Uma prova de amor
Capítulo 14
C A P Í T U L O
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Apesar do sucesso daquele primeiro encontro com Richard, de nosso último drinque no apartamento dele, a saideira segundo ele (brinquei com ele que só gente velha usa a expressão saideira), nós nem nos beijamos naquela primeira vez. Ou na vez seguinte. Nem sei dizer ao certo por que estamos retardando as coisas, pois nenhum de nós está escondendo o jogo, nem estamos nos esforçando para sermos formais e respeitáveis. Sei também que estou bem atraída por ele e posso dizer, com segurança, que ele também está atraído por mim. E tenho certeza de que a espera não tem nada a ver com Ben; eu me recuso a ficar pensando nele.
Então, a única explicação possível é que nós dois estávamos curtindo essa crescente tensão sexual e paixão entre nós. Sempre gostei de ir para o trabalho, mas meu escritório nunca tinha sido um lugar tão excitante e tentador como agora. Chego cedo todos os dias, ansiosa pela primeira ligação de Richard. Acabo trabalhando até tarde todas as noites, para compensar as horas que passei mandando e-mails para um homem que está apenas a alguns andares distante de mim. Quando nos cruzamos nos corredores, trocamos cumprimentos formais antes de voltarmos para nossas salas para mandar mensagens do tipo “Você está sexy...”, “Não, você está sexy”.
Acho que nada mais natural do que nosso primeiro beijo acontecer no trabalho.
É tarde da noite de uma segunda-feira, quase 22 horas, e eu acabei de mandar um e-mail para Richard sobre um de meus autores. Enquanto espero pela resposta, ele aparece repentinamente à minha porta com a resposta.
Dou um pulo e digo:
— Que droga, Richard! Você me assustou.
Ele me dá um sorrisinho sem graça e faz um comentário sarcástico, algo sobre eu ter a consciência pesada.
Sacudo minha cabeça e sorrio. Então, me levanto e caminho até a porta.
— Aonde você pensa que vai? — ele pergunta e bloqueia a saída.
Nossos corpos se tocam e fico um pouco agitada.
— Estou indo para a sala da copiadora — digo, e tento escapar novamente.
Ele me impede mais uma vez, me puxa para dentro do escritório e fecha a porta atrás da gente.
— O que você está pretendendo? — pergunto, apesar de saber exatamente o que ele pretende.
Seu rosto se aproxima do meu. Inclino minha cabeça para a direita, meu ângulo favorito para beijar. Naquele mesmo instante, ele vira sua cabeça para a direita. Nossos lábios se encontram com naturalidade, suavemente. E, logo a seguir, com mais urgência. De repente, somos como duas estrelas do cinema, nos agarrando num lugar proibido. Estou vendo a mim mesma beijar Richard e estou ciente de como ficamos bem juntos. Richard é o tipo de homem que faz qualquer mulher parecer deslumbrante.
Ele me leva até minha mesa, me levanta e me posiciona com uma mistura exata de paixão e cuidado. Suas mãos deslizam por baixo de minhas coxas nuas. Fico feliz por estar usando saia hoje. E, aleluia!, lingerie de renda combinando. Às vezes as coisas realmente dão certo; digo a mim mesma para não esquecer esta pequena graça da próxima vez que estiver reclamando da minha má sorte, quando, vamos dizer, estiver comprimida entre dois passageiros grandes num voo qualquer.
Richard continua a me beijar, principalmente nos lábios, mas também no pescoço e na nuca. O homem é um expert, e não sei bem onde ele arrumou tanta experiência. Acho que com a Lydia do departamento de arte e muitas outras mulheres que me antecederam. Algumas ele encontrou no trabalho; outras, em bares e restaurantes, em encontros às escuras ou até mesmo no metrô. Porém, não me importo com isso. Nem ligo se ele estiver saindo com outra pessoa no momento. Só quero que ele continue a me tocar, a tocar todo o meu corpo, bem debaixo dessas luzes fluorescentes.
— Quer vir comigo para a minha casa? — Richard sussurra nos meus ouvidos.
Sacudo a cabeça e suspiro que sim enquanto ele continua a beijar meu pescoço. Minhas mãos estão em suas costas, que são mais fortes do que eu imaginava. Chego à conclusão de que 48 anos não é muito velho. Ele me aperta mais forte. Nem tão velho mesmo.
— Agora? — ele pergunta.
— Ahn-hã — concordo. — Mas primeiro você tem que parar de me beijar.
