Uma prova de amor

Emily Giffin · Capítulo 3 de 36

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Uma prova de amor

Capítulo 2

C A P Í T U L O

 

2

 

Quando voltamos para casa, Ben e eu “decidimos dar um tempo e pensar um pouco sobre tudo”. Na verdade, Ben é quem decidiu que era isso que devíamos fazer, estas foram suas palavras exatas. Tenho que morder minha língua para evitar falar que não tenho absolutamente nada para pensar. Foi ele que mudou radicalmente seu ponto de vista sobre algo tão fundamental em nosso relacionamento. É ele quem precisa pensar bastante sobre tudo.

Voltei para minha rotina de sempre, indo para o trabalho e voltando para Ben à noite, e eu lia e ele desenhava até a hora de dormir. Nesse meio-tempo, tentava me convencer de que meu marido estava apenas passando por uma fase, um tipo de crise de meia-idade ao contrário. Alguns homens se arrependem de se casar cedo demais e ter filhos ainda muito jovens; Ben está simplesmente questionando nossa decisão de não ter filhos nunca. Fico me dizendo que é normal, talvez seja até saudável reavaliar a vida. Ben levaria algum tempo e com certeza voltaria à razão e reafirmaria nossas escolhas.

Resisto à vontade de discutir o problema com minha família ou meus amigos, pois, de certo modo, acredito que falar sobre essa questão vai solidificar nossas dificuldades. Então, em vez disso, ignoro o problema, esperando que se resolva sozinho.

Mas isso não acontece.

Num sábado à tarde, Ben aponta uma menininha de cabelos dourados, olhos azuis e pele clara na rua e diz:

— Ela se parece com você. — Então, caso eu não tivesse entendido o que ele queria dizer, ele completou: — Se nós tivéssemos uma filha, seria parecida com ela.

Apenas o olhei.

Alguns dias depois, enquanto ele assistia a um jogo do Knicks na televisão, disse que queria ter um filho, pois, do contrário, não tinha sentido saber tudo o que ele sabia sobre esportes e nem ter aquelas coisas que guardava desde que era menininho.

— Não que eu não pudesse ensinar coisas de esporte para nossa filha também — Ben acrescenta.

De novo, não digo nada.

Na semana seguinte, ele anuncia que ter um filho único seria algo problemático.

— Por que você acha isso? — perguntei.

— Porque eu gostaria de ter dois e você acha que não quer ter nem um — ele fala como se tivéssemos seis anos de idade e estivéssemos decidindo quantos doces comprar.

— Eu sei que não quero ter um filho — falei e abri a caixinha com as pílulas anticoncepcionais que estavam sobre a pia.

Ben franziu a testa e disse:

— Que tal se você parasse de tomar essas coisas? Não podemos simplesmente ver o que acontece? Ver o que nos espera?

Digo a ele que esse plano mais parece a abordagem dos Cientistas Cristãos em relação à medicina moderna.

Ele me olha, desconcertado.

— Tenho uma ideia melhor — digo. — Vamos dar as mãos e pular da janela para ver se vamos morrer.

E, então, tomo minha pílula.

O comentário mais descarado de Ben acontece num domingo quando estamos almoçando em Rye com a mãe dele, Lucinda, e suas duas irmãs, Rebecca e Megan, seus maridos e filhos. Assim que terminamos de comer e passamos para a sala de visitas da casa onde Ben cresceu, fico pensando o que sempre penso quando nos reunimos com a família dele: como nossas famílias, mais especificamente nossas mães, podem ser tão diferentes? Minha família é instável; a família de Ben é calma. Minha mãe não é maternal e é excêntrica; a mãe de Ben é carinhosa e simples. Eu observo Lucinda agora, tomando chá na sua xícara de porcelana, e penso que ela parece uma mulher dos anos 1950, o tipo de mãe que ficava em casa assando biscoitos e esperando os filhos voltarem da escola. Ela viveu para seus filhos, tanto que Ben uma vez comentou que essa era uma das razões que levou os pais dele ao divórcio. Foi um caso clássico de ninho vazio, em que eles perceberam que não havia mais nada em comum entre eles a não ser os filhos.

Então, como costuma acontecer com frequência, o pai de Ben começou uma vida nova, com uma mulher bem mais jovem, enquanto Lucinda continua a viver para seus filhos e, agora, para os netos (as irmãs de Ben têm duas filhas cada uma). Ben é claramente seu favorito, talvez porque seja o único menino. Portanto, ela está desesperada para que a gente mude de ideia sobre ter um filho, mas é muito educada para fazer algum comentário ou criticar nossa escolha. Ao contrário, ela sempre faz comentários alegres e joviais sobre o assunto. Como quando compramos um carro novo, ela sentou no banco de trás e comentou: “Tem bastante espaço para uma cadeirinha aqui!”.

