Uma prova de amor
Capítulo 18
C A P Í T U L O
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Jess está com sua menstruação atrasada três dias e está começando a sentir uma mistura de pânico e júbilo. Conheço todos os “medos” de Jess de ficar grávida. Ela já passou por isso pelo menos uma centena de vezes desde que a conheço. Na verdade, essa foi uma das primeiras conversas que tivemos no banheiro da faculdade quando ainda éramos calouras. Ela saiu de uma das cabines pulando, erguendo um dos punhos em sinal de vitória e anunciou “Fiquei menstruada!”. Ri e lhe dei os parabéns, fascinada com aquela garota que conseguia ser tão espontânea com uma estranha.
Desde aquele encontro em Princeton, Jess tem tomado pílula, no entanto frequentemente se esquece de tomá-la. Ela, então, olha para a caixinha de pílulas e exclama um “Droga! Que dia é hoje? Quarta-feira?”. A última pílula tomada está no espaço marcado “domingo” e ela engole três pílulas de uma vez só. Sempre digo a mesma coisa a ela: “Tome na mesma hora, todos os dias. Coloque a cartela ao lado de sua escova de dentes. Deixe um bilhete no espelho”.
Mas ela não faz nada disso. Ou não quer fazer. Carrega a cartela na bolsa e se esquece das pílulas quando troca de bolsa. Às vezes, até se esquece de pegar a receita. Ela diz que “está dando uma folga para seu corpo’’.
Acho que subconscientemente, ou mesmo conscientemente, Jess gosta de viver esse drama. Não há outra explicação para uma mulher tão inteligente se arriscar tanto. Deve adorar nossa conversa sobre o que ela (nós) fará se dessa vez estiver grávida. Será que vai ter o bebê? Será que vai fazer um aborto? Será que vai ter o bebê e depois entregá-lo para adoção? A resposta varia de acordo com o cara com quem ela está no momento, do período que está vivendo ou do vento.
Mas dessa vez há algo diferente. Parece que Jess quer um filho. Ou quer apenas ficar com Trey. Ela continua a se esquivar de uma confissão, mas tudo indica que tentou ficar grávida. Aparentemente se “esqueceu” de contar a Trey que não havia renovado sua receita da pílula. E ela tem “praticamente certeza” de que transou com ele no décimo quinto dia de seu período fértil.
Ela acredita, de verdade, que Trey vai ficar com ela se estiver grávida de um filho dele. Eu, por outro lado, tenho certeza absoluta de que Trey não vai a lugar algum. Ele não vai abandonar sua esposa. Nem mesmo vai contar a ela. Na verdade, se depender da sorte da Jess (embora seja difícil se falar em sorte com alguém tão autodestrutivo quanto ela), a mulher dele também vai ficar grávida. Posso até imaginar os dois bebês nascendo no mesmo mês ou no mesmo dia. Vão crescer separados, sem saber da existência um do outro. Ou pelo menos o filho legítimo de Trey não vai nem ter conhecimento de que seu pai tem uma filha ilegítima. Jess só vai contar toda a verdade para sua filha quando ela tiver idade para entender (e vamos discutir que idade é essa por muitos anos). Os irmãos estudarão na mesma escola e se encontrarão no primeiro ano da faculdade, na aula de redação. Ele vai se apaixonar por ela, e, então, Jess será forçada a revelar a verdade sobre o pai deles.
Nada disso me surpreenderia. Nada me surpreende quando a história tem Jess como protagonista.
No terceiro dia de atraso da menstruação de Jess, fomos jantar sushi no Koi, um restaurante na Second Avenue bem perto do apartamento dela. Era noite de sexta-feira, tínhamos planejado sair separadas, mas eu estou cansada demais e Jess não tem interesse em ir para uma boate, pois não pode beber.
— Vamos lá, Jess! Você acha mesmo que está grávida? — pergunto enquanto separo meus hashis.
Jess começa a enumerar os sintomas. Diz que está exausta e inchada. Seus seios estão pesados e doloridos. Ela diz que sente. Ela sabe.
Olho para ela pensando que já ouvi tudo isso antes. Digo:
— Em primeiro lugar, você sabe que esses são os sinais pré-menstruais. Em segundo lugar, você é uma hipocondríaca que quer ficar grávida. É claro que você está sentindo todos esses sintomas.
