Uma prova de amor
Capítulo 10
C A P Í T U L O
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Ben me liga duas vezes naquela noite. Na primeira, ainda estou na pet shop, admirando os peixinhos dourados e imaginando quem acha que peixe é um bom animal de estimação. Então ele me liga de novo bem depois de eu ter voltado para o apartamento de Jess, ter tomado banho e estar armada com dois manuscritos e um lápis vermelho bem apontado na mesa da cozinha. Em ambas as vezes, estou triste e indisposta demais para atendê-lo. Nunca imaginei que seria insubstituível. Quero dizer, nosso divórcio é uma prova de que sou totalmente substituível. Mas não achava que Ben sairia com outra mulher tão cedo, como se ele estivesse lutando contra algum relógio biológico masculino. E não importa se Tucker é apenas uma amiga ou sua namorada do momento, ou alguém com quem ele está dormindo ou deseja levar para a cama, ou quer que seja sua segunda esposa, ou a mãe de seus futuros filhos; nada disso é o ponto. Tucker é, na verdade, o de menos.
A questão é que Ben está seguindo em frente e eu não. Ao contrário, estou indo até o apartamento dele com uma desculpa esfarrapada. Uma desculpa patética e descarada. O tipo de coisa que, se Jess a fizesse, eu acabaria com ela. Tudo isso não apenas confirma que estou sofrendo mais com o divórcio do que ele, mas também que Ben sabe que eu estou sofrendo muito mais do que ele. E essa é a pior parte.
Tento me concentrar no trabalho, mas não paro de pensar naquela garota. Lembro-me de quando ele a apresentou e disse seu nome em voz alta: “Tucker Jansen”. Então, indo contra minhas próprias crenças, eu lentamente me levanto da mesa da cozinha e vou até o computador de Jess, que fica em um canto do quarto dela. Meu coração está disparado. Entro no Google e me preparo para fazer uma busca pelo nome da nova namorada do meu ex-marido. Escrevo o nome Tucker Jansen entre aspas, exatamente como Jess me ensinou. Jess é mestre em descobrir coisas sobre as pessoas na internet. Ela já encontrou vários ex-namorados on-line. Listas de presente de casamento na internet são seu arroz com feijão. Ela olha as listas, me recrutando para ajudar a acabar com o gosto das noivas dos seus ex. (“Você já viu um padrão de porcelana mais horroroso do que esse?”) Ela também encontrou casas no domania.com. (“Jack está indo bem, ele acabou de comprar uma casa de cinco quartos no Greenwich.”) E listas para chá de bebê no amazon.com. (“A esposa de Brad vai ter bebê dia 5 de abril. Eles ainda não sabem o sexo, só escolheram coisas amarelas.”)
Mas a melhor de suas pesquisas foi quando ela encontrou um ex-namorado em um obscuro site de cozinha. Ela leu detalhes sobre seu iminente jantar para doze pessoas, que foi planejado para o dia do aniversário dela, logo depois que eles terminaram. Foi um grande insulto ler on-line suas conversas sobre como preparar carnes de veado e deixá-las mais saborosas se marinadas no leite. É claro que ela não resistiu e postou uma resposta anônima: “Quem serve carne de veado em um jantar? E se você quer algo menos exótico, deixe de lado a marinada de leite e sirva simplesmente um filé”.
Hesito um pouco, preocupada com o que vou descobrir sobre Tucker. Então, fecho os olhos e aperto enter. Fico mais do que aliviada quando descubro que a nova amiga de Ben simplesmente não existe na internet. Fica claro que ela é jovem demais para ter conquistado alguma coisa. Para reforçar minha opinião, faço uma busca de mim mesma. Sinto uma enorme satisfação quando meu nome aparece em quatrocentos e trinta entradas, incluindo artigos na Publishers Weekly, comentários em sites de autores e citações de várias conferências e palestras. Leio alguns dos artigos e começo a me sentir um pouquinho melhor. Tucker precisa de um bebê para dar algum sentido à sua vida. Eu não.
