Viriatho
Capítulo XXIII
Não podia ser indifferente a Viriatho aquella extraordinaria fortificação defensiva do Castro da Colla, do Alemtejo, com suas torres e muralhas do mais inaccessivel alcance. Examinou-a detidamente, medindo-a a passos; e ahi na base do monte, para a parte do sul, em que estavam seis sepulturas de generaes lusitanos, é que mandou erguer as tres estatuas funerarias, por que já andavam esquecidos os nomes dos guerreiros que guardavam.
As estatuas dos dois irmãos Indibilis e Mandonio ficaram a par uma da outra, e diante d'ellas como formando um triangulo, a estatua de Salondico. Na linha d'esta sepultura seguiam-se mais tres moimentos, ignorando-se a quem pertenciam. Disse então Viriatho:
—Cubro-me de vergonha, quando noto que já ninguem se lembra do nome d'esses bravos que ahi jazem, tendo combatido pela nossa terra.
—Temos um pouco esse defeito da ingratidão para os homens que nos engrandecem.—Assim fallára um da trimarkisia; ao que um outro accrescentou:
—Tu mesmo serás um dia esquecido, ou reduzido a personagem de conto de velhas.
—Fica certo, que se alguma cousa se souber de ti, será pelo que memorarem os Annaes romanos.
—Não lucto para ganhar fama! É só por uma ideia.—E Viriatho voltou á sua preoccupação: Mas de quem serão essas tres sepulturas restantes?
—Talvez o saiba Idevor...
E consultado o velho endre, que era um verdadeiro poder moral que pela tradição lusa unificava as almas, elle respondeu com simplicidade promptamente:
—São tres caudilhos lusitanos que sempre combateram pela liberdade da terra; aqui descansa Edescon; esta jazida é de Alucio; a do tôpo cobre a Istolacio.
—Dá-me força o lembrar-me que eu continuo a sua missão.
Viriatho foi em seguida á exploração do Castro Verde, cuja posição estrategica era defendida por sete fortes, um dos quaes era o inconquistavel forte das Juntas, assim chamado pelo povo, por se achar erecto na parte em que as ribeiras confluentes, Odemira e Mariscão se encontram e confundem. Quando Viriatho, para subir a violenta escarpa do forte das Juntas, chegou á margem da ribeira de Odemira, estava alli um magote de lavadeiras com as pernas mettidas na agua esfregando a roupa e cantando.
—É esta a feição da gente lusitana; do trabalho faz uma festa; allivia-se da fadiga com os seus cantares.
E parou um instante a ouvir a
Canção das Lavadeiras
Já os linhos florescem,
Já os dias crescem,
E ainda não apparecem
Os meus amores!
Já as neves descem,
Sem que as guerras cessem;