Tentamos nos afastar um do outro, sem sucesso, até que finalmente conseguimos e, meio sem fôlego, formulamos um plano: vou pegar um táxi e esperar por ele enquanto ele pega as coisas em sua sala. Beijamo-nos mais uma vez. Ele abre a porta. Considero uma vitória quando conseguimos sair sem ser vistos por quase ninguém, a não ser por Jimmy, o faxineiro do meu andar, que nos cumprimenta. Para falar a verdade, não me importo se alguém vai ou não nos ver. Estou começando a encarar esse relacionamento como um símbolo de honra. Um emblema exterior do meu espírito bem equilibrado e de alguém que “conseguiu catar os cacos”. Não sou uma vítima nem uma divorciada amargurada. E Richard é a prova disso.
Pego um táxi quase imediatamente e espero por ele. Ele entra no carro alguns minutos depois, jogando sua pasta em seus pés. Não nos beijamos dentro do táxi, mas não paramos de nos tocar. Ele me diz, mais de uma vez, que não aguenta esperar até chegarmos em casa.
Quando chegamos ao apartamento dele, vamos direto para o quarto. Fico feliz de ele não me perguntar se quero beber alguma coisa. Porque não quero. Gosto da ideia de não nos sentarmos no sofá para conversar. Porque eu simplesmente quero ir para cama com ele e tocá-lo. E, depois de dois minutos de a porta da frente ser trancada, é exatamente lá que me encontro, é exatamente isso que estou fazendo.
Tudo que se relaciona a Richard é suave e tranquilo: seus lençóis, sua música (Sam Cooke), até mesmo seu animal de estimação, um lindo gato siamês chamado Rex, que nos observa desdenhosamente do alto do parapeito da janela. Só tem um momento de desconforto, algo previsível, quando Richard para, me olha e pergunta:
— Preciso usar alguma coisa?
— Tudo bem... para você? — pergunto, lembrando de Lydia e de uma doença que rima com o nome dela.
— Ah, sim. Não tem problema nenhum para mim — Richard diz, beijando a parte interna da minha coxa. — Mas... você toma algum anticoncepcional?
Sussurro um sim.
— Claro que sim — ele comenta. Seu comentário ativa uma coisa na minha cabeça e me lembro de Ben e de bebês, e não consigo deixar de sentir uma ponta de saudade. Digo a mim mesma que, provavelmente, meu ex-marido está agora na cama com Tucker fazendo a mesma coisa. Ou com alguém parecido com ela. Eu me forço a curtir o momento. Lembro-me de que prefiro muito mais estar aqui com o Richard a estar tendo um filho. Não que dê para comparar. De modo algum.
Minutos depois, estamos fazendo sexo.
— Você é fantástica — ele murmura a certa altura.
— Você diz isso para todas — sussurro de volta.
— Não. Eu não — ele diz. — Só digo o que penso.
Sorrio porque acredito nas palavras dele. Não há fingimento nas atitudes de Richard. Já pressentia que Richard não fosse do tipo que fica agarradinho.
Chegamos ao clímax praticamente ao mesmo tempo, mas não ficamos agarradinhos um ao outro logo após o sexo. Para mim, está tudo bem. Posso deixar de lado esse tipo de aconchego desde que exista algum tipo de ligação, física ou outra qualquer.
Temos essa ligação. Ficamos sentados lado a lado, recostados nos travesseiros apoiados na cabeceira de couro de sua cama de casal. Ainda estamos sem roupa, mas cobertos até a cintura pelos seus lençóis bege-acinzentados. O braço dele envolve meus ombros, seus dedos repousam no meu pulso e acariciam ocasionalmente minha pele.
Conversamos sobre trabalho, mas não porque “não temos mais nada para falar”. É mais um papo do tipo “me conta algo que eu ainda não saiba”. Ele me pergunta se eu amo o que faço e eu digo que sim.
— Do que você mais gosta no seu trabalho? — ele pergunta.
Penso em todas as respostas que os editores costumam dar, coisas como amar livros e a palavra escrita, e poder escapar para um mundo diferente. É claro que tudo isso é verdade, mas não é disso que mais gosto no trabalho de editora. É algo mais, alguma coisa que tem a ver com descobrir novos talentos.
— É difícil de explicar — digo. — Mas acho que tem a ver com aquela agitação que sinto ao ler alguma coisa boa e me sentir presa à história. Quando penso “essa pessoa realmente sabe escrever”, simplesmente tenho que trabalhar com ela.
