Uma prova de amor
Capítulo 30
C A P Í T U L O
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Nos três dias seguintes, vacilo entre a descrença entorpecida e o sofrimento puro e exagerado. O trabalho está devagar, como sempre acontece nas vésperas de feriado, então passo a maior parte do tempo editando — em casa e a maior parte do tempo na cama. Jess me avisa que dormir demais é sinal de depressão, como se isso fosse alguma novidade. Ela tenta me animar com conversas estimulantes. Impacientemente, me livro dela, dizendo que estou bem. Muito embora esteja convencida de que jamais estarei.
O ponto mais baixo acontece no meio da noite, quando acordo depois de sonhar com a cena final do filme A primeira noite de um homem. Tudo é igual ao filme, só que eu sou Dustin Hoffman e Ben não abandona Tucker grávida no altar. Em vez disso, ele e toda a família dele me olham como se eu fosse louca, até que Ray e Annie me agarram pelo braço, me levam para fora da igreja e me colocam dentro de um ônibus completamente sozinha. Eu acordo suada, coberta de lágrimas e tão furiosa que tenho medo de mim mesma.
Na manhã seguinte, encontro Jess no quarto dela fazendo os últimos arranjos em sua mala para a viagem com Michael para o Alabama. Contra minha própria vontade, acabo contando a ela sobre meu pesadelo. Ela diz:
— Bom. Felizmente, você vai atrás dele antes do dia do casamento.
Olho para ela sem entender, e ela responde:
— Na segunda-feira.
Discordo com a cabeça e digo:
— Não vou atrás de ninguém... E decidi que não vou almoçar com ele na segunda-feira.
— O quê? — ela pergunta, indignada.
— Vou cancelar — digo enfaticamente.
— Não vai, não — ela diz de maneira ainda mais enfática.
— Não faz sentido! — eu digo, levantando os ombros impacientemente.
— Faz sentido, sim — ela diz. — Olha, Cláudia. O fato de eles estarem noivos não muda sua decisão.
— Muda, sim — retruco.
— Não, não muda nada — ela argumenta. — Se Ben pôde se divorciar do grande amor da vida dele, ele certamente pode terminar um noivado.
— Como sabe que não é ela o grande amor da vida dele?
— Porque é você — ela diz. — E as pessoas só conseguem ter um.
— Desde quando acredita nessa baboseira?
— Desde que eu conheci o amor verdadeiro.
— Bom. Tenho novidades para você, Jess. O Ben ama Tucker — digo. — Se não, ele não a pediria em casamento. Ele quer um filho, mas não está tão desesperado assim.
— Tudo bem. Talvez ele a ame de certo modo. Mas ele ama você muito mais, e você sabe disso... Ele não sabe o que está acontecendo. Ele precisa saber. Assim que ele souber que você quer ter filhos, vai terminar com ela.
— Eu não quero filhos.
— Quer, sim.
— Não, não quero — declaro. — Eu estava teoricamente pensando em ter um filho dele.
— É a mesma coisa.
— Na verdade, não é.
Ela fecha o zíper de sua mala Tod com autoridade e replica:
— Bom. Vamos deixar o Ben decidir isso. Certo?
Enquanto isso, meus planos para o Dia de Ação de Graças estão suspensos no ar. Maura sempre oferece um jantar na casa dela, porém, por motivos óbvios, esse ano é exceção. Daphne é a segunda opção porque meu pai se recusa a ir à casa de minha mãe e Dwight; no entanto, quando contamos à minha mãe nosso plano, ela fica toda dengosa e diz:
— Vocês meninas nunca vêm à minha casa. — E começa a reclamar que nós nunca, de fato, aceitamos o Dwight. Não estou a fim de escutar essas baboseiras, então mudo rapidamente de assunto e digo:
— Olha, Vera. Nós estamos indo para a casa da Daphne. Você nem sabe cozinhar.
— Podemos encomendar a comida — ela emenda.
— Mamãe, pare com isso. Já tomamos a decisão.
— E quem decidiu isso? — ela pergunta, numa voz infantil.
— Eu decidi — digo. — Então, vai conosco ou não? A decisão é sua.
Desligo o telefone e chego à conclusão de que, quando estamos no fundo do poço, nada pode nos afundar ainda mais. Nem mesmo nossa própria mãe.
