comentário sobre o cretino. Já faz quase uma semana que não falamos sobre ele e não quero estragar tudo. Até onde sei, ele ainda nem ligou para ela.

— Obrigada, Jess — digo, enquanto outra pontinha de preocupação me incomoda num cantinho de meu cérebro, algo que não consigo identificar com facilidade. Talvez eu esteja perturbada, pois havia imaginado meu aniversário de 35 anos de um jeito diferente. Havia imaginado estar sozinha com o Ben em algum lugar, um jantar para dois. Ou, pelo menos, imaginava que Ben estaria presente.

No entanto, quando entramos naquele ambiente alegre e vejo minha família e meus amigos reunidos no bar, em roupas de festa e animados, minha angústia se dissipa e eu penso “Azar o seu, Ben”.

— Oi, pessoal! — digo, e dou um beijinho em cada um.

Deixo Richard por último e beijo-o na boca, o que Michael acha engraçado, dá uma risadinha safada e balança a cabeça.

— Não acredito que você acabou de beijar o meu chefe... — ele sussurra no meu ouvido. E, então, completa: — É melhor me arrumar um aumento.

Richard me serve uma vodca com tônica, o que não passa despercebido por minhas irmãs e Annie.

Sorrio e digo:

— Ele havia me perguntado o que eu queria antes. — É o típico gesto de cavalheirismo que deixa as outras mulheres com inveja, especialmente aquelas casadas com homens como Scott, que, como de costume, estava falando ao celular. Pergunto se todos já se conhecem. Sim, Michael se incumbiu de fazer as devidas apresentações. Conversamos um pouco até nossa mesa no segundo andar estar pronta.

Vamos para o andar de cima e eu me sento entre Richard e Michael. Jess se senta na minha frente e se responsabiliza pela carta de vinhos e por dar início a alguma conversa, duas coisas nas quais ela é excelente. Depois de expor sua seleção de vinhos para todo mundo, e todos a aprovarem, ela diz:

— Então, Richard, gosto de você. — Dá uma olhada em volta da mesa e diz: — O que vocês acham do novo namorado da Cláudia?

Michael diz:

— Ele é um chefe incrível. Muito justo.

Todos riem.

Daphne e Maura sorriem para Richard do mesmo modo, como se quisessem dizer “Ainda não sabemos se aprovamos você para nossa irmã, mas com certeza achamos você bem atraente”. Maura, principalmente, parece ter gostado do meu novo namorado. Ela gosta de homens sedutores, inteligentes e sexies, e Richard é todas essas coisas. Scott também tem essas três características, e penso que talvez sedutor, inteligente e sexy não combinem muito bem com o status matrimonial. Mas é inútil eu ficar pensando nisso. Afinal, estou apenas me divertindo. E esse jantar é apenas isso. Festa e diversão. Todo mundo animado, a conversa flui naturalmente, muitas histórias engraçadas, boas risadas, excelentes vinho e comida.

Discutimos o próximo projeto de Annie de filmar mulheres no Afeganistão. E como vai ser difícil para ela ficar longe de Raymond Jr. Falamos sobre os filhos de Maura e o que eles andam aprontando. E Daphne contas histórias engraçadas dos seus alunos. Ela tem uma história muito divertida sobre um bilhete que interceptou durante a aula de matemática. É claro que ela o leu. Todo mundo sabe que os professores leem os bilhetes que, porventura, caem em suas mãos, mesmo que digam que não.

— O mais engraçado — Daphne diz — é que essa garota, Annabel, é a queridinha da classe, toda certinha, e ela escreveu um bilhete falando sacanagem para esse garoto chamado Josh.

Michael pergunta:

— Sacanagem do 5o ano ou sacanagem direta, daquela universal?

Richard dá uma risada e diz:

— Você está morrendo de vontade de saber, né?

Michael responde:

— Claro! Quero reviver um pouco desses meus dias de juventude.

Daphne diz:

— Bom, primeiro ela diz que quer que ele lhe “toque os peitinhos”... e então informa a ele que seu endereço de e-mail no AOL é Bumbunzão.

Todos gargalhamos.

— Ela tem mesmo a bunda grande? — Annie indaga.

— Tem nada! — Daphne retruca. — Isso que é mais engraçado. Ela é uma garota pequena. Uma coisinha inocente de olhos azuis.

— Mas, aparentemente, com peitinhos deliciosos — Michael diz.

Rimos novamente e eu me vejo sortuda por ter bons amigos e família que me ajudam a suprir o vácuo que a ausência de Ben provocou.

Porém, em determinado momento entre o jantar e a sobremesa, acabamos discutindo filhos (novamente) quando Jess anuncia que vai visitar um banco de esperma escandinavo no centro da cidade.

— Um banco de esperma escandinavo? — Daphne indaga.

— Sim. Todos os espermas vêm de doadores dinamarqueses... O slogan deles é “Parabéns, é um viking!” — Jess explica, rindo. — Eles têm uma propaganda que mostra um bebê se vangloriando de seus ancestrais terem chegado antes de Colombo na América do Norte. O subtítulo diz: “Melhor você construir um berço mais forte”. Isso não é hilário?

Richard, Maura e Michael parecem achar graça; Tony e Daphne parecem curiosos, mas céticos; e Annie aparenta desaprovar. Por acaso, Scott perdeu parte da conversa ao se afastar da mesa porque recebeu outra ligação no celular. Não sei se acho engraçado ou de mau gosto, mas fico um pouco irritada por Jess trazer esse assunto à mesa.