Saio da internet e volto para a mesa da cozinha, determinada a trabalhar um pouco. Digo a mim mesma para não ouvir as mensagens de Ben. Já foi muito ruim ter feito uma pesquisa no Google sobre a namorada dele. Mas, depois de ler o mesmo parágrafo por vinte minutos, desisto e vou ouvir as mensagens de voz. Na primeira mensagem, ele é bem objetivo: “Cláudia. É o Ben. Por favor, liga pra mim quando ouvir isso”.
Na segunda mensagem, ele diz quase a mesma coisa, palavra por palavra, porém pausa por alguns segundos e diz: “Foi muito bom ver você... Foi muito bom mesmo”.
Seu tom é tão sincero e tem um toque de desespero, daqueles que você só consegue perceber quando conhece alguém profundamente. Ouço a mensagem de novo e ligo para o celular dele, mesmo pensando que ele pode estar com a Tucker agora. Talvez tenha me humilhado o suficiente hoje. Além do mais, ele pediu para eu ligar. Não fazer isso pode parecer patético. Como se eu estivesse magoada demais ou com muita raiva para conversar.
Ele atende no quarto toque e, antes que eu possa dizer alô, ele diz meu nome de um jeito suave e meigo:
— Cláudia. — Eu tremo, mas repito a mim mesma para não ser sentimental. Não tem por quê.
— Oi, Ben — digo, com uma voz calma. — Olhe, sinto muito por ter aparecido na sua casa daquele modo. Não pretendia interromper...
— Você não interrompeu nada — ele responde.
Dou uma risada como se quisesse dizer com certeza interrompi alguma coisa.
— Tucker é apenas uma amiga — ele comenta.
— Hum-hum... — retruco.
— Não é o que você está pensando — ele explica. — Nós saímos apenas para correr. Não era nada.
— Não importa. Não é da minha conta — digo, com certa ênfase. Não quero parecer amarga. A última coisa que eu quero é ficar amarga.
— Não é nada disso — ele diz novamente. — De verdade. Não é.
— Tá bom — digo.
Depois de uma longa pausa ele diz:
— Então. Aconteceu alguma coisa para você aparecer por aqui?
— Não. Eu estava aí perto... e pensei em dar um alô.
— Cláudia, fala sério.
— O quê?
— Converse comigo — ele responde, sua voz quase num sussurro.
Meu coração está batendo desesperado e parece que vai saltar do peito. Não consigo pronunciar uma palavra. Não que eu saiba o que vou dizer.
— Está tudo bem com você? — ele pergunta.
— Sim. Estou bem — minto. — Eu... eu não sei.
— Diga alguma coisa — ele pede. — Me conte.
— Não sei... será que fizemos a coisa certa?
Ele diz:
— Me pergunto a mesma coisa... sinto tanta falta de você.
Tenho vontade de lhe dizer que também sinto falta dele, mas minimizo o fato com uma risada e digo:
— Sim. Essa coisa toda de divórcio não é fácil.
Ficamos calados por quase um minuto e, então, ele diz:
— Você quer vir até aqui? Assistir a um filme ou fazer outra coisa?
Sinto minha pele se arrepiar mas respondo de volta:
— Não acho que seria uma boa ideia...
Sei que estou certa, mas, ainda assim, fico com raiva de mim mesma por ter dito isso. Não há nada que eu queira mais, nesse momento, do que voltar para meu velho apartamento, sentar ao lado de Ben no sofá e assistir a um filme. A essa altura, sinto falta da nossa amizade mais do que qualquer outra coisa.
Parte de mim tem esperança de que ele vá me convencer do contrário; no entanto, ele diz:
— Acho que você está certa.
— Sim — eu digo.
— Ok — ele responde.
— Bom, melhor eu desligar — digo, com meus olhos cheios de lágrimas.
— Ok. Adeus, Cláudia — ele diz suavemente. — Fique bem.