Alguns minutos depois, ela me liga e fala comigo num tom conciliador.
— Cláudia?
— Sim — respondo.
— Decidi.
— E?
— Eu vou — ela diz humildemente.
— Boa menina — respondo.
A manhã do Dia de Ação de Graças nasce sombria, cinza e chuvosa, mas também muito quente. Uma combinação deprimente para um feriado. Demoro um tempo enorme para sair da cama, tomar banho e me vestir. Um dos princípios de vida básicos de minha mãe passa pela minha cabeça: “Se você se vestir bem e estiver bonita, vai se sentir melhor”. E, embora teoricamente eu concorde com ela, deixo esse conselho de lado e escolho um suéter de gola alta bem usado e uma calça jeans com os joelhos desfiados. Digo a mim mesma que é melhor isso do que usar moletom e tênis para o jantar de Ação de Graças, que aparece na lista do panfleto sobre Sinais de Alerta de Suicídio, motivo pelo qual desisti de usá-los hoje.
Tenho dificuldade em encontrar um táxi e tenho que caminhar até a estação de metrô mais próxima, a Penn Station, para pegar meu trem. Sento num banco em que fico de costas para a parte da frente, o que me deixa meio enjoada. Então, quando estou na metade do caminho para Huntington, percebo que esqueci minha sofisticada torta de abóbora de vinte e oito dólares do Balthazar em cima do balcão da cozinha. Falo merda em voz alta. Uma velha senhora sentada à minha frente me olha, desaprovando meu linguajar. Murmuro um desculpe, muito embora esteja pensando, “Preocupe-se consigo mesma, madame”. Passo os próximos vinte minutos me preocupando com o fato de que vou virar uma daquelas velhas que não gostam de gente. Ou, pior ainda, vou virar uma velha amarga que não gosta de jovens.
Quando meu pai me pega na estação, digo a ele que tenho que passar no supermercado para comprar uma torta.
— Dane-se a torta — meu pai declara, e eu entendo que ele está querendo dizer fiquei sabendo do noivado do Ben.
— Não. De verdade, papai — digo. — Prometi para Daphne que levaria uma torta de abóbora.
Tradução: Sou um fracasso total. Só me resta manter minha palavra.
Meu pai dá de ombros e alguns minutos depois estamos na frente do estacionamento da Waldbaum. Corro lá dentro, pego duas tortinhas de abóbora mixurucas, já pela metade do preço, e corro até o caixa rápido de “compras de até doze itens”.
Itens, digo a mim mesma, lembrando-me de como Ben se divertia quando eu corrigia a gramática ou o vocabulário nas placas públicas. Eu realmente espero que Tucker seja uma garota de ciências e matemática no estrito senso da palavra, e erre nos pronomes diariamente. Ela estudou em Harvard e sei que seus erros não são grosseiros, como o clássico “É para mim fazer isso?”.
O melhor disso tudo é que Ben vai se lembrar de mim todas as vezes que isso acontecer. Então, um dia, talvez ele ensine para Tucker as regrinhas de colocação pronominal, do mesmo modo como ensinei a ele: “Não se diz: ‘É para mim fazer’. O correto é dizer: ‘É para eu fazer’”. Talvez ela estranhe: “Sua ex-esposa ensinou tudo isso para você?”, ela vai dizer com sarcasmo, motivada pelo ciúme e pela inveja. Porque ela pode curar as pessoas, mas nunca será capaz de construir uma frase como eu.
Então, quando estou pagando pelas minhas tortas de consolação e alguns refrigerantes, vejo Charlie, meu namoradinho do tempo da escola, entrar na fila atrás de mim. Geralmente, eu gosto de me encontrar com ele e com os outros colegas da época da escola, mas as coisas mudaram desde que me divorciei. Divórcio não é o tipo de assunto que gosto de mencionar ao bater papo com antigos colegas, mas, ao mesmo tempo, é impossível evitar isso. Além do que, já esgotei minha quantidade de encontros inesperados essa semana e não estou a fim de ser gentil. Mantenho a cabeça baixa e entrego uma nota de vinte dólares para a moça do caixa.
Justamente quando achei que ia conseguir escapar, Charlie diz:
— Cláudia, é você?
Cheguei a pensar em fingir não escutar e continuar andando, mas eu gosto de Charlie e não quero passar por esnobe, algo que ele havia me acusado de ser, então, eu me viro e o cumprimento como uma adulta equilibrada e feliz.
