Uma prova de amor
Capítulo 31
C A P Í T U L O
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Daphne tenta me convencer a dormir em sua casa, mas digo que tenho muito trabalho a fazer. A verdade é que eu quero continuar minha festa de autopiedade sozinha. Então, nos três dias seguintes, faço exatamente isso. Mergulho numa imensidão de “E se...” e “O que teria acontecido...” e “O que nunca será...”.
A certa hora de cada dia, eu tomava banho, escovava os dentes, mas era só isso que eu fazia para me arrumar. Pedia comida fora, quanto mais gordurosa melhor. Bebi muito vinho e abri as garrafas antes mesmo de escurecer. Fiquei ouvindo músicas tristes ou músicas alegres que me faziam lembrar dele e, portanto, poderiam ser consideradas músicas tristes também. Li jornais velhos. Mexi em todos os nossos álbuns de fotografia e em caixas cheias de contas velhas, ingressos de cinema e teatro e recados casuais que costumávamos deixar no balcão da cozinha um para o outro...
Coisas simples como: “Estarei de volta em uma hora. Amor, Ben”. Revivo todas essas situações, me demorando mais tempo nas mais íntimas, nos momentos mais inconsequentes. O tipo de lembrança que parecia que não iria se esgotar nunca, para Ben e para mim.
Não atendo ao telefone e não saio do apartamento até o domingo à tarde. O jornal local e a paisagem vista da minha janela me informam que o tempo está gelado e úmido, mas, apesar disso, deixo de colocar as luvas, a echarpe ou um boné, e visto apenas uma jaqueta jeans com pelo na gola. Quando as portas antigas do pré-guerra do prédio se fecham às minhas costas, respiro o ar frio. O ar gelado até arde por dentro, mas me revigora. Não tenho um destino programado em minha cabeça, então, caminho pelas ruas vazias da cidade até encontrar um banco no Washington Square Park. Numa mesa ali perto, dois velhos jogam xadrez. Podem ser irmãos, mas talvez eu ache todos os velhos parecidos. De qualquer modo, eles são incrivelmente parecidos, um a cara do outro, ambos com as mãos grossas e manchadas, com quepes marrons, sapatos ortopédicos pretos aparecendo debaixo das cadeiras de montar. Sei apenas os princípios básicos do xadrez, como cada peça pode ser movida, mas finjo contemplar suas estratégias. Franzo as sobrancelhas como se quisesse dizer: “Ah! Boa jogada. Agora você o pegou!”. Eles ignoram seu público de uma pessoa só, o que me faz sentir invisível como o ar e ainda mais desolada. A hora parece passar voando, até que um dos homens finalmente marca sua vitória com um giz branco, uma vitória silenciosa, sem nem mesmo pronunciar xeque-mate.
Levanto-me e caminho para casa na escuridão dos ventos. Só consigo pensar em Ben e Tucker rindo juntos em algum lugar quentinho e claro, curtindo seu noivado.
Naquela noite, pego o telefone para ligar para ele e cancelar nosso almoço. Preparei uma desculpa do tipo “surgiu algo no trabalho...”. Talvez até use a expressão que Jess usa no seu mundo de finanças: “tenho que apagar um incêndio”. Lembro-me de uma vez que Ben zombou dela dizendo: “isso é um insulto para os bravos homens e mulheres do nosso corpo de bombeiros”. Ou então: “Não fique zombando do Charlie desse modo”, se referindo ao meu namorado do tempo da escola.
Em meio à discagem, no entanto, eu desligo, decidindo esperar até de manhã para fazer a ligação final. Não posso arriscar, ele deve estar com Tucker essa noite. Só de pensar que ela pode estar perto dele, sentada a seu lado, perto o suficiente para ouvir minha voz na linha, é demais para suportar. Seria acrescentar insulto a uma injúria, se é que dá para chamar o que estou passando de simples injúria.