— Você também — digo, me sentindo incrivelmente vazia por dentro. Não me lembro de ter sentido essa sensação de completa solidão anteriormente. Quando desligo, digo a mim mesma para guardar na memória essa dor no meu peito, para o caso de um dia eu ter novamente a brilhante ideia de encontrá-lo. Não quero relembrar o que eu tinha e que não me pertence mais.
Jess está de volta na manhã seguinte do seu voo noturno, e entra com tudo no meu quarto. A melhor forma de descrever sua atitude é chamá-la de “vertiginosa”.
— Estou tão feliz que você está acordada! — ela exclama, corre e se joga nos pés da minha cama.
— O que aconteceu? — pergunto, ao mesmo tempo que as feições de Tucker se materializam na minha cabeça. — Como foi a viagem?
Jess cantarola:
— Trey vai se separar da esposa!
— Que ótimo! — digo, e minha voz soa rígida. É difícil para mim demonstrar muito entusiasmo quando o assunto é divórcio.
— Ele vai pedir a separação esta semana — ela explica. — A esposa dele vai para sua viagem anual para a praia com suas amigas nesta sexta-feira e ele vai dizer a ela um pouco antes de ela partir.
“Que atencioso!”, eu penso. “As garotas vão ter muito assunto para conversar depois disso.” Porém, eu digo:
— E depois o quê?
— O que você quer dizer com “e depois o quê?” — ela indaga. Sei que está ansiosa pela minha aprovação, como todas as garotas solteiras precisam da aprovação de suas melhores amigas. Do mesmo jeito como eu, agora, preciso da aprovação dela.
— Quero dizer, qual é a logística? Ele vai se mudar para Nova York?
— Não conversamos sobre isso ainda — ela responde.
— Ah — digo, e então me preocupo por não parecer muito animada. A última coisa que quero é jogar um balde de água fria nos sonhos de Jess, pois todos os seus planos, na última década, não deram certo. Além disso, nada do que eu disser vai fazê-la mudar de ideia, portanto, só me resta apoiá-la. Algumas vezes basta que alguém fique feliz ou triste ao seu lado. Ainda assim, não posso deixar de sentir uma sensação ruim em relação ao Trey. Acredito piamente no ditado que diz: “Quem trai uma vez, trai sempre”.
Sei que Jess pode sentir meu ceticismo, pois ela me pergunta:
— Você não gosta dele, gosta?
— Não o conheço — digo apressadamente. — Eu... não sei...
— Fale! — ela suplica.
Hesito por um momento e, então, digo:
— Você acha que pode confiar nele?
— Estamos completamente apaixonados um pelo outro — Jess comenta, o que não responde de jeito nenhum à minha pergunta. Você pode amar alguém em quem você não confia. — Ele é minha alma gêmea.
Minhas pernas bambeiam só de ouvir a expressão alma gêmea, palavras que eu costumava usar para descrever meu relacionamento com Ben. Não existe sentimento melhor no mundo do que acreditar que você encontrou sua alma gêmea. É a euforia completa. Que é mais ou menos o oposto exato do que estou sentindo neste momento.
— Estou feliz por você, Jess — digo. — Espero que tudo dê certo entre vocês.
Ela sorri e então desaparece, retornando com sua câmera digital.
— Tirei fotos dele só para você saber como ele é — ela diz, clicando por entre as fotos do seu encontro amoroso no Four Seasons. Tem uma foto de Trey segurando uma toalha na cintura. Ele tem o abdômen sarado, tem até uma barriga “tanquinho”.
— Uau! Ele é lindo — digo, imaginando como um homem que é um investidor financeiro e pai de família tem tempo para ter um caso amoroso e malhar tanto em uma academia. Isso confirma mais uma de minhas teorias: não confie em homens que têm um corpo tão maravilhoso.
Jess fica corada e diz:
— Nossa, é mesmo! Ele realmente é... acho que agora vai, Cláudia! Acho que encontrei o cara certo desta vez.
— Tomara! — digo, cruzando meus dedos com falso otimismo.
