Uma prova de amor
Capítulo 21
C A P Í T U L O
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Mais tarde, naquela mesma noite, depois de eu ter agradecido a presença de todos e dito a Richard que o veria de manhã, Jess me chama para o quarto dela e me mostra toda alegre o site de bebês vikings. Quase digo a ela como eu gostaria que não tivesse mencionado nada sobre bebês no meu jantar de aniversário, porém não digo nada. Sei que ela não fez por mal. Ela não consegue deixar de lado sua mentalidade obsessiva, repetitiva.
Ela clica num link que mostra várias fotos de bebês fofos e louros e de olhos azuis, de diferentes doadores. Um deles está chutando uma bola de futebol enquanto sorri para a câmara. O nome dele é Ian Janssen. Lembro quase imediatamente que o sobrenome de Tucker é Jansen, e quando eu noto o segundo “s” no sobrenome de Ian Janssen, ocorre-me que eu deva ter escrito o nome da Tucker errado quando fiz a busca no Google. Vou me lembrar de fazer uma outra busca com o “S” extra.
Então, digo a mim mesma: “Você não vai fazer isso! Não se transforme numa psicótica!”.
Imagino que parte de mim vai ganhar esta batalha: ou meu eu bem ajustado e moderno ou meu lado melancólico, introspectivo, que gosta de ficar rememorando o passado. Infelizmente, não é difícil adivinhar quem vai ganhar.
Na manhã seguinte, assim que Richard chega, numa limusine preta, Jess me entrega a bagagem em sua mala vermelho-cereja enorme que eu adoro. Ela diz:
— Divirta-se. Tenho certeza de que você vai adorar!
Dentro do elevador, abro a mala, dou uma olhada e vejo meu passaporte. Agora, sim, estou animada. Bom, talvez o passaporte esteja ali apenas para me despistar.
Quando entro no carro, Richard me dá um beijo no rosto. Ele parece feliz. Digo:
— Jess me contou para onde estamos indo.
Ele diz:
— E você espera que eu caia nessa?
— Sim? — digo, enquanto tiro meus óculos de sol da caixinha e os coloco.
— Não.
— Vamos pescar no Colorado?
Ele dá uma risada.
— Você não parece o tipo de mulher que adora a vida ao ar livre.
— E não sou mesmo — digo, pensando em todas as vezes que minha mãe me dizia, quando ainda era criança, para tirar o nariz dos livros e tomar um pouco de ar fresco.
— Ótimo — Richard diz. — Porque eu não gosto de acampar. A grama me dá coceira. Então — ele muda de expressão —, você ficou muito irritada ontem à noite? Com todas aquelas conversas sobre filhos?
Penso em desconversar, mas em vez disso respondo:
— Bem irritada.
— Não culpo você — ele diz.
Olho para ele agradecida e, então, digo:
— Certo, para onde estamos indo?
— Não posso falar nada. Mas posso dizer o seguinte: já estive lá algumas vezes e nunca vi crianças nas dependências.
Olho para ele e sorrio, pensando “Isso foi o que há de mais perfeito para se dizer”.
Uma hora depois, estamos no JFK fazendo o check-in na primeira classe no balcão da American Airlines.
— Milão? — digo, depois de receber nosso cartão de embarque. — Amo Milão!
— É bom saber — Richard diz —, mas não vamos para Milão.
Richard mantém seu segredo o voo todo, e bebemos champanhe, comemos, assistimos a um filmezinho romântico com a Kirsten Dunst, e dormimos. Somente após aterrissarmos em Milão, na manhã seguinte, passarmos pela alfândega e pegarmos nosso carro alugado, foi que ele me entregou um cartão-postal de Villa d’Este no Lago de Como. Reconheci a imagem imediatamente. É um lugar que quero conhecer desde que tinha 15 anos e vi um livro de capa dura cheio de fotos de corrida de Helmut Newton tiradas nas dependências de Villa.
Não consigo evitar pensar em Ben, em como o Lago de Como era o local a que tínhamos planejado ir em nosso aniversário de cinco anos de casamento. Nós estávamos “guardando”esse lugar. Parecia especial demais para uma viagem ao acaso. Fiz uma revisão na minha filosofia acerca de guardar as coisas para mais tarde. Não faz sentido. É como minha bisavó cobrir seu sofá novo com plástico e não ter a chance de usá-lo.
Claro que Jess sabia sobre esses planos de aniversário. Então, apesar do fato de Richard já ter estado em Villa d’Este, tenho minhas suspeitas de que existe o dedo dela por trás dessa escolha. Só fico pensando se ela foi aberta com Richard ou o manipulou. Ela é bem capaz de ambas as coisas. Chego à conclusão de que seria grosseria de minha parte fazer essa pergunta, então, sorrio e digo:
— Vamos para Villa d’Este?
