Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 23 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 22

C A P Í T U L O

 

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Naquela noite, no voo de volta a Nova York, apenas ponderei sobre meu relacionamento com Richard. Chego à conclusão de que dar um anel para uma garota por quem você não está interessado de verdade é a mesma coisa que fazer sexo oral com um cara de que você não gosta de verdade. Faz tudo parecer meio sem valor. Diminui quem dá e quem recebe. Não quero me sentir assim em relação ao anel do Richard (ou ao sexo oral). Quero ser uma pessoa esclarecida, moderna, independente e liberada sexualmente. Digo a mim mesma que Richard e eu sentimos a mesma coisa um pelo outro. Ninguém está usando ninguém ou talvez ambos estejamos nos usando. Não há falsidade nem fingimentos. Richard é um homem adulto com bastante experiência e pode decidir por si mesmo como quer gastar seu dinheiro. E eu posso decidir por mim mesma com quem quero dividir minha intimidade. No entanto, apesar de toda essa racionalização, o relacionamento não parece o mesmo de antes. Todas as vezes que olho para meu novo anel, me sinto enjoada.

Quando chegamos a Nova York e pegamos o carro de volta para a cidade, meu estado de espírito parece ter contagiado Richard e nossa conversa parece forçada. Ele já me perguntou duas vezes o que há de errado, o que é bem diferente de nossos costumeiros bate-papos informais e dinâmicos. Digo que não há nada de errado duas vezes, pois é bem difícil dizer para alguém que não está levando a sério o relacionamento, que você não o está levando a sério, mas se sente esquisita mesmo assim. É como ligar para um ex-namorado e dizer que não está mais a fim dele. Ou dizer para um chefe que acabou de a demitir que você estava querendo se demitir há semanas. É algo simplesmente... estranho.

Além do mais, a última coisa que quero é parecer ingrata. Sou grata a ele. Adorei nossa viagem, o tanto quanto se pode adorar uma viagem quando não se está apaixonada pela pessoa que foi com você. Quando paramos em frente ao prédio de Jess, beijo Richard e o agradeço mais uma vez.

Ele fala:

— Vou sentir sua falta esta noite.

— Também vou sentir sua falta — digo.

É a primeira mentira que conto para ele.

No momento, só sinto falta de alguém, e o nome dele não é Richard.

— E aí? — Jess pergunta ao abrir a porta. Ela está usando uma camiseta masculina enorme e

Daisy Dukes[3] da época da faculdade. A bainha está toda desfiada. — Como foi a viagem?

— Foi incrível — digo. — O lugar é maravilhoso... e você arrumou a mala muito bem. A lingerie de renda veio a calhar...

— Mas? — ela pergunta. Uma melhor amiga sempre sabe quando tem um “mas” no caminho.

— Mas não acho que quero continuar a sair com ele.

Jess arregala os olhos e pergunta:

— Por que não? O que aconteceu?

— Não sei ao certo — digo. — Eu realmente não sei. Estava tudo lindo e maravilhoso, e então ele me deu isto. — Levanto o anel para mostrar a ela.

Ela agarra minha mão, identificando a pedra como turmalina rosa ladeada por dois peridotos. Ela admite ter contado ao Richard meu número de anel, mas insiste em dizer que ele escolheu o anel sozinho. Ela não sabia de nada. Então, Jess diz:

— Espere. Não estou entendendo. Você não gostou do anel ou o que foi?

— Eu gostei, sim — digo.

— Então, qual o problema?

— Não sei... esse relacionamento me deixa... desassossegada.

— Desassossegada? Que diabos você quer dizer com isso? Acho que você lê livros demais.

Não esperava que Jess me entendesse, mas pelo menos tentei. Digo que parece que Richard está apenas passando o tempo e passar tempo não parece uma boa ideia quando a gente já tem 35 anos.

— Que merda! — ela diz, franzindo a testa. — Esqueci de que hoje é o grande dia. Estou com seu cartão por aqui, em algum lugar, e um outro presentinho... Feliz aniversário! Como você se sente?

— Não muito bem... — confesso.

— Por que não? — ela pergunta.

— Me sinto velha.

— E daí? Você não quer filhos.

Lembro-me da última vez que ela me disse que minha idade era irrelevante porque eu não queria filhos. Dessa vez, respondo:

— Sei que não quero ter filhos... Mas isso não significa que não quero nada.