— Oi, Charlie! Feliz Dia de Ação de Graças!
— Para você também, Cláudia! — ele diz, empurrando suas compras de última hora: um galão de leite integral, três caixas de molho de mirtilo e uma caixa de absorventes. — Como vai?
— Tudo bem! — digo, enquanto observo o filho dele balançando uma caixinha laranja de Tic Tac. Ele é igualzinho à foto de Charlie no jardim da infância, que estava emoldurada na entrada da casa dele na época em que namorávamos. O menininho olha para o pai e diz:
— Podemos levar isso, papai?
Imagino que ele vá dizer “Não. Ponha de volta”, que é o comportamento-padrão dos pais no supermercado, mas Charlie diz:
— Claro. Por que não? — e coloca o Tic Tac na esteira do caixa.
Sorrio, lembrando-me do que eu mais gostava no meu primeiro namorado. Sua primeira resposta para tudo era: “Por que não?”. Ele era descomplicado, otimista e bem-humorado. Devo ter pensado, alguma vez, que essas características faziam dele um simplório, mas agora acho que elas representam a felicidade. Afinal, é ele quem tem hoje uma família. É ele quem está comprando produtos de higiene pessoal para sua esposa. E eu sou aquela que se divorciou, cujo pai está esperando por ela dentro do carro no estacionamento.
— Então, o que você anda fazendo? — Charlie pergunta, com um sorriso largo no rosto.
— Nada demais — digo e tento evitar qualquer pergunta a meu respeito, mudo o foco para o filho dele. — Esse é o mais velho?
— Não! — Charlie diz. — Esse é o mais novo, Jake... Jake, esta é a Cláudia.
Jake e eu apertamos as mãos e rezo para que a conversa fique nesse rumo, mas Charlie pergunta:
— Como está Ben?
— Na verdade, nos divorciamos — digo.
— Que pena, sinto muito!
— Não precisa — falo. — Ele vai se casar novamente.
E dou uma risada de minha própria piada. Charlie me acompanha, mas é aquela risada de pena, não de diversão. Trocamos mais algumas palavras e ambos prometemos dizer um alô para nossas famílias. Enquanto isso, posso garantir que ele está pensando: “Eu sabia. Sabia que ela não teria um final feliz, desde que me contou, na noite da formatura, que não queria ter filhos”.
Daphne tem tudo sob controle quando meu pai e eu chegamos à casa dela. Mas sob controle não é igual à perfeição de Maura. Ao contrário, a casa está uma grande confusão. A cozinha está bagunçada e a partida de futebol de Tony está competindo com o CD favorito do Enrique Iglesias de Daphne e os latidos de seus cachorrinhos Yorkshire. No entanto, o cheiro está maravilhoso e a atmosfera é aconchegante. Daphne está parada ao lado do fogão com todas as bocas acesas. Ela está usando um avental com os dizeres: “TEM CARBOIDRATO?”, e está calma. Meu pai se junta a Tony na sala de estar, ponho minhas tortas e os refrigerantes na geladeira e digo:
— Espero que tenha outra sobremesa.
— Claro que tem — Daphne diz, sorrindo orgulhosa e apontando para uma torta fresquinha sobre o balcão.
— E então? — digo, me acomodando num banquinho. — Teve notícias de Maura? Ele está vindo?
Daphne sabe que estou me referindo a Scott. Ela começa a descascar uma maçã e me conta que, até hoje de manhã, Maura ainda não havia decidido se deixava ele vir ou ficar em casa. Ela ficou satisfeita em saber que os pais e a família da irmã dele já tinham feito reservas para uma viagem à Disneyworld no feriado; então, se ela decidisse excluí-lo, ele não teria para onde ir.
Um momento depois, ouço minha mãe e Dwight na porta da frente.
— Olá-ááá? — minha mãe cantarola ao entrar na cozinha, perfumada demais, usando um esvoaçante conjunto St. John com sapatos marinho combinando. Sua roupa lembra a expressão “roupa casual”, que é sua definição favorita de roupas para suas próprias festas. Apesar de sua alergia a cachorros, ela pega os animaizinhos de Daphne e permite que eles lambam sua boca.