Ele concorda com a cabeça e parece satisfeito consigo mesmo. Então, ele diz:
— Jess falou que você nunca esteve no Lago de Como.
— Nunca — respondo.
— Precisava consertar isso. É o céu na Terra. Como Shelley colocou: “Esse lago supera qualquer coisa bela que eu já tenha visto”.
Sou uma boba com homens que recitam frases ou versos, e me sinto corar ao dizer:
— Isso é muito generoso.
— Bom, não é nada altruísta. Afinal, estou indo com você — ele diz. Então, ele mostra uma janela no terceiro andar de frente para o lago e complementa: — E pretendo trepar com você naquele quarto.
Olho para ele, pensando que se Ben tivesse dito que iria trepar comigo em algum lugar, teria soado meio grosseiro, sem amor. Com Richard, soa sexy. Imagino o porquê, mas não chego a uma conclusão.
Minutos depois, estamos dirigindo por entre as colinas italianas. Tudo é tão lindo que eu nem sei para onde olhar.
— Você não adora saber que está na Itália? — pergunto para Richard.
Ele concorda com a cabeça e diz:
— É bem melhor do que Jersey.
A viagem é incrivelmente curta, menos de uma hora, e chegamos a cidadezinha de Cernobbio. Exatamente nos arredores da cidade está nosso glamoroso hotel. Richard para o carro em frente ao prédio e um homem baixinho, bem vestido e de bigode abre minha porta antes que eu perceba. Enquanto ele se inclina para me cumprimentar, me passa pela cabeça que minhas expectativas são altas demais e que o Lago de Como não vai corresponder a elas. No entanto, em segundos, fico aliviada ao perceber que algumas coisas são mesmo boas demais. A construção e os jardins são de tirar o fôlego. Tudo parece um sonho. Digo isso a Richard e então penso que nunca havia usado essa expressão antes, “um sonho”, a menos que estivesse zombando de alguém ou imitando a Marcia Brady.
Nós nos encaminhamos até a recepção do hotel e Richard dá um olá bem forte em inglês para todo mundo. Gosto de ver que, apesar de estarmos num dos hotéis mais elegantes do mundo, ele não muda seu jeito de ser: amável, despretensioso e um pouquinho impertinente. Em contraste, meu comportamento muda em hotéis e restaurantes. Não consigo deixar de usar um tom de voz mais baixo e manter minha postura correta.
Quando estamos preenchendo as fichas, Richard olha para cima e comenta:
— Dá uma olhada nisso.
Olho para o alto e murmuro:
— Ahhhhh... Lindo.
De repente, sinto falta de Ben, como sempre acontece quando vejo uma construção bonita ou me lembro de algum termo de arquitetura que ele me ensinou, expressões como mirante das torres, ornamentos de flor-de-lis, bordas entalhadas, arcos Mary Hart, arabescos, abóbadas com afrescos e molduras pescoço de cisne. Imagino como ele adoraria esse hotel e todos os detalhes elaborados. Talvez ele venha aqui em sua lua de mel. Pode tentar ter um filho durante sua estadia aqui.
Somos conduzidos até o quarto por uma linda jovem, daquele tipo que você não consegue deixar de olhar e certamente não pode culpar seu namorado por olhá-la. O que eu pego Richard fazendo, enquanto ela mostra o minibar, as persianas automáticas e o cofre. Então, ela finalmente se despede, sorri e vai embora. Quando a porta se fecha atrás dela, digo:
— Bom, ela era um tribufu.
Richard dá um sorrisinho sarcástico e diz:
— Era mesmo? Nem percebi.
Não sou do tipo ciumenta, mas olho para ele como se fosse. Ele me olha de volta de um jeito intenso. Digo:
— Ah, é mesmo?
Ele diz:
— Venha aqui!
Depois de fazermos sexo, cochilamos por umas duas horas. É um sono revigorante, daqueles que a gente só consegue depois de uma longa viagem de avião ou depois de ter estado doente por um período. Quando acordamos, Richard diz:
— Você acha que está muito frio para irmos à piscina?
— Um pouco — digo. — Mas vamos assim mesmo.
Troco de roupa no banheiro, pensando em por que quero privacidade para me trocar com um homem com quem já me deitei por pelo menos umas vinte vezes. Claro que eu levei três anos para conseguir fazer xixi na frente de Ben e no começo eu tinha que abrir a torneira ou fazê-lo ficar cantando em voz alta, então, acredito que minha firula agora faz sentido. Procuro na minha mala e felizmente descubro que Jess empacotou minhas roupas de praia mais lindas: o biquíni vermelho que usei da última vez com Ben em St. John. Passa pela minha cabeça que não o lavei à mão quando retornei da viagem. Então, isso quer dizer que ele ainda guarda um pouco do Caribe. E talvez até mesmo um pouquinho de Ben. Coloco-o junto ao meu rosto e respiro fundo, mas ele simplesmente tem o cheiro de roupa de banho que esqueci de lavar. Mas talvez seja porque o cheiro da colônia de Richard ainda esteja no meu nariz.