Depois de algumas horas sem saber o que fazer, estou na cama tentando dormir. Quando estava começando a cair no sono, escuto Jess e Michael voltando de viagem, rindo de um jeito gostoso, como só os novos amantes são capazes. Eles ainda estão naquela fase do relacionamento quando brincadeiras entre os dois surgem o tempo todo. Coloco um travesseiro sobre a cabeça e digo a mim mesma que Tucker não pode ser divertida, além de tudo o mais. A vida não é equitativa, mas descobri que Deus faz o possível para separar humor e cabelo bonito. Esse deve ter sido meu último pensamento antes de dormir, porque acordo depois de ter tido um sonho com Tucker. No sonho, eu procuro novamente o nome dela no Google e descubro que ela está fazendo uma apresentação de stand-up no Village, aos sábados à noite. De acordo com as críticas quatro estrelas, sua performance inclui piadas hilárias sobre maternidade e seu devotado marido.
Ainda está escuro, então, acho que devam ser umas 2 ou 3 horas da madrugada. Olho no relógio e vejo que já são 5 horas. Se ainda fossem 4 horas, eu ficaria um pouco mais na cama, mas às 5 já está na hora de começar o dia.
Levanto-me e tomo um banho quente e longo. Eu me visto como se não fosse cancelar meu almoço com Ben. Gosto de depilar minhas pernas antes de um primeiro encontro, apesar de saber que tirar a roupa está fora de cogitação. E se eu não conseguir falar com ele ao telefone? Não posso deixá-lo esperando no restaurante. Ou essa é uma parte de mim que quer vê-lo, não importa quais sejam as circunstâncias?
Então, visto meu melhor conjunto e saltos bem altos. Seco meu cabelo impecavelmente e passo maquiagem com o maior cuidado. Ponho batom vermelho, pois batom vermelho sempre faz a gente se sentir mais segura. Como toque final, coloco o anel do Richard em meu dedo. Sei que estou bonita, o que Jess e Michael confirmam assim que saio do meu quarto.
— Caramba, garota! — Michael comenta ao levantar os olhos de sua tigela de cereais. — Você está ótima!
Jess me abraça e diz:
— Sim. Pelo menos você está indo com todas as suas armas.
Seu comentário não me passou despercebido. Apesar da conversa de acabar com o noivado de Ben, parece que minha amiga está começando a pendurar a chuteira. Imagino o que mudou durante o feriado. Talvez tenha sido passar esse tempo junto de Michael e imaginar Ben fazendo a mesma coisa com a família de Tucker.
— Obrigada, Jess — digo.
Ela me lança um olhar pensativo e diz:
— Seja forte.
Michael concorda com a cabeça e faz eco às suas instruções. Eles estão de acordo em tudo. Penso que, com o tempo, os dois vão até começar a ficar parecidos um com o outro. Seria um acontecimento num casal birracial, mas não duvido de nada com relação a esses dois.
Vou direto para o trabalho e prometo ligar para Ben lá pelas 10 horas. No entanto, a manhã foi uma loucura e eu fiquei realmente apagando incêndios. Então, lá pelas 11 horas, eu ainda não tinha ligado para ele. Reconheço que cancelar em cima da hora é uma grosseria e que preciso ser superior e uma boa jogadora. Preciso chegar na hora, olhá-lo bem nos olhos e parabenizá-lo pelo seu noivado. É isso o que eu vou fazer.
Então, quarenta e cinco minutos mais tarde, estou num táxi indo para o Pete’s Tavern na Irving com a Eighteenth, praticando o que vou dizer: “Parabéns pelo seu noivado, Ben. Estou feliz por você e pela Tucker, e desejo tudo de bom para os dois”. Porém, quando entro no pub, já decorado para as festas de fim de ano, com luzinhas vermelhas, galhos brancos e uma abundância de Papais Noéis, vejo-o lendo um jornal e tudo o que havia ensaiado desaparece de minha cabeça.
Ainda é cedo para a multidão do almoço chegar, por isso, Ben conseguiu arrumar a mesa mais famosa de Nova York, onde O. Henry supostamente escreveu O Presente dos Magos. Enquanto caminho alguns passos até chegar perto de meu ex-marido, lembro-me de um verso da história de O. Henry dizendo que a vida consistia de “soluços, espirros e sorrisos, com os espirros predominando”. Ele com certeza estava certo quanto a isso.