— Não sou hipocondríaca! — Jess contesta, indignada.
— É sim! — digo. — E aquela vez em que fomos acampar e você sentiu que havia contraído a Doença de Lyme? Você chegou a entrar num grupo de apoio às vítimas da doença!
— Sim, eu estava com todos os sintomas — ela diz. — Foi tão estranho...
— Você achou que estava com aqueles sintomas.
Ela passa o guardanapo delicadamente sobre os lábios e diz:
— Bom. Acho que devo fazer um teste de gravidez quando acabarmos o jantar.
Suspiro e digo:
— Quantos dólares você acha que já gastou com testes de gravidez?
— Estou falando para você que desta vez é diferente!
— Certo — digo. — Então, me diga: o que você vai fazer se estiver grávida e o Trey não se separar da esposa?
— Ele vai se separar.
— E se ele não se separar?
— Ainda assim terei o bebê — ela afirma, enquanto mergulha um pãozinho no molho de soja. Ela tinha acabado de anunciar que não iria mais comer peixe cru. Caso estivesse grávida. — Seria simplesmente mãe solteira. Muitas mulheres são.
— Você continuaria a trabalhar em tempo integral?
— Claro que sim. Adoro meu trabalho.
— Então contrataria uma babá?
— Ou duas — ela fala.
Eu quase digo “Para que ter filhos, então?”, mas algo me impede de dizê-lo. Alguma coisa dentro de mim me diz que a última coisa que eu poderia fazer era criticar alguém no que diz respeito a filhos.
A caminho de casa, Jess passa em uma farmácia e compra um teste de gravidez. Ela lê a caixa e me avisa que vai esperar para fazer o teste de manhã, pois, de acordo com o que está escrito, os resultados são mais precisos. Olho para ela, cética, sei que nada nem ninguém poderia impedi-la de fazer o teste naquela noite. Na verdade, aposto que ela não vai aguentar esperar nem uma hora.
Começo a pensar que talvez eu esteja errada, quando a ouço falar ao telefone, usando o linguajar dos investidores financeiros. Algo que diz respeito a taxas de desconto e retiradas múltiplas. Não entendo nada. Então, a ouço dizer:
— Olha, Schroeder. Isso não é ciência de foguetes. Se você quer trabalhar com foguetes, vai para a NASA. Agora! Me prepara a apresentação para amanhã de manhã, e coloca tudo numa fonte grande para que aquela mesa de diretores geriátrica consiga ler!
Sorrio e digo para mim mesma que Jess não está grávida, com certeza não. Apesar da vontade que ela tem de ter um filho, não consigo imaginar isso. Pelo menos não agora.
Contudo, alguns minutos depois, ela irrompe no meu quarto com a varetinha plástica na mão. Sento-me na cama e tento respirar fundo.
— Olhe! Uma cruz! — ela diz, me mostrando a vareta plástica. As mãos dela estão tremendo.
— Você está grávida? — pergunto, incrédula, sem me importar com o resultado cientifico à minha frente.
— Vou ter um filho... — Jess fala, chorosa. Mas o tipo de choro feliz. Aquele choro que a gente vê num pódio das Olimpíadas, enquanto toca o hino nacional.
— Uau! — exclamo, sentada na beirada da cama. — Não acredito!
— Nem eu... — Jess sussurra.
— Você ligou para Trey?
— Sim. Ele não atendeu.
— Você deixou mensagem?
— Hum-hum. Disse que era importante... — diz, baixinho.
— Como você está se sentindo? — pergunto.
— Assustada. — Ela admite. — Confusa... mas feliz!
Eu a abraço enquanto murmuro em seu ouvido “meus parabéns”. Olhamos uma para a outra, para a vareta de plástico, e depois uma para a outra novamente.
— No que você está pensando? — ela pergunta, depois de mais de um minuto de silêncio.
Balanço a cabeça, sentindo um turbilhão de emoções diferentes. Temo pela minha amiga. Sei como ela está cheia de esperança, como deseja intensamente que as coisas deem certo com Trey, e como ela vai ficar desolada quando a realidade bater à sua porta daqui a nove meses. Também não posso evitar sentir raiva pelo que Jess está fazendo a si própria, por entrar na maternidade desse modo tão desajeitado. Fico ressentida por ela tomar decisões tão impensadas em sua vida e não consigo deixar de pensar em como essas decisões erradas terão impacto na minha vida. Não queria um filho com o Ben, meu marido, então não vou querer criar um filho de minha amiga. Mas que tipo de amiga eu seria ao largar minha melhor amiga num momento desses, quando ela mais precisa de mim? Que criatura horrível eu seria se me distanciasse dela num período tão crucial?