Richard e eu passamos a tarde deitados nas cadeiras de madeira, à beira da piscina mais linda que já vi na vida: um retângulo de águas azuis se mesclando diretamente com o lago azul-marinho. Os hóspedes são elegantes e mais velhos, e Richard estava certo, não havia crianças. Tomo alguns goles de uma limonada gelada enquanto trabalho um pouco. Geralmente me recuso a trabalhar nas férias ou feriados, mas nesse fim de semana não vai dar. Há um manuscrito que tenho que devolver ao autor no dia em que chegar. A certa altura, dou uma risada e bato nas páginas com a minha caneta.
— Tão bom assim? — Richard pergunta.
Concordo com a cabeça que sim. Ele sorri maliciosamente e diz:
— Você tem faro para talento.
Não sei dizer ao certo se ele está se referindo a si mesmo. Então, apoio minha mão no peito dele, pisco e digo:
— Sim. É claro que tenho.
Ele se curva, me dá um beijo enquanto penso “Não sinto falta de Ben. É aqui que quero estar. Mas também deve haver algo de errado com uma pessoa que esteja na beira do Lago de Como e queira estar em algum outro lugar. O verdadeiro teste de um relacionamento deveria ser: Estou feliz neste Motel 6 em Little Rock?”.
Depois do almoço na piscina, jogamos tênis numa quadra de saibro, no alto de uma colina que tem vista para o hotel e para o lago. Digo a ele que é um desperdício estarmos jogando tênis num cenário como esse. Deveríamos apenas nos sentar e admirar a paisagem. Ele diz:
— Pare de enrolar. E prepare-se para aprender alguma coisa.
— Até parece.
E é verdade. Os anos que tive de aulas de tênis valeram a pena. Estou jogando bem melhor que Richard. Ele erra o saque por completo, a bola pula e bate. Dou uma risada e comento:
— Você não sabe dar um saque?
Ele grita:
— Sou jogador de beisebol, meu bem.
Retorno a bola com força. Ele rebate e perde. A bola bate no chão.
— Dentro — digo. — Amor, quinze!
Ele retruca:
— Você acabou de dizer que me ama?
Penso, “Ainda não”, mas respondo:
— Hum-hum.
— Ótimo — ele grita. — Ti amo, anche.
Não sei italiano, mas posso adivinhar o que ele acabou de dizer.
À noite jantamos no terraço. A temperatura caiu um pouco, mas Jess havia colocado na mala uma pashmina de cashmere azul. Richard está usando um paletó esportivo e ainda se parece mais com um belo cowboy do que um homem de negócios bonito. Entabulamos uma de nossas discussões favoritas: quem sabe sobre a gente no trabalho?
Geralmente Richard tenta adivinhar baseado em conversas nos elevadores e no horário do almoço. Hoje à noite, ele diz:
— Todo mundo sabe.
— Não...Você acha? — falo, fingindo espanto. Eu contei apenas para Jacqueline, que jurou manter segredo, mas, no fundo, quero que todo mundo saiba. Tenho orgulho de estar saindo com Richard.
Ele faz que sim com a cabeça.
— Todo mundo sabe.
— Ninguém me disse nada — digo.
— Ninguém também me disse nada.
— Então, como você sabe que as pessoas sabem?
— Não sei explicar... acho que as pessoas geralmente não comentam algo que parece ser um caso.
Concordo, dou uma garfada no meu nhoque e analiso as palavras dele: “algo que parece ser”. Isso significa que estamos tendo algo mais sério do que um casinho? Ou significa que estamos mesmo tendo um caso? Ainda estou tentando entender o que ele disse ao voltarmos para o quarto e fazermos sexo novamente, daquele jeito bruto, que quase machuca. Algum tempo depois de dizermos boa noite e nos afastarmos um do outro para dormir, ainda não sei o que ele quis dizer. Digo a mim mesma que isso não importa. As coisas são como são. Nós somos o que somos.
O dia seguinte é tão maravilhoso quanto o primeiro, e Richard e eu provamos que somos especialistas em ficar no ócio, comer, beber e fazer sexo. No final da tarde, fazemos um passeio de barco de duas horas no lago, passando pela casa de George Clooney e a Villa de Versace; só de ver esses pontos de referência me faz sentir rica e famosa também. Paramos na pitoresca cidadezinha de Bellagio, conhecida como a “pérola do lago”, onde compro uma bolsa de couro e Richard escolhe um par de sandálias feito à mão. Na viagem de volta, Richard puxa papo com vários outros hóspedes do hotel. Ele é daquele tipo de pessoa que faz amizade com todo mundo, onde quer que esteja. Chego à conclusão de que essa é uma das suas melhores qualidades.
