Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 4 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 3

C A P Í T U L O

 

3

 

Os comentários de Ben sobre bebês chegam ao ponto do suborno e continuam a ser disparados ao longo dos dias seguintes. Digo a mim mesma para ter calma, não brigar, dar um tempo. Digo a mim mesma que eu deveria esperar pelo menos o tempo que ele levou tocando violão, na esperança de que bebês sejam só sua atual fixação. Ou talvez ele esteja um pouco inquieto, enfadado ou procurando por algo para preencher um vazio. Isso viria ao encontro de uma de minhas teorias que responde à pergunta: por que alguns casais, mesmo aqueles que não nasceram para ser pais, têm filhos? A teoria é que parte da atração por crianças deve ter a ver com o foco da nossa sociedade nos primeiros. Como referências e rituais de passagem. Temos nosso primeiro beijo, primeiro namoro, formatura da escola, faculdade, formatura da faculdade, primeiro emprego, casamento, primeira casa. Ter um filho parece ser algo natural, o próximo passo a seguir na evolução da vida, o único grande momento que nos resta viver. Ou talvez os casais simplesmente desejem indiretamente vivenciar todos esses primeiros passos novamente por meio de seus filhos. Reviver os grandes acontecimentos e corrigir seus erros. Não estou dizendo que todos os casais têm filhos por esse motivo, a maioria parece mesmo querer vivenciar toda essa experiência, mas acho que alguns são assim.

Caso Ben se encaixe nessa categoria, vou me esforçar para trabalhar um pouco menos e me certificar de que nossa vida de casal seja a mais completa e divertida possível. Vou ver se consigo fazer todas as coisas que sempre fizemos juntos, mas com maior intensidade e frequência. Vou fazer reservas em novos restaurantes, vamos ouvir música incrível e ver arte fabulosa. Planejo dar escapadas de fim de semana para a região de Berkshires e para os Hamptons.

Mais importante ainda, vou seguir o conselho de Jess e manter nossa vida sexual mais vigorosa. Jess acredita que o sexo é a panaceia para qualquer problema, e é por isso que ela está convencida de que Trey vai largar a esposa logo (segundo a própria Jess, ela é incrível na cama).

Certa noite, vesti minha melhor lingerie e iniciei o tipo de noite de amor que vale uma vida inteira. Durante todo o tempo, sinto nossa forte atração química, a parte do nosso relacionamento que estava faltando desde a viagem para St. John. Tenho certeza de que o esforço vai virar as coisas para o meu lado.

Depois de tudo, minha mente está abençoadamente vazia. Mas, de repente, volto a pensar em bebês. Resisto à vontade de salientar o óbvio — que uma criança poderia colocar em risco nossa vida sexual. Que nós teríamos pouco tempo ou energia para o sexo. Que não poderíamos mais nos colocar em primeiro lugar. Ben deve estar pensando a mesma coisa quando dá um beijo na minha testa e balbucia:

— Amo você, Cláudia... Bons sonhos.

— Para você também — falo, me sentindo sonolenta.

Foi aí que Ben se vira para o lado e diz:

— Cláudia, se tivermos um filho, prometo que você será a primeira mulher na história do mundo a não perder nenhum minuto de sono.

Ben não costuma conversar depois que a gente faz amor, então fico particularmente irritada por ele estar quebrando o padrão tipicamente masculino com essa pérola. Sinto meus músculos se retesarem ao dizer:

— Pelo amor de Deus, Ben! Não estamos falando de um cachorrinho de estimação. Estamos falando de um bebê!

— O que você quer dizer com isso?

— Você age como se estivesse se oferecendo para levar um maldito beagle para passear no meio da noite! Estamos falando de um bebê aqui!

— Eu sei disso — ele diz.

— Um bebê vai mudar completamente minha vida. Nossa vida.

— Sei disso — Ben responde. — Mas nossa vida vai mudar para melhor. Prometo.

— Você não pode me prometer uma coisa dessa — contesto. — É uma promessa ridícula e impossível de cumprir. Você não tem ideia do que ter um filho vai fazer conosco. Além do mais, existem muitas, muitas outras razões pelas quais eu não quero filhos, além do meu amor por uma boa noite de sono.

— Ok. Como o quê? — Ben pergunta.

— Já discutimos isso antes — falo, sem querer repetir meus motivos ou analisá-los mais de perto. — Muitas vezes.

Contudo, ele me pressiona e começo com um motivo simples e superficial. Digo a ele que não quero ficar grávida.

— Mulheres grávidas são lindas — ele diz.

Reviro meus olhos.

— Além do mais, você só vai ficar grávida por nove meses. Um grão de areia no mar da vida.

— Para você é fácil falar. Não quero ser invadida desse modo, não importa que o período seja curto... e eu gosto de malhar — argumento. Sei que esse motivo não se sustenta muito, especialmente porque eu não frequento a academia há semanas.

— Você pode malhar quando estiver grávida, sabe disso — ele explica.