Então, bem lá no fundo, escondida entre as óbvias reações, está uma dor estranha. Essa preocupação de que, se eu me mudar e me afastar de Jess e do bebê, estarei me marginalizando. Estarei do lado de fora de algo extraordinário. Que a vida de Jess vai se tornar muito mais completa que a minha. É quase como se eu estivesse com ciúmes dela. O que é uma loucura, obviamente, eu não quero ter um filho. Não quero.
Começo a imaginar o que sempre imagino quando sinto emoções incontroláveis, irracionais, de qualquer tipo: é normal me sentir assim? Será que há pessoas que sentem saudade de algo que nem mesmo queiram? Espero que a resposta seja sim, pois sempre existe a ideia reconfortante de que não estamos sozinhos. Que outras pessoas sentem a mesma coisa que você. Que você é ligeiramente perturbada, mas, ainda assim, normal.
Jess se deita na minha cama e fica olhando para o teto, enquanto tento encontrar as palavras certas para uma analogia, alguma coisa que expresse o que estou sentindo. Minha mente chega ao meu primeiro amor, Charlie, a quem eu ocasionalmente encontro quando estou em Huntington. Charlie é bombeiro lá, o que significa que ele passa os dias da semana resgatando gatos e cachorros de rua, e ensinando segurança contra incêndio para as crianças do Ensino Fundamental. Ele passa os fins de semana assistindo aos jogos dos Jets, fumando cigarros Camel Light com seus antigos colegas de escola e brincando no quintal com seus quatro filhos. Posso apostar que Charlie não tem passaporte nem leu nenhum livro desde a formatura do Ensino Médio. Resumindo, a vida dele não é em nada parecida com a minha, e a vida com Charlie nunca seria suficiente para mim. Porém, quando o vejo, ainda sinto saudade e vontade de ter 16 anos de novo, sair do cinema numa noite quente de verão e, então, estacionar o carro dele e ficar namorando lá dentro enquanto ouvimos um mix de canções de amor no seu toca-fitas. No entanto, não confundo esses sentimentos por desejar estar casada com ele.
Tampouco quero um filho, mas sinto uma pontada de dor apesar disso. Uma pontada fraca, é verdade, porém ainda assim é algo que me faz dizer bruscamente para Jess:
— Se eu soubesse que isso ia acontecer...
Jess arregala os olhos. Ela diz meu nome lentamente, como uma pergunta.
— O quê? — pergunto inocentemente.
— Você está tendo dúvidas?
— Sobre o quê? — questiono.
— Sobre Ben? Sobre ter um filho? Sobre ter um filho com o Ben? — ela pergunta, parecendo preocupada, desconfiada e cheia de esperança ao mesmo tempo.
— Não — digo, enfática. — Não seja ridícula! Não tenho dúvida quanto a isso.
— Certo, acho que isso é bom — Jess murmura. — Porque se você estivesse com alguma dúvida, sua vida estaria muito mais complicada do que a minha, dez vezes mais do que ela está agora.
Olho para ela e digo novamente:
— Não tenho dúvida quanto a isso.
Na manhã seguinte, fico na cama lendo O morro dos ventos uivantes pela quinquagésima vez. É meu livro favorito de todos os tempos. Gosto ainda mais dele agora que meu relacionamento terminou. De um jeito perverso, quase gosto de me sentir tão atormentada quanto Cathy ou Heathcliff.
Encontro minhas falas favoritas e as leio em voz alta para mim mesma:
— “Meu maior conceito sobre a vida é ele mesmo. Se tudo o mais perecesse, e ele continuasse, eu ainda continuaria a existir... Ele sempre, sempre estará no meu pensamento — não como prazer... mas como parte do meu próprio ser.”
Suspiro e leio outra passagem tocante:
— “Como a miséria e a degradação, e a morte, e nada que Deus ou Satã pudessem fazer teria nos separado, você, por sua livre e espontânea vontade, o fez. Eu não despedacei seu coração, você mesmo o fez; e, ao fazê-lo, despedaçou o meu.”
