Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 21 de 63

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Viriatho

Capítulo XX

—O verão ainda agora vae em meio, mas já o exercito romano busca abrigo nos seus quarteis de inverno.

—Emquanto elles cosem os rasgões que lhes fizeram as nossas adagas, não deixemos que estas se enferrugem; vamos infligir o castigo a esses povos que contra nós os auxiliaram, desde o Tagus ao Ebro.

E se bem o disseram melhor o cumpriram.

A noticia da derrota vergonhosa de Plancio produziu em Roma uma commoção inconcebivel. Uns acreditavam que as minas de prata e as riquezas da Lusitania ficariam para sempre estancadas, e exclamavam com rancor: É preciso anniquillar esse povo barbaro, que assim se atreve a resistir contra a civilisação da grande e generosa Roma. Que o Pretor Caio Plancio seja chamado a Roma, para dar conta dos seus actos, d'esses miserandos feitos com que infamou as armas romanas, cujo prestigio é a base do poder da Cidade eterna.

E Plancio nem tempo teve para reorganisar o exercito com que se salvára depois da derrota nas faldas do Monte-Veneris; chamado a Roma, para apresentar-se diante do Senado, elle partiu menos seguro do que Galba; não levava barras de prata e ouro para corromper os seus juizes, não lhe deram tempo para isso. A narrativa da campanha na Lusitania era inacreditavel, e por isso a sentença estava prevista,—a deposição e o desterro, para que não se fallasse mais d'elle, e para que os futuros generaes apprendessem no temeroso exemplo.

 

XX

Emquanto os Romanos se preparavam para novas operações de guerra, Viriatho estendeu as suas correrias para o norte, por toda a Celtiberia, até ao Ebro; veiu depois a léste até á Edetania, Contestania; e passando por Castalon, Tucci e Obulca, penetrou na Oretanía. Era um reconhecimento dos territorios e das povoações! sabia aonde teria facil refugio nas cavernas e antas, e que gentes o apoiariam contra o invasor estrangeiro. Na sua passagem rapida ia agrupando quantos se insurgiam contra o dominio romano, lembrados da sangrenta traição de Galba. Quando Viriatho pisava já o solo da Carpetania, vieram ao seu encontro homens alemtejanos com uma mensagem; traziam a Crantara, a Lança ensanguentada, e a entregaram ao destemido Cabecilha. Depois que Viriatho sopezou a Lança, entregou-a a um dos seus companheiros, que a fôram passando de mão em mão, partindo em seguida os mesmo quatro homens com ella. Significava aquelle symbolo a convocação dos chefes militares e dos governadores das Behetrias para comparecerem no Conselho armado. Ia celebrar-se o Conselho no Castro da Colla, junto da grandiosa Anta da Candieira, na Serra d'Ossa; alli jaziam as ossadas dos antigos Lusonios, quando a sua terra não tinha sido ainda invadida pelos Iberos, nem assaltada pelos Celtas, nem explorada pelos mercadores phenicios, nem pelos latrocinos dos Romanos. No ádito sagrado das suas sepulturas é que os Chefes lusitanos consultavam o ecco dos espiritos, nas resoluções irrevogaveis de sacrificio imposto pela lucta. Em uma das enormes lages da Anta da Candieira existe um buraco aberto a meia altura do chão, tendo um palmo em quadrado de diametro; é o unico em toda a peninsula hispanica. É por esse buraco, que o chefe dos Endres, quando esta corporação hieratica não estava ainda desmembrada, interrogava os mortos sobre o destino social das tribus, e sobre a sorte das batalhas; interrogava para dentro da caverna subterranea, e collocando o ouvido a esse buraco escutava os eccos mysteriosos que só elle em uma concentração subjectiva ouvia e explicava aos que vinham alli chamados ao Conselho armado.

Em poucos dias de marcha Viriatho chegou, atravessando charnecas de mato curto e enfezado, e por entre montados de zimbro e azinho, até á chapada de rochas schistosas, aonde no cabeço mais saliente se erguia a Anta veneranda. Infundia um pavor quasi sagrado a vista d'essas sete fortes columnas ou esteios talhados sem artificio, implantados na terra: sobre quatro d'elles assentava uma vasta lage em fórma de mesa, como ára dos sacrificios. Outras lagens cobriam um subterraneo, que era a sepultura dos Antepassados. Logo que Viriatho chegou ao cabêço em que a Anta se eleva, veiu ao seu encontro um velho risonho, que o saudou abençoando-o. Era Idevor, o derradeiro dos Endres, ou pelo menos aquelle que depois de todas as perseguições conservava a tradição das tribus lusonicas; era elle que nas commemorações dos finados, annualmente, alli vinha depôr, na pedra furada as offerendas do banquete funerario; era elle que interrogava os mortos, e collocava o ouvido attento no orificio da pedra que os cobria.

