Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 30 de 36

Páginas do PDF

Uma prova de amor

Capítulo 29

C A P Í T U L O

 

2 9

 

— Oi, Tucker — digo, observando seu jaleco branco imaculado, o uniforme azul e o estetoscópio reluzente. E, é claro, seus longos cabelos louros presos no tradicional rabo de cavalo. Ela é mais bonita do que eu me lembrava. Mas talvez a diferença seja entre ver alguém depois de uma corrida e ver a mesma pessoa com um pouco de maquiagem. Tremo só de pensar em como ela deve sair toda arrumada para um jantar. Meu coração parece ficar esmagado e olho em direção à saída, esperando que nossa conversa seja curta. Apesar da coisa significativa que temos em comum, não tenho nada a lhe dizer.

— Oi, Cláudia — ela diz, aparentando estar bem à vontade.

Lembro a mim mesma que eu supostamente não sei que ela é médica.

Faço alguns trejeitos simulando surpresa em vê-la.

— Você é médica?

— Sim — ela diz, com falsa modéstia. — Sou cirurgiã pediátrica.

— Ah! Que interessante!

— O que está fazendo aqui? — ela pergunta, olhando para Zoe. — Está tudo bem?

Sua preocupação parece genuína, porém ainda assim irritante. Sei que é irracional, mas parece que ela está me julgando. Avaliando o tamanho de minha negligência. Concluindo que eu seria, realmente, uma mãe inepta, incapaz.

— Minha sobrinha perdeu um pouco de sangue, só isso. Mas está tudo bem agora.

— Coitadinha — Tucker lamenta.

Zoe, que já voltou a seu normal, contribui com a conversa.

— Levei cinco pontos.

Entro em pânico imaginando o que mais Zoe irá dizer. Espero que Tucker não mencione Ben, do contrário, ninguém será capaz de segurar Zoe. Posso até ouvir ela dizendo: “Você conhece o tio Ben? A tia Cláudia se divorciou dele porque ela não queria ter filhos. Mas a tia Cláudia diz que vai amá-lo para sempre. E se eles se casarem novamente, vou ser a dama de honra!”.

Sem a menor dúvida, o comentário de Zoe permite que Tucker interaja com minha sobrinha. Como se estivesse dividindo um grande segredo, ela se abaixa, dá uma piscadinha e diz:

— Aquele cor-de-rosa?

Zoe parece encantada.

— Hum-hum. O cor-de-rosa.

Tucker mexe no cabelo de Zoe e lhe dá um sorriso afetuoso. Então, se levanta e me diz:

— Ela é um encanto.

— Obrigada — digo, embora não tenha certeza se é correto aceitar elogios sobre o filho de outra pessoa, mesmo que seja minha sobrinha. Passo meu peso de uma perna para a outra. Minha mente fica vazia e procuro a saída. Não quero falar sobre nenhum outro assunto, como maratonas ou Ben. Imagino se ela sabe de meus planos de encontrar o namorado dela para almoçar.

Imagino que sim, do mesmo modo que me lembro de quando a ex de Ben, Nicole, lhe mandou um presente de aniversário cerca de um ano depois de estarmos namorando. Fazendo grande esforço para parecer indiferente, lembro-me de que eu disse:

— Ah. Que legal... O que ela lhe deu?

— Um livro de poesia — ele respondeu, como se aquilo não significasse absolutamente nada para ele.

No entanto, não podia pensar em um presente mais ameaçador do que um livro, ainda mais um livro de poesia, e foi preciso muita força de vontade para evitar que eu perguntasse que livro era, quais eram os poemas. Então, murmurei com indiferença:

— Bom, que atencioso da parte dela.

Ben respondeu:

— Sim. Não importa. Não é grande coisa. Só quis lhe contar para deixar tudo às claras.

Ele é assim, direto e honesto. Então, tenho certeza de que deve ter comentado sobre nosso almoço.

Não demora muito, Tucker comenta:

— Bom. Como estão as coisas atualmente, Cláudia?

Suas palavras são inocentes, mas percebo uma nota de pena e condescendência em sua voz. Ela também está deixando claro, de um jeito sutil, que ele é o homem dela. Ela está se comportando exatamente como eu teria me comportado, caso tivesse encontrado Nicole naqueles primeiros dias de meu namoro com Ben. Ela é agradável e educada, mas, ainda assim, demonstra quem está no poder.