Então, exatamente quando estava me envolvendo naquela agonia melodramática de paixão e desespero, penso em como, no começo do relacionamento, insisti para que Ben lesse esse livro. Seu comentário quando terminou o livro foi: “Bom. Esse Heathcliff é uma piada, hein?”. Sorrio ao lembrar como ri naquele momento.
E então, naquele instante, meu celular toca. Irracionalmente, quero que seja Ben, mas, quando olho na tela do aparelho, vejo que é Daphne. Atendo e ela me pergunta quais são as novidades. Até aquele momento, não havia pensado em como a notícia da gravidez de Jess iria afetá-la. Escolho o caminho mais fácil e digo que não há novidade. Jess poderá lhe contar as boas-novas quando quiser. Não vou dizer nada, a menos que seja obrigada a fazê-lo.
— O que há de novo com você? — desvio o assunto.
— Ah, nada demais... — ela responde.
— Os resultados do Tony já saíram? — pergunto.
— Sim — ela comenta. — Já saíram.
— E...
— Está tudo bem com ele. Não há problema algum — ela diz, e sua voz parece estranhamente aguda e feliz. Penso que talvez ela esteja grávida, mas decido não perguntar nada. Em vez disso, mantenho a conversa num terreno mais seguro e digo:
— E quais são as outras novidades?
— Ah, você sabe, estou voltando para a roda-viva do começo do ano escolar, montando alguns novos quadros de avisos e coisa e tal.
— Isso é ótimo — digo. — Seus quadros de avisos são incríveis.
— Ah, obrigada, Cláudia — ela agradece.
Depois de uma longa pausa, Daphne diz:
— Então, Cláudia, você acha que pode vir jantar aqui em casa amanhã? Lá pelas sete? Quero fazer aquela minha lasanha para você.
— A Maura também vai? — pergunto.
— Não.
— A mamãe ou o papai?
— Não. Só você. Achei que ia ser divertido — ela diz.
— Claro que vou, Daphne — digo, concluindo que ela não está grávida. Se estivesse, ela convidaria todo mundo. Mas do jeito que minha vida anda, tenho certeza de que vamos falar sobre bebês e ter filhos.
Na noite seguinte, pego o trem para Huntington. Quando desço na plataforma, vejo Daphne acenando de dentro do seu Mini-Cooper amarelo. Caminho em sua direção e vejo algo em seu rosto que parece artificial e exagerado. Como uma atriz iniciante fingindo estar feliz. Quando chego ao carro digo:
— Oi, Daph! — Reconheço a falsa alegria na minha voz. Percebo que é difícil agir com naturalidade quando alguém está se comportando de maneira estranha.
Conversamos sobre banalidades no caminho para a casa dela e sobre seus alunos na escola. Ela também me conta, toda animada, que adorou o romance de Amy Dickerson. Ela diz que o selecionou para seu clube do livro, apesar de eles geralmente escolherem romances água com açúcar.
— As garotas vão adorar o livro — ela afirma. — Ele instiga... nossos pensamentos.
Olho de relance para minha irmã, pensando que é provavelmente a primeira vez que ela se refere a ser instigada por alguma coisa. Minha irmã não é nem um pouco burra, mas está longe de ser uma pessoa introspectiva.
Quando chegamos à casa dela, Daphne abre a porta da garagem com seu controle remoto. Vejo que a minivan preta de Tony está estacionada e descarto a ideia de problemas conjugais. Pelo menos nada iminente. Mas também esse comportamento alegre esquisito não faria sentido num contexto de divórcio. Algo a mais está acontecendo por aqui.
— Para casa agora eu vou! — Daphne cantarola com uma risada nervosa. É o que meu pai sempre canta quando abre a porta da garagem. Daphne pegou a mania. Talvez eu pegasse também, se tivesse uma garagem para abrir.
Sigo minha irmã até a cozinha e digo um alô para seus dois Yorkies, Anna e Gary, e vejo uma bandeja enorme cheia de bolinhos de siri assados acompanhados de patês.
Daphne não é uma cozinheira incrível, mas faz o básico muito bem. Tony está sentado ao lado do balcão assistindo a um jogo de beisebol, e, quando nos vê, ele se levanta, vem em minha direção e me dá um beijinho no rosto.
