Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 36 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 2

 

14 de julho de 1995

 

F oi o dia mais quente já registrado na história de Chicago, o termômetro atingindo 41 graus centígrados e a temperatura chegando a 48 graus, um recorde que até hoje não foi superado, quase duas décadas depois. A onda de calor era o assunto em todas as rodas e chegou a matar 750 pessoas, rendendo manchetes mais chamativas que a Crise do Desarmamento no Irã, a Guerra da Bósnia e o último show do Grateful Dead em Soldier Field — pelo menos no jornal B96, minha única fonte de informações quando eu tinha 18 anos.

Naquela manhã escaldante, enquanto me deitava à beira da nossa piscina num biquíni branco fio dental que tinha pedido em um catálogo da Victoria’s Secret, sintonizei o programa do Kevin e Bob, ouvindo seu papo sobre como o calor incita as pessoas a fazerem coisas malucas: se apaixonarem, cometerem crimes, correrem peladas pelas ruas. É claro que eles estavam brincando, daquele jeito que os DJs costumam fazer, mas, pensando bem, eu realmente acredito que a alta temperatura foi responsável, pelo menos parcialmente, pelo que aconteceu mais tarde naquela noite na casa de minha amiga Janie. Teria sido uma história totalmente diferente em qualquer outra estação do ano, ou até mesmo num dia comum de verão.

Houve outros fatores também, é claro, como o álcool, o culpado favorito de todo mundo, especialmente as quatro doses de batida de morango que bebi de estômago vazio. Juntamente com a intensidade das emoções que se acumulavam naquele verão agridoce, espremido entre a formatura do colégio e o resto de nossa vida que se apresentava à nossa frente, o tédio supremo de minha cidade natal e um toque de má sorte — ou boa, dependendo de quem está falando. E é claro, o ingrediente final: Conrad Knight.

Para falar a verdade, Conrad não era o meu tipo de carinha, mas era de longe e nos sonhos o tipo de praticamente todo mundo, e eu certamente não ficava imune aos seus sedutores olhos azuis-acinzentados, o cabelo escuro levemente comprido e um rosto que minha amiga Janie chamava de “épico” antes de esta palavra ficar fora de moda. Ele parecia misterioso e um pouco perigoso, uma imagem que alguns garotos tentavam cultivar — mas apenas Conrad conseguia isso naturalmente. Ele tinha uma tatuagem no braço, diziam que eram as iniciais de sua mãe e a data do acidente de carro que a havia matado. Ele fumava cigarros enrolados à mão, dirigia um Mustang velho e preto e cantava numa banda de fundo de quintal no centro da cidade. Algumas garotas com documentos falsos tinham ido vê-lo e compararam sua voz à de Eddie Vedder, jurando que ele ficaria famoso um dia. Seu pai, que na verdade era um ator

aposentado e tinha estrelado uma novela antiga e um comercial do Tums[1] que ainda passava na TV, retornava de vez em quando a Los Angeles para alguns testes e levava Conrad com ele por um bom tempo. Apesar de suas faltas na escola e de um histórico acadêmico irregular, ele parecia inteligente, e, de certo modo, mundano — ou pelo menos profundamente indiferente à ordem social da escola, o que lhe dava uma aura de sofisticação. Resumindo, ele era bem diferente dos atletas afáveis com quem eu tinha namorado no Ensino Médio. Nada parecido comigo. Na verdade, nossos caminhos nunca haviam se cruzado para valer.

Ocasionalmente nos cumprimentávamos nos corredores da escola, mas nunca tínhamos conversado desde a escola primária.

— Marian Caldwell — Conrad declarou quando esbarrei nele no quintal de Janie. Pelo menos metade de Glencoe tinha vindo para a festa quando se espalhou o boato de que seus pais estavam fora da cidade. Seu rosto estava inexpressivo, mas ainda assim seus olhos me diziam que iríamos ter uma conversa significativa.

— Oi, Conrad — falei meio envergonhada, me balançando sem perceber ao som da música de Sarah McLachlan, “I Will Remember You”, que saía em alto volume das caixas de som vindas da janela do quarto de Janie no andar de cima.