— Sim, tudo bem. Eu vejo aquelas mulheres esbaforidas caminhando na esteira. Elas parecem extremamente infelizes... E você sabe que eu estou pensando em correr a maratona de Nova York. Talvez o ano que vem. É uma coisa que eu sempre quis fazer — digo, o que, na teoria, é verdade.

Correr uma maratona é um dos meus objetivos de vida. Mas, até agora, nunca passei dos dois quilômetros. Não sou naturalmente muito atlética, ao contrário de Ben, que corre e nada sem esforço. Ainda assim, quando vejo alguém mais velho ou deficiente atravessar a linha de chegada todos os anos, imagino que eu também possa fazer isso. Algum dia.

— Bem, sempre tem a possibilidade de adotarmos um bebê — ele comenta.

— Essa não é a questão, e você sabe disso. A gravidez é o menor dos problemas.

— Tudo bem — ele diz. — Então, não precisamos ter um bebê imediatamente. Isto é, podemos esperar alguns anos. Não preciso ter um filho agora. Só quero que você me diga que vai pensar um pouco e considerar a ideia.

Vejo uma saída e fico tentada a ganhar tempo. Eu poderia “pensar sobre o assunto” por alguns anos e então só dizer que parei de tomar a pílula. Iria esperar nós chegarmos aos 40 anos e torcer para que a infertilidade nos atingisse. Resolver o problema naturalmente. Mas me recuso a ser desonesta. Não existe relacionamento sem honestidade. Então, lhe digo a verdade: que eu não vou mudar de ideia.

Ben parece ignorar completamente minha afirmação e pede para que eu lhe dê uma outra razão.

Faço a vontade dele e digo:

— Certo. Eu gosto de morar na cidade.

Ele se senta na cama e fala:

— Podemos ter um filho na cidade.

Fico admirando a linha dos seus ombros enquanto digo:

— Isso não é fácil. Iríamos precisar arrumar um lugar maior e não podemos bancar isso.

— Bom, você nunca se sente meio cansada de morar em Manhattan? Nós dois crescemos em bairros residenciais, afinal de contas. Não seria legal voltar para nossas raízes? Ter um quintal novamente? Árvores e esquilos, e um pouco de silêncio e paz?

— Ok, agora você está parecendo um louco falando — arremato. — Nós dois adoramos morar na cidade.

— Eu sei, mas...

— Eu não quero me mudar — falo, me sentindo apavorada só de pensar nisso. Fico imaginando SUVs, reuniões de pais e mestres, filminhos de partidas de futebol, jantares de família no Olive Garden. A essa altura, já estou sentada também. — Eu não vou me mudar para um bairro residencial de classe média.

— Tudo bem — ele fala, concordando com a cabeça. — Nós poderíamos criar um filho em Manhattan. Muita gente faz isso. Nós só teríamos que arrumar um apartamento maior e cuidar da parte financeira. Portanto, esse não é um motivo válido. Fale outro.

Solto a respiração, bufando, e digo:

— Ok. Minha carreira.

Deixei os motivos mais importantes para o final. Eu tinha trabalhado muito, muito mesmo, para arriscar tudo por causa de filhos. Já vi isso acontecer muitas vezes, mesmo com as editoras que estavam determinadas a chegar ao topo. Elas têm que sair mais cedo do trabalho, não podem sacrificar seus fins de semana e inevitavelmente perdem um pouco da ousadia e da ambição. Sempre acontece isso. Não sei por quê; não sei se as prioridades mudam ou se elas simplesmente não têm mais a mesma energia para lutar. Não sei e não pretendo descobrir... Não quero me juntar à fila de mulheres que trabalham fora e estão sempre com uma aparência miserável e infeliz, que lutam para ter tudo e terminam frustradas, exaustas e culpadas.

— Qual o problema com a sua carreira? — ele pergunta, todo inocente.

— Um filho iria impactá-la — explico.

— Já lhe disse, posso ficar em casa por um tempo. Ou podemos contratar uma babá. Você não tem que largar seu emprego. Você nem mesmo vai precisar trabalhar meio período. Existem muitas mães que trabalham fora. Você pode ter as duas coisas.

— Mas eu não quero as duas coisas. Entende? É isso que você parece não compreender. Ter as duas coisas significa não fazer nenhuma direito.

— Mas você seria uma mãe incrível, Cláudia! — ele diz.

— Eu não quero ser mãe — digo com o máximo de convicção que consigo transmitir. — Sinto muito que isso me faça parecer egoísta. Mas o que eu acho muito pior, muito mais egoísta, é ter um filho quando não se está totalmente comprometido com isso. E eu simplesmente não compartilho desse seu plano, Ben.

— Não agora? — ele fala se recostando na cama.

— Não agora — digo. — E nem nunca.

Ben me lança um olhar frio. Então, ele balança a cabeça, se afasta de mim e fala com o rosto encostado no travesseiro:

— Tudo bem, Cláudia. Acho que está tudo claro para mim agora.