Ben levanta os olhos do jornal e fazemos contato visual, ambos balançamos a cabeça educadamente. Ele dobra o jornal, coloca-o de lado, e eu retiro meu casaco e me forço a me sentar e a dizer olá. Minhas mãos estão tremendo e minha voz não parece minha própria voz.
— Olá — ele diz, num tom que não posso compreender com precisão. Parece triste e feliz ao mesmo tempo. Parece mudado e, ainda assim, parece o mesmo. Seu cabelo está um pouco mais comprido do que jamais vi, mas propositalmente mais comprido, não do tipo que precisa de um corte. Não quero gostar desse seu novo estilo, mas eu gosto. Ele está usando um suéter verde-escuro com capuz, um que ele já tinha antes de me conhecer. Posso imaginar o toque macio do algodão e tenho uma vontade doida de estender a mão e tocar seu braço. De repente, me ocorre que ele não veio do trabalho; o guarda-roupa dele é casual, mas não tão casual assim. Ele está tomando café e sua xícara já está quase vazia. Então, pergunto:
— Há quanto tempo você está aqui?
— Há um tempinho — ele responde.
— Nós marcamos meio-dia, certo? — pergunto.
— Sim, foi isso mesmo.
— Você veio do trabalho?
— Não — ele diz. — Sem trabalho hoje.
Começo dizendo que poderíamos ter nos encontrado num outro lugar, assim ele não precisaria ter vindo do Upper West Side até aqui, mas paro imediatamente quando percebo que Tucker deve morar nessa vizinhança, em Gramercy. Fico calada e digo:
— Está tirando o dia livre!
— Sim — ele diz, enquanto abre um pouco o zíper do suéter, o suficiente para revelar uma camiseta antiga de um show do R.E.M. Sei que ele a comprou na noite em que quase pegou a gaita de Michael Stipe. Sei também que ela tem um furo na manga esquerda, em que eu costumava enfiar meu dedo.
A garçonete chega logo depois que me sento e pergunta se queremos fazer o pedido. Dizemos que sim, embora eu não consiga nem pensar em comida. Ben pede um sanduíche de peito de peru defumado.
— Vou querer o mesmo — digo, pois não escolher nada exige menos esforço do que qualquer outra coisa.
— Algo para beber? — ela pergunta.
— Uma coca, por favor — digo, embora não devesse ingerir cafeína nesse momento.
Ela concorda com a cabeça, pega nossos cardápios e caminha rapidamente, enquanto penso: “E agora?”.
Ben interrompe o silêncio e diz:
— Olha. Eu sei por que você quis se encontrar comigo hoje, Cláudia.
— Sabe? — digo, pensando que nem eu mesma sei por que queria vê-lo hoje. Para dar os parabéns pelo noivado? Ou para convencê-lo a terminar o noivado? Olho ansiosa para ele, esperando que me diga alguma coisa.
— Sim — ele diz, passando a mão pelos cabelos, enquanto abaixa o olhar. — E acho que é muito nobre da sua parte.
— Você acha? — digo, pensando que deve ser a primeira hipótese. Que ele pensa que eu vim aqui para lhe dar minha bênção em pessoa. Que ele pensa que sua ex-esposa é uma pessoa madura e delicada. Digo a mim mesma que tenho que representar esse papel até o fim.
Ben concorda com a cabeça. Então, ele abre totalmente o zíper de seu suéter e o tira. Meu olhos se voltam para o buraco na manga da camiseta, meu conhecido. Consigo abrir um sorriso e digo:
— Bom, obrigada.
Sei que preciso dizer mais alguma coisa, as palavras que sei que ele está esperando que eu diga, mas não consigo dizer nada. Eu simplesmente não posso lhe dar minha bênção e dizer meu último adeus. Em vez disso, consigo balbuciar:
— Quero que você seja feliz.
Ele pode pegar ou largar. É o melhor que consigo fazer.