Ele me deu um meio sorriso, e, então, como se estivesse dando continuação a uma conversa, disse aquelas palavras das quais eu me lembraria por anos.

— Você pode fugir, mas não pode se esconder.

Enquanto ele tomava um gole de uma latinha de refrigerante, eu observava o movimento de seu rosto e sentia o perfume de sua pele — uma mistura de cedro, sal e da colônia Eternity de Calvin Klein.

— Quem está fugindo? — perguntei. — E o que você está fazendo numa festa como essa?

Ainda estremeço quando me lembro da pergunta. Eu poderia simplesmente ter dito uma festa com os garotos e garotas mais “Populares da Escola”, entre os quais, nós dois sabíamos, eu era uma das participantes.

— Procurando você — ele disse, seus olhos tão ardentes quanto um olhar poderia ser. Olhei em volta pensando que ele estava brincando, esperando ver seus colegas da banda ou sua namorada voltar do banheiro. Eu nunca a tinha visto — ela frequentava outra escola —, mas Janie tinha visto os dois juntos no shopping uma vez e disse que a garota era a cara da Kate Moss, até mesmo com a blusinha de cigana, a saia longa floral e sandálias rasteiras.

— Muito bem. Parece que você me encontrou. — Dei uma risada, me sentindo mais audaciosa que o normal enquanto tocava o braço dele, bem em cima dos números impressos em tinta preta, como se estivesse lendo Braille em sua pele, percebendo que não apenas ele estava sozinho, mas completamente sóbrio.

— Então, tudo bem com você? — Ele olhou de relance para seu pulso, onde estaria um relógio caso usasse um. — Nos últimos seis anos?

— Seis anos? — perguntei, e então o lembrei de que tínhamos estudado na mesma classe desde o quarto ano.

— Desde a última vez que conversamos — ele declarou, passando a mão pelos cabelos, mais ondulados que o de costume porque a umidade do ar estava tão alta que parecia que estávamos andando na água. — Quero dizer, que realmente conversamos. Estávamos no ônibus voltando de uma excursão da escola.

— Do Shedd — falei com um aceno de cabeça, relembrando o passeio ao aquário no sexto ano, e, especialmente, a viagem de volta no ônibus da escola.

Conrad sorriu e por um segundo deixou de lado sua postura fria. Ele parecia ter 12 anos novamente e eu lhe disse isso.

Seu sorriso se alargou quando ele disse: — Você me deu metade da sua barra de chocolate e me disse que queria ser uma bióloga marinha.

Eu ri e revirei os olhos. — Sim... só que não quero mais ser uma bióloga marinha.

— Eu sei — ele respondeu. — Você vai para Michigan, vai fazer a escola de cinema, e então vai para Los Angeles ou Nova York onde vai fazer coisas fantásticas e ficar importante. Vai ser a próxima Nora Ephron ou... bem, esta é a única diretora mulher que eu conheço.

Eu o olhei surpresa até que ele confessou sua fonte óbvia de informações. — O álbum de formatura. Lembra? Os planos para o futuro? — Ele fez sinal de aspas no ar, claramente zombando da coisa toda.

— Isso mesmo — afirmei, pensando que ele também devia estar ciente de que eu tinha sido votada como a que teria “Mais chance de sucesso”, assim como eu estava ciente de que ele foi eleito os “olhos mais lindos”.

— E quais são seus planos? — indaguei, e algo me dizia que ele havia deixado seu questionário em branco, até que me lembrei da sua resposta curta: Me deixem fora disso.

Perguntei o que ele queria dizer com isso e ele respondeu: — Só quero dar o fora daqui. Só isso.

— Então nada... mais específico? — perguntei, querendo saber, é claro, sobre a faculdade. O que na minha cabeça e no meu círculo de amigos era algo natural.

— Não — ele falou bebendo de uma vez só sua latinha Dr Pepper. Ele amassou a lata com uma mão e a jogou na lata de lixo mais próxima. — Com exceção de que eu quero beijar você hoje à noite. E provavelmente amanhã à noite também. E se você não tomar cuidado... talvez depois dessa também.

continua...

N O T A S

 

[1]Antiácido para o estômago (N. T.).

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