Viriatho

Teófilo Braga · Capítulo 7 de 63

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Viriatho

Capítulo VI

A Hespanha Ulterior estava quasi completamente insurrecta. Passavam de dez mil os Lusitanos revoltados contra o poder de Roma, e que juraram sacudir o infame jugo. No seu Conselho armado decidira-se, que todo aquelle que podesse sustentar-se a cavallo, embora velho ou doente, se appresentasse para o combate; mesmo as crianças que podessem alevantar um chuço ficavam obrigadas a incorporar-se nas turmas e milicias de cada terra.

Era o começo de anno estival, e na entrada de Maio, em que se faziam as dansas e cantares debaixo do verde pinheiro, e em que os homens validos, os chefes de familia, effectuavam as grandes paradas das suas forças defensivas. Parece que o ajuntamento d'aquella multidão enorme respirava um ár de festa, uma alegria communicativa, em que a ideia de morrer pela liberdade da sua terra dava uma exaltação delirante; dir-se-hia que era a Primavera sagrada, em que novas colonias iam pelo mundo para fundarem uma outra cidade. Verdadeiramente era uma entrada em campanha, em que o costume vinha coadjuvar a necessidade. Viam-se homens da estatura meã, e enxutos de carnes, de cabellos pretos e olhos castanhos, ligeiros e ageis, capazes de resistir a todas as intempéries, soffrendo todas as privações mas sempre alegres; traziam pendurados ao pescoço, por correias, pequenos escudos de tamanho de quatro palmos, e prezas á cinta umas compridas facas, a que se soccorriam em lances decisivos, e ainda no combate pessoal. O braço era armado com uma lança comprida, com uma ponta de bronze e um gancho ao lado, servindo para ferir e prender aquelle que topasse na frente. Apenas lhes defendia o corpo uma couraça de linho crú fortemente tecido, ou treu, sobre a qual assentava uma cóta de malha tecida de arame, que nenhum dardo poderia atravessar. Capacetes de couro com triplice cimeira cobriam-lhes as cabeças, aparando com segurança os golpes dos montantes; outros guerreiros traziam os cabellos compridos, como usam as mulheres, cingidos com nastro na fronte, no momento das refregas; os peões appresentavam-se com cnémides, saiaes negros, e chuços; outros com bragas forradas de pele de cabra, ou safões. E os Cavalleiros, montavam alazões e fouveiros, com estribos em fórma de concha feitos de madeira; com mantos listrados formando quadrados variegados. Formavam grupos de trez em trez, a que davam outr'ora o nome de Trimarkisia, indo um dos Cavalleiros á frente no ataque, ficando mais atraz os outros dois para o defenderem e substituirem. Reinava uma certa ordem n'essa multidão, dividida em catervas de infantes ou peões, com alguns Cavalleiros nas alas extremas: e os Hastarios, os Sagitarios, ou archeiros, os Fundibularios, moviam-se com uma ligeireza extrema, tomando os Cavalleiros como pontos de mira para se ajuntarem no sitio em que se tornava mais urgente a defeza ou o ataque. Os Carros, ou Covões armados de longos espetos, eram puxados a quatro cavallos, empregando-os para romperem a ordem da infantaria inimiga, e para servirem de parapeito e estacada defensiva detraz dos quaes os archeiros arrojavam os seus dardos.

Foi no meio de uma anciedade de lucta, que entre as Catervas lusitanas correu a nova, de que já pisava terras de Hespanha o Consul Caio Vetilio, com tropas frescas e aguerridas; o Senado encarregára-o de reprimir o levantamento provocado pela infamissima traição de Galba, que, deixando-o impune, tacitamente a approvava. Vetilio chegou a Corduba, onde assentára o seu quartel general. Tudo se sabia no campo lusitano, porque não faltavam esculcas e mensageiros, que davam conta dos movimentos do velho Consul.