O Conselho armado estava reunido em volta da Anta da Candieira; estavam alli representados os Carpetanos, os Vettões, os Vacceos, os Callaicos, os Artabros; tratava-se da defeza contra o Romano implacavel que se preparava para a desforra de tantas derrotas. Viam-se alli figuras esbeltas de homens, trigueiros, de cabellos compridos cahidos pelos hombros; ligeiros, armados com escudos pequenos, e punhal comprido á cinta; envergavam couraças de linho, tendo por cima a cóta de malha, e nas cabeças os capacetes de couro. Depois de terem feito os seus jogos heroicos, alguns offereciam á Divindade lançando sobre a mesa da Anta, mãos decepadas de vencidos romanos. Idevor avançou para a Pedra furada, ajoelhou e debruçou-se sobre ella, interrogando para dentro. Sentia-se um rumor soturno, como a resonancia de funda caverna. Depois, longo tempo Idevor pareceu escutar; e quebrando inesperadamente o silencio que pezava sobre todos os guerrilheiros e chefes das Contrebias, vociferou com intimativa:

—Viriatho? Viriatho! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás ás mãos dos Romanos!

Era isso que Idevor ouvira no rumor do oráculo dos mortos. Repetiu-o depois fitando com assombro Viriatho. Os companheiros vieram abraçal-o pela consagração, que o proclamava invencivel; fitavam-o com espanto, como se, desde aquelle momento, se tornasse um sêr sobrehumano. Disse-lhe Minouro:

—Agora em vez de um Pretor, póde Roma enviar-nos dois, para aparar melhor o pezo da derrota.

Andaca, batendo-lhe no hombro:

—Mas, pelo seguro, a força do oráculo está em uma boa espada.

Viriatho apoiando-se na espada que tocava com a ponta o solo, vergou-a com garbo, como fiado na sua tempéra e flexibilidade; mas com espanto viu, que mão traiçoeira lh'a tinha destemperado, porque dobrava-se como se fôsse uma lamina de chumbo:

—Retorcem-se as espadas para serem enterradas com os guerreiros mortos!

Então Ditálcon, vendo a confusão que tomára o Cabecilha:

—Mesmo sem espada serás vencedor; o oráculo não mente.

Idevor tomou a espada torcida das mãos de Viriatho, e disse-lhe com alegria:

—Esta acabou já o seu destino; serviu emquanto o teu impulso generoso levantou o espirito de resistencia nas abatidas tribus lusitanas. Inspiraste confiança! as populações seguem-te, porque vêem em ti o restaurador da independencia, da liberdade, e do futuro glorioso da Lusitania. A nossa Lusitania é imperecivel. Aqui na Anta da Candieira guardara-se a Espada maravilhosa e invencivel, o Gaizus, escondido para não ser tomado e empregado contra nós pelo invasor estrangeiro, e sempre ignorado, por que até hoje não apparecera um filho d'esta terra capaz de a defender e sustentar a sua liberdade. Viriatho! o testemunho dos Antepassados proclama:—Nunca serás vencido! E é da sua sepultura, d'este Cairn sacrosanto que eu tiro a Espada invencivel, o maravilhoso Terçado que ahi se guardou até ao momento em que appareceste e te patenteaste digno de servir o Peito lusitano.

Dizendo estas palavras, Idevor metteu o braço pela pedra furada, e como revolvendo com a mão um thesouro invisivel, sacou com geito pelo buraco da lage um montante de aço.

Abeirando-se de Viriatho:

—Entrego-te a Espada invencivel nas batalhas. Tu, e todo aquelle que a brandir pela Lusitania têm certa a victoria. Que ella passe de mão em mão, e de edade em edade.

Viriatho apoderou-se da Espada com enthusiasmo; beijou-a, mirou-a com desvanecimento, e brandindo-a no ár, gritou:

—Hade ser livre a Lusitania.