— Oiii, Gary! Oiiii, Ann! — ela cantarola, e eu fico pensando que falar com cachorros de modo infantilizado é ainda mais irritante do que falar com crianças assim.
Dwight também está vestido de modo casual. Está usando mocassins, óculos Ray-Ban e uma jaqueta com botões dourados brilhantes. Ele tira os óculos e dá duas garrafas de vinho merlot para Daphne. Então, esfrega as duas mãos vigorosamente, como se fosse acender fogo.
— E então, minhas senhoras, como estão as coisas? — ele pergunta, observando as panelas fumegantes. — O cheiro está ótimo, Daph!
Então, enquanto o observo caminhar pela cozinha, lembro-me de como Ben costumava imitar seu modo de andar e dizia:
— Já notaram como o quadril do Dwight entra numa sala cerca de cinco minutos depois de ele entrar?
Sempre gostava quando ele zombava do Dwight, porém, só de pensar que ele pode fazer comentários sobre minha família (mesmo se for sobre o marido de minha mãe) com sua futura noiva, sinto um efeito estranho de lealdade em mim, que nunca existiu antes. Dwight não é uma má pessoa, eu acho, e o cumprimento com um beijo pela primeira vez na minha vida. Espero minha mãe colocar os cachorros no chão, lavar as mãos, usar seu inalador. Então, lhe dou um abraço.
— Que bom que você teve o trabalho de se arrumar — ela sussurra em meu ouvido.
Sorrio e respondo:
— Sim. Mas você deve ficar feliz em saber que, se por acaso eu estiver envolvida num acidente e me despirem, estou usando minha melhor roupa de baixo.
Ela sorri, como se dissesse “Ensinei você bem”.
A campainha da porta toca, todos nos olhamos nervosos, com uma pergunta pairando no ar: “Será que Scott virá com sua família?”.
Até mesmo minha mãe está moderada.
— Você abre a porta — Daphne diz, enquanto, nervosa, amarra de novo seu avental.
Vou para a porta. Quando a abro, fico surpresa em ver Scott. Pensei que Maura fosse bani-lo da festa. Uma frase de Hillary Clinton sobre Bill veio à minha cabeça: “Ele é um cachorro difícil de se manter na varanda”. Claramente pode-se dizer o mesmo de Scott. Embora ele esteja aqui, na varanda, com Maura.
— Oi, pessoal — digo, me curvando para abraçar as crianças primeiro. Zoe mostra seus pontos, ou, mais precisamente, o lugar onde eles estiveram.
— Eles desapareceram — ela diz. — Exatamente como o Dr. Steve disse que iria acontecer.
Dou uma risada e a abraço novamente.
Quando me levanto, olho direto nos olhos de Scott. Pela primeira vez, eles não parecem presunçosos ou brilhantes. Ao contrário, ele está mais mortificado e arrependido do que estava no sábado à noite. E Maura parece ainda mais vivaz. Penso comigo mesma: “A garota despreocupada, segura e popular está num encontro com o garoto agradecido de recuperação”. É uma mudança de papéis para eles, e eu sinto uma sensação de saudade, lembrando-me de que minha irmã costumava ser assim antes de conhecer Scott. Imagino o que aconteceu. Será que o comportamento de Scott a transformou em vítima e a deixou num estado permanente de ansiedade? Ou as prioridades dela foram deixadas de lado, para que ela acomodasse alguém como Scott em sua vida?
Cumprimento-o com frieza e dou um beijo em minha irmã. Mais cumprimentos tensos são trocados na cozinha. Então, todos vão para a sala assistir ao jogo de futebol, mas só Tony gosta de verdade do esporte. Paro de pensar em Ben enquanto observo Scott e Maura. Ele a está paparicando, enchendo sua taça de vinho, massageando seus ombros, lidando com as crianças que fazem bagunça, e me vejo pensando em uma das teorias de Annie sobre relacionamentos que ela chama de “teoria do ditador benevolente”. Segundo ela, um relacionamento ideal tem um equilíbrio de poder. Porém, se alguém tiver mais poder, esse alguém deve ser a mulher. Sua explicação é que, quando o homem tem mais poder, ele abusa disso e sucumbe aos seus instintos inatos de autointeresse e autoindulgência. Mulheres que têm o poder, ao contrário, tendem a governar a família tendo o interesse pela família em primeiro lugar, em vez de seu próprio interesse. E é por isso que as sociedades matriarcais são pacíficas, harmoniosas, e as sociedades governadas por homens são com frequência destruídas pela guerra.
