Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 17 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 16

C A P Í T U L O

 

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Levei uns três dias para esquecer aquela sensação de pânico causada pelas lembranças de Ben. Durante esse tempo, tentei evitar Richard. Não completamente, pois ainda conversávamos e trocávamos e-mails. Porém, quando ele perguntava se estava livre para jantar, eu arrumava uma desculpa e deixava o convite para outro dia. Não quero fazer sexo com ele enquanto não consigo parar de pensar em Ben, muito embora Jess afirme que essa é a melhor saída para ajudar a superar essa inesperada depressão. Sei, por experiência própria, que ir para cama com um homem enquanto ainda se está pensando em outro pode ter um efeito contrário catastrófico, e eu a lembro de quando terminei com meu namorado da faculdade, Paul. Meu único outro rompimento significativo.

Naqueles primeiros dias em Nova York, logo após a formatura, Jess saía praticamente todas as noites enquanto eu ficava em casa fazendo coisas patéticas como escutar a música do The Cure, a “Pictures of you”, várias e várias vezes, ou ligar para programas de rádio para dedicar músicas para o “Paul, em Denver”. Não conseguia me desvencilhar do sofrimento e nem queria me livrar dele até conhecer Anders numa festa no Upper East Side. Anders era um sueco jogador de tênis profissional, de 20 anos, com cabelo louro comprido e um sorriso cativante. Nos demos bem imediatamente, embora eu reconheça que ele é o tipo de cara com quem todo mundo se dá bem e por quem todas as garotas se apaixonam facilmente.

Então, fiquei enlouquecida quando ele pediu meu telefone no fim da noite. Saímos para jantar, fomos ao cinema na semana seguinte e começamos a sair com certa regularidade, embora nunca tivéssemos parado para pensar o que queríamos e aonde queríamos chegar com esse relacionamento.

Cerca de um mês mais tarde, fizemos sexo no futon da casa dele, debaixo de uma colcha colorida e áspera que a mãe dele havia tricotado. Não superou o sexo incrível que eu tinha com o Paul, mas foi bem melhor do que a minha primeira vez com ele, o que achei significativo. Mais tarde, lá pela meia-noite, Anders preparou um lanchinho de Fritos e cachorro-quente. Ele acendeu o abajur e nós dançamos ao som de “Feel the vibrations”, de Marky Mark, até seu vizinho começar a bater na parede pedindo silêncio. Lembro-me de pensar que, embora não estivesse apaixonada pelo Anders, não podia desconsiderar a ideia de que isso poderia acontecer algum dia. Na verdade, eu esperava que acontecesse.

Alguns dias depois, um pouco antes de me encontrar com Anders, saí do chuveiro e vi uma luzinha vermelha piscando na secretária eletrônica. Muito embora não conversássemos há quase três meses, senti que era uma mensagem de Paul, o que marcou meu grande momento como vidente. Aperto o play e lá estava a voz dele, bêbado e falando coisas desconexas sobre como ele esperava que eu estivesse bem. Não era uma mensagem do tipo “Sinto sua falta e gostaria de ter ido para Nova York com você”, mas, ainda assim, ele estava me ligando numa sexta-feira à noite depois de ter se embebedado; Jess me ajudou a não fazer a mesma coisa inúmeras vezes. Ouvi a mensagem duas vezes e me forcei a deletá-la, lutando contra a vontade de guardá-la para ouvir mais tarde. (Jess é especialista em ler nas entrelinhas e interpretar coisas como mensagens de voz de bêbados, talvez porque ela já tenha passado por isso. Mas quem não passou por essa fase de beber e ligar quando se é bem jovem?) Sinto um aperto no coração ao apagar a voz rouca e familiar de Paul, mas me sinto orgulhosa de minha atitude. Eu era uma jovem urbana e equilibrada que namorava um europeu com cabelos compridos e um saque feroz. Tinha superado meu namoradinho da faculdade.

Então, para fazer jus à minha imagem, fiz o possível para que Anders e eu tivéssemos uma noite daquelas. Jantamos no El Teddy, meu restaurante mexicano favorito em Tribeca (já fechou...) e ficamos bêbados com margaritas, o que me fez sentir sofisticada a cada gole que tomava, pois só bebia frozen margaritas quando estava na faculdade. Depois nos encontramos com os amigos de Anders, a maioria era jogador de tênis, e fomos dançar numa boate no Soho. Anders era um dançarino fantástico, mas não se levava muito sério. De vez em quando, ele começava a fazer uns passos malucos e sua dança hilária de “homem correndo”. Eu quase morri de rir e nunca me senti tão leve, de um jeito que só nos sentimos depois de muito sofrimento.