Um longo silêncio se segue, no qual Ben fica mexendo em um pacote de adoçante e eu coloco meu casaco na cadeira ao lado. Olhamos um para o outro por alguns segundos, e fico chocada por ver o sofrimento em seu olhar.
— Também quero que você seja feliz, Cláudia. De verdade. Mas não posso deixar você fazer isso.
Tento entender o que ele está dizendo, mas suas palavras não fazem sentido para mim.
— Fazer o quê? — pergunto.
— Casar com o Richard — ele diz, apontando o anel na minha mão esquerda.
— O quê? — digo, completamente confusa agora.
A voz dele é baixa e suas palavras saem rapidamente.
— Sei que você veio aqui para me contar que está noiva do Richard. E eu sei que você acha que encontrou algo que nós não tínhamos. A promessa de um tipo de vida que você quer... o tipo de vida que você merece... sei também que agora é tarde demais. Tarde demais. Que promessas foram feitas e muitos caminhos se cruzaram. Mas gostaria de lhe dizer, Cláudia... devo lhe dizer que te amo com todo o meu coração e faria qualquer coisa para tê-la de volta. Não preciso ter um filho. Nem quero um se não for com você... não quero ninguém nem coisa alguma se não tiver você ao meu lado.
Estou chocada e sem fala. Não acredito no que estou ouvindo! São as minhas palavras, as palavras que eu queria dizer a ele, tantas vezes, pelo menos até ver o anel de Tucker. É muita coisa para entender nesse momento, então, começo por uma pergunta simples.
— E a Tucker?
— O que tem ela? — ele demonstra estar tão confuso quanto eu.
— Você não vai se casar com ela?
Ele dá uma risada e diz que não.
— Mas eu vi o anel dela — afirmo.
— Cláudia, ela está noiva de um cara chamado Steve — ele diz. — Um médico que trabalha no mesmo hospital que ela... Por que cargas d’água você achou que eu tinha dado o anel para ela?
— Mas vocês... correram a maratona juntos — digo, me sentindo uma tola por causa de minhas pesquisas ridículas na internet.
— Bom, isso é o que a gente faz com parceiros de corrida — ele explica. — A gente corre maratonas juntos.
Sinto um alívio tão grande, que mais parece pura alegria. É como se eu estivesse sofrendo de uma doença terminal e tivesse descoberto que o diagnóstico estava errado. Eu, afinal de contas, vou viver uma vida longa. Algo escapa de minha garganta, mas não tenho certeza se é um sinal de choro ou de riso. Acho que são as duas coisas.
— Bom. Não vou me casar com o Richard, Ben. Nem mesmo estou namorando ele.
— Não está? — ele pergunta. — Mas a Annie me contou que ele lhe deu um anel.
— É verdade — digo, girando o anel e colocando-o dentro de minha bolsa. Enxugo as lágrimas e completo: — Mas não era um anel de noivado... não era... nada.
Ben abre um largo sorriso e diz:
— Então, espere... Você está solteira?
— Sim — digo. — E você?
Ele faz que sim com a cabeça, ainda sorrindo. Sua expressão fica séria ao tentar alcançar minhas mãos. Eu as entrego para ele. Uma sensação de calor e bem-estar toma conta de mim e me deixa sem palavras. Eu desejo desesperadamente contar a ele que havia chegado às mesmas conclusões que ele chegou sobre nós. Que eu faria de tudo para tê-lo de volta, até mesmo ter um filho. Que eu até mesmo cheguei a querer ter um filho com ele. Que tudo que eu mais quero é dividir minha vida com ele, não importa como.
E vou dizer tudo isso a ele. Logo. Agora, só quero apertar suas mãos e olhar bem dentro dos olhos do único homem que já amei.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, até eu finalmente dizer:
— Não acredito que você esteja solteiro.
— Estou — ele diz. — Mas estou pensando em convidar alguém para sair.
— Ah, é mesmo? — digo, sorrindo. — Quem poderia ser?
— Minha ex-esposa — Ben responde. — Você acha que ela aceitaria?
— Acho que sim — digo. — Acho que ela faria qualquer coisa por você.