Claro que quando Annie falou pela primeira vez de sua teoria, ainda na faculdade, tentei desacreditá-la com histórias dos meus próprios pais. Disse a ela que minha mãe tinha todo o poder, e todo ele voltado para seu próprio interesse, enquanto meu pai era o cara bem-intencionado. Ainda assim, olhando em volta, tive que concordar que a teoria de Annie fazia algum sentido, e que minha família parecia ser a exceção à regra. Meus amigos com pais divorciados, quase todos tinham mães que eram mártires; enquanto aqueles com pais com casamentos bem solidificados pareciam ter mães fortes e pais devotados.
Olhando Maura agora, vejo-a como uma ditadora benevolente. A soberana que poderia ter cruelmente deixado Scott em casa com um prato de comida congelada, depois de lhe usurpar o trono. Mas ela o trouxe para a celebração da família. Ela demonstrou graça e clemência. Alguns poderiam chamá-la de tola ou covarde. Talvez eu tivesse dito isso há uma semana. Porém, ao observá-la hoje, acho que sua atitude tem mais a ver com força de espírito, de querer o que é melhor para seus filhos e de lutar para encontrar a resposta. Apesar de tudo, independentemente dos filhos, sei também que ela chegou ao fim da linha. Se Scott tiver sorte de sobreviver a esse incidente, tenho certeza de que ela não vai tolerar outra traição, nem mesmo o rumor de uma. Essa é sua última chance, a redenção final. Percebo que Scott também entendeu isso.
Será que a pura força de vontade de perdoar é o suficiente para acertar as coisas para minha irmã e sua família? Porque, apesar de tudo, poder é uma coisa. Amor é algo completamente diferente.
Quando o peru está pronto, somos convidados a ir para a sala de jantar, apesar de Tony pedir para assistir ao final do jogo e comer seu jantar numa bandeja. Daphne nem se digna a lhe responder. Ela o ignora e diz:
— Cada um pegue uma bebida e venha!
Dwight lidera o caminho, com uma taça de vinho numa das mãos e uma lata de refrigerante diet na outra. Ao entrar na sala, ele dá um grito:
— Uau! Olhem só! Lugares marcados!
Daphne arrumou a mesa com pequenos cartões feitos de papel pardo e adesivos dos colonizadores. Ela colocou cartões menores na mesinha das crianças, com lugares para Zoe, Patrick e William.
Maura circula ansiosamente pela mesa, inspecionando os nomes, como as pessoas costumam fazer numa recepção de casamento. Ela rapidamente pega o cartão com o nome de Scott e o troca pelo de Dwight, para não ter de se sentar ao lado do marido. Enquanto isso, Scott franze a testa e fingimos não notar nada enquanto nos sentamos.
Tony faz as preces e depois Daphne insiste em manter nossa tradição de família; todos temos que dizer uma coisa pela qual somos gratos. Pessoalmente, acho essa atividade meio perigosa, se considerarmos as frágeis circunstâncias que circundam nossas vidas, em especial nessa quinta-feira. Mas não sou eu quem vai estragar a festa. Ao contrário, minha mente está fervilhando à procura de algo para agradecer.
Daphne dá as últimas instruções.
— Lembrem-se. Não vale repetir. Dwight, você começa.
Dwight sorri e diz:
— Muito bem, bem, bem. Estou contente pela comida nesta mesa, que Daphne preparou para nós com todo carinho. Tudo parece maravilhoso!
— Que droga, Dwight! — digo. — Você roubou minha fala.
Dwight dá uma risada e complementa:
— Também estou feliz por ser o primeiro a falar!
Zoe diz que quer ser a próxima. Ela fala que agradece que sua cabeça esteja melhor e que ela se divertiu muito com a tia Cláudia no último fim de semana. Sorrio para ela. Zoe diz que agradecerá em nome de seus irmãos Patrick e William. Ela diz que eles estão agradecidos por todos os seus brinquedos e livros.