Não conto para Jess sobre Tucker até a manhã do sábado seguinte, depois que Trey (surpresa, surpresa!) não diz para sua esposa que quer o divórcio. Ele teve seus motivos, é claro. Eles sempre têm. Algo sobre seu filho estar com febre alta e a tal da viagem para a praia ser cancelada. É injusto alguns casamentos infelizes terem a tendência de se arrastar e durar décadas, enquanto casamentos perfeitos, como o meu, parecem terminar da noite para o dia.
Enquanto isso, Jess está falando que não pode ficar brava com ele por causa dessa demora. Afinal de contas, isso prova que ele é um bom pai.
Acho que foi essa referência a “bom pai” que me faz lembrar de Ben e eu decido contar a ela sobre Tucker.
Jess parece surpresa por eu não ter lhe contado antes, então lhe lanço um olhar de desculpas e digo:
— Tive que digerir isso antes de conseguir falar sobre o assunto.
Ela concorda com a cabeça e demonstra que compreende. Ao contrário de minhas irmãs, ela não é daquelas que fica magoada com esse tipo de coisa. Na verdade, não é do tipo que se magoa facilmente. Ela desenvolveu uma capa de autodefesa ao longo dos anos, o que provavelmente se originou por causa de sua falta de sorte no amor e de sua profissão agressiva.
— Você pesquisou sobre ela no Google? — Jess pergunta.
Dou uma risada e admito que sim.
— Você me ensinou bem.
— E?
— Nada. Não a encontrei em lugar algum.
— Você colocou o nome dela entre aspas?
— Sim — respondo. — Não achei nada.
— Ótimo — Jess retruca, me dando um de seus sorrisos diabólicos. — Isso só prova aquilo que a gente já sabia.
— O quê? — pergunto.
— Que ele não consegue ninguém melhor que você.
— Repita isso — peço.
Então, ela o faz, na segunda vez com um pouco mais de graça.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Jess e eu encontramos minhas irmãs para um almoço no Union Square Café. Jess e eu trabalhamos durante toda a manhã, enquanto Maura e Daphne foram às compras. Elas chegaram carregadas de sacolas da Barney’s (a loja favorita de Maura) e da Bloomingdale’s (a favorita da Daphne). Estou me sentindo mais animada pela primeira vez depois de muito tempo, provavelmente porque estou passando algum tempo na companhia das minhas três mulheres favoritas. Posso perceber meu coração se curando só por estar ao lado delas.
A garçonete está triturando pimenta fresca no ravióli de Daphne quando Maura abruptamente pergunta se tenho notícias de Ben. Olho de relance para Jess e, por um momento, penso em dizer não. Não que eu não queira contar para as minhas irmãs. É que não estou a fim de reviver essa história. Mas é difícil eu conseguir manter uma mentira. Sei que daqui a algum tempo vou esquecer que não contei para elas e vou falar alguma coisa sobre a Tucker e, daí, isso vai virar um problema: por que eu contei para Jess e não contei para elas? Decido ir em frente e contar tudo, desde o sorvete com cobertura de granulados coloridos, a pet shop e minha busca no Google, até a breve conversa com Ben mais tarde naquela mesma noite. Os olhos castanhos de Daphne ficam entristecidos e marejados de lágrimas. Daphne costuma chorar bastante. É sua reação natural para qualquer emoção extrema, como raiva, felicidade, preocupação, medo. Enquanto isso, Maura coloca no rosto uma expressão determinada e curiosa. Posso perceber que ela quer mais informações. Ela começa a fazer perguntas.
— Ela é bonita? — pergunta, muito embora eu acabara de fazer uma descrição detalhada da garota fisicamente, com o objetivo de evitar mais perguntas.
— Eu já falei... — digo, encolhendo os ombros. — Ela é atraente. Tem o cabelo e a pele lindos. E um corpo decente.
— Decente? — Maura pergunta. — Defina decente, por favor.
— É bem bonito — digo e então completo a declaração, enquanto estudo minha audiência. — Acho que vocês não concordariam comigo.