— Tudo bem. E com você? — digo, tensa e formal. Não estou disposta a ser intimidada. Fui casada com Ben. Com maratona ou sem maratona, ela não tem o direito de ser tão possessiva em relação a ele.

— Estou ótima — ela responde, tranquilamente. Ela poderia acrescentar, “E não me sinto ameaçada por você”.

Meu desconforto muda para ressentimento quando a ouço dizer a palavra ótima. Não há dúvidas quanto a isso: ótima é muito superior a bem. Qualquer dúvida que eu tinha em relação a ela desapareceu pela porta do hospital. Tenho vontade de dar um tapa nela ou jogar água fria na cabeça dela. Fazer uma daquelas coisas que as pessoas fazem nos seriados.

E tudo isso antes de ela levantar a mão para mexer no seu maldito rabo de cavalo, jogando-o do ombro esquerdo para o direito, e eu enxergar o anel dela.

Seu anel de brilhante.

Seu anel de brilhante no dedo da mão esquerda.

Não posso dizer com a certeza de que ela fez isso de propósito, mas posso assegurar que ela me viu olhando para ele. Então, não tenho escolha a não ser cumprimentá-la. Respiro fundo e reúno toda minha força de vontade para olhar para ela e conseguir dizer:

— Parabéns.

Ela sorri triunfante e olha de relance para sua mão antes de colocá-la novamente no bolso do jaleco. Ela cora e diz:

— Obrigada, Cláudia. Tudo aconteceu... tão rápido.

— Sim... bom... parabéns — digo novamente, me sentindo meio tonta de desespero, tanto que não consigo nem enxergar as coisas direito, muito menos me mover.

Tucker começa a perguntar sobre meus planos para o Dia de Ação de Graças, mas a interrompo e digo que tenho que ir para casa agora. Pego a mão de Zoe, levo-a para fora e entramos num táxi. Dou meu endereço para o motorista. Ao observar os quarteirões da cidade passarem como um borrão pela janela, tenho a sensação de que esse dia ficará gravado na minha memória para sempre como o pior dia de toda a minha vida. Não consigo enxergar nenhuma perspectiva para mim. O tempo não vai ser capaz de curar isso. Vou ficar marcada para sempre por esse momento no hospital. Vai ser parte de quem eu sou. Na verdade, já faz parte. Tento me concentrar em respirar corretamente, dizendo a mim mesma para não chorar, mas estou perdendo a batalha. Posso sentir a tristeza subindo na minha garganta. Então, em algum lugar entre aquele hospital no East Side e o apartamento de minha melhor amiga, eu caio no choro, bem em frente de minha sobrinha de 6 anos de idade.

— O que aconteceu, tia Cláudia? — Zoe me pergunta, com a voz entrecortada de medo. Ela nunca tinha me visto chorar antes. — Por que você está tão triste?

— Porque meu coração dói — digo, limpando as lágrimas com as costas da minha mão.

— Por quê? Por que o seu coração dói? — ela me pergunta, prestes a cair no choro também.

Não consigo responder e ela fica fazendo perguntas. Sem parar.

Finalmente, respondo:

— Porque eu amo o tio Ben.

— E por que isso deixa você triste? — ela pergunta, as mãozinhas se estendendo para segurar as minhas.

— Porque, Zoe — digo, arrasada demais para inventar algo ou tentar protegê-la. — Porque ele vai se casar com outra.

— Aquela “garota-médica”? — Zoe pergunta, com os olhos arregalados de pavor.

Passo o restante da tarde tentando explicar para minha sobrinha um dos mais tristes conceitos no amor e na vida: às vezes o momento é errado e muitas vezes a gente só percebe o que é realmente importante tarde demais. Digo a ela que foi um grande erro me divorciar de Ben. Queria que minha vida transcorresse de certo modo e, quando ele não se encaixou nos meus planos, eu simplesmente desisti dele. E, agora, a pessoa a quem mais amo foi embora. Ben é de outra agora. Ele é de Tucker. A garota-médica.

Talvez Zoe compreenda o que estou tentando contar para ela. Pelo menos ela finge entender, com uma expressão quase filosófica. Sinto-me envergonhada por despejar tanta coisa em cima de uma criança com um machucado na cabeça e cujos pais estão à beira do desastre. Mas não consigo evitar. Tem algo reconfortante na companhia dela e em seus comentários inocentes.

— Seja feliz, tia Cláudia — ela diz a certa altura. Como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

Sorrio e respondo:

— Vou tentar.