Richard sorri e pega minha mão, como se quisesse me incentivar a falar mais.
Então, continuo:
— Sabe aquela sensação de superioridade quando a gente ainda está na escola e ouve uma banda antes de ela ficar famosa? E aí pode dizer para todo mundo “Ah, Depeche Mode? Eu os ouço há muito tempo. Simplesmente adoro suas músicas antigas!”.
Richard ri e concorda com a cabeça.
— Bom, é assim que me sinto ao descobrir um novo autor — explico. — Como se eu descobrisse um segredo antes dos outros. — Repentinamente, me sinto envergonhada, como se tivesse me exposto demais.
— E você? — pergunto. — Do que mais gosta no seu trabalho?
— Ah, não sei — Richard diz. — Acho que estimula minha personalidade... E eu gosto de contribuir para o sucesso de um livro... Aquela sensação exultante quando todo mundo está clicando num livro e num autor, e você está recebendo um monte de avaliações... Porém, às vezes parece um tudo ou nada. Por exemplo, quando alguém pergunta “O que você está fazendo por mim?”... Você entende como são as cobranças.
Digo que sim. Sei exatamente como são essas cobranças.
Ele continua:
— E tem aquelas vezes em que a gente não consegue fazer nada para promover um livro. E é uma droga quando você gosta do livro e gosta do autor...
Concordo com ele novamente. É de partir o coração quando você ama um livro que se torna um fracasso de vendas. E isso acontece com os autores mais legais.
Richard diz:
— E eu não sei... A publicidade gera um certo tipo de pessoa que sente necessidade em levar o crédito por tudo e que parece nunca se desligar de sua persona “publicitária” . É como se estivesse continuamente trocando ideias e ansiosa em estar sob os holofotes o tempo todo.
— Você não é assim — digo, pois acho que Richard vive naturalmente sob as luzes dos holofotes. Ele não tem que se esforçar para ser notado.
— Deus do céu! Espero que não. Porque vou lhe contar uma coisa, Parr, não há nada que me faça odiar mais meu trabalho do que ir a alguma festa da área e observar todos os hiperpublicitários correndo atrás do pessoal da mídia para se apresentar e tentar promover seus projetos de um jeito nada sutil, e, enquanto isso, surfar nos crachás. Isso é selvageria.
— Surfar nos crachás?
— Isso mesmo. Sabe quando alguém começa a falar com você como se fosse um velho amigo? Então, quando veem que você não está olhando, eles dão uma olhada rápida no seu crachá para ver quem você é. E se acharem que você é bem conceituado e suficientemente importante, eles continuam a conversar com você. É como se estivessem olhando para o decote de alguém. E, se houver alguém do Times ou de outra revista importante, é uma loucura generalizada. Não consigo entender por que esses caras ainda comparecem a esse tipo de evento, a menos que eles gostem dessa bajulação e se sintam valorizados com isso.
Solto uma gargalhada e digo:
— Sim, mas ninguém precisa ler seu crachá, Richard.
— Isso é verdade — ele diz, fingindo bravata.
O telefone dele toca, mas ele nem se mexe. Repito a cortesia quando meu celular toca com o toque pessoal de Jess, “Bittersweet Symphony”, do The Verve. Porém, ela liga mais uma vez. E mais uma vez.
— É melhor atender essa ligação — digo. — É Jess. Deve ser importante.
Richard sabe que ela é a minha melhor amiga e que moramos juntas. Ele se curva em minha direção, beija meu rosto e diz:
— Vá em frente. Ligue para ela.
Recolho minha lingerie que estava caída no chão, ao lado da cama, a visto o mais rápido possível e caminho uns cinco ou seis passos até o divã do Richard, onde deixei minha bolsa. Pego o telefone e ligo para Jess em casa.
— Onde você está? — ela pergunta.
— Estou com Richard — digo, gostando de como essas palavras soam na minha boca. Espero poder dizê-las por um bom tempo. — O que aconteceu?
— Ele terminou tudo comigo — ela diz. Sua voz soa entrecortada como se estivesse chorando ou prestes a cair no choro. — Ele falou que ainda ama a esposa. Ele quer tentar mais uma vez e ver se o casamento dá certo.
— Estou indo para casa — digo, fechando o aparelho celular.
Olho para Richard me desculpando enquanto me visto.
— Sinto muito, mas tenho que ir embora.
— Está tudo bem? — ele pergunta, jogando as pernas para o lado da cama e vestindo sua cueca.
