Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 43 de 63

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Viriatho

Capítulo XLII

O sonho de Viriatho tornára-se uma realidade: a Lusitania livre, e Roma vinculada pela Paz. O Caudilho contava com a pacificação geral, embora algumas resistencias se manifestassem na Hespanha citerior; Roma era sufficientemente politica para ratificar esta Paz sem apparencia de impozisão. E emquanto Viriatho esperava a ratificação do Tratado pelo Senado Romano, partiu pressurosamente para a ilha de Achale. Cumprira a condição exigida por Lisia para a realisação do seu casamento.

Lisia sabia todos os terriveis accidentes da campanha de Serviliano, mas não tinha chegado ainda á ilha sagrada a noticia da pacificação inesperada. Do alto da Torre Redonda a semnothêa viu vogar para a ilha uma barca de couro; o coração bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a conjecturar o que teria succedido. Mais proximo a barca, reconheceu a figura de Viriatho. Desceu subitamente para ir esperal-o á lingueta de areia.

Não se imagina a eloquencia da mudez de Viriatho e Lisia, quando se deram as mãos e assim ficaram por alguns momentos. Avançando para a Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriatho:

—Cumpriu-se o teu desejo.

—A Paz? Com Serviliano?!

—A Paz com Roma; assignou-a Serviliano, Proconsul e general.

Lisia fitava immovel o vulto de Viriatho, crendo um sonho o que escutava. O valente cabecilha tirou d'entre a cota de malha de linho retorcido a folha em que estava escripto o Tratado de Paz, em que Roma reconhecia a liberdade e independencia da Lusitania. Lisia não pôde lêr esse texto, porque a impressão da alegria tinha-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Viriatho entregou o Tratado ao ultimo dos Druidas Idevor, que leu a clausula: Haverá paz entre o Povo romano e Viriatho.

Lisia, lançando os braços em volta de Viriatho, exclamava:

—Temos uma Patria livre! A Lusitania é independente!

E beijando com candura as faces crestadas e as mãos de Viriatho, continuou como se estivesse fallando em sonho:

—Já se póde constituir familia em uma Patria livre. Os nossos filhos nunca serão escravos.

Viriatho, lançando-lhe o braço em volta da cinta delicada, e em attitude reverente:

—Cumpri a condição que me exigiste: a imposição da Paz a Roma. Agora és minha esposa.

—Para a vida e para a morte! volveu Lisia, como se alli mesmo se consorciasse com o guerreiro á face do céo.

E Viriatho, tirando o braço direito da cintura de Lisia, tomou o Cinto de ouro mandado pelo Proconsul Serviliano, como symbolo da realeza offerecida, e cingindo-a com elle, disse com voz branda e quasi só ouvida pela noiva:

—A este corpo gentil, que eu desejo e hade ser meu, prendo-o com esta cadêa de ouro, trazida do campo da batalha para a paz da nossa casa. As almas sempre estiveram identificadas pela mesma aspiração, pelo mesmo soffrimento, e agora por uma simultanea alegria.

E mirando Lisia com interesse e carinho para vêr como bem lhe ficava o Cinto de ouro, dizia em voz que só ella entendia:

—Mal sabes a significação d'este Cinto?

Lisia ficou attenta para ouvir contar a batalha em que fôra tomado como despojo ao general romano.

—Foi-me offerecido por Serviliano com o titulo de Rei da Lusitania e Alliado de Roma, para assim salvar o seu exercito do desfiladeiro em que o enclausurei.

—E acceitaste?

Recusei o titulo de rei, como uma vaidade pessoal e egoista, e só exigi a Paz, o Tratado de Paz ratificado pelo Senado Romano.

—Mas o Cinto?

—Fiquei com elle para ser a minha primeira joia de nupcias.—E com um sorriso cheio de bondade, continuou: Não deixará de ser o symbolo da realeza, no logar em que agora brilha; por que tu, Lisia, ligando a tua existencia á minha, ficaste verdadeiramente a rainha e senhora do meu destino.

Lisia tirou o Cinto de ouro que a envolvia, e tomando da mão de Viriatho o Tratado de Paz foi collocal-os sobre o altar do Deus Innominato. As Virgens do Côro da Semnothêa acompanharam de canticos estas offerendas, incertas sobre qual d'ellas substituiria no culto a Lisia, que ia deixar os áditos mysteriosos da Torre Redonda pelos deveres austeros da vida de mulher casada.

O regimen da Religião druidica ia-se obliterando; apenas na Ilha de Hierna se conservava na sua pureza primitiva. Pelas outras partes do Occidente europeu as perseguições fizeram que se dissolvesse a hierarchia sacerdotal, degenerando os Druidas muitas vezes em adivinhos e curandeiros, e as Semnothêas em bailadeiras dos festins e das praças. Na Ilha de Achale conservava-se um apagado vestigio cultual, não tanto como doutrina theologica, mas como vinculo secreto que unificava as vontades no ideal politico da libertação da Lusitania. Era por isso que nenhum viajante fallando da Hespanha deu noticia da existencia do Druidismo na peninsula. Lisia, a Semnothêa, casando com Viriatho, realisava o ideal religioso servido pelo braço do guerreiro na aspiração politica de uma Lusitania livre.