Uma prova de amor
Capítulo 17
C A P Í T U L O
1 7
Sinto um pouco de culpa por estar usando Richard para atingir Ben. Ou por usar Richard para estar por cima ao encontrar Ben. Ou simplesmente por usar Richard. Contudo, Jess salienta que, na verdade, não estou usando ninguém, pois gostar de alguém anula a ideia de se estar usando a pessoa. Ela me pergunta se eu levaria Richard para o hipotético batizado de seu filho. Respondo rapidamente que sim, pois não quero pensar no bebê que ela não vai ter com o Trey e porque sei exatamente aonde ela quer chegar.
Ela sorri, como se tivesse acabado de demonstrar um complicadíssimo teorema:
— Então... Você deveria estar com a consciência limpa.
Sacudo minha cabeça e dou uma risada enquanto ela levanta a mão para me saudar com um “toque aqui!”. Claro que é conveniente ter uma mestre no racionalismo como sua melhor amiga.
Então, alguns dias mais tarde, estou no apartamento de Richard e estamos preparando o jantar. Ou, mais precisamente, estou observando enquanto ele prepara o jantar e aceitando tarefas menores e descomplicadas do tipo “lavar a alface” e “picar a cebola”. Para mim, não tem problema lavar a alface; espalho as folhas sobre o papel-toalha e as enxugo delicadamente antes de colocá-las numa grande travessa de madeira. Quando começo a picar a cebola na direção errada, Richard dá uma risada e diz:
— Fale a verdade, Parr, como é possível você não saber cortar uma cebola direito?
— Eu sei — digo, me sentindo um pouquinho envergonhada. — Já aprendi um monte de vezes e nem assim me lembro. É a mesma coisa com tomates.
Com delicadeza, ele tira a faca das minhas mãos e diz:
— Com licença.
Banco a incapaz — o que não é muito fingimento — e o observo enquanto ele usa sua técnica perfeita de cortar e picar sem esforço algum.
— É estranho se eu disser que isso me deixa muito excitada? — pergunto. Sempre gostei de pessoas que demonstravam um talento inesperado e nunca teria imaginado que Richard fosse tão bom assim na cozinha.
Ele ri e eu admiro as linhazinhas de expressão em volta de seus olhos. Ele deve ter acabado de tomar banho, pois seu cabelo ainda está úmido atrás e seu perfume um pouco mais forte do que o normal. Ele está descalço, usando jeans escuros e uma camisa branca bem passada com as mangas enroladas até os cotovelos. Observo-o pegar a cebola com as costas da faca e transferi-la da tábua de cortar para a frigideira untada com azeite de oliva. É gostoso ouvir o barulhinho crepitante da cebola fritando enquanto ele diz orgulhosamente “Voilà!”. Então ele enxuga as mãos num paninho, abre uma garrafa de vinho com um abridor de garrafas profissional, outra coisa que eu não consigo fazer, e despeja o vinho em duas taças. Ele me entrega uma e tilintamos nossas taças sem fazer um brinde. Só gosto de fazer brindes se há algo que valha a pena ser dito. Brindes do tipo “Vamos brindar por hoje à noite”, ou “Ao chef”, ou “A nós” parecem tirar a graça do momento. Ou, pior ainda, criam um tipo de vazio, como se houvesse uma pergunta no ar: “O que vamos falar agora?”. E se um homem olha no fundo de seus olhos quando seus copos se encontram, como Richard acabou de fazer, isso pode ser muito mais emocionante do que algumas palavras.
Sorrio quando Richard dá um passo em minha direção, se curva e me dá um beijo. Ele é um pouco mais alto do que Ben, e é difícil beijá-lo se estamos de pé. A maioria das mulheres prefere homens mais altos, mas eu sempre gostei da sensação de intimidade que vem junto com alguém com a mesma altura. Fica mais íntimo na hora de dançar uma música lenta, entre outras coisas. Não que eu quisesse mudar alguma coisa no Richard. Retribuo seu beijo e saboreio o vinho. Chego à conclusão de que o primeiro beijo da noite é sempre o melhor. Acho que Richard pensa a mesma coisa, pois ele faz uma pequena pausa antes de se voltar para o fogão e mexer as cebolas.