Os padrões de Maura são ridículos, para ela mesma e para os outros. Ela é extremamente magra, malha diariamente com seu personal trainer, e tem um corpo bem torneado e sarado. Ninguém fala que ela é mãe de três filhos. Algumas pessoas até a acham magra demais. Daphne pensa assim, mas deve ser porque as duas são muito parecidas; no entanto, Daphne está sempre tentando perder de seis a dez quilos. Na verdade, uma das maiores discussões entre as minhas irmãs, nos últimos cinco anos, foi quando Daphne estava reclamando de uma dieta bizarra que não estava funcionando e Maura lhe disse:
— Não entendo. Basta não comer, Daph. Não ponha comida na sua boca. Qual a dificuldade em fazer isso? — Para Maura, isso não é difícil. Nunca conheci ninguém com tanta autodisciplina. Para Daphne e milhões de outros norte-americanos, a coisa toda não é tão fácil. Se fosse, ninguém seria gordo.
Então, Maura continua:
— E aí, ela é gordinha? Não consigo imaginar o Ben com uma garota gordinha.
— Não. Ela não é gordinha. Talvez tenha ossos grandes — digo. — Gostosona.
Jess ri.
— Gostosona?
— Jovem... curvilínea... forte — digo, sem rodeios.
— Eca! — Daphne diz. — Eu não quero ouvir esse tipo de descrição.
— Bom — digo, raspando o fundo da tigelinha de molho. Não sei por que eu peço o molho separado se acabo comendo tudo. — O que posso fazer? Sabíamos que ele voltaria a namorar. Esse foi o motivo de nosso rompimento, certo? Encontrar uma boa mulher com um útero disponível.
Daphne faz uma careta. Geralmente, tento evitar usar palavras como útero perto dela. Ao contrário de minha insensível mãe, que fala o tempo todo expressões como estéril e árido.
Tento responder a outras perguntas sobre a aparência de Tucker.
Talvez tamanho 40.
Mais ou menos da altura do Ben.
Olhos verdes, eu acho. Talvez azuis.
— Então, parece que o cabelo é o que ela tem de mais bonito? — Maura conclui.
— É provavelmente seu ponto forte, isso mesmo — digo.
— Então, ela não passaria no teste Rosannadanna? — Daphne retruca, sorrindo.
Rio e digo que provavelmente ela não passaria. O teste Rosannadanna é algo bem simples e funciona assim: imagine uma garota bonita com o cabelo crespo e castanho, e pergunte se ela ainda está bonita. Maura inventou esse teste quando ainda estávamos na escola e ela insistia que a única razão pela qual Tiffany Hartong ganhou dela como rainha do baile foi porque Tiffany tinha um cabelo louro maravilhoso que enganava todo mundo e fazia todos pensarem que ela era linda. É claro que eu argumentaria que esse é o tipo de teste que diz: “Dê à garota um rosto horrível e pergunte se ela ainda é bonita”. O cabelo é simplesmente uma parte integral do pacote.
Ainda assim, resisto à necessidade de anunciar que não estou, de forma alguma, preocupada com a minha aparência do mesmo modo como outras mulheres parecem estar, e que eu preferiria que a Tucker fosse uma modelo da Victoria’s Secret a ela ser uma pianista ou uma piloto de caça, ou alguma outra coisa que Ben fosse respeitar. É claro que se eu estivesse no lugar de Maura e meu marido tivesse me traído com a secretária, uma norueguesa maravilhosa que se recusava a lamber os envelopes porque tinha ouvido falar que a cola na aba tinha três calorias, provavelmente também estaria obcecada com a gordura.
— Bom, quem se importa com a Tucker! — Jess exclama, levantando sua taça de vinho. — Ela é obviamente o quebra-galho dele. Na verdade, eu aposto que ele vai ficar nesse estágio de busca por muito tempo. Ninguém se iguala a você, Cláudia.
Assim é mais razoável. Sorrio agradecida para Jess e ergo minha taça.
— Vamos beber a isso!
Maura aproveita a dica de Jess e continua:
— Sim. Ele nunca vai encontrar alguém como você.