Richard e Michael começam a brincar um com o outro e dizem piadas sobre os nórdicos, algo sobre arenques, Hagar, o Terrível, e Hamlet.

Percebo que o lado feminista de Annie, como estudiosa de gênero e sociedade, está prestes a surgir quando ela diz:

— Jess, você está pensando seriamente em fazer isso?

Jess concorda com a cabeça.

— Claro, por que não? Aliás, esses doadores dinamarqueses são maravilhosos. Eles têm aquele tipo nórdico clássico: alto, atlético, nariz pequeno, olhos azuis, pele clara...

— Então, o que você está buscando é um tipo de bebê geneticamente desenhado? — Annie pergunta.

— Um bebê geneticamente desenhado! — Jess repete intencionalmente, ignorando o tom irônico de Annie. — Sim. Acho que é isso mesmo que eu quero.

Annie continua:

— Você não acha isso antiético?

— Antiético? Por que você acha isso? — Jess pergunta. Percebo que Annie a está irritando, como acontecia na faculdade.

Annie responde:

— Porque é o estereótipo de que uma pessoa com olhos azuis, pele clara e alta é mais valorizada na sociedade. Isso é dar valor às pessoas somente por sua aparência.

— Sim! Isso é uma merda — Michael diz, rindo. — Por que você não verificou o banco de espermas de negros?

Annie ignora a piada de Michael e diz para Jess:

— O que estou querendo dizer é que, agindo desse modo, você está apoiando a engenharia genética. É eugenia!

— O que é eugenia? — Daphne quer saber.

Annie responde:

— É uma filosofia social que defende a reprodução seletiva e aperfeiçoa as características humanas através da intervenção social.

— E qual o problema com isso? — Jess indaga.

— Sim — Richard diz. — Se a gente puder criar pessoas mais inteligentes, dou meu total apoio. São os imbecis que causam muitos dos problemas neste mundo...

— Concordo plenamente — Michael replica. — Os imbecis estão sempre ferrando nosso mundo.

Annie se recusa a aceitar essas brincadeiras.

— Eugenia pode levar à discriminação sancionada pelo Estado... Até mesmo ao genocídio.

— Ah, não seja melodramática! — Jess exclama. — Só porque acho que um bebezinho de aparência nórdica vai ser bonitinho, você fica me acusando de nazista?

— Quanto isso vai custar? — Daphne intervém. Tony olha confuso para ela, como se quisesse dizer “Não tem nada errado com minhas sementinhas, mulher!”.

— Não sei ao certo... provavelmente é bem caro. — Jess fala, levantando os ombros. Dinheiro não é problema para ela. Então, se vira novamente para Annie e diz: — Além do quê, qual a diferença entre você escolher Ray para ser o pai do seu filho e eu escolher Henrik, o dinamarquês, para ser o pai do meu? É uma escolha pessoal. É praticamente a mesma coisa que a seleção natural.

— Bom, para começo de conversa, não escolhi o Ray para ser o pai do meu filho — Annie responde. — Escolhi Ray para ser meu marido. Decidimos ter um filho bem depois disso.

Agora, também fico irritada com Annie. A resposta dela parece me atingir bem no meio do peito. Cruzo meus braços e sinto que estou ficando tensa.

— Bom, algumas pessoas são simplesmente abençoadas e encontram um marido que amam e com quem podem ter um filho do jeito tradicional — Jess diz.

— Isso mesmo! — Daphne diz. — Não vejo problema em usar a ciência para se ter um filho.

— Concordo — Maura diz, e me lança um olhar preocupado como se quisesse dizer “Precisamos proteger nossa irmãzinha aqui”.

Annie argumenta:

— Bom, eu só acho que esse negócio de escolher esperma de viking é assustador.

Fico imaginando se Annie também acha a doação de óvulos entre familiares assustadora. Aposto que sim. Mas também, até eu concordaria. É mesmo um pouco assustador.

— Prestem atenção. Vou resolver esse problema de uma vez por todas — Michael comenta exatamente quando as coisas estão começando a esquentar.

Jess olha para ele e pergunta:

— Como?

Michael ergue as sobrancelhas sugestivamente.

— Vamos lá. Você não preferiria um garotinho cor de caramelo e com olhos cor de mel? — Ele olha para Annie e pergunta: — E eu tenho certeza de que você aprovaria essa miscigenação.

Todos riem, até Annie, enquanto penso “O bom e velho Michael”. Não dá para não amar um amigo que pode desanuviar com tanta graça o clima pesado de um debate ético sobre eugenia.

Maura diz para Jess:

— Acho que você deveria considerar seriamente a proposta dele.

Michael olha em direção a Maura e murmura:

— Obrigado.

Olho para Michael e digo:

— Muito obrigada.

Tenho certeza de que Michael sabe do que estou falando, que eu aprecio o fato de ele ter conseguido mudar o rumo da conversa, pois ele me dá uma piscadinha e diz:

— Não há de quê.

Annie e Jess trocam comentários conciliatórios, como se reconhecessem que, apesar de terem opiniões divergentes, ainda são amigas. Até mesmo a expressão triste de Daphne desaparece quando Tony a segura pelos ombros e sussurra algo em seus ouvidos. Ela sorri. Então, eu sorrio. Sinto que estou novamente relaxada, enquanto mudamos o assunto para algo diferente de óvulos e espermas, e a união programada entre os dois.