— Agora, chega. Não me distraia — ele diz. — Isso aqui é coisa séria.
Estudo suas costas e o modo como seu pescoço se curva sobre o fogão e decido que esse é o melhor momento para convidá-lo para o batizado. Vou ser bem natural, simplesmente fazer o convite. Não preciso ficar “enrolando”. É isso que é lindo em nosso relacionamento. Ou o que quer que esteja rolando entre nós. Não há necessidade de fingimentos. Então, eu disparo e falo de uma vez:
— Grandes amigos meus tiveram um filho. O batizado é na semana que vem. Ben vai estar lá. Você gostaria de me acompanhar?
Ele se vira para mim, sorrindo:
— Então você quer provocar ciúmes em seu ex-marido?
Começo a balbuciar uma negativa, mas ele me interrompe e diz:
— Sem problemas. Eu vou. E não se preocupe. — Richard segura sua colher de pau como se fosse uma espada. — Vou deixar você orgulhosa.
— Não é por isso que eu quero que você vá — afirmo. — É que eu achei... que seria legal se você conhecesse meus amigos.
— Certo — Richard diz, com um sorrisinho sarcástico. — Um batizado é um dia bem comum para conhecer os amigos. Ao contrário de, vamos dizer... sair para beber ou para um brunch. Ou sair sem compromisso para um jantar.
Sinto que fiquei corada. Deveria ter imaginado que ele me provocaria. Devo ter ficado envergonhada, pois ele imediatamente parou de brincar comigo. Ele abaixou a colher de pau, levantou meu queixo com seu polegar e me beijou novamente. Mas desta vez foi um beijo do tipo “anime-se, gata”, ao contrário de um daqueles beijos que querem dizer “não consigo esperar mais nem um segundo para tirar sua roupa”.
Quando nos afastamos, ele está sorridente de novo.
— Será que devo fazer isso só por causa do seu ex? Talvez devêssemos sentar na primeira fileira e começar a nos agarrar dentro da igreja. Que tal?
Sinto meu rosto ficar quente e digo:
— A cerimônia vai ser no Central Park, perto do Shakespeare Garden. E a propósito... foi uma ideia horrível. Esqueça o convite.
Na verdade, não quero que ele esqueça. Quero que ele vá comigo. Por causa de Ben, sim. Porém, muito mais porque o quero perto de mim. Exatamente como disse para Jess. Por um instante, penso em lhe dizer tudo isso, mas não consigo imaginar um modo de lhe dizer sem parecer séria demais.
— Ei, Parr — ele diz, com seu sorriso maroto. — Não vou esquecer o convite. Não perderia esse batizado por nada neste mundo.
Acordo na manhã do batizado com o som de uma chuva pesada, o tipo de chuva torrencial que geralmente não para antes do meio-dia. Meu primeiro pensamento vai para o meu cabelo, que fica horrível com qualquer tipo de umidade. Meu segundo pensamento é que vai ser difícil arrumar um táxi e eu detesto o metrô em dia de chuva. Meu terceiro pensamento foi para Annie, que planejou o batizado no Central Park e isso está fora de questão. Seu plano B, em caso de chuva, é fazer a cerimônia na sua sala de estar. Sua minúscula sala de estar. De repente, o fato de eu ter convidado Richard parece ter sido uma má ideia. Uma coisa é levar um convidado para um evento em um lugar público e aberto. Outra bem diferente é levar alguém para um apartamento pequeno em Manhattan.
No entanto, é tarde demais para mudar os planos. Tomo um banho, seco meu cabelo e coloco o vestido que Jess havia escolhido para mim: uma de suas roupas, um pretinho clássico de Diane Von Furstenberg. (Vestidos são roupas que podemos compartilhar.) Jess também me deu um novo par de sapatos, um presente de aniversário antecipado, um par de Manolos com salto verde-escuro e tiras de tecido pretas e verdes. Fico na frente do espelho, me maquio e borrifo um pouquinho de perfume.
