Viriatho
Capítulo XVIII
Este terreno, que tambem na primitiva familia romana tinha o nome de Haeredium, era o fundamento da estabilidade da familia, e, sempre inalteravel, era um vinculo ao qual se incorporava qualquer cercado em que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse sempre indiviso, a herança dos irmãos da mesma familia fazia-se excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes cinco moedas de prata.
Viriatho comprehendeu o sentido da offerta que lhe fizeram os chefes das Contrebias. Nos territorios da Lusitania elles possuiam como seus proprios e individuaes os solares dos Castros, Castrellos, Crôas e Môrros, Cabêços e Citanias, Penhas e Cidadelhes; e a entrega das cinco moedas de prata, significando a affirmação de independencia solarenga no meio dos territorios communaes, n'este momento representava o reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de Chevage.
Na bandeira branca dos Mil de Viriatho, e no escudo do valente cabecilha, d'aquelle dia em diante ficaram representados os cinco dinheiros, chamando-se-lhes por isso o Pendão das Quinas, o Escudo das Quinas.
XVIII
Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:
—Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem de braços firmes como os vossos.
Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias, volveu-lhe:
—Andergus! ás espadas que fabricaes póde-se-lhes chamar magicas, porque tornam invencível o homem que as brande.
O espadeiro sorriu-se com orgulho, e começou a explicar a Viriatho o valor das armas que se fabricavam n'aquelle fóco de uma antiga tradição metalurgica:
—Sabereis, que os Romanos quando vieram á Hespanha combater os Carthaginezes usavam ainda uma miseravel espada de cobre forjado a que chamavam Ligula, a qual vergava com a força do golpe e que elles durante o combate endireitavam com o pé. Quando os Romanos viram as nossas espadas de ferro, adoptaram esse typo para o seu armamento, que mandaram fabricar em Astorga, Valencia e a quantos armeiros encontraram espalhados por essas Hespanhas. Mas, o segredo da tempera do aço só nós os Espadeiros de Toletum o possuimos, e é esta a superioridade das espadas lusitanas. Os Romanos nunca nos poderam apanhar esse segredo.
Viriatho escutava com encanto e assombro a observação de Andergus, e sentiu-se animado de uma intima confiança com aquella revelação: as espadas lusitanas eram de aço. E Andergus appresentou-lhe uma espada:
—Vêdes! aqui está uma espada romana; tem de extensão um pé e quatro polegadas, larga de tres dedos, cortando com dois gumes, e de ponta aguçada, punho do proprio metal. Serve para ferir de golpe de alto a baixo, ou de estocada a fundo. Mas... reparae como esta espada se entorta e fica vergada.
E calcando a espada debaixo do pé esquerdo curvou-a:
—É romana; cá está a marca gravada. Reparae: ABVRBCDCIII. Não conheceis talvez o que querem dizer estas letras: Ab urbe condita, da fundação de Roma, no anno seiscentos e tres.
—Ah! do anno da matança. Acudiu Viriatho.
—Agora vêde esta nossa espada toledana; um golpe d'ella corta no ferro como se fôsse em chumbo. É mais comprida do que a romana uns dois palmos, e de folha mais estreita. É mais leve, e incute o golpe mais longe, porque a tempéra do aço dispensa a grossura, necessaria ao ferro doce. É com estas espadas que nos havemos achar frente a frente com os Romanos; elles não conhecem esta nossa vantagem.
No semblante de Viriatho transluziu um raio de alegria; e abraçando Andergus, como um d'aquelles de quem dependia a liberdade da Lusitania:
—Não temeis que um dia vos roubem o segredo da tempéra do aço?
—Esse segredo está n'estas aguas do Tagus, e nas suas areias auriferas. É aqui n'esta região que sómente se póde dar ao ferro em brasa a dureza impenetravel.
Viriatho ficou pensativo, e como que voltando a si de um transporte, exclamou com jubilo:
—Uma terra que tempéra com as suas forças occultas o ferro por essa fórma unica, essa terra só póde ser pisada por homens livres communicando ás suas fibras a rijeza do aço. Ah, sinto em mim alguma cousa d'essa tempera das espadas de Toletum.