Foi quando uma coisa muito estranha aconteceu. De volta ao apartamento de Anders, enquanto estávamos fazendo sexo pela segunda vez, me vi pensando na mensagem do Paul. E então, do nada, comecei a chorar. Disse a mim mesma que devia ser o efeito das margaritas. Que eu estava feliz. Rezei para que aquele momento passasse logo e que a escuridão do quarto do Anders fosse suficiente para encobrir minhas lágrimas. Mas não tive essa sorte. Segundos depois, percebo Anders ficar paralisado sobre mim. Ele toca gentilmente meu rosto.

— Você está chorando? — perguntou, parecendo mais horrorizado que preocupado. Ele nem esperou minha resposta: se sentou, acendeu as luzes e me olhou temeroso. Disse a ele que sentia muito. Ele me abraçou e disse:

— Não sinta. — E, então, me perguntou qual era o problema, o que estava errado, por que eu estava triste, se ele tinha feito alguma coisa que me magoou. Disse a ele que não estava triste de verdade, apenas cansada e que havia bebido muito. Ele me pressionou e eu acabei contando a ele sobre Paul, o que havia mudado no nosso relacionamento, sua indisposição de se mudar para Nova York e como às vezes sentia saudades dele ao ouvir algumas músicas, todo aquele melodrama típico de final de relacionamento. Até contei para ele sobre a mensagem que Paul deixou na minha secretária eletrônica, e que eu a havia deletado depois de ouvi-la apenas duas vezes. Desculpei-me durante a conversa e Anders foi um perfeito cavalheiro. Disse que estava tudo bem e, depois de eu insistir um pouco, acabou me contando algumas de suas histórias sobre amores antigos.

É claro que fiquei envergonhada por ter chorado durante o sexo, mas, no meu entender, Anders e eu tínhamos dado um grande passo juntos, algo catártico. Finalmente, estava pronta para seguir em frente e esquecer Paul. Na manhã seguinte, Anders me deu um beijo de despedida, tudo parecia normal. Voltei para casa e contei para Jess que até que enfim eu havia superado o Paul, e que estava pronta para continuar meu relacionamento com o Anders. O único problema foi que Anders nunca mais me ligou. Claro que eu também não liguei para ele. No entanto, ficou bem claro quem é que estava terminando tudo. É sempre assim.

Considerando toda essa história, decido não cometer o mesmo erro com Richard. Nunca mais quero chorar enquanto estiver fazendo sexo (a menos que seja de prazer, e uma vez Ben me fez chorar). Quero que as coisas fiquem definidas na minha cabeça. Sei que ainda vou me lembrar de Ben por um longo tempo, mas prefiro que esses sentimentos não venham à tona quando estiver debaixo das cobertas com outro homem. Não quero macular meu frágil começo com Richard; o problema é que, no começo, todos os relacionamentos são frágeis.

Então, quando estava achando que o pior havia passado, recebo uma correspondência que bagunça minha cabeça. Reconheço imediatamente a letra de Annie e sinto uma ponta de culpa por não ter retornado suas ligações nem aceitado seus convites para almoçar. Annie e Ray são os únicos amigos presos na linha de fogo de nosso divórcio, o único casal que não pode ser considerado nem meu amigo nem de Ben. Todos os outros são um pouco mais amigos de um ou do outro e temos um acordo não dito, no qual eu devo ficar longe dos amigos dele e ele dos meus. É uma questão de respeito. Estou pensando nisso tudo enquanto abro o envelope. Annie adora mandar bilhetes e frequentemente diz como a era dos e-mails está destruindo a arte de se escrever cartas à mão. Porém, a correspondência não é um bilhete; é um convite para o batizado de Raymond Jr.

— Merda! — digo em voz alta porque sei que Ben deve estar recebendo o mesmo convite agora e a última coisa que quero é me encontrar com ele. Fico com raiva de mim mesma e dele também.

Coloco o convite de volta no envelope e penso em minhas opções. Poderia ligar para Annie e lhe dizer a verdade. Somos bastante amigas e poderia lhe confidenciar como estou me sentindo. E é o que faria se ela estivesse me convidando para uma festa qualquer. Mas como é o batizado de seu primogênito, um evento sagrado, não me parece certo fazer isso. Sei que ficaria parecendo egoísmo de minha parte. Tal atitude seria mesmo egoísta.