Com exceção de que deveria ter feito um retoque nas luzes do meu cabelo, estou satisfeita com o resultado. Minha aparência está ótima, mas não estou parecendo desesperada para impressionar. Não sinto necessidade de impressionar Ben, um homem que havia me visto nos meus piores momentos. Ainda assim, não quero aparecer na frente dele parecendo pior do que ele se lembra. Chamo Jess para vir ao meu quarto para dar sua aprovação final.
— Você está incrível! — ela diz, encantada. — Um pouquinho conservadora e discreta, mas cheia de estilo. Se Tucker for, ela vai morrer de inveja. Talvez ela até se apaixone por você.
Dou uma risada e digo:
— E quanto aos acessórios?
— Era o que eu ia falar. Acho que você devia ir simples. Você não vai querer ficar parecendo uma garotinha fashionista de 20 aninhos. Coloque apenas aquele seu anel de opala azul e suas pérolas. E só.
Aceno com a cabeça e pergunto:
— Que bolsa devo usar?
— Vou pegar minha bolsinha da Dior. É perfeita. E não se esqueça daqueles maravilhosos e enormes óculos de sol de aro de tartaruga.
— Mas está chovendo — rebato.
— Pode ser que pare. Esteja preparada.
Respiro fundo, solto a respiração e digo:
— Jess, obrigada. Amei os sapatos. Amo você.
Ela ri e responde:
— Tente se divertir. Sorria bastante. Segure no braço de Richard tanto quanto for possível. Não! Segure no braço de Ben tanto quanto for.
Ela sai para pegar a bolsinha exatamente no momento em que Richard liga.
— Tudo em ordem. Estou usando minha calça de couro de cintura baixa e de cowboy — ele brinca. — Você gosta?
Dou uma risada e pergunto:
— Calças de cowboy não são sempre justas e de cintura baixa?
— Você está certa. Use um chapéu e ninguém vai notar.
Ele então me avisa que vai passar por aqui e me pegar de táxi. O problema do transporte já está resolvido. Lembro-me de como resolvia essas questões de logísticas com o Ben. Era sempre eu quem guardava as passagens de avião, por exemplo. Ele as perderia. Ou pelo menos entraria em pânico só de pensar que as tinha perdido. Posso vê-lo agora, de olhos arregalados, procurando como um louco em seus bolsos, revirando sua maleta, convencido de que elas tinham desaparecido. Uma vez, nós até brincamos que tínhamos sorte em não ter filhos. Porque Ben com certeza esqueceria o bebê no metrô.
Richard interrompe meus pensamentos me convidando para dar uma passadinha no Starbucks para um café antes.
— Vou querer tomar um — ele diz. — Esse é o compromisso social que começa mais cedo que eu já tive.
Imagino uma cena desastrosa e lhe digo:
— Não, obrigada.
Quinze minutos mais tarde e após uma última conversa com Jess, saio de casa. Richard já está lá embaixo no táxi, com seu café gelado.
Ele se curva no assento e abre a porta. Entro e digo:
— Ei! Onde está sua calça de couro?
— Mudei de ideia — ele diz, beijando meu rosto. — Humm. Você está com um cheiro delicioso... Deixa eu adivinhar: o perfume favorito do ex-marido?
Sorrio e lhe digo a verdade.
— O segundo favorito.
— Ah, estratégico! Se você escolhesse o favorito, ia parecer que estava tentando lhe agradar. Que ainda está pensando nele. Se você escolhe um que ele goste menos, você vai parecer despeitada... o que também indicaria que você ainda pensa nele.
Dou uma risada, pois a análise dele é precisa. É bom sair com um cara que não tem o instinto do ciúme. Como resultado, sinto que posso contar qualquer coisa para ele.
— Culpada! — confesso.
— Então... — Richard diz com um sorriso maroto. — Tem algum assunto que não deve ser abordado hoje?
Digo a ele que seria bom não entrar no assunto de divórcio e filhos.
— Que inclui, é claro, pedir o divórcio por causa da questão de ter filhos. Do contrário, pode-se conversar sobre qualquer coisa.