— É maravilhoso vê-la novamente, Cláudia! — ele diz, parecendo tão forçado quanto minha irmã.
— É maravilhoso encontrar você também, Tony — falo.
Daphne abaixa o volume da televisão e diz gentilmente:
— Pode colocar a música de volta, meu bem?
Ele faz a vontade dela, enquanto eu comento:
— Nossa, Daph. Bolinhos de siri. Qual é a ocasião especial?
Ela me olha de um jeito inocente.
— Nenhuma ocasião especial. Eu, nós só queríamos receber você bem. Só isso. Não é, Tony?
— Hum-hum — Tony murmura. — É isso mesmo.
Não consigo evitar um sorriso no meu rosto.
— Hum-hum.
— O quê? — Daphne pergunta.
Dou uma risada.
— Tem alguma coisa estranha aqui.
Daphne e Tony trocam um olhar.
— Você gostaria de uma taça de vinho? — Daphne pergunta. — Temos branco e tinto.
— Hum-hum. E deixa eu adivinhar o que tem na geladeira para sobremesa. Mousse de chocolate?
Ela arregala os olhos.
— Como você advinhou?
— Porque eu sei que você sabe que mousse de chocolate é a minha sobremesa favorita... Então, Daphne, me conte o que está acontecendo por aqui. Vocês estão precisando de dinheiro emprestado? — Imediatamente me arrependo do que falei. Minha irmã nunca me pediu dinheiro emprestado, mas as coisas estão sempre apertadas para ela e Tony, e talvez precisem de grana para os tratamentos de fertilidade. Em todo caso, termino o que estava dizendo: — Não vou gastar todo o meu salário agora que estou sozinha!
Tony dá uma risada.
— Bom, para falar a verdade, eu bem que estou precisando de um dinheirinho. Você tem uns cinco mil sobrando? Adoraria comprar um conjunto novo de tacos de golfe. Ou talvez uma moto — ele diz, fazendo movimento com a mão como se estivesse acelerando uma motocicleta.
— Você não vai comprar uma moto! Elas são muito perigosas! — Daphne exclama, voltando a ser ela mesma por alguns segundos. Então, ela me diz: — Não seja tola. Não estamos precisando de dinheiro. Mas muito obrigada pela oferta. Você é uma pessoa tão generosa, uma irmã tão carinhosa.
Solto uma gargalhada e digo, com um sotaque caipira:
— Ok. Preste atenção, dona, quero minha irmã de volta. O que você fez com a minha irmã?
Daphne me olha com sua expressão mais séria e diz:
— Não sei o que você quer dizer com isso. — Então se vira, limpa as mãos no avental e se ocupa com o abridor de garrafas, que foi um presente de Natal de Ben para Tony, da primeira vez que começamos a trocar presentes de amigo secreto. Não acredito que eles ainda o têm. Sento no balcão ao lado de Tony e experimento um bolinho. Está perfeito.
— Muito bem — digo. — Aja do jeito que quiser. Estou adorando receber esse tratamento VIP. Esses bolinhos estão divinos.
Daphne despeja lentamente o vinho tinto nas taças e, quando finalmente se vira, vejo que está com o rosto coberto de lágrimas. Antes que possa perguntar o que há de errado, ela diz:
— Não queremos seu dinheiro, Cláudia... Mas, na verdade, queremos uma coisa de você.
Engulo o pedaço de bolinho que estava mastigando e sinto um aperto no estômago. Por um instante, penso que talvez Daphne precise de um rim. É claro que vou lhe doar um.
— Você está doente? — pergunto, trêmula de medo. A ideia de uma de minhas irmãs morrendo tão cedo é insuportável demais.
— Não... — Daphne diz com a voz entrecortada. — Estou bem... Mas meus óvulos...
— Seus óvulos? — pergunto, muito embora saiba exatamente o que ela está dizendo e sei o que quer me pedir. Olho para Tony. Ele também está com os olhos marejados. Ele cobre a mão de Daphne com as suas.
— Fiz meus exames na semana passada, e nosso médico disse que meus óvulos não servem mais — ela diz, soluçando. — Eles não prestam para nada, são uma porcaria.
— Daphne... sinto muito — digo, me levantando para abraçá-la.
Ela levanta a mão para me impedir e, então, continua:
— Então, Tony e eu... estávamos pensando se... poderíamos usar um dos seus...