Penso em mentir. Inventar uma desculpa. Dizer que vou viajar naquele exato fim de semana. Que já comprei a passagem e não tem devolução do dinheiro. Mas isso envolveria uma grande mentira sobre ir para Vegas ou Los Angeles, ou Nova Orleans, e eu teria que me lembrar constantemente de que fui viajar naquele fim de semana de agosto. E com certeza eu teria a sorte de esquecer essa mentira sobre a viagem, atender ao telefone e falar com Annie, que ligou para Jess para saber a receita de algum drinque. Parece cruel, mas é verdade: as pessoas que não mentem são aquelas que têm mais chance de ser pegas na mentira. Além do mais, se juntar todas as desculpas que recentemente tenho dado à Annie, ela vai saber de imediato que é uma pilha de mentiras. Eu saberia.

Eu me recrimino por não ter aceitado pelo menos um de seus convites para almoçar ou para um drinque no ano passado. Por não ter dado uma passadinha na casa dela para ver Raymond Jr. Se eu tivesse feito o mínimo esforço, não seria um grande problema faltar ao batizado.

De repente, me pergunto por que estou evitando Annie e Ray. Acho que não preciso ser uma especialista em psicologia para saber as razões. Em parte é a questão do bebê. A última coisa que quero no momento é estar rodeada de crianças. Não quero me lembrar de que Ben me trocou por causa de uma. Mas também não quero estar por perto de nada nem de ninguém que me faça lembrar dele, ponto final, e receio que Annie vai querer me contar em detalhes tudo sobre a nova vida de Ben. Particularidades que não tenho nenhum interesse em saber. A menos que ela me diga que ele está solteiro e deprimido. E não acho que seja esse o caso. Eu o vi com Tucker. Pode até ser que ele não esteja apaixonado por ela, ou que nem esteja com ela; todavia, em hipótese alguma, ele aparenta estar deprimido.

Claro que poderia dizer para Annie que não quero saber nada que tenha a ver com Ben. Mas eu ia parecer uma grande perdedora, além de emocionalmente instável, se me negasse a conversar sobre qualquer coisa significante na minha vida. Então, Annie iria contar para Ray, que, como homem, não teria o bom senso de guardar essa informação para si mesmo e contaria a Ben como sou patética. Além do mais, se Annie fizesse minha vontade e não mencionasse nada sobre ele, inevitavelmente ficaria imaginando as mil coisas que ela não estaria contando.

Vou acabar pensando que, sim, eu disse a ela que não queria falar nada sobre Ben, mas, se a história fosse favorável a mim (e desfavorável a ele), ela com certeza acharia um jeito de levar a conversa por caminhos sutis como: “Sei que não quer saber nada sobre Ben, mas ele sempre pergunta sobre você quando o encontramos e está tão solitário sem você por perto”.

De qualquer modo, esse convite me força a tomar uma atitude.

Sei exatamente o que Jess vai dizer, então rio quando ela chega em casa do trabalho, olha de relance para o convite e diz:

— Você tem que ir. Você tem que levar o Richard. E você vai ter que estar linda. — Seus olhos brilham, animados, pela primeira vez desde sua conversa com o Trey, que não ligou de volta nem para dizer que estava arrependido nem para dizer oi.

Digo a ela que jamais vou convidar Richard para ir comigo.

— Por que não? Tenho certeza de que Annie não vai se importar.

— Não faria isso com Ben. Nem com Richard, para falar a verdade. Além do quê, ia parecer tão óbvio. Patético, mesmo.

— Não concordo. Acho que é o contrário de patético. Vai parecer que Richard é seu namorado. E as pessoas levam seus namorados a eventos como esse.

— Ele não é meu namorado e você sabe disso.

— É, mais ou menos.

— Não — digo. — Ele não é.

— Então, o que ele é?

— Ele é um cara de quem eu gosto. Um cara com quem eu dormi uma vez.

— Então durma com ele mais algumas vezes e o leve com você.

Dou uma gargalhada e sacudo a cabeça. Ela diz:

— Muito bem. Mas você vai se arrepender muito se não escutar o que estou dizendo e Ben aparecer com alguém.

Levo um susto e pergunto a ela:

— Você acha que ele teria coragem?

— Acho que sim.

— De jeito nenhum. Nunca.

— Nunca diga nunca — Jess diz.

Esse tem sido seu mantra há anos e acho que estou finalmente começando a concordar com ela. Não existe garantia em relacionamentos. Você não pode acreditar que algo não vai mudar. Você não pode esperar nada a não ser o inesperado. Você só vai arrumar encrenca se acreditar que é exceção à regra.

Pego o telefone e ligo para Annie. Ela atende com um tom alegre na voz.

— Oi, sumida!

Antes que eu possa me conter, digo:

— Oi, Annie. Recebi seu convite e não faltaria ao batizado por nada... Você se importa se eu levar alguém?