Sempre fico com a sensação de que ela está fazendo esses comentários para mim e que ela me culpa pela nossa decisão. Ben costumava dizer que eu estava paranoica, mas agora tenho certeza de que estou certa.

Rebecca e Megan são mães em tempo integral e isso não facilita as coisas para mim. Elas demonstram um interesse genuíno no meu mundo de editoração e, frequentemente, selecionam os romances que edito para seus clubes de livros. Mas sei que elas desejariam que eu desse um tempo na minha carreira e desse um bebê para seu irmão caçula.

Então, embora a família de Ben seja agradável e fácil de conviver, temo passar algum tempo com eles porque eles fazem eu me sentir na defensiva. Claro que me sinto mais na defensiva agora que Ben e eu não estamos mais de acordo. E tenho uma sensação apavoradora de que vão perceber isso e irão se aproveitar dessa fraqueza e partir para o ataque.

Dito e feito! Enquanto os adultos conversam e observam as sobrinhas de Ben brincar com suas Barbies, Rebecca faz um comentário sobre como seria bom um priminho para destoar um pouco das meninas. Eu respondi rapidamente, olhando para Megan:

— Então, Meg, é melhor você se apressar!

O marido de Megan, Rob, balança a cabeça e fala:

— Deus me livre, de jeito nenhum! Fechamos a fábrica!

E Megan concorda, dizendo:

— Duas crianças é o suficiente. Duas está perfeito. Além do mais... Não saberia o que fazer com um menino!

Lucinda alisa a saia e lança para Ben um olhar inocente e esperançoso.

— Então, acho que está na hora de vocês dois terem um menino — ela cantarola alegremente. — Além do quê, este é o único modo de continuar o nome da família!

Sinto a tensão aumentar, ao mesmo tempo que estranho como ela pode se importar tanto com um nome que pertence ao seu ex-marido. Mas digo apenas:

— Eu também não saberia o que fazer com um menino... Nem com uma menina! — Então dou uma risada como se tivesse feito uma piada inteligente.

Todos me acompanham com um risinho educado.

Com exceção de Ben, que aperta meu joelho e diz:

— Você vai saber o que fazer, Cláudia. Vamos descobrir juntos.

A alegria na sala é palpável. Sua família praticamente começa a aplaudir, eles ficam desnorteados com esse comentário vindo do seu único filho e irmão.

Lucinda se curva para frente e fala:

— Vocês têm algo para nos dizer?

Ben sorri e diz:

— Ainda não.

Eu me seguro até ficarmos sozinhos no carro, na volta para casa.

— Ainda não? — grito e digo que nunca me senti tão traída.

Ben fala para eu não ser tão dramática, que foi apenas um modo de se expressar.

— Um modo de se expressar? — falo, indignada.

— Sim — ele responde. — Pelo amor de Deus, Cláudia! Relaxa, tá?

Decido, naquele instante, que chegou a hora de falar com meu fiel trio, ou seja, minhas duas irmãs mais velhas, Daphne e Maura, e minha melhor amiga, Jess. Depois de pensar um pouco, desconsidero minhas irmãs, pelo menos por enquanto. Embora saiba que elas sempre querem o melhor para mim, tenho certeza de que não vão ficar do meu lado dessa vez.

A motivação de Maura será maior porque ela não quer que eu perca Ben, muito mais do que ela acha que eu deva ter um bebê. Ela respeita minha decisão de não querer ter filhos. Ela tem três filhos, os quais ela ama profundamente, e que eu amo intensamente também, mas penso que, em alguns momentos de introspecção, ela deve se arrepender da sua decisão de tê-los. Ou pelo menos de tê-los tido com Scott. Frequentemente eu a ouço dizer que a maior decisão que uma mulher pode fazer na vida não é com quem se casar, mas quem será o pai de seus filhos. “Não é algo que você possa desfazer”, ela diz. “É um elo para a vida toda.” Verdade seja dita, acho que Maura fez uma péssima escolha nas duas frentes. Ela é um bom exemplo de alguém que deu muita importância para a paixão, o glamour e a aparência, em vez de escolher um homem bom, honesto e confiável. Chamo isso de “fenômeno da garota do Ensino Médio”. A maioria das meninas dessa idade não quer nem saber dos garotos quietos e meio nerds, e corre atrás dos caras atléticos, populares e brincalhões. Se agarram um desses, acreditam que são as criaturas mais felizes da Terra. Conseguiram o primeiro prêmio. No entanto, quando elas voltam para a reunião de vinte anos de formatura, reconhecem as escolhas erradas. O rapaz agradável, quieto e ligeiramente nerd, se tornou um marido perfeito, um pai dedicado e um companheiro leal, ao contrário do cara atlético, musculoso e brincalhão, que fica pelos cantos se agarrando com Misty, a vagabunda ex-líder de torcida.