Acordo no nosso terceiro e último dia na Itália, que, na verdade é o meu aniversário, e penso “Estou com 35 anos. Estou bem perto dos quarenta”. É a primeira vez na minha vida que me sinto velha e a sensação não é muito boa.
Viro-me na cama e vejo que Richard já acordou e está lá fora, no terraço, lendo jornal e tomando café. Ele está usando um roupão atoalhado branco e, por algum motivo, me faz lembrar de Richard Gere em Uma linda mulher. Ambos os Richards ficam maravilhosos de roupão branco.
Saio da cama e vou para o banheiro escovar os dentes e pentear o cabelo. Saio do banheiro com meu roupão de seda azul. Richard dobra o jornal, coloca-o sobre a mesa e se levanta para me dar um beijo no rosto.
— Bom dia! — ele cumprimenta vivamente.
— Bom dia — digo, olhando a neblina que cobre o lago. — Que dia lindo!
— É verdade — Richard comenta. — Um dia perfeito para um aniversário.
Sento-me e sorrimos um para o outro.
— Café? — ele pergunta.
Digo que sim e ele despeja o líquido quente de um bule pequeno na minha xícara de porcelana. Então, aponta para uma cesta na bandeja de prata e diz:
— Café da manhã europeu. Você está com fome?
— Na verdade, não — digo. — Ainda não.
— Coma pelo menos um bolinho — ele diz, insistindo. — Você precisa se alimentar.
Dou de ombros e então abro o guardanapo e descubro uma pequena caixinha escondida entre um muffin e um croissant. É com certeza a caixa de um anel. Sinto-me desconfortável. A última vez que ganhei um anel foi quando Ben me pediu em casamento. Pensei que a viagem já tivesse sido um presente.
— Olhe só o que tem aí! — Richard exclama.
— Você não deveria — comento, e realmente estou sendo sincera.
Ele faz um sinal com a mão dizendo que não tem importância e diz:
— Abra.
Retiro a caixa do meio dos pães e a abro. Dentro, há um anel enorme com pedras verde e rosa incrustadas em ouro. É o tipo de anel de festa que eu admiro em outras mulheres, mas nunca pensaria em comprar para mim.
— Uau! — exclamo, colocando-o no meu dedo anular da mão direita. Ele serve direitinho, graças à Jess, tenho certeza. — É maravilhoso!
— Você é maravilhosa! — ele diz, segurando minha mão e beijando-a num estilo hollywoodiano.
Agradeço a Richard, tanto pelo anel quanto pelo elogio. Mas não consigo deixar de ficar irritada com as duas coisas. É um exagero. Maravilhosa não é um elogio que se aplica a mim. Sou bem atraente. Às vezes chego até a ficar bonita, com as roupas e a maquiagem certas. Mas não sou maravilhosa e não acredito que Richard ache que eu seja. Pela primeira vez olho para ele e não vejo sinceridade. Não consigo deixar de pensar em quantas mulheres ele chamou de maravilhosa. Tenho certeza de que o número vai para a casa dos três dígitos.
— Você não deveria — digo novamente. Não tenho mais nada a dizer.
— Eu queria lhe dar isso, não é nada demais.
Olho para ele e vejo que está falando a verdade. Não é realmente grande coisa para ele. O anel. Villa d’Este. O sexo. Eu. Nada é grande coisa. Sempre soube disso. Sabia que tudo isso faz parte do estilo de vida pomposo de Richard. E achei que era o estilo de vida que eu também queria.
Apesar de saber de tudo isso, em algum lugar, ao longo do caminho que venho seguindo, acho que esperava algo mais, talvez nessa viagem de aniversário. Talvez esperasse encontrar em Richard o que eu tive com Ben. Mas, de repente, tudo ficou muito claro: Richard não está se apaixonando por mim e eu não estou me apaixonando por ele. Não estamos construindo nada de permanente ou especial. Estamos apenas nos divertindo juntos. É um casinho, exatamente como ele disse na noite passada, um caso com o final ainda não determinado. Sinto-me aliviada por tê-lo definido agora. Aliviada por nós dois pensarmos do mesmo modo. Porém, sinto um desapontamento profundo. Por mim mesma e pelo modo como minha vida está se desenrolando. Um raio de sol bate no meu anel e reflete a luz nas pedras enquanto penso. Talvez seja mais parecida com Richard do que com Ben. Estou aqui porque sou igual a Richard, não a Ben.