E, por dentro, estou pensando, “Nunca. Nunca serei feliz novamente”. Jess e Michael voltam para casa pouco depois. Enquanto apresento Zoe para Michael e os dois apertam as mãos, posso ver Jess prestando atenção nos meus olhos vermelhos.

— O que aconteceu? — ela murmura por sobre a cabeça de Zoe, pensando que eu havia protegido minha sobrinha hoje.

— Imagine o pior.

Jess pensa por um segundo e vai direto ao ponto:

— Ben e Tucker se casaram.

— Quase — digo.

— Estão noivos? — ela diz, horrorizada.

Concordo com a cabeça.

Ela fica boquiaberta e Michael não se contém:

— Que foda! Você deve estar brincando.

Jess olha brava para ele e aponta Zoe. Sei que Maura vai receber um relatório dos palavrões, embora, a essa altura do campeonato, a palavra foda não pareça algo tão devastador.

— Desculpe — Michael diz, sorrindo sem graça.

— Já ouvi isso antes — Zoe declara, cruzando os braços. Sem sombra de dúvida, ela está imbuída em seu papel de adulta nessa situação tragicômica.

— Ele ligou para você? — Jess pergunta. — A Annie contou alguma coisa?

— Não — digo, soltando uma risada amarga. — Na verdade, nós a encontramos na emergência do hospital.

— Na emergência? — Jess indaga. Ela e Michael parecem atônitos enquanto Zoe e eu contamos todos os detalhes sangrentos do acidente dela e de sua visita ao hospital. Depois que Jess e Michael examinam os pontos e a elogiam por ter sido tão corajosa, Jess vai direto ao assunto:

— Como era o anel? Eles já marcaram a data? Você acha que a Tucker está grávida?

Dou de ombros em resposta às três perguntas e, quanto à sua última indagação, respondo:

— É um ponto final, enfim.

— Ah, não, não é um ponto final — Jess comenta. — Um jogo não termina até o juiz apitar.

— Ouviu isso, companheira? — Michael diz, colocando seus braços em volta dos ombros de Jess.

Olho o casal vivendo tranquilamente esse começo de paixão; um casal que não consegue sentir algo diferente do que sente agora, nesse momento da vida.

— Ah, está acabado, gente! — digo, olhando para minha parceira e esperando sua confirmação. — Certo, Zoe?

Ela concorda sombriamente e diz:

— Sim. O momento foi completamente errado.

Depois de Jess e Michael saírem para jantar, Zoe e eu nos aconchegamos no sofá para assistir à versão original do filme Operação cupido, com a Hayley Mills. Era um de meus filmes favoritos quando criança e, como a criança educada que ela é, Zoe finge gostar mais dessa versão “antiquada” do que da nova com a Lindsay Lohan.

Quando o telefone toca, olho no identificador de chamadas. É Maura. Meu coração dá um salto só de imaginar mais drama familiar. E, apesar do que ela tem para me contar, tremo só de pensar em contar sobre o acidente com Zoe.

— É sua mãe — digo, enquanto pego o controle remoto, aperto o botão de pausa e atendo o telefone.

— Oi, Maura — digo cautelosamente. Vou ter que tomar cuidado com as perguntas que fizer, já que Zoe está ao meu lado.

— Quero falar com a mamãe! — Zoe diz, e sua voz fica infantil e chorosa.

— Um momento, Zoe — digo, e pergunto à minha irmã como ela está.

— Estou bem — Maura responde, e parece mais forte do que eu esperava.

— O que está acontecendo? Como você está? — pergunto.

— Estou bem, mas realmente não posso falar agora. Ele está na cozinha — ela diz em voz baixa.

— Não pode fazer um resumo? — digo, enquanto Zoe tenta pegar o aparelho.

— Bom, resumindo, ele está realmente arrependido. Já suplicou por perdão e chorou. Ele não para de dizer que não sabe por que faz esse tipo de coisa. Diz que precisa de ajuda. Ele quer procurar minha terapeuta, Cheryl, algo que ele nunca se dispôs a fazer antes. Disse que fará qualquer coisa para manter nossa família unida — ela sussurra. — Nunca tinha visto esse lado dele. É diferente de antes. Acho que é porque... Eu estou diferente agora. Não chorei nem uma vez.

Olho de relance para Zoe e escolho minhas palavras com cuidado.

— Ele está tentando dizer que tem algum tipo de... vício?

— Bom, ele não falou isso exatamente... eu só acho que ele é... uma pessoa bem infeliz.