Essa é mais ou menos a versão da história dos relacionamentos equivocados de Maura. Ela namorou um cara chamado Niles enquanto estava na casa dos 20 anos e chegou bem perto de se casar com ele. Porém, quando Niles começou a falar com ela sobre alianças de noivado, ela surtou e chegou à conclusão de que ele era “muito chato e previsível”. Ela disse que não poderia se casar com alguém que não fazia seu coração disparar todos os dias. Na época, apoiei sua decisão. Eu acreditava em achar o amor verdadeiro, não em se acomodar, o que é algo em que ainda acredito do fundo do meu coração. Mas, em retrospecto, eu sei que Maura estava confundindo amor com desejo e um cara legal com chatice. Niles a tratava bem e estava ansioso para assumir um compromisso duradouro. Assim sendo, ela acreditou que ele não valia a pena ou que, no mínimo, ele era totalmente desinteressante. Para falar a verdade, também acho que a aparência de Niles contou muito na sua decisão, embora ela nunca vá admitir isso. Maura estava atraída por Niles, mas ele não era o tipo de homem que chamava a atenção das outras mulheres quando chegava a um bar. Maura queria alguém sexy. Maura queria impressionar. Então, não foi surpresa para ninguém quando seu primeiro namorado depois do fim do relacionamento com Niles foi o alto, maravilhoso e sensacional Scott. Claro que há muitos caras altos, maravilhosos e sensacionais que são fiéis à esposa, mas acredito que a maioria deles traia sua cara-metade.

De qualquer modo, Scott é infiel e acho que a opinião de Maura sobre o meu relacionamento tem a ver com o fato de que ela fez a escolha errada. Que, segundo as palavras de Daphne, ela escolheu o “Sexy Scott” em vez do “Niles Legal”. A essa altura, Maura passou anos invejando meu relacionamento com Ben, um relacionamento bastante ideal do lado de dentro e, portanto, que parecia ainda mais perfeito do lado de fora.

Ela nunca invejou minha felicidade, mas Ben é uma lembrança constante daquilo que ela poderia ter tido e que ela queria, desesperadamente, que eu valorizasse e cuidasse. Então, tenho certeza de que ela vai me dizer que eu deveria ter um bebê para ficar com Ben. Que eu deveria fazer qualquer coisa para continuar com ele. E eu realmente não quero ouvir isso.

Os motivos de Daphne para eu ficar com Ben têm menos a ver com meu relacionamento com ele e tudo a ver com sua obsessão por filhos. É o filtro pelo qual ela vê o mundo à sua volta. Ela e seu marido, Tony, têm tentado engravidar por quase dois anos. Eles tentaram por um ano do jeito tradicional: beber uma garrafa de vinho, cair na cama e rezar para a menstruação não vir. Depois dessa fase, eles passaram a comprar monitores de fertilidade, a fazer tabelas de ovulação e a discutir sobre os picos de fertilidade no mês. Ela agora está tomando medicamentos e pesquisando clínicas de fertilidade.