— Nem daqui a um milhão de anos! — Daphne exclama. — Viva, viva!
Bato minha taça nas delas e digo:
— Obrigada, gente.
E neste momento Jess começa seu papo açucarado sobre como Trey é maravilhoso.
— Espere. Qual deles é Trey? — Maura indaga.
— O cara casado com um corpo incrível. Certo? — Daphne responde. Daphne morou comigo e com a Jess por um ano antes de se casar com Tony, então, as duas ocasionalmente trocam e-mails e conversam ao telefone. Na verdade, Jess me contou que Daphne será uma de suas damas de honra, uma ideia que eu acho tão tola quanto escolher nomes de bebês antes de você ficar grávida.
— “Cara casado” não ajuda muito a saber quem é — Maura comenta.
Jess dá uma risada e lhe faz um sinal obsceno.
— Não me diga que você está saindo com outro homem casado, Jess... — Maura diz. Ela afasta sua salada com repugnância e cruza os braços.
Estava preocupada com a conversa sobre Trey por esse motivo e, de repente, sinto não ter avisado Jess para ir com cuidado.
— Desta vez é diferente — Jess explica, tocando sua boca com o guardanapo de pano. — Trey e sua esposa não combinam. Eles se casaram muito cedo.
O tema “casar muito cedo” incomoda Daphne e ela diz:
— Ei! Não há nada de errado com isso. Se você encontrar o cara certo, para que esperar?
— Essa é a questão — Jess retruca. — Ele não é o cara certo para ela. Isso é claro. E ele vai deixá-la em breve. Fala para elas, Cláudia!
— Ele vai deixá-la em breve — faço eco às palavras dela, mantendo meus olhos focados na comida.
Maura bufa.
— Deus do céu, Jess! Você não deixa escapar ninguém?
— Ei! Não é culpa minha que existem tantos casamentos ruins por aí — Jess justifica. — Não fui eu quem criou essa dinâmica.
— Existem casamentos ruins por aí exatamente por causa de mulheres como você! — Maura retruca. — Você não precisa ser tão predatória.
— E você não precisa ser tão ingênua — Jess replica. — Casos extraconjugais acontecem quando as pessoas não estão felizes. Uma terceira pessoa não consegue interferir em um casamento mutuamente satisfatório e feliz.
— Me permitam discordar — Maura diz, furiosa.
Não a culpo por estar chateada. O assunto realmente a incomoda bastante. Contudo, em vez de mudar de assunto, Jess segue em frente e diz:
— Então eu acho que você desaprovaria se eu ficasse grávida de propósito?
— O que você quer dizer com isso? — Maura pergunta, assustada.
— Você entende... esquecer de tomar a pílula. Tipo fazer as coisas acontecerem mais rápido. — Ela faz um movimento com as mãos. Os olhos de Maura se arregalam.
— Você tem que estar brincando comigo!
Jess parece satisfeita consigo mesma. Ela está brincando a maior parte do tempo, mas não o tempo todo. Claro que, além da natureza obviamente não ética de tal golpe, esse assunto me toca profundamente quando penso no que eu teria sentido caso Ben tivesse substituído minhas pílulas anticoncepcionais por placebos. A palavra inconcebível surge em minha mente.
Então, pergunto:
— E se Ben tivesse feito alguma coisa desse tipo comigo? Feito buraquinhos nos nossos preservativos, por exemplo?
Jess responde:
— Isso é completamente diferente.
— Na verdade, não é — retruco.
— Claro que é. É o seu corpo. Você deveria ter a última palavra.
— Bom, é o esperma dele — Maura replica. Posso perceber que ela está imaginando o que faria se Scott tivesse um filho fora do casamento. E não é uma possibilidade remota, com certeza.
Daphne, por outro lado, parece concordar conspiratoriamente. Vale qualquer coisa por um bebê. Tenho certeza de que ela seria capaz de roubar algumas sementinhas se fosse preciso.
Chamo sua atenção.
— Você acha que isso está certo, Daph. Não acha?
— Não — ela fala sem me convencer. — Bom... Isso depende... eu acho.