Andergus fallou-lhe mysteriosamente:
—Não é só a agua e as areias auriferas do Tagus que dão ao ferro essa força inquebrantavel; nem tampouco ser o ferro das minas de Mondragon; este céo tambem entra para ahi em alguma cousa. Reparae para este céo azul e profundo. Quando o metal está derretido, e á sua superficie a calda reflecte esse azul ferrete do céo, é quando álgum influxo da abobada etherea diamantina desceu e veiu dar-lhe tão assombrosa qualidade.
Andergus fallava com uma confiança absoluta em Viriatho, e n'aquelle momento para o caudilho lusitano não guardava segredos. Depois, com um certo orgulho de tratar com Viriatho, de quem tanto se fallava, e maravilhado de o encontrar lhano e despido de toda a soberba, confessou-lhe:
—Muito quizera forjar por minha mão uma Espada, que fôsse a vossa companheira nas batalhas que ainda tendes de dar contra o Invasor romano. Não devo fazel-o; ha uma Espada heroica já consagrada por victorias, com o poder que torna invencivel aquelle que a cingir, e é essa a que vos compete.
—Eu nunca ouvi fallar d'essa Espada.
—É a espada Gaizus! devolveu promptamente Andergus: Não sei aonde ella está occulta, mas ha por certo quem o saiba. É um talisman de liberdade. Dizem que está enterrada, e creio que em chão lusitano, ou com certeza na sepultura de algum bravo. Se Indibilis, Mandonio e Salondico a tivessem brandido! Ah, se a espada Gaizus apparecer, e vier á vossa mão, saberão os romanos o que é um raio...
Viriatho presentiu que uma força maravilhosa se ia desvendando; mas Andergus fallava de uma tradição vaga, e nada mais podia adiantar. E levando o caudilho lusitano pelas officinas, parando ao pé das forjas, das bigornas e rebolos, em que trabalhavam activos armeiros, mostrava-lhe as armas diversas que estavam fabricando:
—Já podestes vêr a Spatha e o Gladius, comparando-os com a nossa Espada hispanica de aço puro, com uma nevrura ao meio ou especie de quina; agora reparae para esta Espada curta, é a Machoera, á maneira de punhal, para combater corpo a corpo, mas é propriamente uma adaga. Verdadeiramente lusitana é a Rhanda, a faca ou naifa de quasi dois palmos, pendurada á cinta, e que acompanha sempre o homem quer nos trabalhos dos campos ou nos da guerra. Até isto os Romanos nos roubaram, porque de ha muito deram em usar a Rhanda pendurada ao lado direito. Se nós fossemos a reclamar o que nos pertence, tambem como conhecedor pratico posso attestar, que a Lancea romana é imitada da nossa lança ou chuço peninsular: tem uma ponta de cobre, outra de ferro, e algumas como a Soliferrata são completamente de ferro. Mas, deixemos aos homens que nos devastam dizendo que nos querem civilisar, a gloria dos seus roubos; aqui estão as Tragulas, com a sua ponta em fórma de anzol, arma terrivel que tem ferido generaes carthaginezes e consules romanos.
—Tenho mais confiança na Falcata, uma gadanha que chega a dar os resultados de uma boa espada.—Acudiu Viriatho, terminando o seu pensamento:—Quando o povo quer, com as suas foices, gadanhos, forquilhas e engaços, é capaz de levar adiante de si o poder do mundo. Em Roma já se diz, que o mais destemido general não é capaz de fazer virar as costas a um Cantabro. Resta-me a esperança de que ainda hão de tremer ao encarar um Lusitano, que nenhuma calamidade descorçôa.
Viriatho despediu-se de Andergus, que voltou para a sua incude, quando viu apparecer o vulto de Idevor, que o procurava. Pouco fallaram; mas um movimento repentino de todos os terços e catervas lusitanas, postos em marcha instantaneamente, era revelador de que já pisava terras da Hispania Ulterior um general romano, um Pretor de confiança. Sobre os escudos feitos de couro crú e cordas de tripa entretecidas de arâme, os soldados lusitanos batiam pancadas rythmadas, a cujo som cantavam os seus hymnos triumphaes e os clamores do Tripudio antes de entrarem em combate. A marcha fazia-se a esta cadencia das Cetras, que resoavam com estridor de alegria, em passos e saltos em que antegostavam os impetos da acção.