Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 54 de 63

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Viriatho

Capítulo LII

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.

A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi acordal-o, e dizer-lhe:

—Morreu Viriatho!

Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o somno, deu ordem ao Cavalleiro:

—Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.

 

LII

Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:

—Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!

Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de Viriatho.

—Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!

Para a barraca do general correram todos aterrados. Não compareceram Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforço reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente, emquanto elle dormia!

Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.

A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço dado por mão certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado, estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel, á qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mão, diziam entre si:

—Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho não morreu em batalha; assim lhe estava vaticinado.

—Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixára no vago a hypothese atroz, de morrer apunhalado á traição pelos seus melhores amigos!

—Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por uma ideia, do que esta sorte miseranda.