Sofro ao ver minha irmã passar por isso todos os meses, ao ver como essa luta a transformou, como está ficando cada vez mais amarga à medida que suas amigas, uma a uma, vão tendo bebês. Ela fica particularmente ressentida quando outras pessoas ficam grávidas com facilidade e chegou a ponto de se afastar de sua amiga Kelly por completo, depois que ela ficou grávida de gêmeos, durante a lua de mel, um menino e uma menina. Quando Maura falou para Daphne que ela deveria ficar feliz pela Kelly (o que era verdade, mas foi um comentário desnecessário), minhas irmãs tiveram uma discussão enorme. Daphne desligou o telefone na cara de Maura e me ligou imediatamente, tentando me manipular para que eu ficasse do lado dela. Então, quando Maura me ligou na outra linha, ansiosa para me contar sua versão dos fatos, Daphne gritou: “Não ouse atender a chamada dela!”. E então, começou a defender freneticamente seu lado da questão. Ela insistiu que a discussão com Kelly não tinha nada a ver com a benção que Kelly teve com os gêmeos, e que tudo tinha acontecido só porque Kelly declarou que iria chamar sua filha de Stella. “Esse nome é meu”, Daphne deve ter dito pelo menos umas dez vezes. Resisti à vontade de cair na risada e falar: “Não, seu nome é Daphne”, mas, em vez disso, convenci minha irmã de que esse nome não era bom por causa do seu sobrenome (o sobrenome do marido de Daphne era Sacco). Disse a ela que Stella Sacco parecia nome de stripper, e que, se eu recebesse no meu escritório o currículo de uma “Stella Sacco”, imediatamente o poria de lado e nem veria que ela era uma bolsista do Fullbright. Seguiu-se uma longa conversa sobre nomes de bebês, um assunto que eu acho ridículo e cansativo, a menos que você esteja com nove meses e prestes a dar à luz. Discutir nomes de crianças quando você nem está grávida é quase tão ridículo quanto exigir exclusividade de um nome. Claro que eu compartilhei esses comentários com Maura quando liguei de volta para ela, mas disse que, apesar de tudo, tínhamos que apoiar Daphne. Já estou acostumada a intermediar a paz entre minhas irmãs, e elas fazem o mesmo comigo. Talvez essa seja a dinâmica natural entre três irmãs. Somos muito unidas, mas às vezes ficamos duas contra uma, e as alianças mudam constantemente.

Então, por isso tudo, simplesmente considerar que minhas irmãs poderiam ficar do lado de Ben e ainda poderiam tentar me convencer a ter um filho é demais para eu poder suportar. Preciso de alguém que me apoie firme e incondicionalmente. Alguém que deixe de lado seus próprios preconceitos. É aí que minha melhor amiga, Jess, sempre entra.

Jess e eu nos conhecemos em nosso primeiro ano na faculdade de Princeton, quando nos unimos contra nossas respectivas companheiras de quarto, ambas escandalosas alunas de teatro chamadas Tracy. Uma noite, pouco antes do feriado de Ação de Graças, Jess embebedou as duas Tracy com vodca e suco de oxicoco, e as convenceu a trocar de quarto. Ela foi tão eficiente que fez as Tracy acreditarem que tinha sido ideia delas. A minha Tracy até deixou um pedido de desculpas escrito à mão. No dia seguinte, Jess empacotou suas roupas, livros e edredom, e os levou pelo corredor em caixas de plástico e sacos de lixo; acabamos morando juntas pelos próximos catorze anos (quase tanto tempo quanto eu vivi em casa), durante todo o período da faculdade e depois no nosso primeiro e apertado apartamento em Manhattan, entre a 92nd e a York Street.

Nós o reformamos várias vezes com o passar dos anos, até conseguirmos nosso espaçoso e ensolarado loft na Park Avenue South, que, devido ao estilo kitsch de Jess, fazia as pessoas o compararem com o apartamento dos personagens de Friends. Cada uma de nós teve seus namorados, mas ninguém por quem valesse a pena trocar o que tínhamos juntas.

Até Ben aparecer.

Jess e eu choramos no dia em que me mudei para a casa de Ben, e brincamos falando que a nossa separação parecia um divórcio. Continuamos a nos falar todos os dias, algumas vezes mais de uma vez por dia, mas houve uma mudança definitiva na nossa amizade. Em parte, era simplesmente porque nos víamos menos. Nós não tínhamos mais aqueles bate-papos tarde da noite e de manhã bem cedo antes do trabalho, e não dava para ter essas conversas pelo telefone. Por outro lado, foi uma mudança inevitável de lealdade. Ben se tornou a pessoa com quem eu mais conversava, aquele que eu procurava no momento de crise ou de celebração. Já conheci mulheres casadas que colocam suas amigas na frente do marido e, embora admire esse tipo de fidelidade feminina, também acredito que isso possa ser uma dinâmica perigosa. Algumas coisas devem ser sagradas num casamento. Jess e eu nunca discutimos as mudanças no nosso relacionamento, mas eu sabia que ela entendia. Também acho que ela se afastou um pouco, acho que para respeitar meu relacionamento e talvez por uma ponta de orgulho. Ela cultivou um novo círculo de amigas, mulheres solteiras na casa dos trinta anos, todas procurando o amor.

Às vezes, sentia uma pontinha de saudade quando via Jess ir se encontrar com as meninas para tomar uma sangria no Village ou fazendo as coisas que costumávamos fazer juntas. Mas, na maior parte do tempo, eu não invejo sua posição. Este ano completamos 35 anos, e posso garantir que a chegada desse marco a está deixando estressada. Ela não está desesperada para se casar, mas ela quer ter filhos um dia. E está ciente de que seus óvulos têm data de validade (palavras dela, não minhas).