— Depende do quê? — Maura pergunta.
— Da razão pela qual ela está fazendo isso — Daphne diz, se voltando para Jess. — Você faria isso para conseguir que Trey largasse a esposa? Ou você faria isso para ter um filho?
— Olhe, Daph, a maternidade não é algo tão nobre que passe por cima da moralidade básica — Maura comenta.
Daphne me dá um chute debaixo da mesa, para dizer que o assunto que está sendo discutido é grave, algo que eu poderia não estar notando. Ela me dá um olhar do tipo “faça alguma coisa”.
— Vamos lá, gente — digo. — Vamos parar com isso. Temos que permanecer unidas.
— Esse é o meu ponto, Cláudia — Maura explica. — As mulheres devem continuar unidas.
— Amigas devem continuar unidas — Jess conclui. — Eu não faço ideia de como é a esposa de Trey. Não me importa. Não devo nada a ela.
— Algum dia vou lhe lembrar disso — Maura murmura, com a voz ligeiramente trêmula. — Quando você estiver casada com um homem que um dia olhou nos seus olhos e prometeu esquecer todas as outras. Vou lhe lembrar disso depois de você ter o filho dele, ter depressão pós-parto, se sentir gorda como uma vaca e estiver bombeando leite em pequenos potes plásticos no meio da noite, enquanto ele está saindo por aí com alguma garotinha de vinte e poucos anos chamada Lisette. Vou lhe lembrar disso.
— Espere um pouco! — Daphne diz. — Você não amamentou.
Olho para ela a advertindo que este provavelmente não é o momento certo para fazer o papel da mãe devotada.
— Eu amamentei Zoe por três semanas! — Maura retruca. — E então tive que parar por causa da mastite. Lembra-se disso?
Daphne balança a cabeça.
— Bom, amamentei... Além do mais, Daphne, você não sabe o que está falando.
— Meu Deus! Tudo bem. Desculpe-me por existir! — Daphne reclama.
Olho para ela de um jeito compreensivo, sabendo que ela daria tudo para estar sofrendo de mastite agora. Por incrível que pareça, também acho que ela aceitaria um marido mulherengo, se isso significasse que ela pudesse ser mãe.
Alguns minutos mais tarde, depois de muito convencimento da minha parte e de pedirmos outra garrafa de vinho, a tempestade passou e ficamos em terreno mais firme. Porém, enquanto escuto a conversa das três mulheres que eu mais amo, não posso deixar de pensar em como é uma loucura todas nós querermos algo que não temos. Algo que outra pessoa, em outra mesa talvez tenha. Quero meu marido de volta sem a condição do filho. Daphne quer um bebê e nem se importa com o marido. Maura quer que seu marido pare de traí-la. Jess quer que o marido de outra a traia ainda mais.
Fico pensando no que fizemos para chegar a esse ponto. Se alguma de nós é completamente isenta de culpa por nossas situações péssimas. Será que Daphne deveria ter tentado ter um bebê quando era mais jovem? Se ela sabia que queria um filho, mais do que qualquer outra coisa, por que ela e Tony não tentaram engravidar quando tinham 20 anos, em vez de ficarem economizando dinheiro para comprar uma casa? Será que Jess deveria ser mais racional e seguir menos as loucuras do seu coração? Será que ela deveria namorar apenas homens disponíveis e solteiros por questões morais e de praticidade? Será que Maura deveria ter notado antes os sinais de que Scott a estava traindo? Será que ela deveria ter se casado com um cara mais legal, alguém mais parecido com o Niles? E quanto a mim? Será que eu deveria ter concordado em ter um filho só para manter o homem a quem eu amava de verdade?
As coisas não são como você fantasia quando é criança e sonha como será sua vida quando você crescer. Até mesmo com minha mãe, com minhas aspirações não tradicionais, até mesmo com todos os livros que já li sobre pessoas cuja vida foi destruída de um jeito ou de outro, eu ainda teria jurado que a vida teria sido mais fácil do que vem sendo.