Minha mãe continua na mesa dos adultos. Ela olha para o teto, como se estivesse contando suas bênçãos. Ela é sempre boa na hora de fazer um pequeno discurso de agradecimento no Dia de Ação de Graças. Um ano ela disse: “Estou feliz por Ross Perot ter ido tão bem na eleição desse ano”. Num outro ano ela falou: “Agradeço que meu marido, Dwight, tenha aprendido que comprar presentes na Kohl’s, ou em outras lojas do mesmo nível, apesar de bem-intencionados, não são bem-vindos”.
Este ano ela resolve se valorizar e diz:
— Sou grata pela energia criativa que Deus me concedeu e que eu pude embarcar nessa maravilhosa e empolgante carreira na fotografia.
Eu me seguro para não cair na risada, pois é a vez de Scott falar. Seus olhos estão fechados, como se estivesse orando. Lembro-me de que, no ano passado, ele disse que estava agradecido pelo mercado de ações finalmente estar se recuperando e a economia estar voltando ao normal. Esse ano ele pigarreia e diz:
— Estou agradecido por estar aqui nesta mesa.
Sua fala simples é a declaração mais genuína e humilde que já ouvi dele, e não posso deixar de me emocionar. Estou longe de perdoá-lo, mas percebo que a empatia pode ser o primeiro passo. E eu realmente quase sinto por ele. Maura, ao contrário, parece completamente imperturbável quando emenda com a frase dita por ele:
— Sou grata pelos meus lindos filhos, meus pais que me apoiam e minhas leais irmãs.
“Ai!”, penso.
— E o papai? — Zoe pergunta. Essa criança não deixa passar nada.
— Ah, sim, Zoe, obrigada! — Maura responde. — Sou grata por você ter um papai que ama você e seus irmãos.
Isso parece satisfazê-la, então passamos para o meu pai. Depois de ele agradecer, como de costume, pela saúde de todos à mesa, é a minha vez.
Sei que tenho muito pelo que ser grata, mas só consigo pensar em Ben. Em como minha vida parece vazia sem ele. Penso por alguns minutos, observando o rosto de todos à minha volta naquela mesa. Ben e eu costumávamos ser nossa própria e pequena família, mas agora essas pessoas são a única família que tenho. A única família que terei. Então, digo:
— Agradeço pelo amor de todos nesta sala. Por saber que não importa o problema que tivermos, estaremos sempre aqui um para o outro, até o final.
Todos ficam quietos por um minuto. Até mesmo Patrick e William parecem desolados.
— Tudo bem — digo. — Daph?
Todos olham para minha irmã. Ela e Tony dão as mãos e sorriem um para o outro, e eu percebo imediatamente que eles têm uma grande novidade para contar. Que todos nós teremos um motivo real para ficar feliz.
Sem dúvida, minha irmã sorri docemente e diz:
— Tony e eu queremos fazer nossa prece juntos este ano. — Ela olha em volta da mesa e diz: — Somos gratos pois Deus finalmente vai nos abençoar com um filho.
Minha mãe tem um sobressalto.
— Deus do céu! Você está grávida! É um milagre!
— Não, mãe — Daphne diz rapidamente. — Não estou grávida... Mas você está certa, é um milagre.
Sua voz soa entrecortada, como se Daphne estivesse prestes a cair no choro; então, Tony continua por ela.
— Estamos adotando uma criança. Um menino. Ele vai nascer no dia 22 de dezembro.
Por uns instantes, ficamos todos aturdidos e, então, nossa surpresa se transforma na mais pura alegria, daquela que se traduz com risos e lágrimas simultaneamente.
Daphne recupera a calma e diz para a gente comer antes que esfrie.
— Como se fôssemos conseguir comer! Conte todos os detalhes! — Maura diz ao se levantar para abraçar Daphne e dar um beijo em Tony.
Todos fazemos a mesma coisa logo depois e ficamos em fila para parabenizar os orgulhosos futuros pais. Até mesmo Scott esquece que está “de castigo” e vai cumprimentar Tony com um espalmar de mãos “Toca aqui!”.
Então, nos sentamos todos de volta e partilhamos nossa refeição juntos. Daphne nos conta como se encontrou por acaso com a mãe biológica de seu filho numa loja Easy Spirit do Shopping Center de Huntington. Todos rimos, pois é a cara da Daphne fazer amizade assim com estranhos.
— Na Easy Spirit? — Maura diz e imita o slogan da loja: “É um scarpin, mas parece que está usando uma sapatilha!”.