O que torna ainda mais frustrante quando eu vejo minha melhor amiga representar repetidamente o papel que cairia perfeitamente num romance de Jackie Collins. Ela sempre se envolve com homens indisponíveis: galinhas, homens casados ou caras que moram do outro lado do país e não têm a mínima intenção de se mudar para Manhattan. Na verdade, atualmente ela está enrolada num relacionamento de dois anos com um cara chamado Trey, que se encaixa em todas as alternativas acima. Eu sei, é difícil ser um galinha casado, mas Trey tira tudo isso de letra, com o maior charme. A verdade é que Trey não contou para Jess que ele era casado até ela se apaixonar por ele, mas ela já teve pelo menos um ano para poder digerir a notícia e seguir em frente.

Resumo da história: Jess tem um dedo podre para homens e sempre teve. Até na faculdade ela ficava a fim do garoto rebelde, aquele tipo que você podia imaginar parado na frente de um juiz respondendo a uma acusação de estupro. É estranho, porque Jess tem absoluto controle em todas as outras partes da vida. Ela é segura, divertida e a mulher mais inteligente que eu conheço. Formou-se com honras em Princeton, sem precisar estudar demais, e depois tirou seu MBA em Columbia. Agora, ela é investidora financeira, arrasa num mundo dominado pelos homens e ganha tanto dinheiro quanto os atletas profissionais e artistas de cinema. Para completar, parece modelo. É alta, tem os cabelos louros e curtos, e um corpo esbelto. Ela parece muito mais uma modelo de passarela do que de lingerie, o que segundo minha irmã Maura é o problema de Jess. “Os homens não gostam de mulheres tão magras”, ela costuma dizer. “Mulheres é que gostam.” (Maura tem uma coleção de teorias superficiais sobre relacionamentos. Aqui estão algumas de suas pérolas: “O mais atraente de um casal sempre tem o poder”; “As mulheres deveriam se casar com homens pelo menos sete anos mais velhos, para eliminar a diferença de envelhecimento”; “Homens carecas e baixinhos têm que ser bem-dotados”.)

De qualquer modo, decidi que chegou a hora de me abrir com Jess.

Então, nos encontramos no dia seguinte para almoçar numa lanchonete no meio do caminho entre o meu escritório e o dela. Pedimos sanduíches no balcão e, então, pegamos sacos de batatas Lay’s e garrafas de água mineral Evian e fomos nos sentar numa mesa perto da janela. Havia cinco operários da construção civil sentados atrás de nós e, quando um deles se levantou para ir embora, Jess comentou que ele tinha “um traseiro perfeito”. Ela parecia um homem descarado comentando o corpo de uma mulher. Dei uma checada na traseira da calça Levi’s dele e concordei que era tentador. Depois, delicadamente comecei a falar do meu dilema.

Jess ouviu com atenção, com empatia. Já fazia um bom tempo que eu não precisava de conselhos dela sobre relacionamentos. Dava para perceber que ela gostou de se afastar um pouco da angústia que estava sentido em relação a Trey quando ela disse, com seu sotaque do Alabama, que ainda não havia perdido depois de tantos anos na Costa Leste:

— Tenho certeza de que você e Ben vão resolver isso. Não entre em pânico.

— Ainda não entrei em pânico — confessei. — A questão é... Talvez eu esteja um pouco... Afinal de contas, ter filhos não é uma coisa que a gente possa negociar, sabe?

Jess concordou com a cabeça e cruzou as longas pernas.

— É isso mesmo.

— Então, espero que seja apenas uma fase — concluí.

Jess levantou o pãozinho do seu sanduíche de salada de frango e enfiou umas batatinhas fritas dentro.

— Tenho certeza de que é só uma fase — ela afirmou. — Alguma coisa pela qual ele está passando.

— Sim — falei, olhando para o meu sanduíche de peru. Estava sem apetite desde nossa volta do Caribe.

— Lembra do violão dele? — ela perguntou, revirando os olhos. Jess adora fazer gozação com o Ben e ele faz a mesma coisa com ela, o que é um sinal da afeição entre eles. Ela deu uma risada e falou:

— O velho Benny Van Halen arrasou por alguns meses, não foi?