Na manhã seguinte, nos preparamos para o trabalho em silêncio. Ben sai primeiro, sem nem me dar um beijo de despedida. Ele se recusa a retornar qualquer uma de minhas mensagens durante o dia todo. Fico tão perturbada que cancelo um almoço importante com um agente literário de alto nível e sou ríspida ao telefone com uma de minhas autoras mais meigas e aplicadas, por causa de um atraso na entrega de seu manuscrito.

— Você sabe que, se eu não receber isso logo, não conseguirei reunir tudo e mandar para os revisores, certo? — digo, odiando o tom estridente da minha voz.

Uma das coisas das quais eu me orgulho no trabalho é que eu nunca desconto meus problemas nem nos meus assistentes nem nos autores. Odeio pessoas que deixam a vida particular se imiscuir na vida profissional, e se até mesmo uma simples conversa sobre filhos pode influenciar no meu trabalho, não consigo nem imaginar o que poderia acontecer se eu tivesse um filho de verdade.

Naquela noite, reli um manuscrito e percebi que não gostei dele tanto quanto gostei quando o adquiri. É uma história de amor excêntrica e eu não consigo deixar de pensar se minha mudança de atitude tem a ver com o que está acontecendo no meu casamento. Entro em pânico só de pensar que é este o caso. Eu não quero mudar de modo algum. Não quero que minha vida mude. Caio no sono no sofá, preocupada com Ben e esperando que ele volte para casa. A certa altura, ouço-o entrar cambaleando no apartamento e percebo quando ele chega perto do sofá. Abro meus olhos e olho para ele. Seu cabelo está bagunçado e ele está cheirando a conhaque e cigarro, mas, mesmo assim, ainda é um gato. Tenho uma vontade repentina e incontida de agarrá-lo e puxá-lo para os meus braços. Com cheiro de cigarro e tudo mais.

— Oi — ele fala, conseguindo com dificuldade soletrar as duas letras.

— Onde você esteve? — pergunto com suavidade.

— Fora.

— Que horas são?

— Duas e pouco.

Então, ele solta uma frase irônica. Fala algo sobre aproveitar as vantagens de uma vida sem filhos. Noto que ele usou a palavra sem filhos em vez da nossa velha expressão livre de filhos. De repente, fico com raiva novamente.

— Muito maduro, Ben — digo, enquanto me levanto e vou até o banheiro —, se embebedar quando colocamos as cartas na mesa. Bela jogada para alguém que acha que vai ser um pai fantástico.

Foi algo duro e injusto de se dizer. Ben pode ser chamado de qualquer coisa, menos de irresponsável. Mas eu não volto atrás. Simplesmente deixo as palavras pairarem no ar entre nós.

Os olhos dele se estreitam. Então, ele pigarreia e fala:

— Vai se foder, Cláudia.

— Não, vai se foder você, Ben — falo, passando ao lado dele e batendo a porta do banheiro atrás de mim. Minhas mãos tremem ao abrir a tampinha da pasta de dente.

Enquanto escovo meus dentes, penso no que acabamos de dizer. Foi uma primeira vez. Nós nunca dizemos coisas assim um para o outro. Embora já tenhamos tido discussões acaloradas, nunca nos xingamos ou nos ofendemos. Sempre nos sentimos superiores aos casais que agem assim. Então, os foda-ses tornaram-se um símbolo instantâneo de nosso impasse e de nossa separação iminente. Pode parecer melodramático ligar a separação de um casal a algumas palavras ríspidas, mas sei que chegamos ao nosso ponto de não ter mais volta.

Cuspo um pouco da pasta, imaginando o que eu deveria fazer a seguir. Tem que ser algo mais importante, algo mais significativo do que dormir no sofá. Tenho que mencionar a palavra divórcio ou sair de casa. Vou até o quarto e mexo no armário procurando minha mala grande. Posso sentir Ben me observando enquanto coloco as roupas ao acaso dentro dela. Camisetas, roupas de baixo e algumas peças para usar no trabalho. Enquanto arrumo a mala freneticamente, me sinto como se estivesse vivenciando o papel da esposa furiosa.

A certa altura, mudo de ideia. Não quero sair do meu apartamento no meio da noite. Mas sou muito orgulhosa para voltar atrás. Parece uma tolice muito grande empacotar uma mala e não ir a lugar algum. É como desligar o telefone na cara de alguém bufando de raiva e ligar de volta imediatamente. Não dá para fazer isso. Então, caminho calmamente até a porta, com a mala na mão, esperando que Ben tente me impedir. Me curvo, segurando a respiração enquanto calço meus tênis, dando nó duplo nos cadarços, ganhando tempo para que ele possa dizer algum tipo de desculpa. Quero que ele se ajoelhe, peça desculpas e diga o quanto me ama. E eu também vou fazer o mesmo.

Em vez disso, ele fala com a voz fria como o gelo:

— Adeus, Cláudia.

Olho nos olhos dele e sei que chegou ao fim. Então, não tenho outra escolha a não ser me levantar, abrir a porta e partir.