Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 16 de 63

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Viriatho

Capítulo XV

A revelação de Idevor foi recebida com acclamações de assombro; e os chefes das Contrebias, pedindo-lhe que fôsse buscar o thesouro da raça, bradaram:

—Seja dado a Viriatho o Collar de ouro dos tres Crescentes.

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e taboleiros com fartes de farinha de bolota á cabeça de moças com arrecadas de ouro nas orelhas e grossas contas de ambar em volta de pescoço; formava-se o arraial para a entrada de Viriatho.

 

XV

A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro, de que até então se fallára como fabula ou tradição confusa, coincidiu com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus Soldurios, que o fôram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que lhe formavam a trimarkisia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes tres bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba, e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao agil pastor que matára os dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma decidida dedicação áquelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, intelligente e reflectido, capaz de desempenhar missões difficeis; Andaca, joven e phantasioso, mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de franqueza no caracter. A victoria e a acclamação de Viriatho ligou-os mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:

—Para o Principe da Lusitania.

Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambição que não fôsse a liberdade da nossa Terra.

Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao ár as suas lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e á entrega dos gados da sua região aos Chefes da Mésta, e mesmo aos tribunaes á sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E elles proprios, vendo o sabio Idevor junto de Viriatho com o Collar de ouro na mão, bradaram com enthuziasmo:

—Lançae-lhe ao pescoço a Viria do Commando, aqui, agora, antes de entrar na cidade.

Idevor obedeceu com jubilo, e lançou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos chefes das Contrebias:

—Agora, dignificado com a Viria, é que Ouriato ficará para sempre sendo o nosso Viriatho.

Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ár mysterioso:

—Se procurarmos o sentido mystico que se contém no nome de Viriatho, vamos encontra na palavra scythica Vrindus, que designa o Touro, o totem da nossa antiga raça e civilisação dos Ligures, a relação com a valentia do heroe e a sua missão religiosa do combate libertador.

Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou Collar de ouro dos tres Crescentes.

Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade, diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

CHRYSAÔR

Do Herminio Maior na immensa altura

Vê-se o Corgo das Mós, que as nuvens fura, Formado por tres grupos de rochedos,

Como irmãos que se apoiam firmes, quedos!

Sobre o do centro, como em pedestal,

Bloco estupendo, grandioso assenta;

De um Gigante a cabeça representa,

De longe contornando no horisonte

Negro perfil de mysteriosa fronte.

Das convulsões da Natureza activa,

No calor de uma lucta primitiva,

São taes blocos relêvos manifestos:

Mas ha quem reconheça n'esses restos,

No bloco e nos tres grupos de rochedos,

Da Lusonia antiquissimos segredos:

Governou esta terra um patriarcha,

Théron, desde o norte ao sul a abarca,

E aos extrangeiros a fronteira fecha.

A seus tres filhos este Estado deixa:

—Se a terra de Lusonia dividida

Fôr entre vós, por certo enfraquecida

Fica exposta ao assalto do estrangeiro,

D'Africa, ou levantino aventureiro.

Mas se a Lusonia unida se conserva,

Não entra aqui indomita caterva;

E grande, desde o Sacro Promontorio

Até ao mar Cantabrico, este emporio

Que vae dos Pyreneus té á vertente,

Será da Hespanha o estado mais potente.—

Do mundo era por toda a redondeza

Théron, por causa da sem egual riqueza,

De Chrysaôr por nome conhecido.

Pelo pezo da edade amortecido,

Chama os tres filhos; vieram reverentes,

E um aureo Collar de tres Crescentes Lhes entregou, no seu momento extremo:

—Dou-vos a insignia do Poder supremo.

Os trez Crescentes d'este aureo Collar,

Pela crença da religião lunar,

As tres phases da Lua symbolisa.

São a Lusonia integra, indivisa,

Abrangendo a Tartéssida virente,

Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente!

Ah, se partirdes este Collar de ouro,

Cae a soberania... escuro agouro.

E receiando o temeroso evento

O velho Chrysaôr exhala o alento.

Deram os tres Irmãos ao pae amado

Nas Cavernas do Cantaro Delgado,

Sepultura em pyramides alpinas,

Que têm o aspecto de um castello em ruinas.

Ante o cadaver, na alta sepultura,

Entre si, cada um dos Irmãos jura

Não partir o Collar dos tres Crescentes,

Mantendo unidas as lusonias Gentes.

Em catacumba do Covão do Boi

O Collar de Ouro escondido foi,

Fixando, do local para lembrança,

Aquelle d'onde a vista longe alcança

Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo

Que de bruta Carranca tem o antojo. Resguardado na Arca de um fraguedo,

Os tres Irmãos em mutuo segredo

Conservam da Lusonia, ora indivisa,

Do Poder soberano essa divisa.

Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia,

Que sentindo o que cada um sentia,

Ou unidos no mesmo pensamento,

Realisam o accordo em um momento,

Um longe, na Callaecia laboriosa,

Outro áquem na Tartéssida formosa,

Ou já na Tarraconia grande e forte.

Quanta prosperidade d'esta sorte

De Lusonia engrandece os tres Estados,

Rica de bens, dinheiros, e de gados!

Mas a faina do Mar fôra esquecida,

Trocada pelas da agricola vida!

Ah! d'aqui a catastrophe resulta,

Que a liberdade lusa atroz sepulta.

Quantos Povos invejam com insania

Os viçosos Jardins da Bastitania,

E vêm pelos cantares dos Homerides

Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides,

Crendo encontrar aqui o Velocino,

Que reconhecem ser gado bovino!

Aventureiros lá do mundo Asiano,

Arribaram ao porto Gaditano,

Affrontando do pélago o terror,

Para roubar o gado a Chrysaôr!

Heracles forte, o tyrio, vinha á frente,

Doésta os tres Irmãos, soberbamente,

Para um combate a corpo, singular.

Terrivel o recontro, atroz o azar!

Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho,

Heracles o esmaga sob um joelho!