A espada que o velho endre sacou de dentro da sepultura ancestral era uma lamina curva, tendo afiada a folha por um dos lados inteiramente, e pelo outro até um terço apenas; tinha a ponta aguçada, terminando a curva por fórma que servia para ferir de ponta e simultaneamente de gume. O fio era tão resistente e cortante, que se fôsse a Espada brandida com força decepava instantaneamente uma cabeça. Quem tivesse visto mundo, reconheceria que aquella Espada era semelhante em tudo á Copide oriental, com que batalham os Argivos, ou á Sicca dos Persas e Thracios; mas emquanto aquellas eram forjadas de ferro batido, esta que estava occulta ha centenas de annos n'aquella sepultura, tinha uma tempera tal, que cortava o proprio ferro, e era, de uma flexibilidade que a tornava inquebrantavel. Não era indifferente a comparação com a Sicca dos Persas, por que d'esse povo guerreiro se conta que viera á Peninsula hispanica como invasor, e que Mithra, o Mediador de Ahura, com uma Espada de Lamina curva matára o Touro, que symbolisava as Crenças e a Cultura dos Povos occidentaes. A Espada começou a apparecer com um caracter mysterioso! Pertenceria ella ás éras primitivas d'essas espantosas luctas das raças do Oriente? No seu punho, que terminava com uma cabeça de Dragão, estavam ornatos de incrustações de ouro com os desenhos usados pelos Espadeiros de Toletum. Havia o quer que é de mysterioso; por que o povo ao fallar de uma Espada magica ou invencivel que existira na Hespanha antiga, diz ainda: que sete vezes fôra temperada no sangue de um Dragão! A sua tempéra não será esse segredo que só os armeiros de Toletum conservam no mais absoluto segredo? E as incrustações de ouro, não serão a prova de que as areias auriferas do Tagus misturadas no ferro derretido é que lhe dão esse poder cortante o incomparavel do aço.

Idevor, correndo a mão ao longo da lamina, descobriu sem esforço a face lisa de uma vaga côr azulada, e que semelhava o cariz do céo; entregou-a a Viriatho, e elle proprio cingiu-lh'a á cinta do lado direito, dizendo:

—Esta Espada encontrou o braço digno de brandil-a no ár. Ella tem um nome, como têm todas as Espadas dos Heroes; são como elles uma entidade, com quem se consorciam; chama-se Gaizus, segundo as tradições religiosas que se transmittiram dos povos scythicos e dacios. E se a insignia da Viria dos tres Crescentes, que hoje usas como supremo chefe, te dá a rasão do titulo de Viriatho, de agora em diante como portador da Espada maravilhosa serás conhecido entre os que te acompanharem até á morte pelo nome de Porto-Gaizus...

Effectivamente a Espada que symbolisava o Deus da guerra, entre numerosas tribus scythicas e liguricas tinha o nome de Gaizus, e entre os kimricos Gaisus, de Hesus entre as hordas celticas, e Gaisos entre os ramos goticos. Era essa Espada que se espetava no chão, tornando-o sagrado para ahi se constituir a assembleia ao ár livre e o tribunal do julgamento. A Espada era a representação divina e o emblema da fecundidade, por que lampejava como o raio celeste.

Viriatho espetou a Espada Gaizus na terra, reunindo-se todos os guerreiros em volta; e Idevor proferiu a

Benção da Espada

Fita de luz traça no ár o raio,

Quando encastella nuvens a rajada:

É assim esta Espada!

Em botes de alto abaixo e de soslaio,

Ou quando cáe a fundo

Golpe seu iracundo!

*

Contra os tyrannos firma a Liberdade,

E fortalece a Confraternidade.

Quem amal-a não hade?

A Terra em que nascêmos ella cobre,

Tal como um galho secular frondente

Abriga a livre Gente.

Como thesoiro que o valor redobre,

Lampejando no punho de um heróe,

Sempre sagrada foi.

*

Espada de Justiça e de Equidade,

De uma Patria o emblema, a magestade,

Quem amal-a não hade?

*

Se ella cahir do valoroso pulso

Por traição ou por morte,

Ao sumir-se no derradeiro corte,

Da independencia guardará o impulso.

*

Quem descobrir a lamina fulgente

No revolvido chão,

Cumprirá—a missão

De tornar livre a soffredora Gente,

Dando-lhe a consciencia de Nação.

E feito o sacrificio pelo mais sabio dos Endres, os membros do Conselho armado comeram em commum o que traziam em seus farneis, pães de glande de carvalho rotundifolio, pernas de carneiro assado, e despejavam os picheis de céria ou zytho encostados aos grandes esteios da Anta; e depois de gritos festivos, ouvidas as ordens de Viriatho, debandaram cantando, pelos campos de Ourique, seguindo para as suas terras em um

Coral de Tripudio

Terra da Patria!

Querida terra,

Liberta e altiva!

Na paz, na guerra

A alma idolatre-a,

Para ella viva.

Nosso chão patrio,

Terra querida,

Sempre liberta!

De um mundo és átrio,

Nunca vencida,

Por ti—álerta!

Terra sagrada

Da Patria amada,

Sê triumphante!

Pequena e forte,

Até á morte

Avante! ávante!