Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 22 de 63

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Viriatho

Capítulo XXI

Quando os chefes das Contrebias pisaram terras a que não tinha chegado a devastação da guerra, encontraram ranchadas de mulheres trabalhando nos campos, alegres e risonhas, ouvindo-se de longe as cantigas com que aligeiravam a faina do dia. Approximaram-se da lavrada, e notaram que vigorosas mocetonas, de olhos castanhos e cabello preto, com arrecadas de ouro nas orelhas, contas de ambar e crystal raiado de preto e azul ao pescoço, descalças de pé e perna, andavam n'aquella encosta fazendo a sementeira do linho. Ellas não se apavoraram com a passagem da cavalgada. Os Cavalleiros que se deixaram ficar atraz, fôram-se approximando do rancho, simulando interesse pela suavidade das cantigas, que lhes faziam saudades dos seus casaes e villares, de que andavam ausentes desde que se empenharam na resistencia contra os romanos. É certo que a alguns d'esses guerrilheiros, requeimados pelo sol e pelas geadas, acudiram as lagrimas aos olhos. Cantavam tres raparigas alternadamente uma Cantilena dos Trabalhos do Linho, que na sua emoção fazia sentir o perfume da terra, por que todos elles combatiam. Entoava uma d'ellas, como deitando o pé da cantiga:

Quem anda a semear o linho,

Bem sabe que hade viçar

Para trabalhos passar.

Tambem quem semêa amores

Aqui, além, á ventura,

Sem se arrecear de dôres

Doce esperança procura;

E nascem-lhe em vez de flôres

Trabalhos para passar.

Antes o linho semear

Pelos vallados e encosta,

Do que um olhar sem resposta,

Desdens que são de matar;

O amor que se não desgosta

Não póde raíz deitar.

E emquanto as outras moças iam fazendo a sementeira, disse uma para a que cantava:

—Caenia! não descubras o teu segredo; deixa cantar Nilliata.

E começou logo outra rapariga, continuando na mesma toada, mas com um timbre de arrancar a alma:

Pelos trabalhos do linho

Está-se a gente a entender:

Nasce o amor para soffrer.

D'entre abrolhos do caminho

Quantas flôres a nascer!

Foi quando vim a entender

Que me davas com carinho

Tua vontade e querer,

Pondo fim ao meu soffrer.

A mesma voz que interrompeu a que levantára a cantiga:

—Aponia! não fiques para traz; ou tu já não és cantadeira de fama?

Ouviu-se logo outra voz ainda mais terna, de uma frescura de mocidade, e de paixão commovente:

Bota uma flôr azulada

O linho, estando a florir:

Tem essa côr teu sorrir!

Sabendo que eras amada,

Segredaste de mansinho:

—Para sempre!—Sonho lindo.

Ainda te estou ouvindo...