— Uma crise do coração — conto a ele.
— Não estou acostumado com isso — ele diz.
“Deve ser bom”, penso.
Ele me leva até a porta e me dá um beijo de despedida.
Paro por um instante enquanto penso em algo apropriado para dizer naquele momento. Decido dizer simplesmente:
— Obrigada pela noite.
Soa um pouco formal, então dou um sorriso e acrescento:
— Foi muito bom.
— Quando quiser — ele diz. — E estou falando sério.
Jess está um horror. Ela está sentada com as pernas cruzadas num canto de seu quarto e tem pelo menos uma dúzia de pontas de cigarro num pires branco colocado no chão, ao lado dela. Jess parou de fumar há alguns anos, mas retoma este hábito todas as vezes que se vê numa situação estressante ou quando está no meio de uma crise emocional. Ela parece frágil e vulnerável. Quem olhar para ela agora, não vai acreditar que compra e vende empresas que valem bilhões de dólares.
Eu lhe dou um abraço e digo que sinto muito. Digo que sei o quanto ela se esforçou para que as coisas dessem certo com Trey. Eu me contenho para não chamá-lo de cretino mentiroso. Por enquanto.
Ela diz:
— Eu acreditei nele. — E então desata a chorar. É de partir o coração. Outro motivo para não ter filhos. Só de imaginar ver seu filho sofrer... parece insuportável. Ainda assim, fico escutando Jess romantizar sua história com Trey. Não posso deixar de me sentir como me sinto quando algum amigo perde um bichinho de estimação e sofre como se um ente querido da família tivesse morrido. Sim, é triste, mas não é tão triste, sempre penso. Sei que você amava o Flash, mas ele era um cachorrinho basset, pelo amor de Deus, não seu filho! Mas talvez seja porque eu nunca tive um cachorrinho quando criança (minha mãe tinha alergia). Sinto a mesma coisa em relação a Trey. Nunca me envolvi com um homem casado, e tenho vontade de falar para Jess: “Sim, você gostava dele e adorava fazer sexo com ele. Mas como você podia amá-lo? Ele é casado com outra mulher. E tem filhos. Ele não está emocionalmente disponível para você. Ele é uma fraude. Vocês nunca, nem nos momentos mais românticos, estiveram realmente juntos. Então, você não perdeu grande coisa”.
Eu poderia dizer tudo isso outra hora, mas não agora. Eu a deixo chorar. Lembro-me de que ela fez a mesma coisa comigo. Não que Ben e Trey pudessem ser comparados.
— Sei que você não consegue entender... — Jess murmura, depois de um longo período de silêncio. — Mas eu realmente acreditava que ele ia ser o pai dos meus filhos. Investi dois anos da minha vida nele. Dois anos! E me sinto velha demais para começar tudo de novo.
— Você não está velha — digo. — Isso é ridículo!
— Estou com quase 35 anos — ela diz. — Estou passando da época. Daqui a pouco, não tenho mais óvulos.
— Você ainda tem muitos óvulos sobrando — afirmo. Estou tentando ser uma boa amiga, mas não consigo deixar de pensar nas outras afirmações que ela fez. Sobre eu não entender pelo que ela está passando. Não quero deixá-la ainda mais angustiada, do modo como minha mãe faz quando qualquer um perto dela está passando por um momento traumático, mas não posso deixar de perguntar:
— Por que acha que não posso entender você?
Jess e eu nunca discutimos, então ela não tem experiência em detectar a ponta de frieza na minha voz. Ela não tem como perceber o quão furiosa estou. O quanto estou arrependida de ter ligado de volta. Eu podia estar na casa de Richard. Como queria ainda estar lá com ele... Quase. Na verdade, não sei se foi ruim; foi bom ir embora naturalmente de lá. Muito mais fácil do que ter que decidir se deveria ou não passar a noite com ele, na casa dele.
No entanto, o que realmente sei é que um homem como Trey não deveria ter o poder de se infiltrar na minha vida amorosa. Já basta o estrago que ele fez na vida da minha melhor amiga.
Olho para Jess e espero pela resposta. Ela acende outro cigarro e responde:
— Porque você não quer ter filhos.
Certo, penso comigo mesma. E eu acho que isso significa que eu também não tenho imaginação, nem empatia nem sentimentos. Não consigo nem imaginar como outra mulher se sente quando descobre que não quero ser mãe. Afinal de contas, que tipo de mulher não quer ser mãe?