Também ri, relembrando o dia em que Ben e eu passamos em frente a uma lojinha no Village, chamada Guitar Salon. Ficava numa mansão charmosa, toda iluminada, e estava convidativa naquele dia chuvoso. Entramos e olhamos tudo o que tinha e, depois de alguns minutos, Ben decidiu que tinha que ter seu próprio violão vintage. Era literalmente a primeira vez que ele tinha demonstrado o mais leve interesse por qualquer instrumento musical, mas, a essa altura, eu estava acostumada ao interesse rápido dele por uma grande variedade de coisas e assuntos. Ben é uma daquelas pessoas que consegue se entusiasmar por muitas, muitas coisas: astronomia, filmes, coleção de relógios antigos, o que você imaginar. Fiquei o observando e esperei com paciência enquanto ele fazia uma centena de perguntas ao proprietário da loja. Depois, ele passou um tempão experimentando os violões, dedilhando pelas cordas e até mesmo tentando tocar. Uma hora mais tarde, ele estava pagando uma pequena fortuna por um violão espanhol de 1956, feito de madeira de jacarandá, e um pacote de aulas dadas por alguém de certa fama no mundo do violão clássico de Nova York.

Por meses, Ben praticou violão com fervor cativante e rapidamente aprendeu o básico e adquiriu calos impressionantes. No meu aniversário, ele me fez uma surpresa e tocou com perfeição “I Can’t Help Falling in Love With You”, uma música que confesso, timidamente, me deixa derretida, especialmente porque sempre achei que o Ben é um pouco parecido com um Elvis Presley mais jovem, só que com o cabelo claro.

Porém, pouco tempo depois, Ben perdeu o interesse em seu novo hobby e aposentou seu violão num canto empoeirado debaixo de nossa cama. Recentemente, ele o colocou à venda no eBay. Jess me garantiu que a fixação dele pela paternidade também não vai durar muito.

— O único problema é — eu falei — que Ben adquiriu um violão antes de desistir da ideia de se tornar um músico talentoso.

— É mesmo... — ela falou, enquanto rolava a tela de e-mail no seu BlackBerry. Jess é perfeita em multitarefas. Ela digita furiosamente uma resposta enquanto pergunta: — E não tem como ter uma criança temporariamente, tem?

— Por isso que o bebê do Ray e da Annie viria a calhar — falei, relembrando a semana em que fiquei na casa de minha irmã, logo depois de ela ter cada um de seus três bebês. Todas as três visitas, no início, eram emocionantes, já que não há nada tão significativo ou especial quanto conhecer um novo membro de sua família. Também adorava passar um tempo tranquilo e íntimo com minha irmã, que geralmente é muito ocupada com suas múltiplas obrigações sociais em Bronxville. Maura e eu tivemos nossas melhores conversas naquele ambiente aconchegante, com um novo bebê, nós duas de roupão e chinelinhos, sem nem ao menos escovar os dentes. Ainda assim, as obrigações noturnas com o bebê, para as quais eu me voluntariava, eram sempre brutais, e quando eu ia embora da casa dela, estava exausta, esgotada, mas tanto que chegava a doer meus ossos. Honestamente, não sei como as mulheres conseguem fazer isso durante semanas ou meses.

— Esse moleque já nasceu ou o quê? — Jess pergunta.

Eu dei um sorriso ao ouvir as palavras dela. Para alguém desesperada para ser mãe, ela vai ter que amenizar seu vocabulário.

— Está para nascer — falei. — Então, vamos esperar que não seja nada que algumas horas com um bebê de carne e osso não possa curar.

Como se fosse combinado, Raymond Gage Jr. chegou na manhã seguinte, depois de catorze horas de trabalho de parto e uma cesariana de emergência. Ben me liga no trabalho para dar a notícia.

— Annie e Ray querem que a gente vá lá imediatamente — ele comenta, animado.

O convite para ir ao hospital me surpreende. Annie e Ray são nossos amigos íntimos, mas nunca pensei que fôssemos tão íntimos. Pensei que fôssemos amigos do tipo “venha ver o bebê assim que formos para casa”. Apesar de tudo, deixando a polêmica de lado, estava ansiosa para conhecer o bebê deles.

Então, depois do trabalho, pego o metrô até o Roosevelt Hospital, onde me encontro com Ben na lojinha de presentes do hospital. Ele já escolheu alguns balões e um cartão que nós assinamos no elevador, enquanto subimos até a ala da maternidade. Fomos em direção ao quarto 1231. A porta está enfeitada com uma enorme cegonha em tom azul pastel segurando uma plaquinha em que está escrito É um menino!, assim como metade das portas daquele corredor.

Por causa do longo trabalho de parto que Annie vivenciou, estava esperando encontrar um ambiente mais calmo, mas demos de cara com uma festa movimentada e barulhenta. O quarto estava repleto de flores, presentes e pelo menos uma dúzia de amigos e parentes tirando fotos do bebê e disputando para segurá-lo no colo.

