Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 59 de 63

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Viriatho

Capítulo LVI

Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez assassinar Viriatho, deu aos trôços da gente que formava o exercito lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para o colonisarem pacificamente.

Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e á cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de Valencia, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.

 

LVI

Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada. Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.

Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso intuito, na rendição junto do Turia.

Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam, lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente lhe chamava:

—Sempre noiva! a Sempre noiva.

E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:

—O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!

O velho respondeu com firmeza:

—Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!

Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das Pedras baloiçantes, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.

Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia, para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia: