Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 36 de 63

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Viriatho

Capítulo XXXV

Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exercito aquartelado em Orson; e sob a tremenda impressão foram emissarios levar a Fabio, que estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forçou a partir a toda a pressa, e a vir tomar o commando do exercito para proceder conforme o exigia a presença do inimigo.

O Consul estava bem industriado, e guardou-se de dar batalha campal a Viriatho; fez como o Caudilho, respondia ás escaramuças com outras escaramuças; não perdia gente, e tendo o seu exercito bem aprovisionado, considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta, cincoenta homens, como uma eschola em que adestrava os seus soldados á indole especialissima d'esta guerra sem egual.

 

XXXV

Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz e alliança com Roma nas bases do Foedum aequus era uma solução honrosa em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da Lusitania.

Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade, reconhecendo-o como Principe da Lusitania. E na sua linguagem franca e rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o diploma que lhe fôra confiado:

—Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo, que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.

«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras, subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as véras de alma é o titulo de Principe da Lusitania. Não é a simpleza dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»

«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano, começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes, para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania, desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o entregue ao assalto dos invasores.

«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra, vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado visa a outros fins, tem outros intuitos.»

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem audaz, mas não com a grandeza do caracter.