Há até algumas garrafas de champanhe, que Ray esconde atrás de suas costas todas as vezes que uma enfermeira passa perto dele.

Ray e Annie estão radiantes enquanto contam os detalhes do momento em que a bolsa estourou, a corrida de táxi até o hospital e a briga deles pouco antes de Annie tomar a anestesia peridural, quando Ray admitiu ter esquecido a câmera de vídeo em casa. Nós demos risada, ouvimos as histórias e admiramos Raymond Jr., que parece uma cópia do pai (e eu não costumo ver essas semelhanças).

Todo mundo se diverte e sei como essa celebração está refletindo no Ben. Ele está tomado pela emoção e claramente animado pelos nossos amigos; mas eu também vejo que ele está inquieto e pensativo. Não exatamente triste, mas o mais perto de estar triste sem estar realmente triste. Sua expressão me lembra a de uma madrinha em um casamento enquanto ouve o vigésimo brinde da noite.

Exatamente quando íamos segurar Raymond Jr., um pouquinho cada um, a enfermeira de amamentação entra e Ray pede educadamente que todos, por favor, saiam do quarto. Fico surpresa que Annie – que, caso houvesse nascido alguns anos antes, estaria queimando sutiãs em protesto – se importasse com sua privacidade. Bom, não dizem por aí que um bebê muda tudo? Demos nossos parabéns mais uma vez para Annie e Ray e dissemos que logo entraríamos em contato.

No metrô, a caminho de casa, tenho esperança de que Ben perceba que a festa não vai durar muito. Que assim que você traz o bebê para casa e algumas semanas passam, o champanhe e as visitas param de aparecer e você está sozinha no meio da noite.

Caso ele não tivesse percebido isso, espero algumas semanas e, então, ligo para Ben e sugiro inocentemente que nós nos ofereçamos para cuidar do bebê para Annie e Ray. Dar a eles uma chance de saírem sozinhos. Ben acha que é uma ótima ideia. Ligamos para nossos amigos, que aceitam, agradecidos, a oferta.

Então, na sexta-feira seguinte, Ben e eu pegamos um táxi para a casa de Annie e Ray, e subimos as escadas até o terceiro andar (enquanto eu comento o quanto deve ser difícil arrastar um carrinho de bebê para cima e para baixo naquela escadaria). Estou esperando encontrar um casal de pais exaustos, uma casa bagunçada, o cheiro de leite azedo misturado com o fedor de fraldas sujas. Mas Ray aparece na porta, barbeado e elegante, e eu noto desanimada que o apartamento deles está impecável. Uma música de Neil Young, “Good To See You”, está tocando um pouco mais alto do que você poderia esperar em uma casa com um bebezinho, que está dormindo angelicalmente na sua cadeirinha.

— Aonde vocês vão hoje à noite? — pergunto, ansiosa para que eles saiam logo. Deixem o bebê sozinho comigo e com Ben. Deixem bem clara nossa grande incompetência.

— Mudança de planos — Annie fala empolgada. Noto que ela está linda. Seu cabelo está preso em um elegante coque e ela ainda tem aquele brilho da maternidade.

— O quê? Estão cansados demais para sair? — pergunto.

— Não. Vamos sair todos juntos. Temos uma mesa para quatro no Pastis esperando por nós! — Ray declara.

Silenciosamente, me arrependo de ter vestido uma calça jeans simples, uma regata preta básica e sapatilhas. Não posso nem mesmo protestar justificando que estou vestindo roupas para fazer meu papel de babá. Não que meus amigos aceitariam uma desculpa do tipo “estou usando sapatilhas”.

— Têm certeza? — digo. — Nós queríamos que vocês ficassem um pouco sozinhos.

— Não! Sentimos falta de vocês! — Annie fala, me abraçando.

— Então, quem vai cuidar do Ray Jr.? — Ben pergunta.

— Ele vai junto! — Annie cantarola.

— De verdade? — pergunto.

Annie concorda com a cabeça.

— Ele dorme o tempo todo, vai ficar bem! — Ray fala isso levantando a cadeirinha de seu filho como se para provar o que está dizendo. — Ei! Vocês querem segurá-lo um pouquinho antes de a gente sair? Ainda temos alguns minutos... ele não vai acordar.

— Claro. Deixa eu lavar minhas mãos primeiro — digo isso me lembrando da obsessão de minha irmã com germes depois que seu primeiro filho nasceu.

Vou até a pia da cozinha e lavo as mãos, pensando na minha estratégia. Será que eu deveria sacudi-lo um pouquinho e tentar acordá-lo? Será que eu deveria fingir que não sei segurá-lo para provar que bebês não são minha especialidade? Seco minhas mãos e decido que esses truques são óbvios demais. Então, gentilmente, pego o bebê dos braços estendidos de Ray. Aninho sua delicada cabecinha na minha mão livre e sento no sofá ao lado de Ben. Nós dois olhamos encantados para Raymond Jr., que está vestindo um macacãozinho branco de cashmere e um bonezinho combinando. Ele continua dormindo profundamente e tenho certeza de que ele vai ferrar minha estratégia e fazer o papel de um bebê perfeito.

Depois de alguns minutos de conversa, Ben fala:

— Posso?

Annie sorri.

— É claro!

Ben está à vontade e tira o bebê dos meus braços com facilidade. Raymond Jr. abre um dos olhos e olha para Ben. Então, ele boceja, encolhe os joelhos até o peito e cai no sono novamente. Ben parece fascinado.

— Eles não ficam um encanto juntos? — Annie diz.

Concordo, irritada com o fato de minha amiga ter usado a palavra encanto. É o primeiro sinal de que ela mudou. A velha Annie nunca teria usado uma palavra como encanto, a menos que estivesse fazendo uma piada.

Ben acaricia delicadamente o rosto de Raymond Jr.

— Não dá para acreditar como a pele dele é macia!

É claro que ele não tem acne nem eczema de bebê, eu penso.

Ben continua se deliciando.

— Olhe, Cláudia. Olhe como os dedinhos dele são pequenininhos!

Raymond Jr. segura o dedão de Ben e imagino como eu posso competir com um truque desse tipo. O garoto é bom.

— Ele chora? — Ben pergunta.

Annie responde que não muito, pois ele é um bebê bastante tranquilo.

Naturalmente.

— Nós realmente temos muita sorte — Ray comenta. — Na verdade, nós é que temos que acordá-lo à noite para mamar.

— Isso é bem incomum — falo, olhando nervosa para Ben.

Todo mundo ignora meu comentário enquanto Ray pega de volta seu filho, o coloca na cadeirinha e a leva escada abaixo até a rua, onde ele acha um táxi quase instantaneamente. Espero que o bebê conte como uma quinta pessoa, acima do limite legal de um táxi, mas o motorista não reclama.

O restante da noite segue tranquilamente, com Raymond Jr. dormindo pacificamente no restaurante barulhento. Nosso bate-papo é normal e agradável, e eu quase esqueço que tem uma criança dormindo debaixo da mesa. Quando todo o resto falha, espero ver um embaraçoso seio para fora da roupa, mas Annie mostra uma discreta mamadeira e explica que decidiu que amamentar no peito não era para ela.

A não ser pela palavra encanto, não tenho nada a dizer sobre Annie, Ray ou o bebê.

A caminho de casa, naquela noite, Ben pergunta o que achei do Raymond Jr.

Digo que ele é muito bonitinho, uma gracinha.

— Mas? — Ben indaga, pois meu tom sugere um mas.

Começo a falar sobre como é raro um bebê dormir tanto. Falo para Ben que todas as crianças da minha irmã tinham cólicas e que a maioria dos bebês dá muito mais trabalho do que Raymond Jr. Meu monólogo não é exatamente sutil, mas nem a resposta de Ben é sutil. Ele faz uma oferta crucial e nada prática: que ele teria “responsabilidade total e completa durante as noites” caso nosso bebê fosse do tipo difícil. Como se ele acreditasse que a única coisa que me impede de ter filhos é meu desejo de dormir oito horas por noite. Ele continua com um discurso sobre sua empresa ter uma política liberal de licença de paternidade, e que ele gosta da ideia de ser um pai que fica em casa.

— Um pai que fica em casa? Você ama sua carreira!

Ben dá de ombros.

— Eu amaria nosso bebê também... a questão é, você não teria que mudar nada em sua rotina, Cláudia — ele rebate. Então, repete sua afirmação, com a mesma ênfase no você e no nada.

— Eu ouvi quando você falou a primeira vez — digo.

Naquela noite, por volta das 3 horas da manhã, me encontro acordada e preocupada. Penso seriamente em sacudir Ben e dizer: “Sua vez de cuidar do bebê, querido”. Porque uma coisa é você falar sobre acordar no meio da noite. Outra bem diferente é ter que fazer isso quando a única coisa que você quer é dormir.

Mas decido agir diferente. Afinal de contas, do jeito que as coisas estão acontecendo comigo ultimamente, Ben talvez se levantasse, assoviasse e ainda começasse a falar em nomes de bebês.