Daphne sorri e diz para Maura:
— Sei que você fica horrorizada com meu senso de moda, mas esses sapatos são tão confortáveis... E eu não estou tentando impressionar meus alunos do 5o ano com meus sapatos elegantes.
Meu pai levanta as mãos para o alto, fingindo estar exasperado, e diz:
— Chega de falar de sapatos! Conte-nos o que aconteceu!
— Tudo bem — Daphne continua. — Eu estava experimentando esses sapatos e então uma mocinha linda e grávida senta-se ao meu lado. Percebi que ela não estava usando aliança e comecei a imaginar que talvez seus dedos inchassem demais e a aliança não servisse mais, ou que ela não era casada e ficou grávida por acaso. E eu pensei que deve ter sido por acaso, pois ela parecia tão jovem. Tenho que admitir, senti uma pontada de amargura, do tipo, isso é justo? Como algumas pessoas têm filhos com tanta facilidade e ficam grávidas sem nem mesmo tentar e eu não consigo, mesmo querendo um bebê?
— Daphne! — Maura e eu dizemos ao mesmo tempo. Daphne é conhecida em nossa família por contar histórias longas e sem fim.
Daphne dá uma risada e resume a história. Ela diz que ela e a garota, cujo nome é Amber, começaram a conversar sobre como os calçados da Easy Spirit são confortáveis. Amber contou para Daphne que era garçonete à noite e seus pés doíam o tempo todo. Daphne contou à Amber que ela é professora e entende de pés doloridos. Acontece que Amber está na faculdade e vai se formar em educação. Daphne perguntou qual faculdade ela frequentava. Amber disse Hofstra, que é onde Daphne estudou. Discutiram sobre os professores que ambas conheciam e os cursos que Amber está fazendo e onde ela gostaria de lecionar algum dia.
Então, Daphne lhe perguntou sobre o bebê e, depois de alguns minutos de conversa informal sobre o sexo do bebê e a data do parto, Amber abriu o jogo e contou para Daphne o resto de sua história. Que ela ficou grávida por acaso (a camisinha estourou) e o namorado dela, agora ex-namorado, queria que ela fizesse um aborto. Assim como seus pais. Porém, Amber disse que não poderia fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ela tinha consciência de que não estava pronta para ser uma boa mãe para seu filho e que isso não seria justo com a criança. Ela desejava uma vida melhor para o bebê. Portanto, decidiu entregá-lo para adoção. Ela pesquisou várias agências e finalmente se registrou em uma em Westchester, do tipo que facilita adoções. Ela disse que encontrou vários casais, mas ainda não tinha encontrado um que combinasse. Amber disse que todos foram muito agradáveis, mas não houve uma sintonia entre eles. Agora, o bebê estava perto de nascer e ela já não tinha muito tempo.
Daphne faz uma pausa por alguns instantes, toma um gole de água e diz:
— A esta altura, irrompi em lágrimas enquanto o vendedor me fazia experimentar um par de sapatilhas chocolate... De repente, me vejo fazendo confidências para ela, contando de todas as nossas lutas. E, quando terminamos, nós simplesmente ficamos olhando uma para a outra. Diretamente nos olhos uma da outra. E foi como se, naquele instante, nós duas soubéssemos o que iria acontecer. Acabamos comprando o mesmo par de sapatos e fomos para a praça de alimentação para conversar um pouco mais. Naquela noite, a convidei para jantar comigo e com Tony, e eles também se deram muito bem. Não é, Tony?
Tony concorda com a cabeça.
— Sim. Eu realmente gosto dela... Ela tem a cabeça no lugar.
— E um grande, enorme coração — Daphne emenda.
— Como ela é? — Maura indaga.
Daphne diz:
— Ela é uma gracinha. Tem cabelo castanho, liso, olhos escuros e um sorriso meigo. É alta... Mede pelo menos um metro e setenta.
— É bom que ela seja alta — Tony diz. Tony não é muito alto e frequentemente reclama de sua altura na hora de praticar esportes. Daphne diz que ele era talentoso, mas não foi chamado para jogar na faculdade por causa de sua altura. Se pelo menos ele fosse um pouquinho mais alto...
— Vocês sabem alguma coisa sobre o... pai? — pergunto.