Seguimos para a casa de Annie e Ray, sem encontrar trânsito no caminho, e chegamos bem na hora. Richard paga o táxi e nós descemos do banco de trás, sem guarda-chuva, e entramos no saguão do prédio onde ele joga seu copo de café vazio na lixeira. Annie e Ray acionam o interfone para podermos entrar e subimos pela escada, encontrando a porta ligeiramente aberta.
— Olá? — digo, limpando os pés no capacho de sisal. Meu coração bate descompassado só de imaginar que Ben está do outro lado.
— Podem entrar! Entrem! — escuto Annie cantarolar.
Empurro a porta para abri-la um pouco mais e coloco meu presente, uma caneca de prata gravada com o nome do bebê, na mesa do hall de entrada. Dou uma olhada na sala e vejo que somos alguns dos primeiros convidados a chegar. Sinto uma mistura estranha de alívio e desapontamento ao perceber que Ben não está ali. Pela primeira vez, passa pela minha cabeça que talvez ele não compareça. Talvez ele esteja me evitando. Pode ser que esteja fora da cidade. Talvez tenha saído de férias com Tucker. Acho que devia ter perguntado para Annie.
— Cláudia, minha querida! — Annie dá um gritinho. Ela está com Ray Jr. no colo, mas me abraça com uma das mãos livres. Não consigo acreditar no quanto ele mudou em poucos meses. Ele passou de uma coisinha pequenina e agora está naquela fase alerta e rechonchuda de um bebê de comercial de televisão. Os bebês são um lembrete de como o tempo passa rápido demais, mas resisto a comentar o quanto ele cresceu. Não quero salientar o fato de ter sido uma amiga tão negligente.
— Oi, Annie! — digo, beijando o rosto de minha amiga antes de me virar para admirar o filho dela. Ele está usando um macacão de linho creme com a gola no estilo Peter Pan que provavelmente custou mais caro que a maioria de minhas roupas. Annie parece uma europeia em relação a roupas: tem poucos itens no seu guarda-roupa, mas todos de alta qualidade. Elevo minha voz alguns tons e digo: — Oi, Raymond!
Sempre me sinto envergonhada, meio tola, quando falo com bebês ou com crianças pequenas com quem não estou muito familiarizada. Raymond faz uma careta e olha para o outro lado escondendo o rosto nos ombros de sua mãe e a agarrando pelos cotovelos com suas mãozinhas. É como se ele soubesse a verdade a meu respeito. Não dizem que os cachorros e as crianças sentem coisas em relação às pessoas?
Annie olha ansiosa em direção a Richard, quando lhe digo:
— Annie, gostaria de lhe apresentar meu amigo, Richard. Richard, estes são Annie e Raymond.
Richard diz:
— Prazer em conhecê-la, Annie. — Então ele dá umas palmadinhas no bumbum de Ray Jr., fazendo as fraldas farfalharem. — Oi, companheiro! Como vai?
Raymond Jr. fica firme. Ele não vai cair nessa.
— Muito prazer em conhecer você, Richard — Annie responde, com os olhos cintilantes de curiosidade. Não havia entrado em detalhes com ela ao telefone, e ela também não me perguntou nada. Posso afirmar que Annie estava se segurando para não fazer mais perguntas do tipo: “E aí? Tudo bem com vocês dois?”. Eu havia dito que estava tudo ótimo. Agora, tenho a prova: um homem distinto e mais velho.
Richard e Annie conversam um pouco sobre banalidades, que consistem basicamente em Annie fazendo uma série de perguntas a ele. “O que você faz? Ah, vocês trabalham juntos? Há quanto tempo você está lá? De onde você é?” Ele responde a tudo educadamente, embora minimamente, e faz algumas perguntas a ela quando Ray aparece para se juntar a nós, com um olhar estranho.
— Muito bem, quem está por aqui?
Percebo imediatamente que Ray não gostou de eu ter levado um convidado. O que poderia significar muitas coisas. Poderia significar que ele está triste porque seu amigo e eu não estamos mais juntos. Ou ele talvez estivesse querendo proteger Ben. Ou talvez pensasse que eu era uma idiota por trazer um certo constrangimento para a festa de seu filho. Estou começando a achar que essa última possibilidade é a mais provável.