Jess parece magoada quando diz:

— Você tem a mim.

— Sei que sim, Jess — digo. — Amo você, de verdade... Mas você sabe que ter amigos não é a mesma coisa que...

Ela não tenta argumentar. Em vez disso, fala:

— Bom, você tem o Richard também.

— Richard também não é o suficiente. Quero mais. Quero o que eu tinha com Ben.

Jess respira fundo, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa importante, que eu tenho certeza de que não é de sua alçada. Então ela para e fala, simplesmente:

— Isso não é o desejo de todo mundo, minha amiga? De todo mundo?

Mais tarde, naquela mesma noite, meu celular toca e me acorda de um sono profundo. Atendo, meio desorientada.

— Pensei que teria que deixar uma mensagem.

É uma voz de homem. A princípio, acho que é Richard, mas, depois, vejo que é Ben.

Sento imediatamente e fico em alerta. Eu não esperava uma ligação dele de jeito nenhum, nem no meu aniversário nem em data alguma. Digo o nome dele, que soa íntimo, pois estou na cama, no escuro. Olho para o relógio. São apenas 21 horas.

— Parabéns pelos 35 anos.

— Obrigada — respondo. Meu coração está disparado e eu estou sorrindo. Não, estou com um enorme sorriso estampado no rosto. Ben me deixou mais feliz do que qualquer anel ou qualquer outra pessoa poderia me deixar.

— Como foi o seu dia? — ele pergunta.

— Foi tudo bem — digo e, então, bravamente, concluo: — Está melhor agora.

— Então — ele fala. — O que você fez?

Hesito por um instante e então digo:

— Nada de importante.

Sinto um pouco de culpa por estar mentindo para ele (Lago de Como nunca poderia ser descrito como “nada de importante”). E me sinto culpada por ter ido lá sem ele. Digo a mim mesma que não lhe devo nada e posso ir para qualquer lugar, com qualquer pessoa que eu quiser. Mas, ainda assim, me sinto culpada.

— Annie me disse que seu namorado a levou para uma viagem — Ben diz, e percebo que ele está bebendo. A ousadia da pergunta denuncia alguma coisa, mas, além dela, sua fala meio enrolada e o amontoado de palavras. E assim como posso adivinhar que horas são pela luz que entra pela minha janela de madrugada, posso muito bem adivinhar que Ben tomou pelo menos umas cinco ou seis cervejas. O que eu não consigo saber, no entanto, é se ele bebeu sozinho ou na companhia de Tucker.

— Ah, ela contou, não é? — pergunto, pensando se ela fez isso para me ajudar ou para me sabotar, quando lhe passei essa informação. Isso depende se ele está com alguém ou não, o que eu não sei, é claro. Não importa qual foi o motivo, sinto vontade de brigar com ela.

— Aonde você foi com o velho Richard? — Ben pergunta. — E eu quero reforçar o velho.

— Você está bêbado? — Tento desviar o assunto. Não quero lhe contar onde estive.

— Talvez — ele responde. — Tinha que celebrar o aniversário da minha ex-esposa, afinal de contas.

— Com Tucker? — pergunto, provando que, ao contrário dele, não preciso de cinco ou seis cervejas para fazer perguntas imaturas e perigosas.

Ben responde:

— Isso depende de aonde você foi com o Richard.

— Bom, ou você estava com ela no meu aniversário ou não estava — digo.

— Para falar a verdade, estava, sim — ele rebate.

— Fantástico — digo, imaginando como é possível alguém me levar de um momento feliz para um tristíssimo em poucos segundos. Na verdade, estou com tanta raiva que penso em mudar de ideia em relação ao meu envolvimento com Richard. Talvez eu deva fazer sexo mais algumas vezes com ele. De qualquer modo, vou usar meu anel amanhã no trabalho. Ben não diz nada, então eu digo: — Como você e sua garota celebraram o meu aniversário?

— Isso só interessa a nós dois — ele fala. — Assim como só interessa a você e ao velho Richard saber aonde foram comemorar essa data especial.

Ouvir “só interessa a nós dois” foi como ter uma faca enfiada no peito. A dor é tão intensa que falo bruscamente:

— Richard me levou para o Lago de Como. Para a Villa d’Este, para ser mais exata. Foi magnífico.