Isso pode ser verdade, eu acho, mas não lhe dá o direito de andar por Manhattan paquerando e também deixar sua família infeliz. Mas não cabe a mim fazer julgamentos ou tomar decisões pela minha irmã. Então, pergunto:

— Como você se sente?

— Não sei — ela diz. — Mas sei que a decisão está em minhas mãos agora. E é uma sensação muito boa.

Depois de uma longa pausa, ela pergunta como está Zoe.

— Ela está sentadinha aqui, pacientemente esperando sua vez de falar. Vou colocá-la na linha. — Respiro fundo e digo: — Mas primeiro tenho que lhe contar uma coisa.

Maura interrompe.

— Ah, meu Deus, o que aconteceu?

Fico impressionada com a intuição das mães e lhe asseguro que Zoe está bem. Então, lhe dou uma versão menos melodramática do acidente. Deixo de lado a parte sobre Tucker e termino dizendo:

— Sinto muito por ter deixado isso acontecer.

— Não seja tola — Maura diz, mas sua voz está tremendo um pouquinho. — Acidentes acontecem. Não é culpa sua. Deixe eu falar com ela.

— Claro — digo, entregando o aparelho para Zoe, que, previsivelmente, irrompeu em lágrimas ao ouvir a voz da mãe. Acho que é um reflexo natural ao falar com a pessoa a quem você mais ama no mundo. O que significa que não devo ir ao meu almoço com Ben na segunda. Estou até me vendo cair em prantos sentada no restaurante.

Depois de Zoe contar sua versão do acidente, da ida ao hospital, do Dr. Steve e de seus pontos, ela começa a falar sobre o noivado de Tucker e de Ben. Não tenho energia para interrompê-la ou intervir. Além do mais, seu relato é bem preciso, até nos detalhes do “rabo de cavalo louro” e do “enorme anel de brilhantes”.

Quando pego o telefone de volta, Maura pergunta:

— É verdade?

— Receio que sim — digo. — A imaginação dela não é tão fértil assim.

— Ah, meu Deus! Sinto tanto — ela diz.

— Eu sei — digo. — Eu também sinto.

Por causa do acidente, Maura decide que Zoe deveria voltar para casa naquela mesma noite.

— Ela precisa estar aqui conosco. — Maura diz. A palavra conosco não passa despercebida, nem o fato de Maura e Scott chegarem juntos. Imagino se essa é a forma de Maura dar a ele “mais uma chance”. Ou se é um modo de mostrar para Zoe que seus pais a amam demais, embora eles não se amem como antigamente.

A única coisa de que eu tenho certeza é que Maura está com uma aparência bem melhor do que estava quando deixou Zoe aqui, há menos de vinte e quatro horas. Ela parece forte, com a postura perfeita e o rosto rosado. Em contraste, Scott está pálido, assustado e boquiaberto.

Passa pela minha cabeça que as coisas poderiam ter acontecido de um outro jeito. Scott poderia ter respondido como um cavalheiro, “Tudo bem, você me pegou. Agora, vamos nos divorciar”. Ou, pior ainda, ele poderia ter dito, “Estou apaixonado por essa mulher e quero me casar com ela”.

Do jeito como as coisas aconteceram, cabe à Maura decidir o que fazer. E ser aquela que toma decisões é sempre revigorante. Fico feliz por minha irmã estar se sentindo assim. Bem que eu gostaria de sentir o mesmo.

Eu me despeço de Zoe com pelo menos uns quatro beijinhos, e digo a ela que tem que voltar aqui para a gente ir à Fao Schwarz e passear de carruagem no parque.

— E talvez tenha neve da próxima vez — falo, sentindo falta dela, mesmo antes de ela ir embora.

— Posso voltar logo, mamãe? — Zoe pergunta, olhando para Maura.

— Claro que sim — Maura responde.

Quando Scott levanta Zoe em seus braços, Maura segura a minha mão, a aperta e diz baixinho:

— Cuide-se.

— Você também — digo.

Quando a porta se fecha atrás de minha sobrinha e de seus pais, digo, em voz alta para mim mesma, com o máximo de ironia que consigo: “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”. É um clichê que sempre detestei, tanto pela sua obviedade quanto pela pressão que representa na obrigatoriedade de termos um dia produtivo e maravilhoso. Então, naturalmente, decido fazer o oposto. Desisto de tudo e caio na cama, sem nem mesmo me importar em tomar um banho antes para tirar os germes do hospital e de Tucker que ainda estão na minha pele.