Fico imaginando se Annie e Ray avisaram Ben antecipadamente. Com certeza ela o avisou. Mas, pensando bem, acho que estava ocupada com outras coisas, como o cuidado integral com um novo bebê. Talvez ela esteja tão absorvida com a atenção dedicada ao seu novo rebento que ela e o marido raramente têm tempo para conversar.
Observo Ray se apresentando a Richard com um aperto de mão agressivo. Então, ele se vira para mim e diz:
— Bom ver você de novo, Cláudia. — Noto um tom indiferente na voz dele e me vejo pensando que nossos amigos finalmente estão tomando partido, partido de Ben.
— Bom ver você, também — digo. — Parabéns pelo grande dia de Ray Jr.!
Annie oferece uma bebida para preencher o vazio que se formou na sala. Richard olha de relance para o bar improvisado montado do outro lado da sala, agradece Annie e ele mesmo vai se servir.
— Alguém gostaria de beber alguma coisa?
Vejo meia dúzia de garrafas de champanhe alinhadas como se fossem soldadinhos de chumbo e faço que sim com a cabeça. Ainda são apenas 11 horas, mas, definitivamente, estou pronta para beber alguma coisa.
— O que você for beber está bom para mim — digo para Richard, sabendo de antemão como minhas palavras soam cúmplices, como um casal em sintonia.
O rosto de Ray se ilumina repentinamente e ele exclama:
— O tio Ben chegou!
Respiro fundo e mantenho meu olhar fixo à frente, preso em Raymond Jr. Sei que não é possível para um bebê de seis meses entender o que está se passando, mas posso jurar que o bebê de Annie se virou e me olhou com zombaria, para então sorrir para Ben, que sinto que está parado ao meu lado. Tão perto que sei que dá para ele sentir o meu perfume, pois estou respirando e sentindo o cheiro dele, um cheiro que nem eu havia percebido que ele tinha. Foi como voltar para casa depois de longas férias e perceber que o seu apartamento realmente tem um cheiro próprio.
Ben se curva para dar um beijo no alto da cabeça de Raymond. Ele não faz nenhum comentário sobre como ele cresceu. Claramente ele tem estado por perto.
Ele, então, se vira para mim e diz:
— Oi, Cláudia.
Solto o ar que estava segurando na garganta e me permito olhá-lo nos olhos. Ele está exatamente o mesmo. Ele está como o Ben de sempre. Meu Ben.
— Oi — digo. Minha voz sai engraçada e eu sinto uma fraqueza nas pernas. Uma fraqueza física, parecia que meus joelhos iam desabar. Tento sorrir, mas não consigo. Não sei o que fazer com as mãos. Gostaria de estar segurando um copo. Annie e Ray trocam olhares e se afastam para receber outros convidados.
— Como vai? — Consigo perguntar, enquanto meus olhos resvalam para seu dedo anular esquerdo sem aliança.
— Estou bem. E você? — ele pergunta.
Digo a ele que também estou bem, enquanto olho de soslaio para Richard. Ele se vira, me observa falando com Ben, e então se vira em direção à janela, uma taça de champanhe em cada mão. Ele toma um gole de uma delas. Deve saber que estou conversando com meu ex-marido.
— É bom vê-la novamente — Ben fala com sinceridade.
— Bom ver você também — digo. E é verdade.
— Estou feliz que você veio — ele diz. — Não sabia se você viria.
Olho de relance para Richard mais uma vez, que ainda está olhando pela janela.
— Não sabia se você viria também — digo.
— Ah, bom, na verdade eu sou o padrinho do... Raymond — ele diz, sério.
— Ah, eu não sabia. — Confesso. — Quanta honra!
— É mesmo — Ben concorda. — É muito legal, sim.
Sorrio e sinto algo rasgando dentro de mim, algo bem parecido com o ciúme que eu senti na época do colegial. Como quando descobri que minha melhor amiga, Pam, havia sido eleita rainha do baile de formatura. Nós éramos tão ligadas e até éramos parecidas. As pessoas sempre perguntavam se éramos irmãs ou gêmeas. Então, por que ela foi a escolhida, e não eu? Sinto a mesma coisa agora ao me perguntar por que Annie e Ray haviam escolhido Ben, e não eu.