Ouço um clique e percebo que meu ex-marido bêbado acabou de desligar o telefone na minha cara, ganhando de mim por alguns segundos.

Na manhã seguinte, vou para o trabalho, ligo meu computador e imediatamente digito o nome “Tucker Janssen” no Google, o nome correto, com dois “s”. Ela não sai da minha cabeça desde as 4 horas da manhã, primeiro fazendo parte de um sonho perturbador, e depois quando já estou acordada, paranoica e furiosa. Fico desapontada quando encontro seis entradas, mas não tão chateada como quando clico na primeira e vejo sua foto sorridente num artigo do jornal de sua cidade natal (Naperville, Illinois — sabia que ela era do Meio-Oeste). O subtítulo diz: GAROTA DA CIDADE, ESTUDANTE DE MEDICINA DE HARVARD, SALVA VIDA DE HOMEM. O artigo tem quatro anos, o que significa que ela não é mais aluna de medicina. Ela já é médica. Passo os olhos pelo artigo e leio sua fala: “Na verdade, conheço o método de ressuscitação desde que estava no colegial, então, não precisei de novas técnicas. Mas o incidente reforçou minha decisão de ser socorrista”.

Meu coração dá um salto enquanto agarro o telefone e aperto o botão de discagem rápida para ligar para Jess no trabalho.

Ela responde no viva-voz com um cumprimento jovial.

— Sai do viva-voz — digo, com urgência na voz.

Ouço o barulho quando pega o telefone e diz:

— O que aconteceu?

— Ela é médica, Jess.

— O quê? — Jess replica.

— Eu a procurei no Google de novo. Ela é médica socorrista.

— Tucker? — Jess pergunta.

— Sim — digo, tentando segurar as lágrimas.

Escuto Jess teclando. Então, ela pergunta:

— Onde você está vendo isso?

— Coloque “SS” no Janssen — explico. — Como daquele doador de esperma, Ian.

Ouço mais cliques e, então:

— Ah! É verdade mesmo. Está aqui... sim, isso não é nada bom...

Espero mais alguma coisa, algum papo de que ser uma editora é tão nobre quanto praticar medicina. Talvez ela esteja salvando vidas, mas eu estou enriquecendo vidas saudáveis.

Jess fala algo diferente. Algo melhor.

— Isso não quer dizer nada. Nem prova que eles estão namorando. E com certeza não prova que ela é boa de cama.

— Preciso descobrir, Jess — digo, me lembrando da conversa que tive com Ben a noite passada. — Preciso descobrir o que há entre eles.

— Certo — Jess diz. — Você tentou procurar o nome deles no Google, os dois juntos numa busca única? Sempre aparecem os casais casados ou noivos.

— Jesus amado! Você acha que eles estão noivos?

— Não, acalme-se! Só estou dizendo... espere um pouco... me dá um segundo para verificar essa coisa... — Então ouço mais cliques, e silêncio. Escuto Jess sussurrar: — Bom, isso é foda.

— O que é? — digo. — O que descobriu?

— Achei um resultado — ela diz.

— Com Benjamin ou Ben? — indago.

— Bom — ela admite. — Você não vai gostar disso.

Minhas mãos tremem quando digito Ben Davenport entre aspas, ao lado de Tucker Janssen. Com certeza, também acho alguma coisa. Os resultados da maratona de Chicago. O tempo deles foi o mesmo: 3:42:55. Impressionante, especialmente para uma mulher. Então, quer dizer que ela é médica e atleta. Mas o pior de tudo é descobrir que o resultado dos dois é igual. O que significa que eles cruzaram a linha de chegada de mãos dadas, algo que Ben sempre disse que faríamos juntos algum dia.

Agora entendo tudo: sei que eles treinaram juntos, viajaram para Chicago juntos, visitaram a família dela em sua cidade natal, conseguiram correr a maratona juntos e terminaram a corrida juntos, de mãos dadas. Isso é muito mais significativo do que ir para Villa d’Este. Jess também percebe isso, o que noto pelo seu silêncio não peculiar. É preciso que aconteça muita coisa para Jess ser derrotada, especialmente no que diz respeito à minha honra. Mas ela está derrotada agora.

— E pensar... — digo. — E pensar que isso é o que podemos descobrir no Google.

— Sim... — Jess diz com desalento. — É melhor não fazermos outra busca com a palavra bebê, hein?