— Sim. Vimos uma foto do pai biológico. — Daphne explica, me corrigindo sutilmente, deixando claro para todo mundo que Tony será o único pai, não algum adolescente cheio de espinhas que engravidou Amber, a largou e a encorajou a abortar. Não repetirei esse erro. Ela continua: — Ele é um cara comum, normal. Também estuda na Hofstra...
— E ele tem um metro e noventa — Tony diz, rindo.
— E o que quer dizer uma adoção aberta? — pergunto.
Daphne explica que Amber fará parte da vida de seu filho. Ela diz:
— Queremos que ele conheça sua mãe biológica.
— Então, já está tudo acertado? — meu pai quer saber.
Daphne concorda com a cabeça e diz que ela e Tony já prepararam toda a papelada e pagaram as taxas. E completa:
— É uma loucura... E tudo aconteceu tão depressa... Temos tanto a fazer nas próximas semanas!
Minha mãe parece preocupada quando faz uma pergunta que eu também tinha vontade de fazer, mas me calei:
— Como vocês sabem que a Amber não vai mudar de ideia e ficar com o bebê?
A resposta de Daphne é paciente, mas persuasiva, como se ela também tivesse tido as mesmas preocupações, mas houvesse esclarecido suas dúvidas. Ela declara:
— Na verdade, mãe, os pais biológicos nas adoções abertas têm menos chance de mudar de ideia. Eles ficam mais tranquilos quanto à sua decisão, pois podem ver por si próprios que o bebê está feliz... E pode-se argumentar, também, que as adoções abertas são melhores para as crianças, pois não vão passar a vida toda imaginando quem é sua mãe biológica.
Minha mãe não parece convencida.
— Vocês vão colocar algum... limite?
Tony explica:
— Essa agência é realmente muito boa, Vera. Eles ajudam a gente a montar um plano individualizado, diretrizes para visitas, cartas e telefonemas. Estamos trabalhando nesses detalhes... Mas está claro que queremos o mesmo que Amber. Ela quer vê-lo algumas vezes ao ano, porém não vir aqui todos os dias ou coisa parecida. Ela quer seguir em frente com a vida dela.
— Sim, mas o que vocês vão dizer para o seu filho? — minha mãe pergunta. — Será que essa coisa toda não irá... confundi-lo?
Fico espantada pela ironia de uma mãe tão pouco ortodoxa ficar balançada por um acordo não tradicional. Aposto que Maura está pensando a mesma coisa que eu, posso dizer pela expressão de seu rosto. Mas Daphne continua calma. Ela diz:
— Pense um pouco, mãe. Se uma tia, ou tio, ou avô fazem parte da vida de uma criança, ela fica confusa?
— Não... — minha mãe responde, hesitante.
Tony a interrompe.
— Bom, essas pessoas são parentes consanguíneas, também... Porém, não há confusão, você percebe?
Minha mãe assente com a cabeça.
— Seus pais são seus pais. As crianças sabem quem são seus pais... e o mais importante de uma adoção aberta é que a mãe biológica apoia isso. Ela escolheu a nós. Amber não ia querer arruinar seu próprio plano interferindo na vida de seu filho.
Daphne termina dizendo:
— A família biológica de uma criança é parte de quem ela é. Não importa se conhecemos a Amber ou não, isso não importa. E queremos que nosso filho a conheça. Achamos que, desse modo, será melhor para todo mundo. Sei que parece esquisito na teoria, mas, quando você conhecer Amber, verá que isso é o certo para todos os envolvidos.
Sei o que Daphne quer dizer com essa declaração. Sobre como uma coisa parece ser na teoria e é bem diferente quando aplicada na prática de sua própria vida e das pessoas envolvidas nela. Penso em vários exemplos desse fenômeno, bem aqui nessa mesa. Talvez, na teoria, minhas irmãs e eu, e até mesmo meu pai, deveríamos odiar minha mãe, mas não a odiamos. Nós a toleramos, até mesmo a amamos, apesar de ela ser quem é. Talvez, na teoria, uma mulher deveria abandonar o homem que a traiu. Mas, no caso de Maura, essa pode não ser a opção certa. Talvez, na teoria, eu não quisesse filhos. Talvez eu ainda não queira. Mas ao ver minha irmã e Tony se olharem extasiados, penso em como seria bom estar com Ben e esperando um bebê. Nosso filho. E, pela primeira vez na minha vida, eu quase quero ter um.