Será que é porque eu não quero ter filhos? Ou eles ficaram do lado de Ben? Será que tenho sido uma péssima amiga? Ou, talvez, eles estavam precisando mais de um padrinho do que de uma madrinha. Afinal, nem Ray nem Annie têm um irmão.
A essa altura, Richard se afasta da janela para conversar com um homem que eu não reconheço. Penso: “Meu Deus, ainda tenho um minuto”. Embora eu não tenha muita certeza do que vou dizer a seguir. E, então, falo abruptamente. Minha pergunta premiada:
— Então, você não trouxe a Tucker?
— Não — Ben responde com um meio sorriso. — Não trouxe.
A única vantagem possível que eu poderia ter com essa pergunta é se ela me esclarecesse o estado atual do relacionamento deles. Porém, a resposta que ele me deu não esclareceu nada. Meti os pés pelas mãos.
Percebo que Richard terminou a conversa com seu novo amigo. Ele me olha novamente, com as sobrancelhas erguidas de maneira interrogativa, como se quisesse dizer “Não quero pressionar, mas se importa se eu me aproximar de você?”. Aceno que sim com a cabeça. Qualquer outra resposta seria uma grosseria, mesmo para alguém tão tranquilo quanto Richard. Então, exatamente quando Richard está atravessando a sala para se juntar a nós, Ben diz:
— Vejo que você também veio sozinha.
Um segundo mais tarde, Richard está ao meu lado me servindo uma taça de champanhe. É um gesto inconfundível, mas Ben parece confuso, como se estivesse tentando reconhecê-lo. O que seria impossível, visto que os dois nunca se encontraram.
Não tive alternativa a não ser dizer:
— Ben, este é Richard Margo. Richard, Ben Davenport.
— Olá, Ben. Prazer em conhecê-lo — Richard diz.
Percebo uma nuvem cobrir o rosto de Ben enquanto ele processa o nome. Sei que ele não se esquece de minha lista “Os Top Cinco do Escritório”. Ele sabe exatamente quem é Richard e não ficou nem um pouco feliz com isso.
Ben não estende a mão para cumprimentá-lo. Em vez disso, ele vacila, com a expressão vazia. Alguns segundos se passam antes de ele dizer um indiferente “Como vai?” e voltar seu olhar para mim. Ele sabe que eu entendo o significado de seu “Como vai?”.
Foi isso que a mãe dele, Lucinda, disse para a segunda mulher do seu ex-marido, a responsável pela dissolução de seu casamento. Durante anos, Lucinda se torturou sobre o que dizer quando finalmente tivesse o desprazer de se encontrar com ela. Ela se recusava a ser grosseira. Todavia, também se negava a dizer aqueles cumprimentos formais do tipo “É um prazer conhecê-la”. Ben se lembra da mãe se sentindo vitoriosa quando percebeu que um cumprimento curto e seco fazia mais efeito, um simples “Como vai?”. Ben me contou essa história um pouco antes de eu conhecê-la. Ele me disse que deveria me preocupar se ela me dissesse um “Como vai?”. Do contrário, significava que ela tinha gostado de mim.
É claro que Richard não faz nem ideia do que está por trás de tudo isso e responde:
— Nada mal. E você?
Ben responde com o que minha sobrinha Zoe interpretaria como sarcasmo.
— Muito bem — ele responde, com um sorriso falso. Então, ele pede licença e vai em direção a seu afilhado. Ao pegar a criança dos braços de Annie, ele se vira e me olha com olhos penetrantes. O significado disso também não me passou despercebido.
Depois de uma hora miserável de confraternização entre os convidados, a cerimônia conduzida por uma ministra chamada Sky, que usava sandália rasteirinha, começou. Não estou surpresa pela atmosfera meio hippie do evento, já que a cerimônia está acontecendo numa sala de estar, e não num parque nem numa igreja, e por causa do histórico religioso de Annie e Ray. Ambos foram criados como católicos, mas se afastaram da igreja quando tinham vinte e poucos anos por uma série de razões, a maioria delas política. Então, passaram por uma fase agnóstica, que durou algum tempo. Annie declara que está mais espiritual desde que Raymond Jr. nasceu e começou a frequentar a Igreja Unitária na Second Avenue.
A ministra passa um bom tempo falando sobre conceitos sublimes, como o valor inerente e a dignidade de cada um; justiça e compaixão nos relacionamentos humanos; a procura pela verdade; o respeito pela rede interdependente de toda a existência, da qual fazemos parte. Ao longo de sua fala, ela para e pergunta aos padrinhos se eles irão apoiar e guiar Raymond Jr. na busca desses objetivos. Meus olhos estão presos em Ben enquanto ele abaixa a cabeça solenemente e repete:
— Vou — em uníssono com a irmã de Annie.
Ao observá-lo, não consigo deixar de pensar em nossos votos no Caribe. Como ele os pronunciou sinceramente. E como ele está sendo sincero agora em seu papel de padrinho. Então, quando penso que posso escapar e até fugir, Annie anuncia que os padrinhos irão ler, cada um separadamente, suas mensagens para Raymond Jr.
A irmã de Annie lê a sua primeiro, recitando um poema de Langston Hughes chamado “Sonho”. Depois, é a vez de Ben. Ele limpa a garganta e olha amorosamente para seu afilhado. Sinto a mão de Richard nas minhas costas quando eu olho para baixo e escuto a voz de Ben dizer numa voz alta e clara:
— Raymond, estou tão feliz e orgulhoso por ser seu padrinho. Rezo para que você seja uma pessoa de caráter e integridade. Que seja forte e gentil. Que seja honesto e saiba perdoar. Que seja justo, sem ser presunçoso. Que sempre siga o seu coração e faça coisas boas e lindas no mundo. Amém.
Sinto uma onda avassaladora de tristeza tomar conta de mim ao imaginar que pai maravilhoso ele será. Como seu filho ou sua filha terão sorte em ter um pai assim. Como algum dia, alguma mulher será grata e feliz por eu não querer ter tido filhos. Não olhe para ele, digo para mim mesma. Mas não consigo parar de olhá-lo. Não consigo evitar. É mais forte que eu. E talvez seja minha imaginação, mas presto atenção no rosto dele e tenho certeza de que ele está tão triste quanto eu.
— Nunca deveria ter levado Richard àquela festa — digo para Jess ao voltar para casa e lhe contar o resumo da história.
— Sinto muito — Jess fala. — Mas, se serve de consolo, acho que você fez a coisa certa.
— Por que você acha isso? — pergunto, soltando as tiras das minhas lindas sandálias Manolo, que tenho certeza de que Ben nem notou.
— Porque... — ela diz — ... você mostrou a ele que seguiu em frente.
— Mas agora ele me odeia.
— Ele não te odeia.
— Você não viu o modo como ele me olhou. Ele me odeia.
— Certo. Ele odeia você. E daí?
— Não quero que ele me odeie.
— Sim, você quer. Você quer que ele se importe tanto com você a ponto de odiá-la. Se ele tivesse ficado sentado na festa batendo papo com Richard, você estaria se sentindo bem pior agora.
Tenho que concordar com ela, mas digo:
— Me sinto uma idiota e cretina por ter feito isso com ele.
— Cláudia, você levou um namorado para uma festa. Grande coisa. Você sabe que Ben também está namorando.
Reviro o anel de opala no meu dedo e solto um suspiro.
— Não quero magoá-lo. Parece que eu fiz... de propósito. Não acho que ele faria isso comigo.
— Olhe. Você não se separou dele por causa do Richard. Ele se separou de você. Ele se separou esperando encontrar outra mulher que quisesse ficar grávida dele para começar uma família. Guarde isso na sua cabeça.
Concordo. Ela está certa.
— E pare de ficar se sentindo culpada — Jess arremata. — Ok?
Concordo novamente, pensando que era mais fácil dizer aquilo do que fazer. E estou começando a perceber que talvez não esteja me sentindo culpada apenas por ter levado alguém comigo para uma festa.